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Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Fábulas de Esopo: O homem e a serpente

Excerto de "A Sagração da Primavera" de Stravinsky, Pina Bausch, Wuppertal Tanztheater

Por azar, em acidente,
O filho de um fazendeiro
Tropeçou numa serpente,
Que dando troco certeiro
O mordeu até matar.
O pai, feito justiceiro,
Em raiva a foi procurar
E munido de um machado
P'la cauda se fez cobrar,
Deixando o bicho amputado.
A serpente, enraivecida,
Virou-se-lhe contra o gado
Causando-lhe, de vencida,
Um enorme prejuízo.
Com a esperança perdida,
Perante um fim indeciso,
Pensou este lavrador
Fazer o que era preciso.
À toca do predador
Foi levar pãozinho e mel
E disse, apaziguador:
"Minha cara cascavel,
Creio que chegou a hora
De, enfim, pedir quartel.
Que sentido tem agora
Manter esta divergência?
É viúva a minha nora
Pela tua violência,
E mortos os animais
Que me davam subsistência.
Que podes tu querer mais
Que não te console já?"
E foi com palavras tais
Que apelou à bicha má
Contra o orgulho ferido.
"A mim tanto se me dá"
Disse o verme enraivecido
"Que me venhas com presentes,
Que não nos é concedido
Ignorar que estão ausentes,
Para sempre, a cauda minha,
Primo orgulho das serpentes,
E o que já não acarinha
Tua parental esperança."
A moral já se adivinha
Desta dança e contradança:
É possível perdoar,
Mas jamais a confiança
Se fará do olvidar.

 

(versão de Manuel Anastácio)

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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
Aviso aos poucos que deixam comentários

Nos próximos dias, o blogue actualizar-se-á automaticamente. O facto de aparecerem novos posts não quererá dizer que esteja presente para responder a comentários.

 

Por isso, antes de mais, um feliz ano novo para todos.

publicado por Manuel Anastácio às 15:48
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O Messias

Händel: For unto us a child is born & Glory to God (O Messias): Árias para Coro (The Choir Cantillation & The New Baroque Ensemble) dirigidas por Antony Walke. Sara Macliver como soprano. Por recomendação do Vítor I, do Abaixo de Cão.

 

Corre o ano de 1741. Sobre um morro que se debruça sobre um lago artificial, George Frideric Handel sente a cabeça a latejar com notas de puro amor entrelaçadas ao mais puro cinismo da bíblica poesia que deveria inspirar um sexagenário habituado aos favores de uma alta sociedade que agora o ignorava. Está no centro de um octógono em estilo paladiano, formando o que se chama de templo de jardim. Na outra margem do lago ergue-se o peristilo de seis colunas da mansão georgiana de Gopsall Hall. Mais dois séculos e uma década passarão e nada restará daquele Paraíso a não ser as bases das colunas que agora rodeiam Handel. A primeira coisa a cair, menos de um século após este Verão de inconstantes humores, será a cúpula que agora cobre o compositor que vacila entre as dores do corpo e a quase inconsciência produtiva da mão que entrega tudo o que pode aos versos que o melancólico dono dos jardins surripiou à Bíblia.

 

Cada vale será erguido, cada monte, cada outeiro, abatido; o terreno sulcado, nivelado e o escabroso, aplanado. Isaías 40, 4

 

Gopsall Hall, Pieter Tillemans, primeira metade do século XVIII, Paul Mellon Centre for studies in British Art.

