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Quarta-feira, 29 de Julho de 2009
Inté, dizia o Saci Pererê

Vou de férias uma semana. Ainda tinha programado logar (que é logar que se deve dizer, e não postar, diz um entendido no assunto) por aqui uma incursão na poesia de Kátia Borges e alguns passeios na ficção contística baiana pela mão da Gerana. Mas tanto um projecto como o outro exigem investigação da minha parte. Quando desbravo mato certifico-me de que não me vou picar seriamente nos espinhos das silvas onde abro as minhas típicas e crípticas passagens. Até a mais vazia das minhas frases floreadas tem de trazer consigo o carimbo da minha verdade íntima, depois de passar pelo escrutínio do meu bom senso. Levo comigo o meu pseudo-moleskine que já abarrota de impressões automáticas entrelaçadas com vias que desembocam em dúvidas e em lacunas. Agora, rumo ao sul, a fim de beber das correntes que desembocam no Zêzere. Até lá não poderei, provavelmente, responder a qualquer comentário deixado no blog. Até breve.

publicado por Manuel Anastácio às 11:41
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Terça-feira, 28 de Julho de 2009
Enciclopédia Íntima: Virgindade

Montserrat Cabalé canta "Casta Diva", da "Norma" de Bellini, no Festival de Orange, em 1974

 

Não sei se é verdade, mas li que se chamam de sobreiras aos sobreiros virgens. Virgens por jamais terem dado cortiça às ferramentas cortantes dos homens. Tal passagem de género tem implícita a ideia de que a virgindade é um valor meramente feminino, o que está, aliás, de acordo com as histórias das meninas que o fazem render em leilões na Internet. Li também, de alguém, que a terra mãe está esfaqueada por rios, córregos e ribeiras. Não é virgem, portanto.  Nem poderia ser de outro modo, senão, não poderia ser mãe. A não ser que a sua maternidade fosse protegida por algum dogma kitsch que pintasse de branco o verde do limo e arrasasse os desníveis da erosão diferencial que contorna os montes e desenha meandros. A virgindade é uma dada concepção do que é inteiro. Tudo o que é rasgado ou sulcado perde a virgindade. A lua, casta diva, perdeu-a com a primeira pegada do homem no seu solo. Mas, ainda nem as vestais a ela se rendiam em lésbicos mas platónicos desejos, e já o seu véu de gaze prateado se manchava de crateras abertas por másculos meteoritos que manchariam de sombras de pecado a superfície em que o sol se espelha. Porque o que não é inteiro e virgem passa a ter mancha. Sinal de vergonha. Leio que os pais de uma menina de oito anos, violada por um grupo de pré-adolescentes se recusaram a recebê-la de novo debaixo do seu sacro e imaculado tecto familiar. E penso que há cabeças e corações assim. Virgens, imaculados, inteiros e bravios, onde jamais um rasgão de água, doce ou salgada, ou gota que seja de sangue escorrendo de facada deixou um sulco que seja de vergonha na cara.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:50
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009
Mails da treta: Queimaduras e clara de ovo

"La calunnia è un venticello" do Barbeiro de Sevilha de Rossini; Cristian Hodrea como Bartolo, Zoltan Nagy como Don Basilio, Ópera Romena de Cluj-Napoca. Direcção de Horvath Jozsef. 3 de Abril de 2008

 

Quase todos os dias recebo na caixa de correio electrónico várias cartinhas, geralmente em forma de Powerpoint que, quase invariavelmente, se destinam apenas à divulgação de mentiras, boatos ou mensagens mais perigosas, que vão desde a mais vulgar e bárbara recomendação médica alternativa a mensagens onde se veicula a mais idiota e crédula xenofobia. Enfim, coisas que não aparecem publicadas em lugar algum que seja credível. Mas os autores das brincadeiras sabem que mais de metade dos seus leitores acreditarão na balela e a enviarão pelo mundo fora em menos de dois dias. Sei que os adeptos das teorias da conspiração, e são muitos, crêem que os principais órgãos de comunicação andam todos mancumunados com empresas multinacionais, órgãos de poder político e lóbis de todo o género. E estão. Mas é preciso espírito crítico e não acreditar no primeiro milagreiro que bate à porta ou de coisas que "andam na net".

