.Últimos bocejos

. Todas as águas

. Todos os poemas

. Hold back your love, Whit...

. Hallelujah Money, Gorilla...

. 4

. 3

. Love & Hate, Michael Kiwa...

. T-shirt weather in the ma...

. Yonkers, Tyler, the Creat...

. 2

. 1

. i

. Anacreonte

. Educação do meu imbigo

. Voltei! Ou talvez não (co...

. Uma arte, de Elizabeth Bi...

. Uma arte, de Elizabeth Bi...

. Manual de Etiqueta e boa ...

. Aurora dos Pinheiros

. Versículos angélicos

. (19/01/2014)

. Cristianismo

. Arbeit macht frei

. Isso

. Limite

. Resignação solene

. LXXVIII

. Florentino Ariza num dia ...

. I've seen horrors... horr...

. Se bem me esqueço

. Enciclopédia Íntima: Pátr...

. LXXVII

. Experimental como o desti...

. Ruy do car(v)alhinho

. LXXVI

. Overgrown, James Blake

. MS MR - Hurricane

. Buscas pedidas: "filmes s...

. Para Thatcher

. S&M

. LXXV

. Mails da treta: Ímans e a...

. LXXIV

. Agnes Obel

. Amar, casar, perverter

. LXXIII

. LXXII

. LXXI

. Amar é dizer parvoíces

. Orgasm (Rock Cave), de Cr...

.Velharias

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Agosto 2016

. Maio 2016

. Janeiro 2015

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Março 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Terei gosto em provarem que estou enganado

Pormenor de "A Escola de Atenas" de Rafael

 

