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Domingo, 31 de Maio de 2009
O Senhor, de Leopoldo Alas y Ureña (Clarín)

"Até os pombos vão para o Céu" (2007), de Samuel Torneux.

 

Imagine um conto... pronto, uma novela, em que um homem, tomado do Amor e Graça de Deus,  se apaixona por uma bela e desamparada menina. E que esse homem, já antes decidido a entregar-se à vida religiosa, e tendo já deixado, a contragosto, de lado a via das missões e do martírio por causa do amor maternal, recusa-se a encarar a paixão como pecado. Recusa-se até a tomá-la como Amor platónico. Mas, de forma absolutamente não canónica, deixa que a sua obsessão carnal se confunda com a própria religião e tome dela a sacralidade que o devolve, de forma insuspeita, ao martírio. Leopoldo Alas, conhecido por "Clarín", foi o escritor espanhol do século XIX que deu ao mundo essa maravilha erótico-teológica que abre o livro "El Señor y lo demás son cuentos" ("O Senhor e o resto são histórias", na versão portuguesa, da Teorema, na tradução de José Colaço Barreiros). Não é nenhum crime do Padre Amaro. O conto, apesar de não ser teologicamente canónico, em nada se afasta da ortodoxia católica, especialmente na erótica parte final em que Juan sai da alcova onde a amada acabou de receber "O Senhor" das suas mãos.

 

"Ao primeiro passo que deu na rua, Juan cambaleou, perdeu a visão e tombou por terra. Caiu sobre as pedras do passeio. Levantaram-no; recuperou os sentidos. O oleum infirmorum corria lentamente sobre a pedra polida. Juan, aterrado, pediu algodão, pediu lume; deitou-se de bruços, embebeu o algodão, queimou o líquido derramado, e enxugou a pedra o melhor que pôde. Enquanto se afadigava, de rosto contra a terra, a secar as pedras, as lágrimas corriam-lhe e caíam, misturando-se com o óleo vertido. Cessou o terror. No meio da sua tristeza infinita sentiu-se tranquilo, sem culpa. E uma voz profunda, muito profunda, enquanto ele trabalhava para evitar qualquer profanação, esfregando a a pedra manchada de óleo, dizia-lhe nas entranhas:

 

"Não querias o martírio por amor de Mim? Aqui o tens. O que importa se na Ásia ou aqui mesmo? A dor e Eu estão em toda a parte."

 

É das entranhas que Deus se dirige a Juan, porque é nas entranhas que se encontram o Céu e o Inferno, conforme ocupadas, ou não, pelo Senhor. E o resto são histórias.

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Sábado, 30 de Maio de 2009
Encontrado no baú (não sei para onde é que este texto ia, mas ia com certeza em direcção ao Inverno)

Excerto de "O meu vizinho Totoro" de Hayao Miyazaki

 

Folhas. O Outono são as folhas. O sol vai para a escola e empurra as andorinhas para longe. Tem de ter a secretária limpa para as folhas limpas dos cadernos e para o odor fresco a tipografia dos manuais. A Primavera é apenas a altura em que as árvores escrevem as histórias. No Verão, imprimem-se as cartilhas maternais. No Outono, o Sol começa a soletrar frases e a virar as páginas. Desleixado, e com hábitos um tanto ao quanto porcalhões, molha os dedos com saliva e vira-as devagar. Os caracóis deixam um rasto viscoso sobre os poemas escritos pela luz. O sol não sabe, mas foi ele mesmo quem escreveu aquilo que agora não consegue decifrar.

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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
Curta 42

Lindo.  Uma coisa que gostaria de escrever.

 

E sobre a qual gostaria de ver o Tomás Vasques a escrever.

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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Buscas pedidas: "É mentira, é mentira, é mentira sim senhor"

Teresa Żylis-Gara e Franco Corelli, no Già nella notte densa do "Otello" de Verdi. Porque me apetece. Ou talvez seja uma associação entre a tez de Otello e a das azeitonas... sabe-se lá...

