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Domingo, 30 de Agosto de 2009
A Promessa, de Bernardo Santareno

Cena de "Ordet" de Carl Theodor Dreyer.

 

"A Promessa", de Bernardo Santareno foi representada pela primeira vez a 23 de Novembro de 1957 no Teatro Sá da Bandeira, no Porto e reposta a 11 de Maio de 1967 no Teatro Monumental de Lisboa. Foi objecto de uma adaptação ao cinema por António de Macedo em 1973. Tudo antes do 25 de Abril de 74. Profundamente influenciada pelo neo-realismo e pela obra de Lorca, esta peça já traz em si o essencial do que caracterizará a maior parte da sua obra e utiliza como cenário o meio tradicional dos pescadores portugueses. "Ambiente que resuma os usos e os credos dos pescadores portugueses: não apenas os duma certa região (Nazaré ou Póvoa de Varzim, por exemplo)", diz-se no texto, logo no início, embora depois existam elementos ao longo da obra que identifiquem o lugar com a Nazaré.

 

Quando, no último artigo, dizia que Santareno cantava uma Dite despojada de criaturas mitológicas talvez falhasse um pouco a verdade poética dos seus textos. De facto, ainda que o espaço psicológico seja, essencialmente, infernal, a mitologia pagã está presente de uma forma semelhante à da tragédia grega. Na tragédia clássica, o mito era reiventado e reescrito pelos dramaturgos, não de uma forma apenas interpretativa, mas também religiosa. As várias versões da Medeia, por exemplo, não estabeleciam entre si conflitos de ordem de legitimidade. Não existia uma Medeia mais verdadeira que outra, ainda que cada dramaturgo a descrevesse em diferentes motivos narrativos e de acordo com diferentes percepções quanto às suas acções e motivações psicológicas. Assim é o escopo trágico na obra de Santareno, já em "A Promessa", e que se irá repetir em outras obras. O fundo é o misticismo cristão popular português, repleto de ânsias pagãs. A acção desenrola-se em torno de uma promessa feita por um jovem casal de prometidos, para que o pai do noivo se salve numa tempestade marítima. Promete-se a castidade, ao jeito de São Julião, Mártir, e Basilissa, santos, aliás, relacionados com o imaginário religioso marítimo, como acontece na Ermida de São Julião, na Carvoeira, Ericeira, onde restam, aliás, profundos mistérios gravados na pedra da religiosidade popular a que pretendo um dia dedicar algumas palavras. A castidade forçada, contra a natureza dos corpos de José e Maria do Mar, é a força motriz do drama que desencadeará o conflito onde a honra e a dignidade irromperão através de um desfecho violento, e onde o sacrilégio toma, em si mesmo, a mais profunda sacralidade. Não é só aqui que Santareno irá propor a heterodoxa rebelião contra a vassalagem divina de modo a estabelecer uma outra ordem, íntima, mais próxima de um Deus cruel que vive na autenticidade do mais escuro das almas dos protagonistas. Rebelião trágica que nem sempre (ou quase nunca) se poderá confundir com uma ordem moral que legitime as acções dos protagonistas, movidos mais pelo desejo que pelo Amor que tende à paz. O Amor divino, em Santareno, conduz à perdição absoluta. O absurdo da dignidade conquistada pelos meios mais indignos revela um desespero para o qual não é proposta outra saída que não seja aceitar o mergulho no abismo da própria alma.

 

Kátia Borges, num dos poemas do seu livro de estreia, e de que aqui falei recentemente, diz a certa altura: "Minha avó era cega. / Dela herdei a capacidade de ver sem usar os olhos.". É este um dos motivos mais presentes na literatura ocidental (e, quiçá, mundial): a da clarividência daqueles que estão privados do sentido que apercebe o que é dado pela luz. O cego, vivendo em escuridão, não é confundido pela prolixidade dos cenários apercebidos. O cego apercebe-se do essencial e descortina na intuição a realidade das coisas suspensas. Na personagem de Jesus, desta obra de Bernardo Santareno, permanece esta figura arquétipa do profeta cego e clarividente, a que se acrescenta a ingenuidade infantil e maravilhada pelos mundos a que não tem acesso (a terra das serpentes e das víboras) e a loucura religiosa de quem tem acesso ao que os outros não vêm nem compreendem, porque utilizam outra linguagem e porque se movem noutro contexto, noutro universo, que apenas se intersecta na compaixão pela dor dos outros.

 

A dor que, sabe-o todo o escritor, é o objecto da comunhão antropófaga do acto religioso e eucarístico de contar uma história.

