Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Terei gosto em provarem que estou enganado

Pormenor de "A Escola de Atenas" de Rafael

 

Este blogue não é, de modo algum, um blogue que se possa inserir na categoria de blogue de actualidade ou política. É um blogue de pura preocupação estética, ética, teológica e, por vezes, científica - enfim, aquilo que, para mim, vale realmente a pena discutir. Sou absolutamente avesso à maioria dos provérbios populares portugueses e, se há dois provérbios que acho o extremo do cúmulo do mau gosto e da estupidez são duas pérolas (ou serão duas caganitas de porco engripado?) que, para mal dos meus pecados, são dois dos mais citados por quem me rodeia: "gostos não se discutem" e "para bom entendedor meia palavra basta". São dois provérbios que apelam à inanidade e à paralisia mental (não confundir com paralisia cerebral, porque respeito muito quem tem tal problema), mas que, ao bom gosto da forma de pensar do ser humano (ia dizer "dos portugueses", mas apercebi-me que tal endofobia é igualmente estúpida), estabelecem à partida que quem não concorda com eles é, sem dúvida alguma, alguém sem educação (e entenda-se por educação as boas maneiras e o desenvolvimento cognitivo). Ora, na minha opinião, assim como é preciso dizer sempre as palavras todas - principalmente para os bons entendedores, porque para os maus, se meia palavra já é de mais, uma inteira é um enfarte cardíaco - não há nada que mais valha a pena discutir que os gostos. A política expressa-se, professa-se, não se discute. Claro que as opiniões políticas dos outros nos podem influenciar e, até, fazer mudar de rumo ideológico, mas nunca o poderemos confessar abertamente. Se há maior medo entre os homens políticos é o de ser apelidado de vira-casaca. Não sei bem de onde vem tal aversão àquela que poderia ser uma das mais saudáveis características de um ser que pensa, mas a verdade é que se formos a ver, a nível nacional, a galeria de vira-casacas, temos de concordar que são uma corja miserável com um certo colorido a vomitado, sejam os très-dur argileux, a tipa que gostava de usar sapatos vermelhos e outros espécimes afins. Tudo gente que debanda da esquerda para a direita. Tentei lembrar-me, mas não consigo evocar a imagem de ninguém que tenha saído da direita e entrado na esquerda, a não ser, claro, os esquerdistas forçados do 25 de Abril que até fizeram aparecer uma coisa chamada Partido Social Democrata que faz abrir a boca de espanto aos estrangeiros, quando temos de explicar que é o nome de um partido de centro-direita. Claro que não vou divagar sobre outra coisa, de tão óbvia que é, nem mereceria qualquer menção da minha parte como o absurdo de sermos governados por um partido de direita que, graça das graças, é "socialista". Pois, hoje lembrei-me de escrever algo neste campo apenas por uma razão: um aluno perguntou-me quando é que chegavam os cheques-dentista, que são 40 euros dados pelo estado a crianças de sete, dez e treze anos. A medida parece boa, mas é uma medida socialista? É uma medida de esquerda?... Ou melhor: é uma medida que vá favorecer os mais pobres - e, mais importante que isso: vai favorecer as crianças mais pobres??? É que podemos pensar, à boa maneira direitista, que os pobres são pobres por culpa própria, por preguiça, por burrice, por má formação, por cheirarem mal dos pés, por serem zarolhos... mas, e as crianças? Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?... Augusto Gil, a Balada da Neve, etc. As crianças, essas, claro, se tiverem mérito, conseguirão sair do esgoto onde crescerem e serão, no futuro, Berardos e outros self-made men menos amantes do investimento na cultura. Tudo à conta de sacrifícios por que os seus filhos, por seu lado, já não terão de passar. Entre esses sacrifícios, claro, está ficar com os dentes podres e ter todas as dores cruciatus a caminho de uma avada kedavra não protegida por feitiço de amor materno (porque os pais, claro, são preguiçosos e negligentes, aliás, é por isso que são pobres). Ora, este Post Scriptum ao Socialismo disfarçado de partido político, decidiu dar cheques de 40 euros para as crianças das idades referidas utilizarem em determinados dentistas que fizeram acordo com o estado. Até parece bem... Parece. Acontece que 40 euros não dá para coisa nenhuma num dentista em Portugal... para uma criança de sete ou dez anos, com dentição de leite, o mal não é grande, os dentes vão acabar por cair e sempre se pode rezar para que nenhuma dor de dentes acabe em abcesso e septicemia... Mas vou emendar: 40 euros dá para alguma coisa: dá para ir ao dentista fazer o diagnóstico das cáries, se o dentista for dos baratos. Depois, os pais que se danem com a consciência pesada se, depois de terem levado os filhos ao dentista com os 40 euros dados pelo Sócras, chegarem à conclusão que o estado só pagou para eles ficarem a saber que os filhos estão em risco de sofrer tormentos infernais e que não os poderão salvar dessa tortura porque há coisas que têm de ser pagas em primeiro lugar, e uma dor de dentes sempre se acalma com uns goles de aguardente. No fundo, se estes meus receios se confirmarem (e espero que não se confirmem - isto é, gostaria que uma consulta servisse ao menos para tratar um dente ou dois em pior estado) estes cheques são publicidade paga a certos dentistas que, assim, esperam angariar mais clientes. Só sairão beneficiados disto aqueles que já vão ao dentista porque têm dinheiro para o fazer e que pouparão desta forma 40 euros.