 

 Alguém caiu de novo no meu blogue à procura de uma letra do Tony Carreira. Por incrível que pareça, encontrou-a. E disse que o meu blogue já tinha servido para alguma coisa. Valha-nos isso. E pediu: já agora podias dar a letra do "É mentira, é mentira, é mentira sim Senhor"? Claro, sempre às ordens. A canção, de melhor valor poético que uma letra do Paulo Coelho, perdão, do Tony Carreira, não tem o título indicado pelo meu leitor casual e que provavelmente não aqui voltará à procura dela, mas aquele que agora apresento a negrito. Por hoje é tudo. Tenho três livros a pedirem palavras minhas por aqui e ainda não li nenhum. Ide às azeitonas e ponde uma, acabada de apanhar, na boca. Acreditavam os meus colegas de escola que após algum tempo apareceria gravada na casca a inicial da pessoa amada. Ide. Fazei. Lede. Se vos aprouver.

 

A Azeitona já está preta

A azeitona já está preta, a azeitona já está preta,
Já se pode armar aos tordos, já se pode armar aos tordos
Diz-me linda rapariga, diz-me linda rapariga,
Como vais de amores novos, como vais de amores novos.

É mentira, é mentira
É mentira, sim senhor
Eu nunca pedi um beijo
Quem mo deu foi meu amor!!!
É mentira, é mentira
É mentira, sim senhor
Eu nunca pedi um beijo
Quem mo deu foi meu amor!!!

Ai que lindo chapéu preto, ai que lindo chapéu preto
Naquela cabeça vai, naquela cabeça vai...
Ai que lindo rapazinho, ai que lindo rapazinho
Para genro do meu pai, para genro do meu pai...

É mentira, é mentira
É mentira, sim senhor
Eu nunca pedi um beijo
Quem mo deu foi meu amor!!!
É mentira, é mentira
É mentira, sim senhor
Eu nunca pedi um beijo
Quem mo deu foi meu amor!!!

Quem me dera ser colete, Quem me dera ser colete,
Quem me dera ser botão, Quem me dera ser botão,
Para andar agarradinha, Para andar agarradinha,
Juntinha ao teu coração... Juntinha ao teu coração...

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Terça-feira, 26 de Maio de 2009
Um murro no estômago é como a lua a fazer caretas aos louva-a-deus

O túnel de vento de Totoro, de Joe Hisaishi (da banda sonora de "O meu vizinho Totoro)

 

A Anabela Lopes (autora de "Lua: A Princesa da Floresta Dourada", a quem estendo de bom grado o cachimbo da paz) passou por aqui e apanhou com o meu texto de ontem que... pronto, era um pouco violentozito. Mas eu tenho esse péssimo hábito de bater forte e feio em quem gosta de uma coisa tão sensaborona e deslavada como Paulo Coelho e de coisas tão adocicadas e enjoativas como da Danielle Steel. Mas vamos por partes: não é errado gostar de Paulo Coelho nem de Danielle Steell. Nesse sentido, gostos não se discutem. Mas os gostos podem-se discutir, e devem ser discutidos, porque é isso que torna a literatura, enquanto fenómeno social, divertida. Claro que não vou ler Paulo Coelho quando tenho tantos autores que me conseguiriam encher a alma e com tantos títulos à espera de serem lidos por mim: Torga, Bellow, Szymborska, Tolstoi, ui... Ler Paulo Coelho é, acima de tudo - para mim - um enorme desperdício de tempo e de vida. Mas isso é para mim. A Anabela (tal como grande parte dos meus colegas de profissão) gosta de Paulo Coelho. Ora, está entre a grande fatia da humanidade que torna este o escritor lusófono mais vendido de todos os tempos. O que - quanto a mim - é uma injustiça, mas eu não tenho nada que dizer sobre a justiça do que as pessoas gostam de ler. Ler é como fazer amigos - corrijo, é fazer amigos - e a maior parte das pessoas prefere amigos de fachada a amigos verdadeiros. Os amigos verdadeiros não são aqueles que dizem aquilo que queremos ouvir, mas aquilo que nos transforma, por dentro, em pessoas melhores (olha, assim até pareço o Paulo Coelho, ehehe). O que significa que, por vezes,  descobrimos que os nossos melhores amigos são aqueles que sempre julgámos que nos detestavam (olha eu a fazer de Paulo Coelho outra vez - bem diz o outro que os coelhos são piores que as moscas a reproduzirem-se). Um dia, reescrevi aqui no meu blogue um poema muito chunga ao estilo do Paulo Coelho (e a Gerana bateu, logo, certeira aqui no pobre do moço) que, a certa altura, dizia que o Amor é a mais escura via de comunicação. E é. O Paulo Coelho não escreve muitos disparates (escreve alguns, e de palmatória). Escreverá, com certeza, coisas acertadas. Coisas que parecem profundas. Mas há uma diferença entre a profundidade de uma gruta escavada pelo tempo e pelas águas e a profundidade aberta com a força bruta de uma broca. Paulo Coelho é uma broca. Mas avancemos: a Anabela apanhou um murro no estômago com as minhas palavras. Confesso que não era essa a minha intenção.