Este blogue não é, de modo algum, um blogue que se possa inserir na categoria de blogue de actualidade ou política. É um blogue de pura preocupação estética, ética, teológica e, por vezes, científica - enfim, aquilo que, para mim, vale realmente a pena discutir. Sou absolutamente avesso à maioria dos provérbios populares portugueses e, se há dois provérbios que acho o extremo do cúmulo do mau gosto e da estupidez são duas pérolas (ou serão duas caganitas de porco engripado?) que, para mal dos meus pecados, são dois dos mais citados por quem me rodeia: "gostos não se discutem" e "para bom entendedor meia palavra basta". São dois provérbios que apelam à inanidade e à paralisia mental (não confundir com paralisia cerebral, porque respeito muito quem tem tal problema), mas que, ao bom gosto da forma de pensar do ser humano (ia dizer "dos portugueses", mas apercebi-me que tal endofobia é igualmente estúpida), estabelecem à partida que quem não concorda com eles é, sem dúvida alguma, alguém sem educação (e entenda-se por educação as boas maneiras e o desenvolvimento cognitivo). Ora, na minha opinião, assim como é preciso dizer sempre as palavras todas - principalmente para os bons entendedores, porque para os maus, se meia palavra já é de mais, uma inteira é um enfarte cardíaco - não há nada que mais valha a pena discutir que os gostos. A política expressa-se, professa-se, não se discute. Claro que as opiniões políticas dos outros nos podem influenciar e, até, fazer mudar de rumo ideológico, mas nunca o poderemos confessar abertamente. Se há maior medo entre os homens políticos é o de ser apelidado de vira-casaca. Não sei bem de onde vem tal aversão àquela que poderia ser uma das mais saudáveis características de um ser que pensa, mas a verdade é que se formos a ver, a nível nacional, a galeria de vira-casacas, temos de concordar que são uma corja miserável com um certo colorido a vomitado, sejam os très-dur argileux, a tipa que gostava de usar sapatos vermelhos e outros espécimes afins. Tudo gente que debanda da esquerda para a direita. Tentei lembrar-me, mas não consigo evocar a imagem de ninguém que tenha saído da direita e entrado na esquerda, a não ser, claro, os esquerdistas forçados do 25 de Abril que até fizeram aparecer uma coisa chamada Partido Social Democrata que faz abrir a boca de espanto aos estrangeiros, quando temos de explicar que é o nome de um partido de centro-direita. Claro que não vou divagar sobre outra coisa, de tão óbvia que é, nem mereceria qualquer menção da minha parte como o absurdo de sermos governados por um partido de direita que, graça das graças, é "socialista". Pois, hoje lembrei-me de escrever algo neste campo apenas por uma razão: um aluno perguntou-me quando é que chegavam os cheques-dentista, que são 40 euros dados pelo estado a crianças de sete, dez e treze anos. A medida parece boa, mas é uma medida socialista? É uma medida de esquerda?... Ou melhor: é uma medida que vá favorecer os mais pobres - e, mais importante que isso: vai favorecer as crianças mais pobres??? É que podemos pensar, à boa maneira direitista, que os pobres são pobres por culpa própria, por preguiça, por burrice, por má formação, por cheirarem mal dos pés, por serem zarolhos... mas, e as crianças? Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?... Augusto Gil, a Balada da Neve, etc. As crianças, essas, claro, se tiverem mérito, conseguirão sair do esgoto onde crescerem e serão, no futuro, Berardos e outros self-made men menos amantes do investimento na cultura. Tudo à conta de sacrifícios por que os seus filhos, por seu lado, já não terão de passar. Entre esses sacrifícios, claro, está ficar com os dentes podres e ter todas as dores cruciatus a caminho de uma avada kedavra não protegida por feitiço de amor materno (porque os pais, claro, são preguiçosos e negligentes, aliás, é por isso que são pobres). Ora, este Post Scriptum ao Socialismo disfarçado de partido político, decidiu dar cheques de 40 euros para as crianças das idades referidas utilizarem em determinados dentistas que fizeram acordo com o estado. Até parece bem... Parece. Acontece que 40 euros não dá para coisa nenhuma num dentista em Portugal... para uma criança de sete ou dez anos, com dentição de leite, o mal não é grande, os dentes vão acabar por cair e sempre se pode rezar para que nenhuma dor de dentes acabe em abcesso e septicemia... Mas vou emendar: 40 euros dá para alguma coisa: dá para ir ao dentista fazer o diagnóstico das cáries, se o dentista for dos baratos. Depois, os pais que se danem com a consciência pesada se, depois de terem levado os filhos ao dentista com os 40 euros dados pelo Sócras, chegarem à conclusão que o estado só pagou para eles ficarem a saber que os filhos estão em risco de sofrer tormentos infernais e que não os poderão salvar dessa tortura porque há coisas que têm de ser pagas em primeiro lugar, e uma dor de dentes sempre se acalma com uns goles de aguardente. No fundo, se estes meus receios se confirmarem (e espero que não se confirmem - isto é, gostaria que uma consulta servisse ao menos para tratar um dente ou dois em pior estado) estes cheques são publicidade paga a certos dentistas que, assim, esperam angariar mais clientes. Só sairão beneficiados disto aqueles que já vão ao dentista porque têm dinheiro para o fazer e que pouparão desta forma 40 euros.

 

Mas é por isso que falo pouco de política. Sou daqueles totós que gosta de dar o benefício da dúvida ao maior dos ladrões (e quem dá o benefício da dúvida nunca poderá ser bom orador político - um político tem sempre a certeza quanto às más intenções do seu opositor). E dou o benefício da dúvida a esta medida do governo. Não confio nela. Parece-me mais uma medida segundo a lógica-de-hipermercado-que-dá-descontos-e-outros-truques a que este governo já nos habituou. Mas dou-lhe o benefício da dúvida. Tal como dei aos computadores do e-escola, de que os alunos continuam à espera.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 01:08
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (6) | Adicionar aos favoritos
|
Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Os amentilhos dos choupos-negros

Há quem queira ver os choupos-negros de Guimarães erradicados por causa do algodão que libertam dos seus amentilhos nesta época do ano. Sempre por causa das alergias. Eu não tenho alergia a qualquer fragmento de Primavera, mas se tivesse, não me julgaria no direito de de privar os outros de contemplar o espectáculo vital do curso das estações . São apenas alguns dias em que volta a nevar em Guimarães e, especialmente, em Azurém, onde o choupo que quase toca a minha varanda explode numa nuvem de sementes que voam e se acumulam em todos os recantos e germinam em cada poça de água.  Este pequeno filme, o primeiro que publico no Youtube, foi filmado no parque da cidade. Não está grande coisa, eu sei. Estou ainda a aprender.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 12:00
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (8) | Adicionar aos favoritos
|
Domingo, 26 de Abril de 2009
Os Anéis de Mercúrio III

Pormenor de "A Transfiguração", de Rafael, Pinacoteca Vaticana.