 

Mas é por isso que falo pouco de política. Sou daqueles totós que gosta de dar o benefício da dúvida ao maior dos ladrões (e quem dá o benefício da dúvida nunca poderá ser bom orador político - um político tem sempre a certeza quanto às más intenções do seu opositor). E dou o benefício da dúvida a esta medida do governo. Não confio nela. Parece-me mais uma medida segundo a lógica-de-hipermercado-que-dá-descontos-e-outros-truques a que este governo já nos habituou. Mas dou-lhe o benefício da dúvida. Tal como dei aos computadores do e-escola, de que os alunos continuam à espera.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:08
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Os amentilhos dos choupos-negros

Há quem queira ver os choupos-negros de Guimarães erradicados por causa do algodão que libertam dos seus amentilhos nesta época do ano. Sempre por causa das alergias. Eu não tenho alergia a qualquer fragmento de Primavera, mas se tivesse, não me julgaria no direito de de privar os outros de contemplar o espectáculo vital do curso das estações . São apenas alguns dias em que volta a nevar em Guimarães e, especialmente, em Azurém, onde o choupo que quase toca a minha varanda explode numa nuvem de sementes que voam e se acumulam em todos os recantos e germinam em cada poça de água.  Este pequeno filme, o primeiro que publico no Youtube, foi filmado no parque da cidade. Não está grande coisa, eu sei. Estou ainda a aprender.

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publicado por Manuel Anastácio às 12:00
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Domingo, 26 de Abril de 2009
Os Anéis de Mercúrio III

Pormenor de "A Transfiguração", de Rafael, Pinacoteca Vaticana.

 

É um recanto forrado a azulejos verde-azulados, alguns deles estalados e, à altura do caixão, a mármore mal ajustado. Da parede pendem quadros com inscrições árabes emolduradas como compete às obras de arte visuais que a religião proíbe mas que o engenho transforma, hereticamente, em imagens tão obscenamente figurativas quanto uma qualquer caricatura sacrílega do Profeta. Ali se expõem as curvas pérfidas do corpo tentador de uma mulher ou o movimento ondulatório das serpentes, mas ninguém se incomoda. São letras. Não são imagens. Só por mera ilusão sensorial dos nossos fracos e limitados olhos poderíamos pensar que as letras fossem a imagem de um som. Ideia ridícula. Pior ainda, pensar que, juntas, fossem a imagem que os crentes não auditivos formam no seu cérebro ainda mais limitado. A. não sabe se o Corão, antes de ser revelado aos homens, através do Profeta, existia enquanto som ou enquanto imagem gráfica, porque a imagem gráfica do Corão é o próprio Corão, intraduzível e eterno. A forma indissolúvel do conteúdo.