 

A Anabela diz que está a dar os seus primeiros passos na literatura... Eu discordo. Os primeiros passos na literatura são dados quando aprendemos a ler. E a Anabela (sei eu, que a ouvi) aprendeu a amar a leitura desde cedo. Isso é bonito. Mas quando diz que eu a julgo, já terei que concordar e discordar. É verdade e não-verdade. Eu julgo as pessoas por aquilo que lêem. Julgo-as enquanto leitoras, não enquanto pessoas. Fui tendo (e tenho) amigos que lêem Paulo Coelho e que sabem  que eu lhes reprovo tal gosto. Adoraria que eles chegassem ao pé de mim e dissessem: olha, hoje abri um livro do Coelho e apercebi-me de que aquilo é um hambúrguer do MacDonald's. O pior é que as pessoas gostam de hambúrgueres do MacDonald's (pronto, ou do BurgerKing, é-me indiferente). Eu julgo, sim, a Anabela por ler Paulo Coelho e por ler Danielle Steell. Não a estou a julgar como pessoa, mas como leitora (e, inevitavelmente, como escritora). Eu tenho que ter alguma razão para pegar num livro, já que tenho tantos à espera de serem lidos. Se eu tivesse todo o tempo do mundo, começava por ler Corín Tellado, mas eu não tenho todo o tempo do mundo. Por isso, e como sei que posso morrer amanhã ou daqui a um minuto, prefiro ler autores que me digam coisas que valham a pena. Ora, se o Paulo Coelho apenas diz coisas vazias disfarçadas de coisas profundas e plenas de significado (ai as vezes em que já vi pessoas adoráveis a ler excertos do Paulo Coelho com a lágrima ao canto do olho, à espera que eu ficasse também de lágrima no canto do olho... e apenas viram o meu ar snob e enjoado - não sou capaz de fingir adoração por coisas medíocres e mercenárias), o que é que a Anabela espera, que eu creia que gostarei de ler o "Lua"? Acredita que, se calhar, até vou gostar de o ler (que, agora, vou ler mesmo...), mas o cartão de visita não é muito convidativo. Eu tenho de julgar as coisas de acordo com aquilo que conheço delas. E tal julgamento não vai pôr ninguém na prisão, por isso, fico descansado.

 

A Anabela também lê autores "conceituados" como Eça de Queirós e José Saramago. Não sei bem o que seja isso de autores conceituados. Para mim, Eça e Saramago são dois escritores maiores. Se a Anabela os lê, ainda bem. Quem ganha, em primeiro lugar, é a própria Anabela, mas nestas coisas do gostar, fica-me sempre o travo amargo do Paulo Coelho... A Anabela diz ainda que é errado julgá-la como escritora pelo facto de gostar de ler Coelho e Steel, até porque eles não a influenciaram... Isso parece-me estranho. Os nossos escritores preferidos deviam ser aqueles que mais fortemente nos deveriam influenciar, fosse lá de que maneira fosse (nem que fosse pela via de não os querermos imitar). Não é errado ter uma ideia pré-concebida de um autor a partir dos livros que ele lê. Isso nem sequer é julgar! Um julgamento só pode vir depois das provas, e eu não as tenho porque não li o livro! Mas posso fazer uma aposta. Fazemos todos os dias apostas quando compramos um livro porque gostamos da capa ou do título ou porque aquela senhora com aspecto fino disse que o livro não presta (e nós, em espírito de contradição, vamos a correr a comprá-lo). Há sempre uma razão para pegarmos num livro antes de outro. Ouvir o autor a dizer que o seu autor preferido é o Paulo Coelho não me motiva a lê-lo. Se a Anabela tivesse dito J. K. Rowling, estaria já neste momento com o livro, autografado, na minha mesa de cabeceira.