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Sábado, 29 de Agosto de 2009
Bernardo Santareno

O mar de gelo, de Caspar David Friedrich

 

Escrevia eu sobre flores e luxúria, já pensando na obra de Bernardo Santareno, e respondia a Maria Helena ao artigo lembrando, a propósito, que pureza e luxúria não são (ou não deveriam ser?) antagónicas. Vi que a sua citação do profeta Ezequiel bem poderia comungar do espírito que se move insidiosamente entre as personagens trágicas e profundamente religiosas deste autor maior da nossa literatura que agora evoco, 29 anos depois de o absoluto o ter tomado nas suas mãos. Graças às palavras trocadas com a Maria Helena, em decorrência do que aqui foi dito sobre o Senhor Palomar e sobre a sua compartilhada veneração pela obra de António Martinho do Rosário, voltei a pegar na obra de Santareno e, esperando inaugurar um ciclo de artigos dedicados à obra de Santareno, deixei-me, de novo,  afundar nos meandros obscuros daquelas luas sangrentas rasgadas por mastros, como navalhas abertas que se erguem do mais fundo do desejo e das profundezas. Se os loucos profetas bíblicos, de Ezequiel a João Evangelista, cantaram a luxúria da luz da Jerusalém celeste, Bernardo Santareno cantou a luxúria da escuridão de uma Dite despojada de figuras mitológicas. Ao ler as crónicas de "Nos Mares do Fim do Mundo" de que disponho apenas algumas, escolhidas, numa versão incompleta editada por altura da Expo 98, perdi por completo a noção do tempo, engolido pelas palavras rudes que, como facas, me feriam os olhos. Não tinha lido ainda aquela dedicatória que a Maria Helena me enviou e que não conseguiria agora deixar de lado:

«ao Manuel Caetano, a quem chamam Ti' Fausto, que há mais de quarenta anos labuta por bancos da Terra Nova e da Gronelândia; que viu morrer afogado o próprio pai, nestes mares do fim do mundo, e nunca mais pôde esquecer; que tem três filhos como três mastros, já homens, já pescadores daquelas águas onde o dia nunca acaba e o sol brilha no meio da noite.

ao Zé Ramalhete e ao Louvado, que são fortes, valentes, humildes e maravilhosamente simples.

ao Ângelo Mateus e ao Mano Poeira, que ensandeceram no mar.

àquele «Verde» (dezassete ou dezoite anos!) do «Gazela», que uma madrugada se perdeu no oceano e, durante cinco dias e cinco noites, sofreu a agonia de mil mortes, sòzinho no seu Dóri sobre o «Mar Terrible», sendo enfim salvo por milagre de Deus.

à memória do Armando Afonso, que era de Âncora, e do Zé Pinto, que foi contramestre do lugre «D. Dinis», cujos corpos, afogados na flor da ida, dormem no fundo do mar e cujas almas - quem, tripulante de veleiro ou de arrastão, as não ouviu já? - choram nos ventos gelados.

a todos os pescadores bacalhoeiros portugueses,

      que têm o riso claro e feroz,

      que sempre ocultam nos olhos um aceno de morte,

      que todos os dias, naturalmente, fazem milagres de força,

      que, se a pesca adrega de ser boa, cantam e bailam sozinhos, como os meninos e os loucos...

      que são tipos perfeitos da raça.»

Há nesta dedicatória um manifesto, uma intenção cumprida de arrancar momentaneamente das trevas aquelas dores complexas, loucas e infantis de quem enfrenta o absoluto e a inexorabilidade do abismo como quem brinca com o fogo sabendo que nele será consumido. É nos simples e nos loucos que a verdade infernal da alma melhor vem à tona, mesmo, ou especialmente, quando amam. Talvez resida aí a bem-aventurança dos pobres de espírito, mais perto de Deus porque entre o seu corpo constantemente ferido, macerado e estilhaçado pelo crescimento das raízes de um desejo sem peias, e a crueldade divina, nada mais há senão a identificação e processão da força.

 

Há na escrita de Bernardo Santareno, entre as suas personagens de um Portugal datado e circunscrito no tempo, entre acessórios de museu rural e gestos já perdidos, e mesmo entre algumas formas poéticas e discursivas entretanto caídas em desuso, a intemporalidade e universalidade do diálogo tácito e surdo entre Deus e o Homem e da ânsia em pertencer aos dois através da renúncia. Deus é, aqui, a consumação do Desejo, e o Homem, a confirmação da Honra e da Dignidade. Confirmação sempre. A tragédia e a miséria são apenas os escolhos onde a força interior embate, galgando-os como onda que se dissipa em névoa. Enquanto o pano desce rápido.

 

publicado por Manuel Anastácio às 00:00
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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
Professor Anastácio, especializado em esconjuros de mau olhado e outras mazelas e feitiços de maldade. Consultas grátis.