 

Sobre a cúpula, ergue-se uma estátua representando a Religião, escupida por Louis François Roubiliac, que mais tarde esculpirá a última pedra a cobrir o corpo do compositor, na Abadia de Westminster. Jennens, o autor do libretto que ocupa a mente de Handel, é um non-juror. Um dos que se recusaram a prestar juramento de lealdade a Jorge I, inaugurador, protestante, da linha real de Hanôver. Jennens, neto de um magnata das minas de ferro, é particularmente obcecado pela ideia de um cristianismo primitivo, de longe mais puro que o cristianismo contemporâneo, mas, tal como o jovem rico do capítulo XIX do Evangelho de São Mateus, não deixa os bens terrenos em mãos alheias, adornando as suas posses com tesouros de lavra humana. Tenho para mim que, graças a Deus, em tais séculos, não havendo em que gastar os lucros excessivos, as grandes famílias recorriam aos artistas para escoar o dinheiro que não conseguiam empregar noutro sítio. Não fosse assim e o espólio cultural que hoje temos à disposição seria de uma aridez constrangedora. Certo é que, ao passar junto às pedras lavradas que tanto amo, tantas vezes me ocorre pensar nas vidas que foi necessário sacrificar às trevas da fome e da ignorância para que se erigissem o portal das Capelas Imperfeitas ou um simples capitel românico da Igreja de Fontarcada. Cada pormenor que agora me deslumbra traz em si o eco escarlate do sangue e o brilho nacarado da indiferença.

 

Porque para nós nasceu um menino, um filho nos foi dado; sobre os seus ombros recairá o governo, e chamar-se-á Maravilhoso, Conselheiro, Deus Todo Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Isaías 9, 6

 

Estátua à Religião de Louis François Roubiliac, Belgrave Hall Museum, Leicester City Council

 

Corre o ano de 1741.Handel talvez nunca tenha estado naquele morro, junto àquele lago, no centro do octógono pagão convertido à geometria sagrada cristã dos templários, de San Vitale de Ravena,da Charola do Convento de Cristo, da Capela de Carlos Magno e do Santo Sepulcro em Jerusalém. Nem sei se a brisa lacustre dos jardins alguma vez poderia inspirar os movimentos sagrados do nascimento, da transformação e da exaltação. Adão e Eva nada sabiam da sua sacra condição quando ingenuamente seguiam por entre as árvores e os arbustos de uma eternidade adiada. Sei que o oratório "Messias", tenha sido ele escrito entre colunas e vegetação ou entre quatro paredes mal caiadas, é mais que um hino à religião e à triste ideia da necessidade de um Messias sobre cujos ombros recaia o governo de uma espécie ingovernável. É um Hino à brisa da tarde e às transformações íntimas da Natureza. Um Hino à circularidade do tempo. Um Hino à perfeita forma de Deus, que não residindo no Homem, por ele é constantemente contemplada. A forma octogonal do eterno desejo da perfeição.


 

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008
Buscas pedidas: Restaurantes em Brufe

Excerto de "A Festa de Babette", de Gabriel Axel.

 

Um dos tipos de Curral de Moinas disse, num Jornal da TV2 Telejornal de Fim de Semana, no Canal 1, que gostava do Restaurante "O Escondidinho" numa terreola do Gerês, chamada Brufe. Há conta disso tive gente à procura do dito no meu blogue.

 

É mentira. Ou melhor, foi descuido. Não há nenhum "Escondidinho" em Brufe. Há, sim, "O Abocanhado". Convém reservar (é só ir ao link). A paisagem é magnífica e estende-se sobre o vale de socalcos do Rio Homem e os cumes da Serra da Amarela pontuados de milheiros de granito rodeados de couves galegas, maciços de giesta e carvalhos. Se gostarem de dar ao pé, podem ainda chegar um pouco mais cedo e fazer um dos percursos pedestres marcados e homologados pela Federação Portuguesa de Campismo e Montanhismo, antes de, com os apetites que só os penhascos são capazes de dar, se atirarem que nem alarves aos enchidos, aos rojões, ao javali com arroz de carqueja, aos garnizés, ao cabrito, ao veado, à carne barrosã ou aos ossos à Lavrador. Tudo para carnívoros sem pruridos vegetarianos na consciência. Falo eu, carnívoro impenitente.

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Domingo, 28 de Dezembro de 2008
Este ano foi cocó

Fezes de coelho, Santa Maria de Airão, São Pedro de Oliveira, Guisande ou coisa que o valha, Dezembro de 2008

 

Sucessão e engano é a rotina do relógio. O ano não surge menos vão que a vã história. Di-lo Borges, no artigo anterior.