 

Quanto ao murro no estômago: Anabela, eu não vou ser mais suave nas palavras a respeito de um escritor por ele ser jovem. Eu escrevi algo sobre uma impressão que tive. E, ainda por cima, incentivei as pessoas a demonstrarem-me o contrário, isto é, que o livro é bom apesar do meu preconceito. Repara que eu até me assumi como preconceituoso. Sim, tenho preconceito contra perfumes demasiado enjoativos. Tenho preconceito contra o sabor da papaia demasiado madura. E há mal nisso em dizê-lo num blogue público? Não, não há. A Anabela não pretende agradar a todos. E faz a Anabela muito bem, porque nunca o conseguirá. Mas não posso concordar quando diz que é de mau gosto eu manifestar-me aqui. Eu não falei com a Anabela pessoalmente, porque estava a trabalhar e não podia estar na amena cavaqueira. Mas é meu direito, enquanto leitor, e enquanto cidadão, pronunciar-me a respeito de questões estéticas. Se eu disser aqui que não gosto do Paulo Portas, nem do Sócrates (e não gosto nem de um nem de outro), eles não me vão aparecer aqui amanhã a dizer que eu devia ter falado com eles antes... É verdade que eles se estão nas tintas para a minha pequena pessoa, mas essa não é a questão: a Anabela fez uma coisa maravilhosa que foi escrever e editar um livro. Eu posso não ter gostado de a ouvir a citar tais nomes como escritores preferidos, estou nesse direito. E estou no meu direito de dizer e contar, e criticar, aquilo que ouvi num espaço público. Aceite o meu convite para o debate, defenda o Paulo Coelho e a Steel se assim entender, mas não fique magoada. Seja forte e não se deixe incomodar por palavras críticas. A Anabela diz que, em conversa à parte, teria oportunidade de se defender. A Anabela não precisa de se defender. Precisa apenas de aceitar o debate.

 

Vou terminar com mais um conselho que, vou ser sincero, não sei se é à Paulo Coelho ou não. Seria o conselho que daria a uma filha minha que estivesse na sua situação, perante um professorzeco que a estivesse a criticar pelos seus gostos e pela sua forma de escrever: Anabela, não tens que julgar que o murro no estômago te tornará mais forte. Não. Um murro no estômago é sempre uma violência que nos desarranja por dentro. Tenta, por outro lado, ver se este professor, que não conheces de lado algum, te queria dar, de facto, um murro no estômago. Acredita que não. Não precisas de concordar comigo. Não precisas de deixar os teus autores favoritos de lado. Não precisas de dizer que afinal gostas é de este ou daquele escritor. Não. Tens sempre de ser fiel a ti mesma e à tua razão. E sermos fiéis a nós mesmos inclui evoluirmos, darmos o braço a torcer. Ouvirmos os outros e aprendermos com os outros. Não devemos, jamais, aceitar murros no estômago. Deves, antes, pelo contrário, ignorar aquilo que for dirigido para ti na forma de ataque pessoal (assim, o murro passa ao lado) e aprender algo com a visão dos outros. Podes até nem concordar com aquele crítico, nem terás de concordar: o importante é que tentes ver o que ele quer dizer. E, depois, aproveita aquilo que te ficar entre as mãos. O PC lá disse algures que  “O bom combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos." É uma frase vazia. Não quer dizer nada. Por isso, cabe lá tudo. Eu ponho lá isto: que enquanto for vivo, estou aqui para discutir. Foi por isso que incentivei os meus alunos a lerem o teu livro (até porque tenho a certeza que terão ainda mais curiosidade em lê-lo depois de saberem que reprovo os teus gostos literários de eleição): para que eles leiam e o possam defender (ou o contrário). Para que eles o possam discutir. Porque para mim, os gostos discutem-se. Não servem eles para outra coisa. O bom combate não é aquele que é travado em nome de nossos sonhos - é aquele que é travado sem que ninguém perca a vida e sem que ninguém leve murros no estômago, é o combate em que todos ficam a ganhar. Espero que a Anabela escreva os seus quatro livros (que, estando eu vivo, os lerei aos quatro, e cá estarei para os comentar) e que continue a usar e a abusar do "cor-de-rosa brilhante". Não prometo que vá gostar. Mas prometo que serei sincero na minha avaliação. Sem murros. Espero que a Anabela faça o mesmo e aceite o combate.

 

As melhores felicidades. A sério.

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Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
Escrever é evitar flores de lótus nos pulmões da alma, e quem disser o contrário é porque não percebeu nada do que eu queria dizer...

Excerto de "The Mission", de Roland Joffé.