 

É um recanto forrado a azulejos verde-azulados, alguns deles estalados e, à altura do caixão, a mármore mal ajustado. Da parede pendem quadros com inscrições árabes emolduradas como compete às obras de arte visuais que a religião proíbe mas que o engenho transforma, hereticamente, em imagens tão obscenamente figurativas quanto uma qualquer caricatura sacrílega do Profeta. Ali se expõem as curvas pérfidas do corpo tentador de uma mulher ou o movimento ondulatório das serpentes, mas ninguém se incomoda. São letras. Não são imagens. Só por mera ilusão sensorial dos nossos fracos e limitados olhos poderíamos pensar que as letras fossem a imagem de um som. Ideia ridícula. Pior ainda, pensar que, juntas, fossem a imagem que os crentes não auditivos formam no seu cérebro ainda mais limitado. A. não sabe se o Corão, antes de ser revelado aos homens, através do Profeta, existia enquanto som ou enquanto imagem gráfica, porque a imagem gráfica do Corão é o próprio Corão, intraduzível e eterno. A forma indissolúvel do conteúdo.

 

A. traz ainda nas narinas o cheiro a peixe da aldeia de Sariyer, na margem europeia de Istambul e sente que não está devidamente purificado para se aproximar do túmulo do evliya Telli Baba, expressão que não quer dizer mais, em turco, que santo ancião dos fios de prata. Muitos dos visitantes (geralmente jovens e mulheres) arrancam, ao túmulo enovelado de fios de prata um ou dois fios e saem respeitosamente depois de feitas as preces. Se estas não forem respondidas com actos divinos tão urgentes como o casamento de uma qualquer jovem encalhada, os fios não voltarão. Mas o número de fios brilhantes não para de aumentar sobre os restos mortais daquele que, como uma noiva, também cobria o seu turbante com tais acessórios de luz refletida. E Deus, cuja luz se reflete naqueles fios, aceita melhor aqueles que assinalam a sua presença, tal como o noivo que se alegra de ver a noiva carregada com os seus presentes, sinais da sua riqueza.

 

Está A. a descer de novo em direção à aldeia de Sariyer quando se cruza com ele um grupo festivo de um casamento. A noiva vai devolver os fios que retirou à tumba do santo, juntando-lhe outros tantos, para sua maior glória.

 

A. é assaltado por um problema de matemática, que envolve algum cálculo de probabilidades: se cada crente leva dali um ou dois fios e só os devolve se as suas preces forem atendidas (admitamos que os devolvem com tantos fios atados quanto as preces atendidas), qual terá de ser o balanço mínimo entre as preces ignoradas e as atendidas, para que os fios não desapareçam por completo? Note-se que cada pessoa pode ter feito mais que um pedido ao santo. Note-se que, por vezes, o crente perde a fé (pouco frequente, por aqui, mas acontece) ou esquece-se de pagar a promessa, mas que, por outro lado, há crentes que pagam as promessas que fizeram mais aquelas que, não tendo sido feitas, foram, na mesma, atendidas, mais aquelas em que o santo, contra a nossa vontade, acabou por decidir de outro modo, e em que acabamos por lhe dar razão. São assim os santos, sabem mais de nós que nós mesmos pelo simples facto de não nos conhecerem de lado algum.