 

Diz o texto:

Num curso de "AGENTE DE SAÚDE COMUNITÁRIA" ensinaram que, na hora da queimadura, seja lá a extensão que for, a primeira providência é colocar a parte afectada debaixo de água fria corrente até que o calor diminua e pare de queimar muitas camadas de pele e, depois, passar clara de ovo, levemente batida, só para que seja mais fácil de aplicar.


Uma pessoa queimou grande parte das mãos ao deixar cair água a ferver da cafeteira. Colocou então a mão debaixo da torneira bastante tempo, para tirar o calor e a violenta dor inicial. Então, abriu 2 ovos e separou as claras, bateu um pouco, e ficou com a mão na clara.

A mão estava tão queimada que, assim que ela colocava a clara em cima, secava e ficava uma película chamada colagénio natural. Ficou algum tempo a colocar camadas de claras na mão. À tarde, não sentiu mais dor e, no dia seguinte, apenas havia a marca vermelha arroxeada onde se tinha queimado. Depois de 10 dias não havia nenhuma marca da queimadura. Nem a cor da pele mudou. Aquela parte queimada foi totalmente recuperada pelo colagénio existente na clara de ovos que, na verdade é uma placenta e é cheia de vitaminas.


Divulgue esta mensagem, pois sempre existe alguém que pode precisar !!...

 

O texto está cheio de conceitos alternativos de uma barbaridade lancinante. É certo que a clara de ovo poderá ter alguma analogia com uma placenta, já que contém grande parte das proteínas que alimentarão o embrião do pintainho, caso a natureza corra o seu curso, antes de um qualquer predador fazer dele o seu almoço. Mas a placenta é uma estrutura que existe apenas em animais vivíparos onde se efectuam as trocas entre o sangue materno e do embrião ou do feto. De modo algum se poderá dizer que a clara de ovo "na verdade é uma placenta". A frase reza:  "colagénio existente na clara de ovos que, na verdade é uma placenta e é cheia de vitaminas", aproveitando-se da mesma linguagem enganosa utilizada na publicidade da indústria cosmética que, até ao advento das vacas loucas, utilizou placentas de bovinos nos seus produtos de beleza para a pele. As vitaminas presentes na clara de ovo existem, com certeza, mas tenho as minhas dúvidas que a sua quantidade sirva de algo numa queimadura. E, além das vitaminas, o autor omite o facto de poderem existir também quantidades apreciáveis de bactérias que, essas sim, poderão fazer a diferença (para pior) em certas queimaduras.

 

Mas o texto começa logo por dizer que a informação foi veiculada num qualquer curso de agente de saúde comunitária. Não se diz onde, nem quem foi o formador, nem onde é que ele se baseou em tal informação. Claro que num curso destes (creio eu que a ocupação de agente comunitário de saúde apenas existe no Brasil) poderá (eu não sei) acontecer que alguém ensine as mezinhas lá de casa. Nada contra as mezinhas. Mas há que ter cuidado e não confundir alguns procedimentos tradicionais que poderão ser úteis com práticas alternativas que podem ser desastrosas. E é uma questão de tempo até que alguém venha a sofrer na pele (ou no que restar dela) os efeitos da sua sua credulidade, até porque a mezinha, com este mesmo texto está mais disseminada que o vírus da gripe A.

 

Claro que o texto se refere a uma queimadura de grau não especificado. A senhora queimou-se com água a ferver e parou imediatamente o processo de queimadura com água fria. A clara de ovo pode ter tido um efeito benéfico. Não é pelo facto de que, tanto quanto eu sei, não existir qualquer investigação científica que comprove qualquer efeito da clara de ovo sobre as queimaduras, que esse efeito não existe. A Ciência não sabe tudo, e não é por não saber que passa imediatamente a ser mentira ou falsidade. Muita verdade existirá nas mezinhas, mas é preciso ter cuidado, porque com a verdade das mezinhas vem muito perigo à mistura e, ainda por cima, se algo correr mal, não teremos nenhum médico a quem pedir uma choruda indemnização.

