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Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009
O meu postal de Natal

Se há coisa que detesto na época natalícia é a suposta obrigação de nos lembrarmos de toda a gente. A obrigação de darmos um sinal de amor a todos os que fazem, de algum modo, parte de nós. E há sempre alguém que, com algum azedume aponta o facto de não lhe termos enviado ao menos um postal de Natal, ao menos um SMS, ao menos um Mail. Claro que eu fico sempre sensibilizado pelo acto de receber qualquer uma dessas coisas, mas não as mando a ninguém. Mando este final de um dos filmes da minha vida. Nada de original, como os postais de Natal do Paulo Hasse Paixão (o do ano passado foi, particularmente, de antologia).

 

Obrigado por aqui terem passado. Eu fico no descanso comodista de quem se limita a ver passar as visitas, qual tio-avô entrevado. Se o meu postal de Natal não vai até vós, vindes vós ao meu postal de Natal. Que não é grande coisa. É apenas o final de um filme que não foi realizado por mim. Foi apenas visto por mim vezes de mais. Será que as imagens dos filmes se impregnam, com o tempo, dos olhares que neles se derramaram? Acredito que sim. Cada vez que alguém vê o Casablanca, não acontece apenas a ressurreição da história, da música e dos olhos lacrimosos de Ilsa, mas a ressurreição de todos os olhos e de todos os ânimos. Sentimos plateias a levantarem-se enquanto se canta a Marselhesa. Sentimos donas a chorar o melodrama. Ou talvez não sintamos nada. Mas está lá tudo. Não sei se é aí que reside a diferença entre ver, olhar e reparar. Eu não sei se vejo, se olho, se reparo. Talvez repare. Tem a homonímia de um sinónimo de concertar. Quando reparo em alguma coisa, alguma coisa é reparada na sua quebra e defeito de passar despercebida.

 

Vejam o "Do Céu Caiu uma Estrela" mais uma vez na vossa vida, e, em consideração pela minha pessoa, não digam que é lamechas. Há lamechices que valem a pena. Quando voltar a ver aquelas mesmas imagens desfocadas por corn flakes a imitarem a neve (não se é verdade isso, mas é o que diz o Trivial Pursuit), estarei também a reparar em vós. Feliz Natal.

 

 

publicado por Manuel Anastácio às 08:54
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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
Só para dizer que não morri I

A Gerana que me perdoe, mas, mais que poesia, há literatura nesta belíssima sequência deste filme maior que a vida. Maior, porque reflexo dela.

 

quando a flor morre, a cor deixa de existir

 

ontem vi o "Up" e não chorei

(por fora, pelo menos)

 

fiquei impressionado comigo mesmo.

 

quando a flor morre

 

nasce o fruto

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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
Mails da treta: Envia estae mail a favor da UNICEF. .. 5€por cada email enviado.

Há, definitivamente, pessoas que acreditam no Pai Natal. Já aqui falei uma ou duas vezes de mails que as pessoas enviam umas às outras, em forma de corrente e que são puro engano, logro... e, pior que tudo, fazem-me duvidar da inteligência de quem os manda. Contudo, conhecendo eu bem as pessoas que mos enviam, sei bem que tenho apenas de fazer contas ao peso da sua boa vontade e bondade em relação à desconfiança que essas pessoas poderão ter em relação ao teor desses mails. Porventura pensarão que, provavelmente, aquilo é mentira, mas mais vale passar, sabe-se lá, mal não virá ao mundo por passarem a todos os seus contactos a mensagem que mostra uma criança desaparecida ou outra coisa qualquer semelhante. Ora, o pior é que há mal, sim, em passar certos mails de gente que devia ter vergonha de, simplesmente, existir. Um deles é este, que passo a citar e que, antes do mais, deixo em letras maiúsculas, não vá alguém cair aqui por engano e pensar que estou a dar o meu aval a tal pouca vergonha:

 

NÃO ACREDITEM NO SEGUINTE TEXTO ATÉ À PALAVRA STOP!

 

Envie esta mensagem, ela dará € 10 à Unicef e é gratuita para você ...

Unicef & MSN Kampanyas Yard?m

Acordo de ajuda entre Unicef & MSN

Por favor, antes de deitar fora a comida que tem no seu prato pense nas pessoas que estão morrendo de fome!
 