 

Os Gato Fedorento começaram o ano com os portugueses a cantarem "este fim de ano... foi uma merda... foi cocó...". Mas se há coisa que prezo são as fezes, tão maltratadas pela nossa cultura cropófoba. Os hindus, mantendo um dos traços distintivos de uma suposta cultura-mãe hindo-europeia, veneram as vacas como fonte de vida e alimento, não só por causa do leite que produzem, mas também pela bosta. É a bosta que fertiliza os campos. A bosta ainda em decomposição, graças à acção das bactérias que lhe dá o cheiro, irradia calor que pode ser utilizado para vários efeitos, inclusive para aquecer a cama de muitos seres humanos por esse mundo fora. Seca, serve de combustível (de facto, é composta principalmente por celulose, madeira, portanto). Pode ser utilizada como cimento na produção de tijolo de adobe. É ainda utilizada por muita boa velhinha na selagem do forno enquanto se faz o pão rústico dos nossos sonhos de Inverno. E há até uma terrinha em Portugal onde é a bosta de vaca que, caindo sobre o quadrado certo desenhado no campo de futebol da freguesia, determina o vencedor de um sorteio. Há concursos de lançamento de bosta (de elefante, por exemplo) em várias partes do globo. Já há empresas que fazem papel de qualidade com bosta (novamente, a preferência vai para a do elefante). A bosta é, ainda, uma fonte inesgotável de biomassa.

 

Estava a falar com os meus alunos sobre os fósseis e, mais especificamente, sobre os fósseis dos dinossauros. Falei dos embriões petrificados encontrados na Lourinhã. Mas nada entusiasmou mais os meus ouvintes que a existência dos cropólitos, ou bostas convertidas em pedra, graças às quais tanto sabemos sobre os hábitos alimentares dos antepassados das galinhas.

 

É por isso que, perante a evidente decomposição que ameaça o mundo, ainda posso sorrir. O tempo é um enorme cropólito do qual ainda emana o calor bacteriano de outrora e que nos oferece, de futuro, uma limpa e mineral imagem do passado. 2008 foi cocó. Só falta dar-lhe sentido. Quanto a isso, deixem-me ser céptico.

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Sábado, 27 de Dezembro de 2008
Instantes, de Borges

Pôr-do-sol em Porto Covo. Foto de Joaquim Alves Gaspar, em GFDL e Creative Commons.

 

Conta-se que na livraria Alfonso Guerra, em Sevilha, uma mulher se dirigiu a María Kodama, mulher de Jorge Luís Borges, confessando-lhe a sua admiração pelos versos citados no artigo anterior. Kodama, agastada, respondeu: "Si Borges hubiera escrito eso yo habría dejado de estar enamorada de él en ese momento". "El poema, sin ningún valor literario", escreveu Kodama, "desvirtúa el mensaje de la obra de Borges. Amparándose en una firma famosa, se intenta transmitir un sentido de la vida completamente materialista, sin ninguna busca de perfección espiritual ni inquietud intelectual".

 

Vejamos o poema "O Instante" de José Luís Borges, que integra o seu "O Outro, o Mesmo":

 


 

¿ Dónde estarán los siglos, dónde el sueño
De espadas que los tártaros soñaron,
Dónde los fuertes muros que allanaron,
Dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?
El presente está solo. La memória
Erige el tiempo. Sucesión y engano
Es la rutina del reloj. El año
No es menos vano que la vana historia.
Entre el alba e la noche hay un abismo
De agonias, de luces, de cuidados.
El rostro que se mira en los gastados
Espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
Otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.

 

 

Eis a minha tradução/adaptação:

 

 

Onde os séculos, onde a alucinação

De espadas com que os tártaros sonharam,

Onde os perenes muros que arrasaram,

O outro lenho e a Árvore de Adão?

Solitário, o presente. A memória

Erige o tempo. Sucessão e engano

É a rotina do relógio. O ano

Não surge menos vão que a vã história.

Há um abismo, entre a alva e a noite,

De agonias, de luzes, de cuidados.