Chega-me a notícia de que tenho poderes sobrenaturais ou, pelo menos, não acreditando muito nessas coisas, pareço ser tão bom como o professor Makumba ou outro qualquer do género. Um senhor da minha terra (o Simão do cabeço da Igreja) chegou aos meus pais, perguntando a meia aldeia quem era um tal de Manuel Anastácio de lá, e que escrevia na Internet. Entrou no meu blogue à procura de rezas contra o quebranto. Achou uma. Leu-a em conjunto com a família e, no fim, enquanto se sentiam libertos do peso malsão que sobre eles pairava, o candeeiro suspenso na sala onde estavam caiu estrondosamente no chão.

 

Se é mentira, não fui eu quem inventou.

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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
As flores como símbolo sexual

Lírios-do-vale e rosas amarelas, em "A Idade da Inocência", de Martin Scorcese.

 

Não cheguei a referir por aqui a volta da mais bela criação blogosférica portuguesa que é, sem dúvida, o "Dias com árvores". Foi lá que encontrei esta lindíssima citação de Lineu a respeito das flores ou, mais especificamente, a respeito de um dos seus acessórios de sedução: "as actuais pétalas de uma flor em nada contribuem para a sua geração, servindo apenas como tálamo nupcial que o Grande Criador tão gloriosamente preparou, adornado com cortinados de grande preciosidade e perfumes de muitas suaves fragrâncias, de modo a permitir ao noivo e à noiva celebrar aí as suas núpcias com a maior solenidade". Solenidade é palavra que pouco diria a uma flor se usasse o nosso vocabulário; nada há de solene numa flor, a não ser que a linguagem do desejo, liberta no abandono dos sentidos a si mesmos, seja em si mesmo solenidade. É certo que Lineu falava de solenidade porque sempre pareceria mais legítimo e moral que falar da pura luxúria hormonal que uma flor encerra nas suas pétalas que, mais que órgãos de protecção, são, geralmente, insidiosos convites à penetração orgíaca dos insectos que nelas realizam, insuspeitadamente, a tarefa de cumprir a ânsia de existir e se prolongar que caracteriza a vida. As flores sempre foram motivo de celebração do sexo e, mesmo, da negação do mesmo. É assim que o lírio branco envergado pelo Arcanjo Gabriel rivaliza com a branca açucena na mão de São José ou com as hipócritas florzinhas de laranjeira com que se disfarçam os desejos já consumados de muitas noivas. É óbvia a contradição, esta de se representar a virgindade com flores quando estas são apenas símbolos da mais descarada voluptuosidade. Claro que a rosa é já, não um símbolo de feminilidade, mas um símbolo de reverência para com o sexo feminino. Reverência essa que pode bem variar do mais extremado e lúbrico apetite à platónica satisfação de uma ascesce celibatária ou, quiçá, temerosa misoginia - é aí que entra a castradora imagem da rosa mística que não mais é que a negação da mulher ao seu próprio sexo para se submeter à insuficiência de uma certa ideia de masculinidade enformada pela religião. Em "A Idade da Inocência", Edith Wharton contrapõe aos lírios-do-vale, mensageiros de um regresso inevitável e natural, como a Primavera, oferecidos pelo protagonista à sua prometida, as rosas amarelas oferecidas à Condessa Olenska, personificação de uma atracção fatal e escandalosa. Rosas amarelas que simbolizam sempre algo de doentio, seja o ciúme, seja o amor que se esmorece, seja a traição ou o abandono. Mas se me lembrei de falar disto, foi por causa de um recente texto onde uma pila bem falante e prolífica bloguista se recusa a aceitar o adjectivo murcho, dizendo que quem murcha são as rosas... Ora, estando esta pila específica entre as rosas da coluna à direita, pensei em fazer uma nova subdivisão nas minhas categorias de blogues, onde a incluiria entre flores mais erectas. Há algo disso nos gladíolos, mas são flores demasiado emproadas e avessas a qualquer aproximação. Erecção por erecção, que seja a das flores do verde pinho, ou os duros aloendros da imagética erótica da Natália Correia. Mas não. Fica ali, entre os odores púbicos das rosas. Porque não há flor mais versátil no simbolismo que a rosa. Do mais extremado e lúbrico apetite à platónica satisfação de uma ascesce celibatária ou, quiçá, temerosa misoginia. Já o tinha dito.