 

No caso de uma queimadura de primeiro grau, não se formará qualquer cicatriz permanente, existindo apenas um vermelhão. Nesse caso, pode ser que a clara de ovo faça alguma coisa, nem que seja apenas efeito placebo.

 

Nas queimaduras de segundo grau, a derme é mais ou menos afectada, a epiderme solta-se, os vasos sanguíneos rompem-se e libertam plasma que se vai acumular abaixo da derme, formando uma bolha. Neste caso, poderá ficar uma cicatriz, mas duvido muito que, no caso da senhora da cafeteira, a queimadura tenha sido tão profunda - a água fria pode ter ajudado muito a parar de imediato o processo de destruição da pele. A aplicação da clara de ovo poderá ajudar? Talvez. Mas é melhor não acreditar em milagres. O aparecimento ou não de cicatriz vai depender apenas do grau de profundidade da queimadura e não da aplicação de clara de ovo ou de qualquer outro produto, por mais XPTO que seja. Mas o tratamento a dar à bolha varia muito consoante o seu tamanho e gravidade. Uma bolha pequenita pode aguentar-se, mas em caso de dúvida, é melhor ir ao médico, sim. 

 

Na queimadura de terceiro grau, a pele é de tal modo destruída que as próprias terminações nervosas vão para o caneco e nem se forma bolha. Claro que neste caso é preciso é ir para o hospital o mais rapidamente possível e não dirigir-se ao frigorífico para fazer omeletes, por mais ligeiras que sejam. No caso de uma queimadura de quarto grau, em que a mesma se prolonga para além da pele e afecta estruturas internas, nem vale a pena falar.

 

E, agora, mandem este artigo a todos os vossos amigos. Alguém pode vir um dia a precisar. Principalmente se tiver estado demasiado tempo a ler mails da treta.

 

Porque é que eu tenho a certeza, contudo, de que este mail não vai ter o mesmo sucesso??? Porque será? A mentira e a parvoíce é assim tão mais sedutora?

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publicado por Manuel Anastácio às 14:59
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Quarta-feira, 22 de Julho de 2009
Salmo I

Versão de pankuolong, com ocarina, de um tema de "Okuribito", da banda sonora composta por Joe Hisaishi.

 

Feliz o homem que não se aconselha com injustos,

Que não sustém o passo nas veredas de quem a si mesmo se nega,

Nem se senta na roda do riso indigno.

Por outra via, o seu caminho

Estende-se no sorriso justo de Deus

Sobre o qual medita, noite e dia.

É como árvore junto a água transbordante,

Dando fruto em hora certa

E de sempre verde folhagem.

Tudo o que faz, fá-lo,

Na certa medida das coisas justas.

Não assim os que caçoam do que é belo.

Não assim, mas como palha,

Seca, varrida pelo vento da eira deserta do mundo.

Por isso, chegada a hora,

Frente à verdade, curvar-se-ão, sob o peso da injustiça;

E os que agora se negam, serão negados,

Expulsos dos caminhos rasgados em bondade sob a sombra dos loureiros,

Seguindo pela estéril imensidão que dá ao nada.

 

Versão de Manuel Anastácio

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Terça-feira, 21 de Julho de 2009
A caverna

Marcha Triunfal da Aida, de Verdi. Lorin Maazel. Teatro Alla Scala de Milão.