 

A. traz ainda nas narinas o cheiro a peixe da aldeia de Sariyer, na margem europeia de Istambul e sente que não está devidamente purificado para se aproximar do túmulo do evliya Telli Baba, expressão que não quer dizer mais, em turco, que santo ancião dos fios de prata. Muitos dos visitantes (geralmente jovens e mulheres) arrancam, ao túmulo enovelado de fios de prata um ou dois fios e saem respeitosamente depois de feitas as preces. Se estas não forem respondidas com actos divinos tão urgentes como o casamento de uma qualquer jovem encalhada, os fios não voltarão. Mas o número de fios brilhantes não para de aumentar sobre os restos mortais daquele que, como uma noiva, também cobria o seu turbante com tais acessórios de luz refletida. E Deus, cuja luz se reflete naqueles fios, aceita melhor aqueles que assinalam a sua presença, tal como o noivo que se alegra de ver a noiva carregada com os seus presentes, sinais da sua riqueza.

 

Está A. a descer de novo em direção à aldeia de Sariyer quando se cruza com ele um grupo festivo de um casamento. A noiva vai devolver os fios que retirou à tumba do santo, juntando-lhe outros tantos, para sua maior glória.

 

A. é assaltado por um problema de matemática, que envolve algum cálculo de probabilidades: se cada crente leva dali um ou dois fios e só os devolve se as suas preces forem atendidas (admitamos que os devolvem com tantos fios atados quanto as preces atendidas), qual terá de ser o balanço mínimo entre as preces ignoradas e as atendidas, para que os fios não desapareçam por completo? Note-se que cada pessoa pode ter feito mais que um pedido ao santo. Note-se que, por vezes, o crente perde a fé (pouco frequente, por aqui, mas acontece) ou esquece-se de pagar a promessa, mas que, por outro lado, há crentes que pagam as promessas que fizeram mais aquelas que, não tendo sido feitas, foram, na mesma, atendidas, mais aquelas em que o santo, contra a nossa vontade, acabou por decidir de outro modo, e em que acabamos por lhe dar razão. São assim os santos, sabem mais de nós que nós mesmos pelo simples facto de não nos conhecerem de lado algum.

 

Santo guerreiro, tal como o português de Aljubarrota, protetor dos salpicos de óleo quente, era esse Telli Baba, que ali se instalara, naquele mesmo local onde agora era venerado, com os seus efeminados fios de prata sobre o turbante, não porque fosse efeminado, mas como forma de humilhar o seu orgulho guerreiro à simples condição de escravo da vontade divina, como já o fez a Virgem, santa mãe daquele profeta que os russos, deste lado do Bósforo, têm a sua aproximação vigiada pelo santo, pintam em ícones blasfemos aureolados de rendilhados também prateados ou dourados. Toda a gente que se quer candidatar ao lugar de santo trata de dar algum lustro à cabeça, seja pela tonsura seja por acção divina direta, como aconteceu a Moisés que, na mão dos Cristãos, tendo facies coronata viu a sua imagem transfigurada em facies cornuta e a partir daí passou a ser representado com chifres, símbolo de poder, tal como já era feito a Alexandre o Grande, cuja fama também já chegou aos ouvidos de Telli Baba. É frequente esta troca, a da santidade pelo pelo poder, e A. quando chega à casinha de madeira de compridas janelas onde está hospedado pensa que bem poderá ser esse o significado do tão obscuro momento da transfiguração, em que o Cristo, o simples Filho do Homem é elevado ao nível dos profetas mortos arrebatados para a Glória de Deus. No momento em que se consuma a ascensão, quando do Cristo vemos apenas os pés abaixo do rebordo superior da moldura dos quadros, sabemos que aquele homem simples, que se sentava com as prostitutas e comia com os publicanos, não deixará o trono celestial. Assim se transfiguram as belas verdades humanas em símbolos justificadores da repressão e motivadores do ódio dos homens pelos homens. Assim se transfigura uma pobre donzela de Orleães numa assanhada guerreira devotada em decepar ingleses, assim se transfigura o monge Nuno Álvares Pereira, envergando a cota de malha debaixo do hábito, num decepador de espanhóis. Assim se transfigura a cruz, onde o Filho do Homem foi humilhado, no ceptro onde se apoiam os poderosos.