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publicado por Manuel Anastácio às 15:24
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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
De Volta à Caixa de Abelhas, de Kátia Borges

É uma dívida relativamente antiga, esta de falar do livro "De Volta à Caixa de Abelhas" de Kátia Borges, Madame K. E que agora, só em parte, pago. O livro chegou-me às mãos pelas mãos da Gerana que é, também, a autora de um comentário introdutório. Não sei se é, ou não, um prefácio - esse talvez caiba às boas vindas literárias da badana, escritas extraordinariamente por Aleilton Fonseca. Gerana abre o livro com o seu comentário a que chamou "Dentro do peito", e onde relembra, muito a propósito, que recordar vem de cordis, vem do coração. E este livro, sendo um livro de estreia, de uma jovem poeta, traz em si a contradição de carregar consigo, num jovem peito ainda feito de esperança e dúvidas, recordações que se afixam como num álbum onde restam folhas vazias de caixilhos vagos, semelhantes a alvéolos de cera abandonados pelas formas larvares da infância, à espera de serem preenchidos. É um livro de recordações, não é um livro de memórias. A exposição da memória, como o fez Proust, ainda que seja similar ao processo usado por Kátia é a procura do vivido enquanto decurso completo e finito, a partir de um quadro contínuo, sem interrupções, onde tudo se funde, até o contraditório. Katia, porém, utiliza as recordações como unidades discretas a que só um trabalho posterior de reflexão poderá dar total congruência. Nestes poemas, é mais valorizado o vazio que a substância, não por vacuidade do discurso nem por tentação niilista, mas porque o vazio repousa no coração como ânsia de existir, seja evocando imagens do passado, seja projectando o desejo de ver e sentir no futuro. A epígrafe do livro cita, do poema "The Arrival of the Bee Box", de Sylvia Plath, os versos "I wonder if they would forget me / If I just undid the locks and stood back and turned into a tree". Mas, curiosamente, não cita o último e revelador verso desse mesmo poema (The box is only temporary.), bem como não faz referência ao título do poema que inspirou o próprio título da sua obra que, sendo obra inaugural, começa com um regresso, enquanto que o poema de Plath, prenunciador de um fim, fala de uma chegada. O que existe de desespero em Plath, zune de esperança nos poemas de Kátia. No primeiro poema, "O sorriso do gato de Aice", Kátia começa por traçar, em forma de esboço, as linhas principais de uma geografia de ausências reticuladas que se interpõe entre ela e o ouvinte, o leitor. Aleilton Fonseca adverte que em Kátia, a poesia não é confissão. Não é. Mas logo este poema se estende como superfície de fronteira entre a nossa e a realidade de Kátia, como painel em crivo que separa orador e ouvinte. As palavras de Kátia não nos pretendem esclarecer, mas estender sob os nossos olhos uma paisagem a que somos alheios e a que ela mesma se arrancou. São Paulo é evocada como lugar que a ausência transforma em mito pessoal, em explicação íntima onde nem sempre se encontra significado. "São Paulo é o depois do espelho. / São Paulo é o depois do medo / de ser o que eu sempre quis." O gato de Alice, figura esfíngica, é também o monstro que nos remete para as questões essenciais. De onde vimos, para onde vamos. Quem somos. Ao sentir o calor de outras paragem, é no café com licor na Paulista que a sensação do vivido se projecta e modifica, como objecto de desejo e afecto apartado de nós pelo medo de qualquer transformação que nos quebra a integridade. E relembro que nestes poemas, de forma quântica, as recordações são pedaços discretos que, à partida, não se confundem com um plano maior ou um sentido da vida mais ou menos entrevisto. O café na Paulista é servido como uma madalena de Proust que funciona de forma inversa: uma sensação maior, presente, afunila-se no tempo poético e identifica-se com pequenos marcos e imagens que se servem de pontos de referência na paisagem mental do passado e da saudade que nos define enquanto decurso. Esta inversão é, no fundo, a essência da poesia lírica, sempre incompleta e analítica, especialmente quando aspira à suprema síntese da pequena forma poética, como é brilhantemente exposto no poema "Não gosto de acrósticos e dedicatórias" onde acena, a um eu supostamente desavindo com a ternura, com as palavras "Sou poesia. E se pouca, me conformo. / Melhor ser um haicai que uma Ilíada". A poética da ausência pode, contudo, seguir por outros sentidos, e é isso que Kátia faz, logo no seu segundo poema, "Exílio", onde sensações concretas e mínimas, remetem para a saudade de toda uma pátria perdida ou nunca ganha (ao jeito de Camilo Pessanha), e para o desejo de uma História que confira peso aos segundos falhos de uma identidade que exige a luz e o calor que só a consumação de florestas imensas poderia satisfazer.