 

Quando a televisão ainda só existia em Carvalhal e arredores num só lugar público de que não sei o nome (talvez no café da Portela, onde o Silvério Salgueiro viu o homem a descer à lua), porque não é do meu tempo, as pessoas do povo juntavam-se, após os dias de trabalho na lavoura ou na madeira (os grossos troncos de pinho carregados pelas mulheres à cabeça, sob uma rodilha de trapos entrançados revestidos de resina que era arrancada das mãos com a ajuda de petróleo) para ver as telenovelas brasileiras. Se "Gabriela" foi a primeira novela da televisão portuguesa, o grande marco no imaginário popular foi, sem dúvida, a "Escrava Isaura". Não é do meu tempo. Ainda vi uns capítulos esparsos de uma reposição feita à tarde e de outros de um remake mais recente. Tudo muito narrativa do século XIX com uma certa pimenta operática. Havia a escravatura, claro. E o povo sentia como suas as agruras dos negros presos ao tronco. As mulheres choravam baba e ranho e gritavam de dor a cada chicotada. Quando duas (creio que eram duas) personagens conhecidas pela sua bondade morrem num incêndio desencadeado pelos maus, ouço dizer que nada conseguia fazer parar as mulheres de chorar de desespero, enquanto os homens, não menos afectados no seu imo-senso de dureza masculina, puxavam dos lenços de mão e carpiam silenciosamente a morte trágica compartilhada frente à caixa de fantasmas que, por alguma técnica mágica e improvável lhes fazia chegar sofrimentos condensados e afins aos seus. As personagens não sofriam mais que eles, mas sofriam de langorosa forma nos minutos de cada emissão e mantinham-se em agonia até ao próximo episódio, num tipo de purgatório que ninguém entendia bem e que não é mais que o tempo da ópera, distentido ou encurtado de acordo com a vontade de um narrador difuso, como acontece sempre em qualquer obra de arte colectiva. Claro que, após as passas do Algarve, sempre havia um final feliz para aqueles que, entretanto, não tinham morrido atrozmente nas mãos dos verdugos esclavagistas. E isso, se foi bom para todos, que finalmente puxaram dos lenços para enxugar os olhos e um glauco pingo de felicidade que as mucosas do nariz segregavam, enfim libertas de opressão, trouxe consigo a maior decepeção de algumas daquelas vidas. Uma senhora, de que já não me lembro o nome, depois de ver o último episódio da Escrava e, começando a ver a telenovela que se seguiu, não gostou do que viu. Aqueles que tinham morrido entre as chamas estavam agora ali, com outras vestes, outros nomes e, por vezes, até com diferentes modos ou no lado contrário da barricada que divide os maus dos bons. A senhora prometeu (e, tanto quanto sei, cumpriu) jamais voltar a prestar a mínima das atenções àquela fantochada de sofrimentos postiços. Dura consigo mesma, negou a si mesma o prazer de sofrer o que sofrem os outros por interpostas e fantasmáticas pessoas. Passou a servir-se apenas da sua prória dor. Para si guardada, em si fechada, jamais transmitida na televisão. Fica aqui, contada agora ao mundo inteiro de uma só vez, o testemunho do seu voto de não se fixar, jamais, nas sombras ao fundo da caverna.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:00
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Segunda-feira, 20 de Julho de 2009
Vendo a noite por um canudo

A Nebulosa do Anel, como eu não a conseguiria ver, de qualquer forma, há duas noites atrás. Carregar na imagem para os devidos créditos.

 

As noites já não podem ser tão escuras quanto aquela que guiou a alma do poema de São João da Cruz. Não nas cidades. Quando, pequeno, tinha de seguir pelas Oliveiras entre a paragem da carreira, o fundo da estrada, e subir junto à mancha de pinheiros que ainda hoje se mantém imune aos incêndios que transofrmaram Carvalhal num enorme eucaliptal, sentia-me como a Branca de Neve a fugir aos ternos braços das árvores, transformados pela escuridão em monstros que sobrepunham sombras a sombras. Só o primeiro candeeiro da Rua da Glória me acalmava os passos. Mas aquilo que ilumina o chão tem o triste condão de apagar o céu à noite.