 

Santo guerreiro, tal como o português de Aljubarrota, protetor dos salpicos de óleo quente, era esse Telli Baba, que ali se instalara, naquele mesmo local onde agora era venerado, com os seus efeminados fios de prata sobre o turbante, não porque fosse efeminado, mas como forma de humilhar o seu orgulho guerreiro à simples condição de escravo da vontade divina, como já o fez a Virgem, santa mãe daquele profeta que os russos, deste lado do Bósforo, têm a sua aproximação vigiada pelo santo, pintam em ícones blasfemos aureolados de rendilhados também prateados ou dourados. Toda a gente que se quer candidatar ao lugar de santo trata de dar algum lustro à cabeça, seja pela tonsura seja por acção divina direta, como aconteceu a Moisés que, na mão dos Cristãos, tendo facies coronata viu a sua imagem transfigurada em facies cornuta e a partir daí passou a ser representado com chifres, símbolo de poder, tal como já era feito a Alexandre o Grande, cuja fama também já chegou aos ouvidos de Telli Baba. É frequente esta troca, a da santidade pelo pelo poder, e A. quando chega à casinha de madeira de compridas janelas onde está hospedado pensa que bem poderá ser esse o significado do tão obscuro momento da transfiguração, em que o Cristo, o simples Filho do Homem é elevado ao nível dos profetas mortos arrebatados para a Glória de Deus. No momento em que se consuma a ascensão, quando do Cristo vemos apenas os pés abaixo do rebordo superior da moldura dos quadros, sabemos que aquele homem simples, que se sentava com as prostitutas e comia com os publicanos, não deixará o trono celestial. Assim se transfiguram as belas verdades humanas em símbolos justificadores da repressão e motivadores do ódio dos homens pelos homens. Assim se transfigura uma pobre donzela de Orleães numa assanhada guerreira devotada em decepar ingleses, assim se transfigura o monge Nuno Álvares Pereira, envergando a cota de malha debaixo do hábito, num decepador de espanhóis. Assim se transfigura a cruz, onde o Filho do Homem foi humilhado, no ceptro onde se apoiam os poderosos.

 

Quando A. se senta, sozinho, na casa de pescadores onde lhe servem o peixe fresco arrebatado às água chicoteadas por Xerxes, pensa que, de facto, só as águas se mantêm fiéis à sua liberdade. Feridas pelo chicote ou pela quiha dos navios, logo se fecham numa cicatriz de espuma que rapidamente desaparece. Ali, no Ponto, na margem para onde Zeus levou Europa às cavalitas, A. leva as mãos aos bolsos para se certificar que o fio prateado ainda lá está. Amanhã terá de partir. Mas promete a Telli Baba que voltará, com mais fios atados a este. 

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 11:12
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
|
Sábado, 25 de Abril de 2009
Iron Man, Blimunda e o realizador de cinema frustrado

Trailer de Iron Man. Porque não é possível fimar nuvens fechadas. Ou talvez seja.

 

Nunca fui grande leitor de Banda Desenhada, tirando os livros do Asterix (aqueles que ainda tinham a mão do Goscinny) e do Lucky Lucke (e claro, as eternas revistas do Patinhas e do Maurício de Sousa). E nunca me interessei particularmente por super-heróis da Marvel e afins. Para mim, só existe o Batman do Tim Burton (ainda não vi o Cavaleiro das Trevas) e nunca peguei num exemplar que seja de um número do Super-homem. Primeiro, porque sempre me pareceu que estes heróis não eram heróis nenhuns. Eram apenas personagens que se davam ao luxo de fazer o bem porque eram dotadas de poderes que lhes permitia fazê-lo comodamente (e quando estão em apuros por causa do vilão que aparece, não estão mais que a salvar a própria pele). Nisso, a literatura "séria" leva vantagem ao colocar o heroísmo ao nível dos pequenos actos, ao alcance da mão humana. Mas nem sempre. O exemplo que me vem sempre à Memória é o de Blimunda, em "O Memorial do Convento", que, sem o seu poder de translúcida visão, capaz de ver as nuvens fechadas nas hóstias e almas que se esvaem para o éter, jamais seria útil para o Padre Bartolomeu de Gusmão. Há, em "O Memorial do Convento" uma contradição aparente entre o encerramento de Deus em si mesmo e o maravilhoso que permite a elevação dos sonhos ao cume do impossível, ao modo do Deus ex machina do teatro grego. Mas é apenas aparente essa contradição, porque a passarola cai, e o fim é triste para os heróis, restando apenas o sonho, impossível de ser queimado na fogueira da intolerância. O maravilhoso não é, portanto, solução para nada.