Em África, existem crianças morrendo de fome. Segundo o acordo firmado entre a UNICEF e o MSN para as crianças falecidas e outras crianças, uma ajuda acaba de começar.

Por cada vez que você enviar esta mensagem aos seus contactos/amigos/colegas/familiares, 5 € serão atribuídos à conta da UNICEF.

Para as nossas crianças em África e as vítimas do tsunami, queira participar, por favor, neste 'Apelo de Amizade'.

Pelo facto de ter recebido este e-mail e o ter reenviado a outra pessoa, já deu 10 Euros a ganhar à Unicef.

Por favor, faça viver essas crianças que estão em risco de morrer. Não nos esqueçamos que a cada segundo, uma criança está em risco de morrer de fome.

Envie este e-mail a todas as pessoas que conhecer... obrigado.

STOP!

A partir de agora pode acreditar:

As pessoas que enviam este género de mail acreditarão, sinceramente, que estão a dar 10 euros à Unicef por estarem a mandar o mail a alguém? Ou seja, se enviarem o mail a 35 contactos (na melhor das hipóteses, terão mais de mil contactos a quem enviarão, cheios de generosidade o mail que conseguiria o que Jesus Cristo não conseguiu com o milagre dos peixes), pensarão, por acaso, que estão a doar, com tamanha facilidade, 350 euros à UNICEF?!!!! Que é ridículo, é... Mas, perdoe-me a pessoa que me enviou o mail, mas isso não só é ridículo, como é CRIMINOSO. Tal falta de bom senso só serve para descredibilizar o bom nome da UNICEF e para descredibilizar o nome de quem me envia tal porcaria.

 

Há muitos elementos que permitem considerar este texto uma fraude. Em primeiro lugar, está muito mal escrito. Depois, um texto aprovado pela UNICEF não mostraria, de forma escatolográfica, porque pornográfica não é adequado: pornografia é a exposição gráfica do "pornos", do "amor" ou, pelo menos, do "prazer", enquanto que neste caso o que se mostra é a indignidade do ser humano, no extremo da sua mais abjecta culpa. A imagem que, a custo, aqui coloquei, apenas porque faz parte desta vergonha em forma de mail, é indigna porque alguém anda a fazer negócio com o sofrimento REAL que ali está retratado. Quem envia este mail a outras pessoas está de tal forma insensibilizado e rombo nos sentimentos que nem sequer pensa no que está a ver! É-me impossível conceber que alguém acredite que, existindo crianças a morrer de fome naquelas condições, consiga doar mais de cem euros (dez euros já seria uma fortuna, meus amigos) só por mandar a porcaria, a MERDA de um mail que tresanda a pouca vergonha na cara.

Eu nem sequer deveria dar-me ao trabalho de explicar que estes mails servem apenas para algumas empresas CRIMINOSAS arrebanharem mails de toda e mais e alguma gente para enviarem os seus mails de SPAM a vender Viagra e Cialis! Não deveria, mas tenho de o fazer, já que há pessoas que nem sequer têm o bom senso de reflectirem  sobre o que estão a fazer quando enviam uma mensagem de mail a outra pessoa. Eu digo-vos o que estão a fazer: estão a DIZER algo a outra pessoa. Talvez não dêem muita importância ao acto de DIZER. Pois eu digo-vos que DIZER é FALAR, é COMUNICAR, é LIGAREM-SE A OUTROS SERES HUMANOS. Nestes momentos, sinto-me como os Lacedemónios que se recusaram a ajudar os náufragos que, chegando à sua terra apenas disseram "Ajudem-nos", com o pretexto de que tinham falado de mais, já que o seu aspecto miserável já, só por si, servia para indicar que necessitavam de ajuda. Convém pesar as palavras. Usem-nas nos poemas com toda a liberalidade, gastem-nas. Mas não as prostituam. Ao enviarem um mail, usando o nome de uma Instituição que trabalha pelo bem, ao menos, investiguem por meia dúzia de segundos (já ouviram falar do Google???) se aquilo que estão a fazer corresponde à verdade. Mandar um mail usando o nome de uma Instituição que nos merece todo o respeito merece esses segundos de crítica e de bom senso. Ao enviarem aquela estrumeira a outras pessoas estão a enfileirar com aqueles que usam o bem para fazer o mal. Estão a alimentar monstros que, se são capazes de lucrar com a imagem do extremo sofrimento de uma criança coberta de moscas é porque são capazes de fazer o mesmo a muitas mais. POR FAVOR: PENSEM ANTES DE MANDAR O QUER QUE SEJA A ALGUÉM. Não julguem que do vosso acto não virá mal ao mundo. Um mal virá, pelo menos: o mal de as pessoas à vossa volta se tornarem ainda mais insensíveis às palavras e, à conta disso, tornarem-se ainda mais insensíveis para com o sofrimento dos outros. Parem. Simplesmente, parem. Parem, parem! Tenham vergonha na cara.