 

publicado por Manuel Anastácio às 15:59
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Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
Palomar, ainda

Estava eu a acabar de ler "O Cavaleiro Inexistente", depois de ter lido o "Barão Trepador" ("O Barão nas árvores", no Brasil, onde "Barão Trepador" deverá fazer lembrar um romance pornográfico), tudo do Italo Calvino, e já o Senhor Palomar se recomendava a si mesmo (ou não) pela mão deste mesmo escritor. Feita a recomendação, e já o Helder Beja (pessoa de quem já aqui falei há uma porrada de tempo, por altura do seu primeiro trabalho jornalístico de fundo sobre a Wikipédia, no "Público", e que já foi identificado como sendo o Senhor Palomar - não sei por quem, perdi qualquer coisa pelo caminho), e já o Helder Beja, dizia eu, pretendia empurrar o Senhor para a linha de costa portuguesa. É irrelevante isso. Palomar, do seu posto solitário e insociável, está sempre frente ao mar, mesmo que encerrado entre calhaus. Os fractais que se recortam no perfil de uma onda não são muito diferentes dos que esculpem a superfície de um bloco de granito ou uma falha de xisto. Relevante é ler, sem dúvida, o Palomar de Calvino que, envergando a nova capa da nova edição da Teorema, ainda não chegou a nenhuma das Bertrands do Minho, segundo me informou uma menina em Viana do Castelo onde, em pré Agonia, a cidade se cobria de fumo de incêndios, enquanto eu tentava ler as ondas rasas que amanhã receberão a imagem de uma senhora indiferente à ostentação minhota de fés em filigrana dourada. Pena, que eu queria ser o primeiro a oferecer em jpeg a capa desta edição ao senhor Palomar. Estava eu a pensar nisso, e sobre essas irrelevâncias da silly season que, como reflexos superficiais na água do mar, pouco revelam mas despertam em nós o sorriso que as profundezas apagam, quando descubro, de forma insuspeita e algo, para mim, comprometedora, que a minha querida amiga Maria Helena conhece o Senhor Palomar como eu não conheço nenhum dos meus vizinhos. Ao ler o comentário da Maria Helena ocorreu-me que seria, provavelmente, pouco elegante da minha parte usar o seu comentário, já que revela mais sobre este apocalíptico amante de livros do que as revistas cor-de-rosa revelam sobre a vida sexual do Cristiano Ronaldo. Ocorreu-me que tal caracterização, por parte de fonte tão credível (pelo menos para quem se habituou a ler a minha caixa de comentários) desnuda de tal modo um mito, que melhor seria não lhe tocar. Each man kils the thing he loves (Oscar Wilde, de novo - e não Paulo Coelho, como sustentam alguns) e when the legend becomes fact, print the legend. Há algo de profanatório no comentário da Maria Helena e eu, em vez de me calar e seguir passivamente com olhar as ondas que se esbatem ou mutiplicam consoante a fendas que nelas esbarram, aproveito, qual abutre de jornal, a carne tenra da intimidade exposta, não sabendo até que ponto sou indiscreto ou, sabendo-o, ouso avançar com outra fenda multiplicadora do fenómeno ondulatório que é a palavra que desnuda. Fico a saber, pela Maria Helena, que Palomar é "educado, sensível, subtil, divertido, inteligente", capaz de fazer rir as muheres... (ai as reticências...) Mas, apesar (!) - o ponto de exclamação é meu, bem como o "apesar" - do seu charme, é fiel à Senhora Palomar. Isto, não obstante os livros com que trai a sede insaciável de atenção da esposa. É generoso, atento, humilde e, pormenor objectivo... irá (esperemos nós) tornar a trazer à luz do dia a obra de Bernardo Santareno. Se isso alegra a Maria Helena, a mim, menos não faz . Bernardo Santareno é um autor que deveras importa no meu caminho. Quase que protagonizei, como actor,  o "Vida Breve em Três Fotografias" quando andava por Santarém. A isso voltarei. Obrigado antecipado ao Senhor Palomar, abençoado seja.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:00
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Terça-feira, 18 de Agosto de 2009
O que pensa da Civilização Humana? Parece uma ideia excelente... Que tal começar uma? - G.K. Chesterton