 

A Gerana falava, à dias, da falta de assunto na literatura. A mim não me faltam assuntos. Ponham-me à frente um computador (tem de ser um computador, essa maravilhosa máquina de apagar, como diria o José Cardoso Pires) e horas sem mais nada para fazer e terei sempre algo para escrever. Se não for da minha lavra, que seja um artigo da Wikipédia, uma tradução rasca de um artigo científico, um poema a murro, uma reinvenção de poemas antigos que agora me cheiram a ranço. Eu nasci para realizar filmes, não foi para escrever. Nasci para ganhar a Palma de Ouro de Cannes (a principal, não estou a falar de coisas menores como sejam curtas metragens). Mas quase ninguém nasceu para fazer aquilo para que nasceu e eu sou um desses. Por isso, na falta de melhor, na falta de uma equipa técnica, de montes de celulóide, de uma grua e de equipamento decente de montagem e captação de som, um computador serve-me bem para ir realizando curtas metragens abstractas. Só que sei que, com estas, nem uma menção honrosa poderei receber no Festival de Vila do Conde. Não faz mal. Vai sempre havendo aquela ou aquela frase que nos afaga o ego e nos faz voltar a escrever outra inutilidade que vá enchendo o silêncio com que a nossa falta de senso comum gosta de encher os ouvidos e os olhos dos outros que, com certeza, têm livros, discos e filmes mais interessantes que as nossas palavras parcamente insufladas de inspiração. Hoje foi à escola uma menina que já ali tinha sido aluna e que agora se estreia com um livrinho que me pareceu vagamente inspirado no Harry Potter mas com um sabor feminino (no sentido mau da expressão) com fortes tons de cor de rosa e fadas e coisas brilhantes. A impressão passou a certeza quando os alunos lhe perguntaram quais os seus escritores preferidos e ela respondeu Danielle Steel e Paulo Coelho. De volta à sala os alunos perguntaram-me se eu tinha ficado com vontade de ler o livro da menina. Eu fui sincero e disse que não. Porquê, professor? Porque eu não tenho gostos semelhantes à da autora, disse, não gosto dos autores que ela referiu como sendo os preferidos dela. Eles não sabiam quem eram os dois autores. E expliquei que o primeiro era uma autora e não um autor (como a intervenção da menina fez parecer aos alunos ) e que o segundo era de um dos autores mais lidos (ou mais comprados) no mundo depois de Maomé e Moisés, mas que para mim não valia nada. Uma aluna diz-me logo que gostos não se discutem. E eu respondi que não, que os gostos discutem-se sim, e que é muito bom discutir gostos, e que seria óptimo que alguém de entre eles lesse o livro daquela autora e me viesse dizer no dia a seguir que era um livro maravilhoso. E seria ainda mais maravilhoso que o meu preconceito (e preconceito, em matéria de gosto, nem sequer é defeito, desde que seja assumido - mas isso já não fez parte da conversa) se transformasse, a partir da opinião deles, em admiração. Depois, deu o toque do meio do bloco e fui falar do buraco da camada de ozono para outra turma.

 

A autora chama-se Anabela Lopes e o livro, o primeiro do que se espera ser uma série de quatro, chama-se  "Lua: A Princesa da Floresta Dourada", e é editado pela "Mosaico de Palavras".

 

Agradecerei qualquer comentário de qualquer leitor que me venha a indicar que a autora, ainda que leitora de Steel e de Coelho, segue por trilhos mais interessantes.

 

Quanto a mim, continuo sem assunto (contradigo-me: continuo com muitos assuntos que se atropelam na minha crónica falta de tempo e de organização). Inté.

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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009
In memoriam João Bénard da Costa (1935 - 2009)

Excerto de "A Palavra", de Carl Theodor Dreyer

 