 

Mas serve este artigo apenas para registar algumas das impressões de um filme, mediano, é certo, mas que pode perfeitamente tomar o corpo exemplar do que é entretenimento, palavra tão odiada por quem nela vê apenas prazer sem consequências edificantes. Ora, para mim, o entretenimento é sempre uma forma de preencher o tempo com as nuvens fechadas dos nossos deuses, seja rezando terços atrás de terços, seja lendo poesia, seja apanhando borracheiras, seja martirizando a carne, seja vendo filmes, lendo romances, indo à Ópera, ao Ballet, ou jogando Tetris. Em tudo se encerram nuvens em si mesmas. Nas minhas palavras há uma nuvem em que nem o meu mais empático leitor alguma vez poderá vislumbrar outra coisa senão o átomo opaco da mais irredutível solidão.

 

O Iron Man é, inicialmente, um Playboy de nome Tony Stark. Um geniozinho do armamento que é quase fatalmente ferido pelas suas próprias armas, usadas por aqueles que não as deveriam ter. Uma história de super-heróis é sempre uma história maniqueísta, por mais pozinhos de ambiguidade que se ponham no lado dos bons ou dos maus. É preciso sempre separar águas, mesmo que essas águas se desejem, como nas cenas fetichistas da Mulher Gato a lamber a cara ao Homem Morcego, de Burton. E o Iron Man não pode escapar ao maniqueísmo nem ao fetichismo - no primeiro caso, dividindo habilmente e de acordo com o bom senso (alguns diriam politicamente correto) a bondade e a maldade entre americanos e estrangeiros afegãos e, no segundo caso, através do poder que se exterioriza numa segunda pele de liga de titânio. É exemplar, a este nível, a entrada em cena de Pepper (Gwyneth Paltrow) num momento em que Stark (Robert Downey Jr.) tem um diálogo manhoso com o robot que o assiste, como se este estivesse a iniciar-se em alguma prática erótica capaz de escandalizar a submissa e apaixonada assistente, que tenta acalmar dizendo "Sejamos realistas, não foi a pior coisa que me viu a fazer!".

 

Stark, ao ser ferido, perde o coração numa caverna. É como que a síntese e a antítese do Homem de Lata do Feiticeiro de Oz. E, sem coração, reencontra a humanidade que não teve enquanto o tinha e, ainda, transforma o seu coração na arma que terá de enfrentar no final. Uma guerra contra si mesmo, ao bom estilo metafórico-religioso com que eu gosto de ler as coisas mais simples. O super-herói define-se, na sua condição de arrependido, como o mais inteligente (aquele que é capaz do impossível - o técnico a serviço do vilão di-lo claramente: "I'm not Tony Stark" - eu não sou capaz de fazer num laboratório de tecnologia de ponta aquilo que o herói foi capaz de fazer numa caverna com sucata e a ajuda de um cordeiro sacrificial) e o mais corajoso, ao ser capaz de se dar em sacrifício. Mesmo munido de poderes, há que criar um calcanhar de Aquiles que  fragilize o herói, de modo a realçar a sua superioridade moral sobre o vilão. O argumento deste filme fá-lo de forma competente.

 

A Gerana queixa-se de que tenho andado a falar mais de cinema que de literatura. É assim. Talvez porque eu seja mais recontador que criador. Sou mais realizador de cinema que escritor. Dessem-me uma equipa de produção e seria capaz, pelo menos, de fazer algo semelhante a este filme. Uma história. Apenas. Recontada. Já não é pouco.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 20:37
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (4) | Adicionar aos favoritos
|
Domingo, 19 de Abril de 2009
O Visconde cortado ao meio, de Italo Calvino

In Questa Reggia, de Turandot, cantado por Ghena Dimitrova, Arena di Verona, 1983. É favor apertar os cintos...