 

Quando A. se senta, sozinho, na casa de pescadores onde lhe servem o peixe fresco arrebatado às água chicoteadas por Xerxes, pensa que, de facto, só as águas se mantêm fiéis à sua liberdade. Feridas pelo chicote ou pela quiha dos navios, logo se fecham numa cicatriz de espuma que rapidamente desaparece. Ali, no Ponto, na margem para onde Zeus levou Europa às cavalitas, A. leva as mãos aos bolsos para se certificar que o fio prateado ainda lá está. Amanhã terá de partir. Mas promete a Telli Baba que voltará, com mais fios atados a este. 

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publicado por Manuel Anastácio às 11:12
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Sábado, 25 de Abril de 2009
Iron Man, Blimunda e o realizador de cinema frustrado

Trailer de Iron Man. Porque não é possível fimar nuvens fechadas. Ou talvez seja.

 

Nunca fui grande leitor de Banda Desenhada, tirando os livros do Asterix (aqueles que ainda tinham a mão do Goscinny) e do Lucky Lucke (e claro, as eternas revistas do Patinhas e do Maurício de Sousa). E nunca me interessei particularmente por super-heróis da Marvel e afins. Para mim, só existe o Batman do Tim Burton (ainda não vi o Cavaleiro das Trevas) e nunca peguei num exemplar que seja de um número do Super-homem. Primeiro, porque sempre me pareceu que estes heróis não eram heróis nenhuns. Eram apenas personagens que se davam ao luxo de fazer o bem porque eram dotadas de poderes que lhes permitia fazê-lo comodamente (e quando estão em apuros por causa do vilão que aparece, não estão mais que a salvar a própria pele). Nisso, a literatura "séria" leva vantagem ao colocar o heroísmo ao nível dos pequenos actos, ao alcance da mão humana. Mas nem sempre. O exemplo que me vem sempre à Memória é o de Blimunda, em "O Memorial do Convento", que, sem o seu poder de translúcida visão, capaz de ver as nuvens fechadas nas hóstias e almas que se esvaem para o éter, jamais seria útil para o Padre Bartolomeu de Gusmão. Há, em "O Memorial do Convento" uma contradição aparente entre o encerramento de Deus em si mesmo e o maravilhoso que permite a elevação dos sonhos ao cume do impossível, ao modo do Deus ex machina do teatro grego. Mas é apenas aparente essa contradição, porque a passarola cai, e o fim é triste para os heróis, restando apenas o sonho, impossível de ser queimado na fogueira da intolerância. O maravilhoso não é, portanto, solução para nada.

 

Mas serve este artigo apenas para registar algumas das impressões de um filme, mediano, é certo, mas que pode perfeitamente tomar o corpo exemplar do que é entretenimento, palavra tão odiada por quem nela vê apenas prazer sem consequências edificantes. Ora, para mim, o entretenimento é sempre uma forma de preencher o tempo com as nuvens fechadas dos nossos deuses, seja rezando terços atrás de terços, seja lendo poesia, seja apanhando borracheiras, seja martirizando a carne, seja vendo filmes, lendo romances, indo à Ópera, ao Ballet, ou jogando Tetris. Em tudo se encerram nuvens em si mesmas. Nas minhas palavras há uma nuvem em que nem o meu mais empático leitor alguma vez poderá vislumbrar outra coisa senão o átomo opaco da mais irredutível solidão.