Luís de Pina, o penúltimo director da Cinemateca Portuguesa, morreu quando comecei a interessar-me pela obra de John Ford, pela simplicidade das frases compostas por imagens e pela força sobrenatural dos céus sobre a monumentalidade despojada dos rochedos que servem de fundo a algumas das mais belas obras de arte do mundo contemporâneo. Lembro-me de que, tendo jamais sido espectador de um filme que fosse na Rua Barata Salgueiro, porque não morava a distância útil de Lisboa, senti  que aquele nome, Luís de Pina, era o nome de alguém que comigo partilhava uma religião de poucos adeptos, sendo, para mais, ele um dos seus santos maiores. Descobri-o mais tarde, na Biblioteca António Botto, de Abrantes, onde li os seus ensaios sobre John Ford como o mais devoto e fanático dos crentes lê as escrituras sagradas, numa altura em que devia estar mais preocupado com os grupóides e com demonstrações matemáticas. Hoje, creio que fiz bem. A parte boa de mim deve mais a tais leituras que às horas perdidas a estudar matérias hiperespecializadas de Matemática que só me seriam úteis se seguisse por outro caminho profissional. Hoje, as minhas preocupações com a Matemática prendem-se mais com a melhor forma de pôr alunos que não sabem a tabuada a resolver problemas que envolvem raciocínios básicos sobre múltiplos de números. Adiante. Quando morreu Luís de Pina, que muito me foi útil para a minha formação de cinéfilo e realizador de cinema frustrado, ouvi falar, pela primeira vez, de João Bénard da Costa. Pouco tempo depois, fui começando a conhecer alguma coisa do seu pensamento cinéfilo que, tal como o meu, identificava muito uma certa forma de viver religiosamente a vida  com a experiência que se pode ter de uma obra de arte. Foi graças a um programa que dirigiu na televisão que vi pela primeira vez o filme "Ordet" - "A Palavra", de Dreyer. E foi num comentário que lhe ouvi, a respeito deste filme, e que jamais conseguirei repetir textualmente, que vi, num clarão incompreensível, que a Ressurreição, mais que uma questão de Fé, é um facto.

 

Por isso, não posso compreender como é que os responsáveis pela Cinemateca Portuguesa decidiram homenageá-lo com o "Johnny Guitar" - que ele, com certeza, amava, mas que é um filme sobre a morte - e não com o filme de Dreyer que, para todos os efeitos, é um filme sobre a vida. João Bénard da Costa merecia um acto de amor e de fé maior. Um acto que talvez considerassem mórbido mas que, para mim, é o único acto possível.  Há que aceitar que as nossas Fés divididas não suplantam o nosso uno Amor.

 

Hoje, repito, em memória do homem que, como todo o cinéfilo, acredita na Ressurreição, o excerto de "Ordet" que, ainda hoje, me faz duvidar dos limites que a racionalidade estabelece entre a Crença e a Verdade palpável das equações.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:07
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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Curta 41

Bem dito.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:14
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Terça-feira, 19 de Maio de 2009
Sobre orgias e outras badalhoquices

Cena (em castelhano) de Calígula, de Tinto Brass.

 