Nem igual o rosto nos desgastados,

Turvos, reflexos dos espelhos da noite.

O hoje fugaz é ténue, é eterno;

Outro Céu não esperes, nem outro Inferno.

 

A minha tradução/adaptação foge um pouco à regra do que é costume nas traduções para português da poesia de Borges, que seguem a fácil transposição vocabular e desprezam a forma escolhida pelo poeta, neste caso, um soneto. Em português, sonho não rima com lenho (e não encontro, no tempo que tenho, vocábulos que permitam tal correspondência) nem mesmo rima com abismo. É certo que duvido que haja alguém que entenda português e que não entenda o poema original. Por isso, veja-se a minha tradução/adaptação como mero exercício.

 

Voltando a Maria Kodama, este poema é deveras elucidativo da diferença colossal de estilo entre a simplicidade do, involutariamente, pseudo-Borges, Don Herold e a complexidade sempre presente na poesia e na prosa de Jose Luis Borges. Mesmo que o "Instantes" fosse de Borges (o que, como diz Kodama, seria uma traição estilística cometida pelo próprio autor, a ponto de se confundir com um poético adultério), quem quer que fosse que amasse a escrita de Borges jamais deveria amar especialmente este poema. Ora, os comentários que se disseminam na net a respeito do poema "Instantes" é bem revelador do logro que todos nós sabemos que compõe, em grande parte, as preferências estéticas de grande parte dos indivíduos. Se o poema estivesse apenas assinado por um obscuro Don Herold, o máximo que se leria, seria "que belo poema!" ou "que poema comovente e verdadeiro!", sempre realçando o seu forte apelo à identificação com as mais básicas (e, claro, verdadeiras) emoções próprias do ser humano. Mas jamais se passaria para o ponto absoluto de se considerar este o melhor poema de Borges.

 

Num dos sites em que entrei, à procura de opiniões sobre o poema, leio, contudo, um comentário que muito me satisfez:

Sempre recebo textos desse tipo e fico pensando.... será mesmo que o Jorge Luiz Borges e os outros autores estão certo quando dizem que teriam feito muitas outras coisas??? Na verdade, acho que seria muito mais legal ele, por exemplo, ter apreciado a lentilha dele do que pensar no sorvete que ele não possui.... Por que desistir de buscar a perfeição??? Já pensou por esse lado???

 

Este leitor, que leu o poema como tudo o que é escrito deve ser lido, com espírito crítico, apercebeu-se imediatamente de que falta estrutura ética ao mesmo. O poema é apenas uma exaltada e superficial apologia ao mais acrítico dos epicurismos, sem qualquer inquietação metafísica, que é sempre a imagem de marca de Jorge Luis Borges. Este leitor, sem ser "culto" ao ponto de dizer simplesmente "esta coisa não é de Borges!" é o leitor que faz falta. É o cidadão que faz falta. Lê a poesia pelo que ela é, não por quem a escreveu. E acredito que quem lê poesia assim, também lerá o mundo da mesma forma.

 

Na circular (ou espiral) evolução das ideias, seria bom que o autor fosse um pouco mais dessacralizado. O Homem que escreve, que pinta, que projecta, que cria é, enquanto ser humano, mais digno que qualquer uma das suas obras, mas em termos de perenidade da arte, seria importante que o génio fosse descentrado do criador e procurado na criação.

 

De facto, é a tendência para considerar os Homens de excepção como génios incontestáveis que permite argumentações tão ocas quanto as dos (anti)pensadores New Age que, sem nada saberem sobre as teorias científicas de Newton ou de Einstein, se socorrem do interesse vagamente demonstrado por estes homens a respeito de matérias mais obscuras, para defenderem a profunda verdade das suas economicamente produtivas crenças.