A silly season é uma invenção útil, hoje, em que existe a Internet. Antes, quando apenas havia televisão (e os jornais não eram para quem fosse do meu escalão económico e geográfico), era apenas uma época de injustiça intelectual, porque quando havia mais tempo para dedicar às coisas do espírito é que nada havia sobre o qual meditar. É certo que no meu caso, as férias eram geralmente uma eternidade a trabahar nas obras, e apenas algumas horas por noite adentro a ler livros requisitados na biblioteca pública do Entroncamento e, graças ao facto de estar a trabalhar, o privilégio de comprar alguns luxos como o "Público", o "Jornal de Letras" (de que não entendia quase nada, embora lesse como um crente fanático os textos da Maria Alzira Seixo) e, até, imagine-se, a revista "Vértice" (isso sim, um luxo comparável ao caviar, para proletários, claro). Mas isso era antes. Quando o tempo era roubado ao trabalho e à miséria (há muitos tipos de miséria - aquela não era das piores, mas não deixava de causar asco). Depois, houve um tempo de transição em que tive algumas férias em que a silly season era apenas silly. Na televisão, seca e paralisia mental. Nos jornais, idem. Nos livros, tudo. Aí, a silly season era algo de bom. Foi assim que li Proust, na má tradução dos "Livros do Brasil". Porque não havia mais nada de interessante e porque tinha tempo que não precisava de ser, obrigatoriamente, ocupado a arrancar pregos de tábuas sujas de cimento com arranca-pregos (um tipo de pé-de-cabra fendido) aquecidos ao sol de agosto a temperaturas capazes de arrancar a pele das mãos). José Saramago (alguém que me tem andado a magoar por razões que não interessam agora, e talvez por razões não directamente imputáveis) diz que a literatura é demasiado importante para ser remetida apenas para o Verão das férias. Eu penso algo semelhante. Mas o tempo é algo que inevitavelmente nos tira o sono ou, quando não o tira, nos faz culpar por sermos tão dados à morte em vida. Para podermos dedicar-nos a fundo nas leituras espessas a de que a superfície dos dias de trabalho nos afasta, é preciso que nada de importante se passe. Por isso, discute-se a identidade do Senhor Palomar e a relevância do ponto de exclamação, que me faz lembrar o suposto bilhete de Oscar Wilde ao seu editor a respeito de um manuscrito ("?") e a resposta do editor ("!"). Isto, enquanto leio este último mail de um rapaz aos seus familiares e namorada, antes de ser assassinado não sei por que razão mas, provavemente, porque neste mundo de inteligências finas e educação na pontuação, ainda há gente que entrega o corpo para além da mera caridade.

 

Carissimas mamae, namorada e joao,
meus grandes parceiros de mochilagem desta fantastica trip,
e querida irmazinha,

depois de mais de uma semana mergulhado de cabeca no coracao da africa encontrei este cyber cafe aqui em Jinja, interior de Uganda e em frente a foz do rio Nilo…e vos escrevo pra dizer que estou maravilhosamente bem…

meus dias aqui na africa estao sendo absolutamente fantasticos ! ! ! … depois de passar uns dias na casa de um refugiado congoles nos suburbios pobres de nairobi, fui parar nem sei direito como na remota tribo dos massais no kenia, onde passei dias correndo atras de girafas, zebras e antilopes com lancas e espadas e vivendo a vida tribal dos caras, dormindo em ocas, etc…e entre outras aventuras pelo kenya terminei em grande estilo, fazendo um safari de bike com um amigo meu massai num parque nacional lindissimo… to muito roots, andando ha uma semana enrolado em cangas coloridas e carregando um cajado e uma espada de aco…e so sei que desde que cheguei na africa nao vi NENHUM muzumgo (white man} alem de mim…

ah, e hoje no meio de tudo coloquei uma crianca na escola…eh uma longa estoria mas, resumidamente, depois de passar o dia passeando por uma vilarejo aqui de uganda com um menino que entre outras coisas me apresentou a sua familia pauperrima e de por acso visitar uma escola publica e falar com o diretor, acabei que paguei pela matriulas, mensalidades e todas as despesas do menino ate o fim do ano e me comprometi a se ele me mandar o bolteim dele continuar pagando pelos proximos anos…

mas o melhor de tudo eh que aqui na africa to conseguindo por em pratica a viagem que sempre idealizei…hoje ficarei em hostel pela segunda vez desde que pisei no continente, todos os outros dias dormi e comi na casa de locais, gastando uns 2-3 dolares por dia, o que me permitiu a cada dia distribuir meu daily budget entre as pessoas que me hospedaram, alimentaram, etc…to muito feliz com isso, de conseguir estar vivendo grande aventuras e realizando uma viagem de profunda imersao no continente africano, abnsolutamente nao turistica, e de forma totalmente sustentavel, transferindo 80% dos meus gastos pra africanos pobres… e aqui com quase nada vc faz uma substancial diferenca na vida das pessoas…esse amigo meu congoles, por exemplo, com 12 dolares paguei o aluguel mensal da casa da familia dele, esse menino com 40 dolares garanti um ano escolar pra ele numa escola super legal, hoje dei 2 dolares pra uma mulehr que me convidou rpa conhecer acasa dela e ela se ajoelhou e quase chorou…

podia escrever horas sobre essa minha primeira semana aqui na africa, to realmente muito contente por tudo aqui estar superando minhas melhores expectativas…mas to escrevendo mesmo pra dar um sinal de vida, pois essa noite passei fazendo 4 baldeacoes pra atravessar do kenia pra uganda durante a madrugada e andei o dia inteiro visitando dezenas de casas de agricultores, missoes, escolas, etc, numa vila aleatoria aqui no interior de uganda…