Uma professora portuguesa de uma escola de Espinho andou a falar com os alunos sobre orgias romanas e sobre a homossexualidade na Antiguidade Grega. Os alunos, chocados, contaram aos pais. A professora soube (não sei como nem por que via, mas já estou habituado ao luso jornalismo que só conta as coisas por metade porque não sabe investigar nada) e fez ameaças aos alunos e teve conversas estúpidas com os alunos sobre os linguados que só não faziam às árvores porque elas não respondiam. Devo discordar da parte em que a senhora diz que as árvores não respondem às demonstrações de afecto. Se há ser vivo à face da terra que responde  a gestos de amor, são as árvores. Jesuis Cristo é o jardineiro e as arveres somos nozes, como diria a conhecida estrela do Youtube. As árvores respondem de insuspeitas maneiras ao amor que lhes é devotado, mas isso é outra questão no que à Educação Sexual diz respeito. Aquela senhora, dona das suas muitas habilitações literárias, ao contrário da minha pessoa que só tem uma licenciatura rasca e não tem pretensão a mais, até porque sei o que valem os canudos, em peso real, em Portugal, ainda que demonstrasse uma extrema ignorância sobre a homossexualidade na Grécia, que advinha apenas de valores moralistas, não digo morais, diferentes dos actuais e que, em termos absolutos, não significava que os gregos andassem todos nus em orgias depois da ginástica, apesar do que as figuras dos vasos poderão fazer pensar ao mediano cidadão dos tempos de hoje, e ainda que não perceba que as orgias romanas só diferem das actuais porque as actuais decorrem a horas menos oficiais que as dos imperadores que sobejamente admiravam os apetrechos cavalares dos seus cônsules, aquela senhora, dona das suas muitas habilitações literárias e que, apesar disso, pouco sabe de história, pecou apenas por uma, duas, três, esqueçam, por uma carrada de razões, mas a principal é por causa do seu enorme e nojento conservadorismo. Eu sei que não devia falar assim de alguém que está a ser avaliado apenas por algumas espersas gravações feitas por alunos que em nada simpatizavam com a senhora em causa. As frases soltas da senhora são berradas num tom que nem sempre é compreendido por quem nunca teve o dinamismo adolescente de trinta espécimes humanos à frente com um programa chato para dar. Aquela senhora, supostamente, quis apenas dar um outro colorido à história. Os alunos estão a adormecer com aquela história dos Romanos e... voi... basta falar de umas bailarinas meio despidas, ou quase totalmente despidas, ou mesmo todas badalhocamente despidas e de uns tipos que vomitavam depois de as comerem (será que elas eram assim tão feias?), para o público parar. Estou mesmo a ver a senhora... Olha, deu resultado: estão a olhar para mim, Aleluia! Consegui captar a atenção dos alunos! Vou pôr na minha autoavaliação: "motiva os alunos fazendo apelo as seus interesses". Espectáculo! E, já agora, passemos a falar também daqueles rabetas dos Gregos... Mas, pouco depois, ou um mês ou dois depois, a gente vai lá saber, que isso de gravações é muito dado a elipses, já está a senhora a dizer coisas muito bonitas sobre a perda da virgindade e de hímenes rotos durante o parto (como nem à Virgem Maria terá acontecido durante o parto de Jesus, ao que me parece, de uma leitura que já fiz não sei onde, já que a virgindade de Maria teria de ser a todos os níveis, não fosse a sensibilidade lógica dos crentes sofrer de golpe mortal com a possibilidade de uma membrana orgânica ter sofrido qualquer abrasão) e a querer envergonhar as meninas por causa de terem ou não visto filmes pornográficos. Mas o mais engraçado é o pessoal julgar que alunos do sétimo ano ou coisa que o valha, ainda não viram, nem que fosse um breve excerto, de um filme pornográfico. Viram, reviram, e não os choca. O que os chocou, naquela senhora, foi o tom. O tom prepotente de quem sabe, ou julga que sabe, o que diz. O tom prepotente de quem culpa os outros pelo desejo que sentem e pelos linguados que fazem. Não foi por esta senhora falar de orgias, nem de gregos pederastas, nem por treta nenhuma. Esta senhora foi culpada - ou talvez não - de querer implementar o que os governos portugueses de algum tempo para cá tentam impor de forma acéfala: e Educação Sexual por parte de uma classe de professores absolutamente heterogénea e, provavelmente, mal educada a esse nível. Os professores mais dados à mudança e mais liberais coexistem com professores com cheiro a sacristia. E se algo me vem às narinas ao ouvir as gravações descontextualizadas daquelas aulas, era cheiro a hóstia recessa tomada em pecado. Só ficam escandalizadas com este caso as pessoas que não sabem do que e como falam alunos do quinto ano a respeito de coisas que fariam envergonhar a minha avó (que, digo eu, era fresca). Vejo na SIC o Júlio Machado Vaz a dinamitar a senhora. Diz que aquilo não é Educação Sexual. Pois não. Não é. Mas acreditem que será essa a Educação Sexual que muitos alunos de Portugal terão se se mantiver a ideia absurda de pôr os professores a educarem sexualmente de acordo com uma coisa iluminada que se chama Projecto Curricular de Turma. Estou a ver o filme. Numa reunião de Conselho de Turma, o DT pergunta: a História, qual vai ser o contributo? A professora fica encabuldada e diz: "olha, posso falar da homossexualidade na Grécia Antiga e nas orgias dos Romanos"... tudo factos - muito pseudo, de facto - históricos... Mas a questão nem é essa: aqueles alunos detestavam aquela professora. Esse é o facto. E, de seguida, tentam (e conseguem) encravá-la pescando-a com o isco que mais a atrai: os pecados da carne. Para aquela senhora, a história da humanidade é um mural de cenas retiradas do Marquês de Sade filmado pelo Pasolini. Ela é a espectadora chocada. Ela é os próprios pais daquelas puras criancinhas que ficam chocadas com a professora que fala dessas coisas horríveis. Aquela professora é a sinédoque de todos os pais que acham terrível a ideia de dar nas escolas, de graça, aquilo que os alunos já têm de graça (e muito bem) fora da escola. Aquela professora (aquela, a das gravações, que a verdadeira, não a conheço de lado algum) identifica-se com os mesmos pais que agora a querem linchar. Os pais que falam destes jovens sem vergonha que fazem linguados e trocam cuspo a cada canto da escola. Este episódio é apenas um sinal da hipocrisia e da parvoíce que repassa a sociedadezinha portuguesa. E, no meio de tudo, a professora, cujas palavras gravadas e respectivo tom eu condeno veementemente) não é, bem vistas as coisas, de modo algum, a mais hipócrita. Será, provavelmente, uma das mais parvas... mas esse é o menor dos males.