 

Ontem, vi na TV2 um documentário sobre as capacidades intelectuais dos símios e a sua comparação com as mesmas no ser humano. Uma das experiências consistia em mostrar uma caixa opaca, com um orifício por onde saía uma guloseima. O experimentador ensaiava, frente ao macacos e às crianças, um conjunto de procedimentos absolutamente desnecessários para a obtenção da guloseima. Mas como a caixa é opaca, tanto as crianças como os símios repetiam o mesmo ritual para a obtenção do reforço positivo. Numa segunda fase da experiência, a caixa é transparente, e torna-se visivel que muitos dos procedimentos rituais do experimentador são, em absoluto, inúteis para a obtenção da guloseima. Os macacos saltam de imediato todos os procedimentos desnecessários, obtendo rapidamente a sua recompensa. As crianças humanas, contudo, ainda que se apercebam da inutilidade de muitos dos gestos, respeitam o ritual de forma servil e acrítica e só depois acedem à recompensa. O comentário feito aos resultados é simples: aquilo que pode parecer uma desvantagem dos seres humanos em relação aos símios (que, neste caso, parecem ser mais espertos) é, em termos evolutivos, uma enorme vantagem. A vontade de copiar os procedimentos dos adultos permite a um ser humano, no pequeno período da sua infância e juventude, saltar todas as descobertas que os seus avós foram acumulando. A atitude servil do ser humano em relação ao mestre é uma atitude vantajosa em termos evolutivos. Por isso se compreende que, desde que existem documentos escritos que existem, também, textos falsificados e assinados por pseudo-mestres (muitos deles estudados e comentados por Jorge Luis Borges). A assinatura falsa de um texto confere-lhe, à partida, uma vida que não teria com outra assinatura. Neste caso, utiliza-se uma atitude intelectual da espécie, que tem fundamentos biológicos, para falsear o próprio sistema de ideias humano que, em última análise, é o meio e o fim da evolução da humanidade. Reside aqui, na sua própria génese, uma das sementes da notável auto-destruição que acompanha a história da Humanidade. Crescemos porque imitamos e reverenciamos, mas como também sabemos manipular a Natureza, conseguimos envenenar a corrente criativa de que nos deveríamos orgulhar.

 

Estas reflexões têm consequências a nível das teorias da educação que durante as últimas décadas tanto se pelaram pela aprendizagem pela descoberta e outros logros ideologicamente orientados e socialmente irresponsáveis (que persistem, por exemplo, nos programas educativos propostos pelo Ministério da Educação português), ao legitimarem, de forma obscena, a mais crua reprodução social, sob o pretexto de o estarem a minorar. No fundo, as propostas dos nossos pedagogos mais ilustres limitam-se a colocar as crianças ao nível dos macaquinhos. Recompensa-se a esperteza em vez da inteligência e o respeito pela autoridade da sabedoria. O resultado é do conhecimento de todos.

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publicado por Manuel Anastácio às 15:58
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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008
Instantes, do pseudo-Borges

Um mais claro tom de palidez, para uma ária de Bach. A Whiter Shade of Pale, Procol Harum.

 

A respeito da minha machadada no falso Shakespeare da auto-ajuda que publiquei no último artigo, a Gerana referiu-se a outro texto apócrifo, desta feita atribuído a um autor contemporâneo: Jorge Luís Borges. O texto chama-se "Instantes" e Gerana interroga-se quanto à autoria do poema. Uma coisa é certa: Jorge Luís Borges é que não é, de certeza. Aventou-se ainda a possibilidade de ter sido escrito por outro Jorge Luís Borges que não aquele que nunca recebeu o prémio Nobel da Literatura, mas que, obviamente, o deveria ter recebido.

 

O poema é este, em espanhol:

 

Si pudiera vivir nuevamente mi vida,

En la próxima trataría de cometer más errores.

No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.

Sería más tonto de lo que he sido,

de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad.

Sería menos higiénico.

 

Correría más riesgos,

haría más viajes,

contemplaría más atardeceres,

subiría más montañas,

nadaría más ríos.

 

Iría a más lugares adonde nunca he ido,

comería más helados y menos habas,

tendría más problemas reales y menos imaginarios.

 

Yo fui una de esas personas que vivió sensata

y prolíficamente cada minuto de su vida;

claro que tuve momentos de alegría.