 

Ó ditosa ventura, a de ver claramente vista a estrada que seguia para Santiago e que, em certa parte bifurcava o destino das almas destinadas ao Paraíso ou o adiava no Purgatório... Ditosa a ventura de inventar constelações, não tendo eu livros de astronomia nem internetes que me ensinassem a distinguir Vega da Próxima Centauri. Ditosa a ventura de ver mais de quinze estrelas cadentes a riscar o céu numa só noite, deitado nos montes de caruma cheios de carraças da minha infância. Lembro-me bem de sonhar, à noite, num céu legendado, onde a minha imaginação acordada pelo sono dispunha as constelações como figurinhas perfeitas e luminosas a imitar os bonecos que enfeitavam os signos que a minha prima Donzília lia na Crónica Feminina. Hoje, quando chego a casa dos meus pais, invariavelmente à noite, no fundo da rua, entre os fatais eucaliptos que vão dar para os negrumes da Valada e do Cã das Bouças, onde dou a volta ao carro, saio por vezes para voltar a entrever um pouco desse céu, mas já não é o mesmo. Teria que me aventurar pelos caminhos agora cobertos de silvas e, reduzindo o meu horizonte a sul, entrever pelos ramos das árvores, esquecido das sombras, aquele pó luminoso que torna as noites escuras perfeitas imagens de felicidade. Basta um candeeiro para apagar o céu à noite.

 

Há dois dias atrás, fui fisgado de poder ver algo semelhante no alto do Bom Jesus de Braga. Prometeram apagar as luzes até à meia noite para que astrónomos amadores e profissionais me mostrassem, hoje, aquilo com que sonhava em criança. Ao chegar, julguei que me tivesse enganado no dia - na noite. Mas não. Os eventos culturais e científicos em Portugal têm este condão de se ofuscar perante as luminárias broncas das entidades que os promovem. Luz por todo o lado, a iluminar os hotéis a abarrotar de ricaços do futebol que não podem andar às escuras, não fossem ficar lesionados ao tropeçar numa pedrita da calçada. Os astrónomos  eram todos amadores - nem um profissional, ao contrário do que tinha sido prometido. Não que tenha qualquer queixa a fazer dos astrónomos amadores, simpáticos, pacientes e cujo brilho nos olhos apenas reflectia o das estrelas, não o obscurecendo. Não fossem eles e mais rota teria sido a iniciativa, apenas remendada pelo Coro Académico da Universidade do Minho, que, junto às estátuas da Fé, Esperança e Caridade encheram o espaço demasiado iluminado até que a EDP, finalmente apagou um terço das lâmpadas, incluindo as que iluminavam o Coro que teve, depois, de cantar sem o apoio de microfones e banda sonora adicional. Depois do recital, três astrónomos desiludidos pelo falso apagão, lá me mostraram os anéis de Saturno, a Nebulosa do Anel e, com uns raios laser todos catitas me foram apontando as constelações e as estrelas que teimavam em brilhar mais que o manto de escuridão luminosa que apagava por completo o horizonte sobre Braga (há quem se encante com as luzes das cidades, à noite...).

 

É triste dizê-lo. Mas nem para apagar a luz temos gente capaz. Proponho ao Engenheiro e à Doutora Milu que abram cursos das Novas Oportunidades para o efeito. O céu agradeceria.

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publicado por Manuel Anastácio às 16:51
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Sexta-feira, 17 de Julho de 2009
Enciclopédia Íntima: Categorias

"Click, Click, Click, Click", dos Bishop Allen. Ontem, no Palácio Vila Flor, em Guimarães, para um público escasso (ai se fosse um jogo do Vitória...) e com meia dúzia de infiltrados sem categoria.