 

"O Visconde cortado ao meio", de Italo Calvino, é o primeiro livro da trilogia "Os Nossos Antepassados". É um livro de linguagem e estrutura feérica, onde as formas mais presentes nos tradicionais contos de fadas conseguem ser desenvolvidas nos seus aspectos mais terríveis, a caminho do sadismo, num contexto referencial adulto, norteado por um sentido de humor que balança entre o infantil e o mais filosoficamente profundo cinismo. Hiperbólico e metafórico, é um romance poético sem se deixar ofuscar pela sua linguagem poética. A invenção do absurdo nunca se sobrepõe à narrativa que avança sempre com o mais nobre (e hoje, cada vez mais difícil) intuito de qualquer obra de ficção, que é contar uma história. Há, com certeza, um fundo moral e político que, independentemente de qualquer pretensa opção puramente hedonista do autor, conforma uma alegoria sobre a natureza humana e a sua necessária complexidade. Ao contrário de alguns autores, não considero que Calvino ataque a bondade pura; apenas expõe ao ridículo a sua estéril e impotente obra e o desejo de recorrente reformismo, em contraste, por exemplo, com a atitude pedagogicamente correta da ama Sebastiana que admoesta a parte boa do visconde sem querer saber de qualquer desculpa baseada na origem maligna dos comportamentos apenas imputáveis à parte má, porque ambos permanecem, ao seu olhar maternal, como um só.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 20:00
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (6) | Adicionar aos favoritos
|
Sexta-feira, 17 de Abril de 2009
Gran Torino, de Clint Eastwood

Trailer de "Gran Torino", de Clint Eastwood

 

Lembro-me de que a primeira vez que vi um filme com o Clint Eastwood foi numa passagem de ano. Um canal qualquer (não sei se ainda existia a SIC) passou às duas da manhã, mais coisa menos coisa, "O Bom, o Mau e o Vilão". Confesso que nessa altura, vá-se lá compreender as aberrações produzidas pela Natureza, tinha mais capacidade para compreender um filme do Ingmar Bergman que um filme do Sergio Leone. Hoje, as coisas inverteram-se. Cada vez mais, creio que o Sergio Leone foi mais capaz de chegar aos píncaros compreensíveis da alma (sim, eu sei que é uma expressão que não se compreende muito bem, mas isso já não deve ser novidade para quem me lê) do que Bergman que, chegando aos píncaros compreensíveis da alma, insistia em acrescentar-lhe o incompreensível da música que não se ouve (juro que não sei dizer isto de outra maneira - não sou eu a fazer-me ao pingarelho da intelectualice).

 

Depois, vi o "Bird", mas não entendi muito bem. Era demasiado jazz para os meus ouvidos deseducados. Quando vi "Play Misty for Me" enjoei-me. Detestei um "Dirty Harry", demorei a ver o "Unforgiven" e se não fosse o muito subvalorizado "Perfect World" (onde só tenho a apontar a enorme ignorância demonstrada pelo argumentista John Lee Hancock em relação às Testemunhas de Jeová), não teria tido tanto empenho em ver o "Million Dollar Baby" que o consagrou, do ponto de onde vejo as coisas, como o continuador da obra cinematográfica que ponho em primeiro lugar nas minhas preferências cinéfilas, que é a de John Ford, o cineasta das ideias que nós, ocidentais, temos sobre a família. E a família, para os ocidentais, define-se pela ausência, pelas palavras que não se dizem, pelos muros de silêncio que gerações, a velocidades e estilos diferentes, constroem com todo o empenho que se põe num divórcio.

 