tenho encontrado pessoas incrivies e facinantes a cada dia que me apresentam a outras e de conexao em conexao vou penetrando aos poucos na alma da africa… tenho arranjado contatos incriveis e, semana que vem, depois de prestar minhas homenagens as vitimas do genocidio de ruanda e de sei-la-o-que-me-espera no burumdi, vou visitar um garimpo de diamantes e os pigmeus nas selvas do congo com o irmao de um amigo, um campo de refugiados na tanzania onde mora o tio de outro amigo que fiz aqui, tentar arrumar uma forma afordable de subir o kilimanjaro e entao espero minha linda cris chegar em Dar Es Salaam pra mais uma lua-de-mel em grande estilo…

ta bom, um paragrafo sobre os dois melhores amigos que fiz no Kenya…

Alex Alembe. Tava no ultimo ano de engenharia em Uvira, sua cidade no Congo. Certa noite uma milicia invadiu sua casa. Mataram sua mae e sua irma mais nova, mas ele conseguiu fugir pela janela. Foi parar num campo de refugiados na Tanzania, onde ficou por 4 anos, se casou com uma tanzaniana e teve 3 filhos. Se mudou pra um suburbio de Nairobi e passou os ultimos anos trazendo ouro e diamantes de garimpos no congo e revendo em outros paises da East Africa. Conseguiu construir uma casa confortavel, e nela alojar sua familia e varios orfaos. Voltando de uma de suas viagens, assaltaram o onibus onde estava e levaram suas maletas com tudo seu, dinheiro, diamantes e passaporte. Perdeu tudo. Se mudou com toda a familia pra um casebre de 12m2. Mesmo assim, continua levando a cabo 3 projeots sociais, dando cafe da manha pra 20 criancas, amparando viuvas de vitimas de aids e organizando um futebol todas as tardes. Ta juntando tudo o que pode pra se candidatar pra deputado provincial no congo nas proximas eleicoes. TIA. This is Africa.

Leonard. Massai cuja mae me hospedou em sua casa em Iwatso Ogindong. Tava no ultimo ano de administracao na universidade de Nairobi. Depois de 3 anos de seca na terra dos massais, teve que largar a faculdade pra levar o gado que sobrou de sua familia pra melhores pastagens. Andou 8 dias por 500 km levando 100 cabecas atravessando cidades, inclusive passando pelo aeroporto de Nairobi. Luta pra preservacao da cultura massai e sonha em casar com uma americana, de preferencia gorda. Me batizou com um nome massai, Lemaya. Seu irmao, Brain, tem 20 anos e eh respeitado na tribo. Aos 14 matou um leao e assim atingiu a maturidade. Aos 15 se casou com uma menina de 12 e outra de 13, que seus pais escolheram. Me deu sua espada de presente. TIA. This is Africa.

fui.

mamae, desculpa nao te ligar ha tanto tempo, farei o maximo pra faze-lo amanha de kampala, capital do pais…
cris, te escrevo em seguida…
johnny, boa russia pra ti, irmao! Russia Haracho! Russia Kracivaia!

beijos,
gabriel

 

Este rapaz, Gabriel Buchmann, usava pontos de exclamação (e reticências). Não sabia quem era o senhor Palomar (eu, confesso, gostaria de saber), e escrevia eh em vez de é (o que me irrita de sobremaneira quando leio recados dos meus amigos wikipedistas do Brasil - mas que aqui se deve, sem dúvida, ao teclado sem acentos agudos, bem como sem cês cedilhados)... Mas foi morto. Isso não o tornou melhor pessoa do que já era. Mas fez-me lembrar de uma crónica do Possidónio Cachapa no Jornal de Letras. Era uma crónica de Natal. Outra silly season. E um jovem missionário ou coisa que o valha, era assassinado por causa do relógio que traz no pulso. A crónica terminava com o coração do narrador a aquecer-se subtilmente no calor natalício da bondade que, ainda assim, persiste. Eu, cada vez menos acredito nisso. O Bem é apenas uma centelha. Um sorriso que logo morre. Um fósforo nas mãos de uma personagem de Christian Andersen. Um ponto de exclamação. Um teclado sem acentos e sem cedilhas.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 01:03
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Terça-feira, 11 de Agosto de 2009
Plágio 1 ou Os Malucos do Riso, versão um pouco mais sofisticada

Vídeo extremamente violento. Mas instrutivo.