Pero si pudiera volver atrás trataría

de tener solamente buenos momentos.

Por si no lo saben, de eso está hecha la vida,

sólo de momentos; no te pierdas el ahora.

 

Yo era uno de esos que nunca

iban a ninguna parte sin un termómetro,

una bolsa de agua caliente,

un paraguas y un paracaídas;

si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.

 

Si pudiera volver a vivir

comenzaría a andar descalzo a principios

de la primavera

y seguiría descalzo hasta concluir el otoño.

 

Daría más vueltas en calesita,

contemplaría más amaneceres,

y jugaría con más niños,

si tuviera otra vez vida por delante.

 

Pero ya ven, tengo 85 años y sé que me estoy muriendo.

 

 

Agora, uma das traduções em português mais difundidas:

 

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido;

na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiénico. Correria mais riscos,

viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,

subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a mais lugares onde nunca fui,

tomaria mais sorvete e menos lentilhas,

teria mais problemas reais e menos imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu

sensata e produtivamente cada minuto da sua vida.

Claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver,

trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feito a vida:

só de momentos - não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma

sem um termómetro, uma bolsa de água quente,

um guarda-chuva e um pára-quedas;

se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,

começaria a andar descalço no começo da primavera

e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua,

contemplaria mais amanheceres

e brincaria com mais crianças,

se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos

e sei que estou morrendo.

 

Benjamin Rossen refere a existência de versões em francês, finlandês e sueco. Provavelmente, é o mais lido de todos os textos de Borges. E, no entanto, não foi ele que o escreveu. Tenho a impressão que ele se divertiria com a situação - aliás, quase parece ter sido retirada do seu universo, onde não faltam reflexões ao sentido da autoria. É frequente que os grandes génios sejam reconhecidos pela multidão, não pelo que fizeram, mas por aquilo que nunca teriam feito, mas que é mais digerível por essa multidão. A multidão que tem gosto em dizer que também gosta de Luís Borges, especialmente daquele poema de velhice, tão sentido e cheio de coisas verdadeiras, que são mesmo assim, e que fazem chorar as pedras da calçada... A multidão adora os grandes (mas têm mesmo que ser muuuuuito grandes!) vultos da cultura, mas adora-os pelo nome que são obrigados a reverenciar desde o tempo da escola ou porque o opinion maker da moda disse que é um grande artista. Eventualmente, alguém de entre a multidão compra um livro e lê a primeira página. Cansa-se. As palavras são estranhas e parece nada quererem dizer. O referente é outro. Tudo parece repetir-se de forma enfadonha e ainda não se virou a página. O livro é arrumado. Mas, nessa mesma tarde, abre-se um mail, e lá vem uma apresentação Powerpoint cheia de ursinhos, fotos com pôres-de-sol, gatinhos, cachorros fofinhos, corações e grinaldas de flores suspensas de gifs animados representando pombas. E, no fim, assinado: Jorge Luís Borges. E o sujeito sente-se reconfortado. Afinal, pelo menos este poema é fácil de compreender, e até é bonito. E foi escrito pelo Borges. E sente-se iniciado na grande literatura. Já não é burro de todo.

 

Na verdade, a primeira vez que ouvi este poema foi na Antena 2, que é a rádio "culta" de Portugal. Foi na comemoração de uma data qualquer que não fixei. Uma voz serena, talvez de Luís Caetano (não tenho a certeza), lia o poema de Borges. Confesso que não me pareceu Borges, mas também não pus as mãos no fogo. Deixei passar. Embora nunca mais tenha encontrado tal poema em lado algum das suas obras completas.