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Domingo, 17 de Maio de 2009
O Homem que matou José Sócrates

Excerto de "O Homem que matou Liberty Valance", na altura em que matar era uma questão de honra.

 

Chama-se erva-cicutária, mas não tem nada a ver com cicuta que matou o sábio grego. É uma planta umbelífera. As flores, minúsculas, estão agrupadas naquilo a que os botânicos chamam de umbelas, palavra que faz lembrar guarda-chuva. São umbelíferas as cenouras e a salsa, mas os alhos, que não são umbelíferas, também têm flores em forma de umbela. Há outras ervas altas a passar perante o olhar fixo no fundo da estrada daquele homem que vai mudar o mundo... o mundo não, vá lá... Portugal. Sim, aquele homem vai mudar Portugal ao fazer a curva tapada por grandes hastes de erva cicutária, erva que nasce muito vulgarmente nas beiras das estradas e caminhos portugueses. Este homem que vai a correr, aconselhado pelo médico por causa da hipertensão que lhe foi diagnosticada não sabe que ao virar daquela umbela branquinha mais espetada se vai espetar contra o primeiro-ministro português que, não sendo natural daquela terra, ali pernoitou por causas que se prendem ao cargo e que não vêm agora ao caso, até porque o ficcionista tem mais em que se preocupar.

 

Do lado ortogonalmente oposto ao do homem que, por enquanto, ainda não matou Sócrates, nem sei se vai matar, vem esse mesmo, de nome José, senhor de porte elegante e cabelos prateados que, apesar de simples primeiro ministro de um país que apenas foi grande em épocas passadas, já dá nas vistas dos ociosos jornalistas das vaidades mundanas do país ao lado. Naquela hora da manhã, quando os jornalistas ainda não o perseguem (é a vantagem de se ser primeiro ministro num país como este, onde os fotógrafos cor-de-rosa, como qualquer funcionário público, gostam é de passar a manhã na caminha, cansados das noitadas ao lado da Lili Caneças), Sócrates, com a noite mal dormida, passa rente às ervas que recebem indevidamente o nome daquela outra que matou o seu homónimo filósofo grego, mas ignora essas particularidades científicas. Por enquanto, só lhe passa pela cabeça aquela anedota parva que o põe a dizer num hotel, com o seu excelente inglês técnico, tu ti tu tu tu tu, querendo dizer "dois chás para o 222". Ele sabe que a anedota não é sobre ele em particular - basta procurar no Google para ver que outros políticos, como o Lula da  Silva, também são escolhidos pelos respectivos governados como personagens principais da anedota, mas não deixa de ser triste. Ele tem os seus defeitos, claro que tem... Quem não tem pecados que atire a primeira pedra, ora raios... É como aquela treta dos favorecimentos que os beiços gordos e peçonhentos da Moura Guedes pretende vender... Mesmo que fosse verdade... repete para si... mesmo que fosse verdade: quem é que em Portugal não vende favores? Quem???

 

Ao virar a última erva-cicutária daquele lado do caminho, bateu com o homem das Novas Oportunidades. Um simples choque que não traria consequências de maior, não fosse o caso de ambos estarem a grande velocidade e, em termos relativos, terem embatido ao dobro da velocidade média de um homem a fazer jogging, o que no momento foi particularmente grave já que o coração, em momento de diástole, não recebeu o sangue que devia entrar pelas aurículas, pelo que o primeiro caiu no chão, redondo, enquanto no seu cérebro apenas ouvia a sílaba parva de um tu tu tu tu e sobre ele dançavam umbelas brancas e angelicais. Antes de se apagar, ainda pensou que, felizmente, não devia nenhum galo a Esculápio.

 

O homem das Novas Oportunidades não o reconheceu. Não tinha saldo no telemóvel (estava desempregado e não podia ter esses luxos, mesmo com o subsídio que recebia por andar a estudar de novo) e não ligou para o INEM. Azar. Fugiu dali como um coelho foge da raposa. Ingrato. Cobarde. Mas, à tarde, insuspeito, sentiu-se importante quando deram a notícia na televisão, enquanto rodava entre os dedos o canudo que lhe tinha sido entregue no dia anterior.

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