Ainda me dei ao trabalho de pedir umas palavrinhas à própria Unicef. Transmito-as. Estas sim, vale a pena ler:

Através de um doador, recebemos o mesmo e-mail que nos deixou bastante incomodados, pois nada tem a ver com a UNICEF.

Lamentamos o abuso por parte de pessoas sem escrúpulos que se servem de imagens terríveis de crianças e usam indevidamente o nome da UNICEF para fins que desconhecemos.  

Agradecendo o seu alerta, enviamos os melhores cumprimentos.

 

 

Carmen Serejo

Assistente da Direcção

 

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Boa noite. E durmam bem. Se conseguirem.

publicado por Manuel Anastácio às 21:19
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
Mote 2

 

 

Como necrópole, esta rua. Este muro.

Esta janela. Este crepúsculo.

Névoa, geada. Translúcidos recortes de renda e sombras sobre a cortina.

Sozinha, em horizontal  e funérea neblina,

Em casa débil e desprotegida, escondida,

Em leve mortalha nupcial, de musselina.

Duas casas para a frente, uma ao lado… três.

Ou o contrário. A tua vez.

Por desistência do adversário

Nada se mexe no jogo de xadrez.

Não se ergue o cavaleiro do cavalo derrubado.

O bispo é comandado pelo silêncio das torres sem ameias,

Alheias ao satânico e civil engano tumular. Insignificado.

À menina, a que os mortos devoram, através das teias,

Cada trémulo sinal de luz no seu olhar,

Vai morrendo o ar no peito,

Vendo, tremendo, o ar. Necrópole de granito.

Cidade de flores onde empalidece, aflito, o luar.

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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
Dos políticos como alvos alvos, ou como o Caim não é obra para as unhas do Saramago, mas já era para as minhas (acho que sou melhor que ele - ou Ele? - em Teologia )