"Gran Torino" é um filme fordiano porque é um filme sobre família, e, ainda mais, sobre a imagem que os homens (com letra minúscula) ocidentais, de "cultura western", como diria Ford, fazem da família a partir da família que fazem. Se a família que se encontra como nossa vem dos antípodas orientais é exatamente porque precisamos desesperadamente de ver morrer nos nossos braços a dureza que não é suficiente para nos definir como homens - tough ain't enough, como diria o Frankie de Million Dollar Baby - e descobrir a dureza que, como um caroço, se esconde na polpa mole do fruto que tem de apodrecer para que o caroço apareça na sua gloriosa função de semente. Se a família que se encontra como nossa vem dos antípodas orientais é porque é preciso morrer para que se nasça de novo. Se a família que se encontra como nossa vem dos antípodas orientais é porque a rosa dos ventos já não é a mesma. Mo cuishle disse-me, depois de ver este filme, que só a fazia ver filmes para chorar. Não é bem assim, mas há filmes em que vale a pena chorar, mesmo que seja por um velho patife. Por um velho patife em quem reconhecemos a glória de ser semente e a suprema força de se imolar por um Deus que se chama Amor e que consegue redefinir, em Deus e no Amor, a ideia de Vingança. A Vingança a Deus pertence. Confesso que jamais me ocorreria mais bela imagem que a deste filme para poder explicar o que uma frase batida como esta tem de verdadeiro.

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 00:26
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (1) | Adicionar aos favoritos
|
Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
Offret, de Andrei Tarkovsky

Cena de "Offret: O Sacrifício", de Andrei Tarkovsky

 

Quem me lê com lupa sabe que venero o filme "Ordet", de Dreyer. Não há obra de arte que melhor me conte o mistério das coisas em que quereria acreditar. Não tenho de gostar de um filme ou de um livro porque ele diz aquilo que quero ou acho razoável ouvir. A minha noção de fé aproxima-se da ideia de loucura. Digamos que essa era também a noção do próprio Jesus de Nazaré, enventualmente com algumas diferenças que me estão, pelo menos por enquanto, vedadas à compreensão.

 

Com "Offret", "O Sacrifício", de Tarkovsky, completei, na minha perspectiva de cinéfilo, em jeito de constelação apercebível aos meus olhos míopes, uma grande trilogia sobre a Fé, juntamente com o filme de Dreyer e "Breaking the Waves" de Lars von Trier. O que tenho escrito em dois textos desgarrados e que por enquanto não fazem grande sentido, porque são meras partes de um todo, e a que dei o nome de "Os Anéis de Mercúrio" pretende desenvolver o assunto sob a minha própria perspectiva. Mas voltemos a Offret.

 

Como em todos os filmes de Tarkovsky, as imagens são de uma beleza visual pictórica, detalhada ao milímetro, como numa composição do divino e, nas palavras do carteiro do filme, aterrador Leonardo. O filme é uma obra-prima do terror. Não porque tenha quaisquer características do que é vugarmente chamado filme de terror ou suspense, mas porque lida com o maior dos terrores: o da angústia existencialista face ao mistério a que alguns chamaram de absurdo. A personagem principal, encarnada por um bergmaniano Erland Josephson, que se oferece em sacrifício, faz um sacrifício tão absurdo e sem propósito que custa a engolir a história. Contudo, não há história para engolir. Estamos apenas perante uma personagem, um homem, que se entrega à pura irracionalidade por amor aos outros. Não podendo oferecer a sua vida (já que no seu dilema, ele mesmo está condenado a perdê-la juntamente com os outros) pode, contudo, oferecer a sua lucidez ("tudo o que o liga ao mundo"). Não nos cabe a nós dizer se com "razão", no sentido de "verdade", ou não. Porque o que está em jogo é o mistério.

 

Sempre me fascinou esse sentido estranho dado pela teologia à palavra mistério. Não o mistério das Ciências que eu, homem de Ciência, cultivo (ao contrário do que muitos poderão pensar ao ler os meus artigos de constantes preocupações teológicas),  e que sendo algo de inatingível à nossa compreensão, vamos paulatinamente compreendendo a cada descoberta sobre a urdidura física do Universo, mas o(s) mistério(s) da Fé. A Ciência, sabemos nós que a ela nos dedicamos, não traz respostas definitivas, nunca chega ao cerne das coisas. Nem pretende. Um corpo é quente porque as suas partículas componentes vibram. Mas porque é que vibram? Porque é essa a forma como se manifesta uma das formas de energia desse corpo. E aqui esbarramos. O que é a energia? É um mistério. A Ciência é muito má em definições. A Fé pode chegar ao cerne das coisas. Ou não. É um mistério. Que, aparentemente, aparece claro aos olhos de quem a tem. A mim, aparece-me como algo de turvo, quando serve de argumento para opções políticas que impõem aos outros as consequências lógicas dessa fé, como nas questões da despenalização do aborto, na proibição da eutanásia, na adoção de crianças por homossexuais - ou quando a fé implica certos sacrifícios humanos, mesmo quando o próprio ofertante do sacrifício se imola juntamente com os infiéis, em holocausto agradável às narinas de algum Senhor em que, não, não tenho Fé nem quero ter.