 

O Iron Man é, inicialmente, um Playboy de nome Tony Stark. Um geniozinho do armamento que é quase fatalmente ferido pelas suas próprias armas, usadas por aqueles que não as deveriam ter. Uma história de super-heróis é sempre uma história maniqueísta, por mais pozinhos de ambiguidade que se ponham no lado dos bons ou dos maus. É preciso sempre separar águas, mesmo que essas águas se desejem, como nas cenas fetichistas da Mulher Gato a lamber a cara ao Homem Morcego, de Burton. E o Iron Man não pode escapar ao maniqueísmo nem ao fetichismo - no primeiro caso, dividindo habilmente e de acordo com o bom senso (alguns diriam politicamente correto) a bondade e a maldade entre americanos e estrangeiros afegãos e, no segundo caso, através do poder que se exterioriza numa segunda pele de liga de titânio. É exemplar, a este nível, a entrada em cena de Pepper (Gwyneth Paltrow) num momento em que Stark (Robert Downey Jr.) tem um diálogo manhoso com o robot que o assiste, como se este estivesse a iniciar-se em alguma prática erótica capaz de escandalizar a submissa e apaixonada assistente, que tenta acalmar dizendo "Sejamos realistas, não foi a pior coisa que me viu a fazer!".

 

Stark, ao ser ferido, perde o coração numa caverna. É como que a síntese e a antítese do Homem de Lata do Feiticeiro de Oz. E, sem coração, reencontra a humanidade que não teve enquanto o tinha e, ainda, transforma o seu coração na arma que terá de enfrentar no final. Uma guerra contra si mesmo, ao bom estilo metafórico-religioso com que eu gosto de ler as coisas mais simples. O super-herói define-se, na sua condição de arrependido, como o mais inteligente (aquele que é capaz do impossível - o técnico a serviço do vilão di-lo claramente: "I'm not Tony Stark" - eu não sou capaz de fazer num laboratório de tecnologia de ponta aquilo que o herói foi capaz de fazer numa caverna com sucata e a ajuda de um cordeiro sacrificial) e o mais corajoso, ao ser capaz de se dar em sacrifício. Mesmo munido de poderes, há que criar um calcanhar de Aquiles que  fragilize o herói, de modo a realçar a sua superioridade moral sobre o vilão. O argumento deste filme fá-lo de forma competente.

 

A Gerana queixa-se de que tenho andado a falar mais de cinema que de literatura. É assim. Talvez porque eu seja mais recontador que criador. Sou mais realizador de cinema que escritor. Dessem-me uma equipa de produção e seria capaz, pelo menos, de fazer algo semelhante a este filme. Uma história. Apenas. Recontada. Já não é pouco.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:37
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Domingo, 19 de Abril de 2009
O Visconde cortado ao meio, de Italo Calvino

In Questa Reggia, de Turandot, cantado por Ghena Dimitrova, Arena di Verona, 1983. É favor apertar os cintos...

 

"O Visconde cortado ao meio", de Italo Calvino, é o primeiro livro da trilogia "Os Nossos Antepassados". É um livro de linguagem e estrutura feérica, onde as formas mais presentes nos tradicionais contos de fadas conseguem ser desenvolvidas nos seus aspectos mais terríveis, a caminho do sadismo, num contexto referencial adulto, norteado por um sentido de humor que balança entre o infantil e o mais filosoficamente profundo cinismo. Hiperbólico e metafórico, é um romance poético sem se deixar ofuscar pela sua linguagem poética. A invenção do absurdo nunca se sobrepõe à narrativa que avança sempre com o mais nobre (e hoje, cada vez mais difícil) intuito de qualquer obra de ficção, que é contar uma história. Há, com certeza, um fundo moral e político que, independentemente de qualquer pretensa opção puramente hedonista do autor, conforma uma alegoria sobre a natureza humana e a sua necessária complexidade. Ao contrário de alguns autores, não considero que Calvino ataque a bondade pura; apenas expõe ao ridículo a sua estéril e impotente obra e o desejo de recorrente reformismo, em contraste, por exemplo, com a atitude pedagogicamente correta da ama Sebastiana que admoesta a parte boa do visconde sem querer saber de qualquer desculpa baseada na origem maligna dos comportamentos apenas imputáveis à parte má, porque ambos permanecem, ao seu olhar maternal, como um só.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:00
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