A imagem de Berlusconi com a cara esfrangalhada não é uma bela imagem. Ainda mais porque não sabemos ao certo qual a razão que levou aquele pobre alienado a partir-lhe os dentes. Faz parte do desenvolvimento moral de cada indivíduo relacionar a acção com a intenção. Se alguém atira com um sapato à cara do Bush, todos, ou quase todos, aplaudimos a acção por causa da inequívoca intenção (o mesmo não se passa com Berlusconi, onde as intenções podem ir das mais justas à pura e rasteira inveja). Em vez de um sapato bem poderia ser algo mais denso. Um buraco negro seria bom, se não engolisse no próprio instante todo o sistema solar… atirar-lhe o Titanic, também não, até porque todo o gasto de energia associado ao feito só viria a contribuir de forma desmesurada para o efeito de estufa. Há que procurar sempre um meio eficaz, mas que seja, simultaneamente, eficiente. Este problema da eficiência e da eficácia foi um dia exemplificado por uma professora minha que dizia que matar uma mosca com uma caçadeira era eficaz, mas não era eficiente. Tenho as minhas dúvidas. Com dispersão dos pedacinhos de chumbo, só com muita sorte é que um deles esborracharia a mosca. Se, num alvo alvo (não, não repeti a palavra, não é uma gralha: um alvo alvo é um alvo em branco, uma coisa impoluta e aberta a todas as possibilidades físicas e metafísicas, à espera de que a ordem natural das coisas a impregne com pontinhos – sejam eles cagadelas de mosca, sejam impressões de fotões, electrões, bigodes de gato ou uma sequência cinematográfica pensada pelo Stanley Kubrick) dispararmos um cartucho de caçadeira, ficamos com uma nuvem semelhante àquela de que se expõe quando aprendemos a história da evolução das representações mentais dos átomos, desde os bolos de passas às nuvens de mosquitos. Uma mosca, frente a um disparo de caçadeira tem toda a probabilidade de escapar ilesa porque o espaço livre e desimpedido do trajecto dos pedaços de chumbo é, de longe (e quanto mais longe melhor), maior que a percentagem de área intersectada pela morte certa. Eventualmente, ficará com uma atena ou uma pata a menos. Nada que interfira com o seu funcional propósito de vida, até porque as moscas têm patas a mais. Já o dizia Aristóteles que fixou em quatro o número das ditas cujas, pensando que as mesmas (as moscas) eram mamíferos pequeninos, em vez de insectos nojentos dispersores de protozoários, vírus e bicharada afim que, tendo patas, tê-las-á em maior quantidade ainda – ou não as terão, a não ser em forma pseudo. Qualquer político, bonzinho ou mauzinho, é um alvo alvo de experimentação científica. Os cidadãos são ciclotrões. Ou outra coisa qualquer que emite, de vez em quando, uma coisa minúscula que tanto pode matar como acariciar. A coisa minúscula, na melhor das hipóteses, pode ser uma opinião. Talvez Berlusconi tenha tido um clarão de sensatez na vida, ao ver a sua carinha laroca de sedutor de menores feita em empada de lebre caçada a pneu, e tenha chegado à conclusão que mais vale um texto ou um filme a atingi-lo que o objecto contundente que nele acertou, não em cheio, mas um pouco ao lado – de forma suficiente a estragar-lhe, provavelmente, o charme natural , ou artificial, é indiferente, da corrupção. As palavras incomodam ao longo a vida. Sentimo-las a martelarem constantemente. Quem tem sapiens no segundo nome da espécie biológica e já viveu o suficiente para ter memória, sabe bem o que é acordar a meio da noite com a frase corrosiva de quem nos marcou com o ferro em brasa da humilhação verbal, mesmo que esse alguém já nem se lembre ou aposte que ainda existimos. Faz parte da nossa condição trazermos às costas as palavras de quem nos arrancou  lágrimas. Ainda mais quando essas  lágrimas eram justas. Assim foi com Santa Mónica que a santa chegou à conta da escrava, ou criada (ou tanto faz do ponto de vista social) que a chamou de bêbeda porque a via amiga de molhar os lábios……………………………………………………………………………………………………………...................

...................................................................................................................................

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Chegado a uma parte mais avançada deste texto, o meu computador decidiu desligar-se e grande parte do que tinha escrito foi à vida. Fique aqui um espaço em branco, como nos textos dos pré-socráticos. Imagine-se, pois, o que este reles escritor poderia dizer mais sobre a cara desfeita de Berlusconi. Uma coisa digo: não era, com certeza, uma palavra de apoio ao agressor. Não por ser politicamente correcto. Apenas porque a “coisa Berlusconi” não é o próprio Berlusconi. Há uma face (que nem sequer é oculta) que merecia ser esmurrada até à falta de dentição… mas tal face não é feita de carne nem maxilares.  A coisa Berlusconi está, provavelmente, metida, entranhada, na nossa própria cara. Até porque se há berluscónis (com acento: em língua portuguesa, são acentuadas as palavras graves terminadas com i, com ou sem s a seguir – e não vale dizer que berluscóni é palavra estrangeira, porque só o é se for nome próprio, no caso de ser nome comum passa a pertencer à odorífera e letal flor do Lácio), até porque se há berluscónis neste mundo, dizia eu, não convém esquecer que foram milhões de berluconizinhos que o fizeram com uma nuvem de electrões chamada sufrágio universal. Um fenómeno cósmico. Quântico. Que prova que o Inteligent Design é uma treta. Deus até pode existir. Mas a perfeição do mundo criado só pode testemunhar  a favor dele se for para provar que Ele é inimputável. Por insanidade mental. Note-se disto que nada tenho contra Deus, insano ou não. Se eu, humano, o sou, quem sou eu para imputar como pior que eu Aquele a quem não conheço? É nisso que Saramago falha… Dessem-me um ponto de apoio… e levantaria muita coisa. Não interessa o quê agora. Talvez tenha algo a ver com o pensamento pré-socrático. Ou talvez seja pós. Ou, talvez, seja melhor sonhar apenas que sou eu que estou a atirar com um objecto manuseável à face exposta (bastava-me essa) das lombrigas que se retorcem na cloaca do poder…