 

 

Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 01:13
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (5) | Adicionar aos favoritos
|
Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Little Miss Sunshine

 

 

O mau gosto pode ser, estranhamente, a mais bela coisa do mundo. Este filme em nada se pode classificar como sendo de mau gosto. Há nele elementos pop suficientes para que qualquer intelectualóide o abomine, mas não é, em nada, um filme menor. É um filme de uma sabedoria profunda e de um sorriso do tamanho do sofrimento. Uma das personagens, mal acabado de sair de um suicídio frustrado, resume a obra de Proust como sendo a descoberta do valor do sofrimento. Contradizendo, ou talvez não, o seu ato falhado, diz que apagar os anos de sofrimento é apagar os anos que contam. E este filme, uma comédia sobre uma família que quer, a todo o custo, levar uma criança a um abominável concurso de beleza, consegue o que tantos filmes de Bergman não conseguiram, embora tenham escavado na alma humana, ou o que Proust nunca tentou dizer, embora o tenha dito por outras palavras, por outras vias, fosse pelo lado de Guermantes, fosse pelo lado de Swan. Se Bergman nos fala dos problemas de comunicação e se Proust nos fala dos desaires do desejo, os autores deste pequeno filme, adequado a uma tarde ociosa de domingo, fala-nos de tudo isso, tomando a forma de um certo mau gosto de algumas comédias americanas e algumas das suas moralidades mais lamechas, sem que, contudo, se confunda com uma coisa ou com a outra. É obra. Prima.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 00:43
link do post | Dizer de sua justiça | Quem disse o que pensou (4) | Adicionar aos favoritos
|
.Nada sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
.Artigos da mesma série

. notas

. cinema

. livros

. poesia avulsa

. só porque

. política

. curtas

. arte

. guimarães

. música

. estupidez

. traduções

. wikipédia

. religião

. poesia i

. gosto de...

. ono no komachi

. narrativas

. tomas tranströmer

. buscas pedidas

. plantas

. arquitectura

. blogues

. enciclopédia íntima

. blogs

. braga

. fábulas de esopo

. as quimeras

. gérard de nerval

. carvalhal

. animais

. cultura popular

. disparates

. Herbário I

. poesia

. póvoa de lanhoso

. estevas

. pormenores

. umbigo

. bíblia

. ciência

. professores

. vilar formoso

. barcelos

. cinema e literatura

. coisas que vou escrevendo

. curtíssimas

. Guimarães

. rádio

. receitas

. ribeira da brunheta

. teatro

. vídeo

. da varanda

. economia

. educação

. família

. leitura

. lisboa

. mails da treta

. mértola

. Música

. os anéis de mercúrio

. cachorrada

. comida

. cores

. dança

. diário

. direita

. elogio da loucura

. escola

. esquerda

. flores de pedra

. hip hop

. história de portugal

. kitsch

. memória

. ópera

. profissão

. recortes

. rimas tontas

. sonetos de shakespeare

. terras de bouro

. trump

. Álbum de família

. alunos

. ângela merkel

. arte caseira

. aulas

. avaliação de professores

. ayre

. benjamin clementine

. citações

. crítica

. ecologia

. edgar allan poe

. ensino privado

. ensino público

. evolucionismo

. facebook

. todas as tags

.O que vou visitando
.Segredos
  • Escrevam-me

  • .Páginas que se referem a este site

    referer referrer referers referrers http_referer
    .Já passaram...
    .quem linka aqui
    Who links to me?
    .Outras estatísticas
    eXTReMe Tracker
    blogs SAPO
    .subscrever feeds