 

Ela entrou na farmácia. Olhar determinado. Entrou outra senhora depois dela. Deixou-a despachar-se em primeiro lugar e perguntou à menina que estava a aviar (já vos contei a respeito do meu antepassado que foi aviador na Primeira Guerra Mundial? Fica para o rodapé.1) se podia ser atendida pelo Doutor. O Dono da farmácia. Que não era Doutor no sentido académico. A menina chamou o Doutor. Ele veio. A senhora, baixando a voz, explicou ao que vinha. Sabe de algum veneno que não deixe grande sabor, nem grandes vestígios... enfim, daqueles venenos que não deixam pistas... O Doutor assusta-se. Olha a mulher e diz, mesmo que soubesse, não lhe dizia. Por que razão quer saber de tal coisa? Para matar o meu marido, diz ela. E ele: isto é para os apanhados? Não, amigo, antes fosse. Assim se passa de Doutor para amigo. Há destas coisas na psicologia da comunicação. A chegada das grandes revelações e revoluções faz tornar camaradas aqueles que antes apenas cultivavam a distância das hierarquias sociais. Vasculhou na mala e tirou uma fotografia. Daquelas que os detectives privados tiram, onde a esposa do senhor Doutor aparecia comprometida, qual prostituta berlusconiana, ao lado do marido infiel. O Doutor respirou fundo, fez sinal apaziguador para a menina que aviava ao lado, como que a dizer, não é nada, está tudo controlado. E para a senhora: já podia ter dito que tinha receita.

 

1. Aviava atrás do balcão.

publicado por Manuel Anastácio às 22:13
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Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009
Cachorro 3

Da Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Vouzela. Foto minha em Creative Commons

 

"Força, persistência e paciência, e entrega infatigável no trabalho a ser feito. Como animal usado em sacrifícios, o boi dá ênfase à expiação sacrificial de Jesus." Assim identificava São Jerónimo a figura do Evangelista Lucas, o pintor da Virgem e o padroeiro dos médicos.

 

Se há coisa que nunca compreendi na religião judaico-cristã foi essa sempre persistente insistência (como se fosse um boi a lavrar as páginas sagradas) no sacrifício interposto. Consigo compreender até o horripilante sacrifício de Isaac por Abraão, já que o sacrifício de um seria o sacrifício do outro, ambos tornados em troco morto de uma árvore de promessa. Mas o sacrifício de animais, na teologia judaica, e o sacrifício do filho de Deus, na teologia cristã, são, simplesmente, incompreensíveis e, diria mesmo, inaceitáveis.

 

Ensinam às crianças que Cristo morreu por nós. Sofreu por nós. Carregou em si, ele, vítima pura e sem pecado, todas as falhas humanas. E por isso, teria de ser usado como sacrifício que pagasse o pecado original. Pagasse. Ora, um pagamento implica um devedor e um credor. O devedor é, claramente, o ser humano, manchado de pecado. Quem é o credor? Em última instância, só pode ser Deus. Mas por que razão, a não ser devido a um imperdoável sadismo, é que Deus teria de exigir um sacrifício para perdoar àqueles que entraram em falta no seu compromisso divino? O seu poder e sentido de justiça misericordiosa não deveria permitir o simples perdão dos arrependidos?

 

Eis a pergunta que faria a Deus, se ele comigo se dignasse a conversar. Mas sei que isso não acontecerá. Fugimos sempre às perguntas incómodas e que demonstram a nossa perversa insanidade. E, além do mais, Deus não tem de prestar contas a ninguém...

 

Ou será que o sacrifício do Filho foi uma maneira de Deus dizer que fez asneira e assim desculpar-se? Se assim é, é um bom argumento para sustentar a ideia da Trindade. Mas se assim é, devo dizer que o sacrifício não foi nada assim de tão especial. Posso fazer uma lista de mortes mais dolorosas que a de Jesus. E injustas? - dirá o crente. Se o sacrifício foi feito para pagar a própria e grande asneira de Deus ao criar a simples possibilidade da dor injusta, não foi uma morte injusta. Se o Filho for o Pai, claro. Pescadinha de rabo na boca. Ouroboros. Paradoxo. Nada. Zero. Népias. Ou, então, uma grande anedota. Já disse isto: Deus é, acima de tudo, um humorista. Tenha eu um lugar junto Dele depois de me passar e serei o primeiro a aplaudi-lo. Ao lado do Raul Solnado, que Deus, se for humorista como quero supor, terá agora ao seu lado. Em lugar de honra.

publicado por Manuel Anastácio às 21:18
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2009
Cachorro 2

Da Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Vouzela. Foto minha em Creative Commons

 

Não era para ser o cachorro 2, que seguiria a ordem dos evangelhos... Mas, às vezes, como hoje, apetece fazer o mesmo a certas pessoas (que, feliz ou infelizmente, não me lêem - ou se lêem, não entendem). E arregalar o olho.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:46
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