 

 

Dessem-me, apenas, um bocadito de papel. Higiénico. O pior é que já o tenho. E uso-o pouco. Falo por metáforas, claro. Não vá algum berluscóni de bairro dizer que sou caga-fetos. Palavra esta (caga-fetos) para futura-e-eternamente-adiada-crónica. É: crónica fica melhor que post ou que artigo. Crónica. Nem que seja de dez arrotos de postas de peixe-gato do Vietnam, com vestígios de agente laranja.

publicado por Manuel Anastácio às 22:07
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Domingo, 13 de Dezembro de 2009
São Gualter de Guimarães: da Fonte Santa à Santidade

São Gualter de Guimarães, Livro dos Estatutos da Irmandade de São Gualter de 1777.

 

Cristina Célia Fernandes, Vimaranense de origem (ao contrário da minha pessoa, que aqui caiu de pára-quedas),  tem um Mestrado em História e Cultura Medievais, área onde já publicou diversos trabalhos de investigação, como a Transcrição dos Milagres de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães, Apógrafo de 1351, A.N.T.T., de Afonso Peres, na Revista
de Guimarães, O Livro dos Milagres de Nossa Senhora da Real Colegiada de Guimarães com edição crítica do apógrafo de 1351, da Opera Omnia Edições; A Bandeira da Irmandade de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães – Breve Historial, Revista Caixeiros e o Comércio; O Milagre de Carlos de Nápoles (Acrescento de 1655 ao apógrafo de 1645 do Livro dos Milagres de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães), na Revista Nova Et Vetera (Junho de 2007); O Culto de Nossa Senhora na Idade Média: Estudo comparativo de algumas das Cantigas de Santa Maria de Afonso X, O Sábio, e o Livro
de Milagres de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães, além de um livro de literatura infanto-juvenil de que aqui já falei: A Batalha dasEsferas Celestes, Papiro Editora, 2007.

 