 

Foi já em 2006 ou coisa que o valha, em Israel. Várias meninas de corpinho perfeito e olhos de anjo eram entrevistadas para que dissessem que eram a favor da Paz Mundial e, já agora, que eram vegetarianas. Uma das meninas disse, provavelmente influenciada por alguém que conhece os tiques do meio, que o era. Vegetariana. A entrevistadora perguntou-lhe, mais coisa menos coisa, e cheia de graça, que, provavelmente, ela sentia-se comovida ao olhar para os olhos meigos de uma vaca (e não há aqui qualquer ironia: não há olhar mais meigo que o de uma vaca) e, por isso, seria incapaz de comer um bife. A menina assentiu. Jamais tocaria num bife. E então, se não comia bifes, comia o quê? A menina respondeu: frango. Ah, então não és vegetariana, concluiu a entrevistadora fazendo um perfeito raciocínio lógico, se partindo da sua categorização dos seres. A menina disse que não, que era vegetariana sim, jamais comeria o quer que fosse que viesse do corpinho de um animal. A entrevistadora, boquiaberta, arriscando-se a comer um mosquito, perguntou-lhe qual a diferença entre uma galinha e uma vaca. A menina, cheia da sua sabedoria biológica, respondeu, fazendo um ar de desconsolo perante a estupidez dos outros, que uma galinha era uma ave (talvez tenha dito pássaro, não sei, não sei falar hebreu e se todos os tradutores forem como eu, muita coisa se perde ou acrescenta no processo) e que uma vaca era um animal. Claro que a frase, bombástica, caiu sobre israel de várias formas. Houve quem dissesse que era um belo sinal da degenerescência judia. Um petisco para antissemitas, esses que dizem que um judeu é um judeu e um homem é um homem, o que está bem em qualquer categorização, mas que, implicando algumas deturpações de ordem lógica e a intromissão de pressupostos discutíveis, para não dizer inaceitáveis, legitima a estupidez em regime político capaz de ensombrecer todo um século.

 

A estupidez é, contudo, e essencialmente, um problema de categorização. De taxonomia ética, moral, mas também científica. Quem nega as categorias da Ciência procura as suas próprias categorias. E se lhe der jeito que as aves constituam um Reino biológico próprio, inventa-se o novo Reino. Há quem julgue que, na educação, hoje em dia, com toda a catrafada de informação que existe, não é preciso que as crianças conheçam pormenores sobre as diferenças entre um inseto e uma aranha ou entre o traje de um nobre romano ou o hábito de um frade mendicante. Acredita-se que basta ensinar a aprender (como se isso não se fizesse de uma só maneira: aprendendo). Acredita-se que basta educar civicamente, para não termos terroristas e bombistas suicidas no futuro. Eu acredito, contudo, que isso só se consegue centrando o ensino, não no aluno (ai o que eu fui dizer) mas no conhecimento e, em primeiro lugar, na categorização das coisas. É preciso dizer: isto, em primeiro lugar, é um homem: seja ele israelita, palestiniano, negro, amarelo, cor-de-rosa, mendigo, ladrão, empresário, santo, herói, passador de droga... E, depois, ir baixando às categorias menores sem deixar de passar pelas que suscitam dúvidas na sua menoridade, onde deve reinar a tolerância no julgamento. Eu acredito, também, que toda a gente devia esclarecer, bem, qual a categorização que rege o seu pensamento. Se um político falar dos portugueses, deve esclarecer bem quem são, a seu ver, os portugueses. Hoje, contudo, os estúpidos grassam na política, não porque digam coisas erradas, mas porque partem de categorias erradas. Entre eles e a modelo pseudovegetariana há apenas a diferença de que, ao contrário desta, estes não definem (porque no fundo, sabem a estupidez em que assenta o seu edifício moral) as categorias com que escrevem os seus interesses.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:09
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Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
A Noite Escura da Alma, de São João da Cruz

The Dark Night of the Soul, de Loreena McKennitt, segundo sugestão da Canduxa, autora do nome mais poético que já vi para um blogue.

 

Numa noite escura

Em ânsias, de amores, inflamada,

Ó ditosa ventura!

Saí sem ser notada,

Estando já a minha casa sossegada.

Às escuras, mas segura,

Pela secreta escada, disfarçada,

Ó ditosa ventura!

Às escuras e velada,

Estando já a minha casa sossegada.

Na noite ditosa

em que em segredo, ninguém me via,

Nem eu via outra coisa

Sem outra luz ou outro guia

Senão aquela em que meu coração ardia.