Com a descoberta das relíquias de São Gualter, de que tive a honra de aqui mostrar, quase em primeira mão, as fotografias que a Célia, com grande presteza e generosidade me concedeu, deitei os olhos a outra das suas obras de investigação (e reflexão) histórica: "São Gualter de Guimarães: da Fonte Santa à Santidade". São Gualter - que não se lê Guálter, mas Gualtér (à boa moda de Guimarães) - foi enviado de São Francisco, juntamente com Frei Zacarias, que se estabeleceu em Alenquer, para evangelizarem a lusa terra de já supostos cristãos. Trazia consigo aquela dor e humildade seráfica que abraçava a podridão para alcançar nesses abraços o espírito puro e elevado da humanidade que se destila na compaixão. Fixou-se, em primeiro lugar, nas vertentes da Serra de Santa Catarina (hoje em dia, conhecida apenas como Penha), num local onde uma fonte ainda marca a memória do homem que, junto a ela, lavava as chagas e a corrupção dos corpos que procuravam, nas suas mãos de médico e compaixão amorosa, a purificação da doença do corpo, que das doenças da alma, não rezam os milagres. Pouco se sabe da vida deste frade, talvez italiano, talvez francês, que é representado com um túmulo numa das mãos e com um livro aberto na outra. A Célia aprofunda de forma competente e iluminada a simbologia destes atributos icónicos. São Gualter faz parte daqueles santos que, em terras lusas, tomam a sua santidade não a partir do exemplo da sua vida (que terá sido particularmente virtuosa, mas sem que se saibam pormenores muito esclarecedores), mas enquanto exemplo, místico, de um símbolo que concede uma identidade sagrada a um espaço geográfico que, tendo em vista a imposição de uma ordem social, centra nesse espaço o móvel umbigo do mundo. É arquetípica esta vontade de centrar o espaço limitado onde se vive no centro do Universo. Foi assim com o Geocentrismo, é assim com todos os santinhos e nossas senhoras que pontuam o espaço geográfico com aparições umbilicares da imagem materna. Nada há de mais religioso no nosso corpo que o umbigo. Ora, Guimarães, berço mítico da Nação Portuguesa (tirem-nos à vontade os factos, que jamais nos tirarão o Mito, esse Nada que é Tudo) tem em São Gualter, revela-me a Célia neste livro, o contraponto masculino do cordão umbilical sagrado que já ligava Guimarães à Jerusalém Celestial através de Nossa Senhora da Oliveira, cujo peso histórico, hoje esbatido pela alvura alienígea da Nossa Senhora de Fátima, é incomensurável do ponto de vista simbólico, ainda que, tal como a moderna Senhora do século XX, se ligue ao elemento vegetal. Entre o azeite iluminador das candeias e as bolotas das azinheiras deitadas aos porcos, o povo foi fazendo a sua escolha. Mas se Nossa Senhora da Oliveira era, em termos de devoção mariana, o luso umbigo, ou o carimbo certificador da autenticidade cristã desta terra, São Gualter tornou-se o umbigo que liga ao outro extremo da vida. A virgem liga ao nascer, Gualter liga ao renascer. E o umbigo, cicatriz que atesta a separação, é, no seu caso, o túmulo. Quando morreu Gualter, junto ao seu túmulo e junto à fonte, sucederam-se os milagres: cinquenta e dois ao todo (número umbilical também, como revela a Célia: número do centro e do regresso à unidade - o cinquenta - somado ao número dois de óbvias significações). Tolhidos, surdos, quebrados, passando por aquela mulher que, de Braga, pediu a saúde ou a morte ao filho paralítico que levou numa canastra até à fonte onde o santo teria lavado a túnica, e que, em angústias de alma, transcreve a Célia a partir da  História Seráfica dos Frades Menores na
Província de Portugal, de Frei Manoel da Esperança, teria rogado em novena: "Glorioso São Gualter, ou me dai saúde a este filho, ou lhe dai logo a morte, pois sabeis que por minha pobreza não o posso sustentar." E Frei Manoel da Esperança, sinestesicamente inspirado, logo faz o santo ouvir as lágrimas, fazendo o rapaz saltar da canastra. Um pouco mais impressionante é a descrição e cura daqueloutro menino de dois anos, que nascera com os pés pegados às costas e com as mãos retorcidas e fechadas, dentro das quais criava bichos. Milagre não será o caso de castigo divino, contado no mesmo documento, acontecido a um tal de António Rodrigues, da vila de Esposende que troçou das mulheres que carregadas vinham de Guimarães com a água milagreira com que curavam febres ardentes e remediavam acidentes, de outro modo mortais, como assevera Frei Manoel. Calhou a este homem de Esposende fazer um comentário, a meu ver muito judicioso, sobre a devoção aquática das mulheres de Esposende: há de, porventura, essa água levar-vos ao céu? Pergunta muito cristã e cheia de significado moral quando transcrita mas que lá terá tido a sua intenção malévola, logo castigada de pouco sobrenatural maneira quando outro grunho que o acompanhava o atirou ao chão, quebrando-lhe uma perna ("Mas logo foi castigado, porque, outro com quem andaua brincando, o lançou no chão, & lhe quebrou hua perna." - não se chega a entender se o agressor de António Rodrigues, "com quem andava brincando", era alvo da sua brincadeira ou dela conivente), curando-se poucos dias depois, ao conhecer a culpa do seu cepticismo e por valimento do mesmo santo, em honra do qual se instituiram as mais importantes festas da cidada, as Gualterianas.

 

Gualterianas de 1950.

 

A riqueza documental deste livro, como é costume nas obras de investigação da Célia, estende-se, não só pelas páginas de antanho por ela esmiuçadas (palavra ingrata, hoje em dia), mas também pelo acervo fotográfico onde a memória de Guimarães se plasma entre a religiosidade e o apego à terra, como terei ocasião, porventura, de falar, em breve (são longos, os meus "em breves") a respeito de outra obra essencial da Célia.

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publicado por Manuel Anastácio às 08:47
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