Esta me guiava

Mais clara, a luz, que ao meio dia,

Até onde me esperava

Quem eu bem me conhecia,

Em parte onde ninguém aparecia.

Ó noite que me guiaste!

Ó noite mais amável que a alvorada!

Ó noite que juntaste

O amado à sua amada,

Sendo a amada em amado transformada!

No meu peito florido

Que inteiro para ele se guardava

Ali caiu adormecido

E ali o embalava

Com a brisa que os cedros levantava.

O vento das ameias,

Enquanto os cabelos lhe esparzia,

Com a sua mão serena

Contra meu colo me feria

E todos meus sentidos suspendia.

Desfaleci, abandonei-me

Com o rosto reclinado sobre o Amado,

Tudo acabou e deixei-me,

Negando-me a qualquer cuidado,

Entre as brancas açucenas olvidado.

 

(versão de Manuel Anastácio)

 

Nota: a minha versão não é, provavelmente, muito fiel ao original, até porque mantive algumas eventuais falhas de tradução porque, ainda assim, as considero mais próximas do sentimento expresso pelo autor, tendo em conta a tensão entre as palavras e o indizível. Há, aliás, um verso que, provavelmente mal traduzido, e de má construção frásica, é aquele que prefiro. É como um poema de amor adolescente - ora, não há poemas mais mal escritos que os lindos poemas de amor dos adolescentes. E não há noite mais escura que a adolescência - nem mesmo a senectude.

publicado por Manuel Anastácio às 20:26
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009
Enciclopédia Íntima: Nudez

Natasha, de Man Ray, 1931

 

Quem escreve em pessoana verdade despe-se sempre, mesmo que se esconda atrás de um diáfano e queirosiano véu de fantasia.

 

 

publicado por Manuel Anastácio às 22:46
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Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Hoje, podia ter morrido assim

Final da tetralogia de Der Ring des Nibelungen, Bayreuth 1976. Gwyneth Jones como Brünnhilde, Fritz Hübner como Hagen. Direcção de Pierre Boulez

 

 

Existem bombas inteligentes? Existem, com certeza. Aquelas que servem para puxar água das profundezas para a superficial secura. Se há expressão mais copiada na blogosfera portuguesa, é a do "Eu hoje acordei assim", um perfeito pretexto para fazer um post com uma qualquer citação, incluindo as visuais, que demonstram como somos de verdade e não como o espelho nos devolve, sem grande trabalho de escrita. Eu não. Acordo todos os dias com a mesma cara de quem quer continuar a dormir e é assim que continuarei a acordar até que adormeça definitivamente. E penso que, mais importante que a forma como acordamos, será a forma como morremos. Não poderemos morrer todos de um suicídio heróico como o de Clint Eastwood no "Gran Torino" (aviso atrasado: este artigo contém spoilers) nem tão poeticamente trágico como o da Tosca (se o encenador não se lembrar de pôr um trampolim a amparar a queda da suicida que voltará, qual anjo saltitante, de novo à cena como já aconteceu num dos anedóticos e míticos momentos da história da ópera com uma diva qualquer que não sei agora identificar). Mas podemos morrer todos como deuses. Eu hoje, se pudesse - e se tivesse de ser, entenda-se, que sou daqueles que quer usufruir de cada momento de sofrimento até ao fim1 - morria assim2.

 

1. E entenda-se como fim, o limite a partir do qual o sofrimento já não é sustentável. E entenda-se que ninguém deve impor esse limite a ninguém.

2. Como a Brünnhilde, claro. às vezes esqueço-me de que há leitores que apenas me lêem e não têm paciência para ver os vídeos que escolho. E vice-versa. E, ainda, aqueles que nem uma coisa nem outra - são os leitores-meteoro. Os mais frequentes. Fugazes, por vezes deixam um rasto de luz que rapidamente se desvanece em sonhos e em desejos sem promessa. Se por acaso olharmos para eles quando passam pela atmosfera.

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publicado por Manuel Anastácio às 15:24
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