 

Na Folha de São Paulo de 17 de Dezembro de 1995, o poeta brasileiro Moacir Scliar confessa-se como um dos culpados na divulgação do poema, num artigo a que chamou "Versos Infames: A Fragilidade da Falsificação". Tendo tido conhecimento dele na Argentina, em 1987, transcreveu-o no jornal Zero Hora, no Brasil. Conta que “a repercussão foi extraordinária. ... ... imediatamente surgiram cópias que eu encontrava afixadas em lugares os mais variados: casas de amigos, restaurantes, repartições públicas. Ao mesmo tempo, pessoas me escreveram de Buenos Aires, contestando a autoria de 'Instantes'." Segundo Scliar, o texto teria sido escrito por uma norte-americana, Nadine Stair de seu nome, e "publicado numa antologia da Bantam, e divulgado por Leo Buscaglia, autor de muitos livros de auto-ajuda. Em 1986 o texto apareceu em Buenos Aires numa revista tipo New Age, intitulada “Uno Mismo”. Daí chegou aos rádios, aos jornais e ao xerox...”

 

Assim nasce o mais mítico (em todos os sentidos) dos poemas de Borges. Mas não pára aqui. Maria Kodama, a esposa de Borges, chegou a pedir à justiça argentina para que deixassem de depositar na sua conta os direitos de algo que o marido jamais havia escrito.

 

Mas quem escreveu o poema, afinal? Nadine Stair?

 

O texto (que não é) de Stair é o seguinte, em inglês. Nota-se que o plágio feito na versão espanhola (cronologicamente anterior à portuguesa) é quase total, à excepção da parte final de ambos os poemas.

 

If I had my life to live over again,

I'd try to make more mistakes next time.

I would relax.

I would limber up.

I would be sillier than I have been this trip.

I know of very few things I would take seriously.

I would be crazier.

I would be less hygienic.

I would take more chances.

I would take more trips.

I would climb more mountains, swim more rivers, and watch more sunsets.

I would burn more gasoline.

I would eat more ice cream and fewer beans.

I would have more actual problems and fewer imaginary ones.

You see, I am one of those people who live prophylactically and sensibly and sanely.

Hour after hour. Day by Day.

Oh, I have had my moments, and if I had it to do over again, I'd have more of them.

In fact, I'd having nothing else.

Just moments, one right after another instead of living so many years ahead of each day.

I have been one of those people who never go anywhere without a thermometer,

a hot water bottle, a gargle,

a rain coat, and a parachute.

If I had it to do over again, I would go places and do things and travel lighter than I have.

If I had my life to live over, I would start barefoot earlier in the spring and stay that way later in the fall.

I would play hockey more often.

I would ride more merry-go-rounds.

I'd pick more daisies.

 

Note-se que uma das características principais deste tipo de poema que tão facilmente encanta as massas consiste no uso, até à exaustão, da anáfora - que também aparece no poema que referi no meu último artigo, ainda que no caso de "After a While" a repetição de palavras no início dos versos se deva à contínua colaboração de autores anónimos que foram acrescentando o seu verso utilizando a mesma fórmula inicial. Aqui, verifica-se o fenómeno inverso: o poema original faz maior uso deste recurso estilístico que, entretanto, se perde numa constante aliteração de "ia"s, devido à tradução.

 

Entretanto, o poema não foi, de facto, originalmente escrito por Nadine Stair, mas por Don Herold, na Revista das Seleções do Reader's Digest, de Outubro de 1953. O que significa que o poema não é um simples plágio, mas o plágio de um outro plágio. O resto da história deste apócrifo pode ser lida, em detalhe e com todas as fontes brilhantemente citadas neste texto de Betty Vidigal.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 13:35
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Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008
Espera um pouco mais, e verás

Rio Medellín, Colômbia. Natal de 2004. Foto de Aliman5040,  em GFDL.

 

Este poema, "After a while" anda a percorrer a internet como sendo de Shakespeare. Ora, não é Shakespeare nem no estilo nem no conteúdo. Não é bem o meu tipo de poema, mas tem algum interesse sociológico e, mesmo, estético, já que nasce da remisturagem de um poema inicial de Veronica A. Shoffstall com as verdades que cada um lhe quer acrescentar, num processo que faz lembrar os cadáveres esquisitos do surrealismo renomeados, na era da Internet com o título de textos-frankenstein. Ora, vou também participar no processo, apertando alguns parafusos entre os membros desconjuntados deste monstro simpático e criar o meu próprio monstro. Qualquer semelhança com o original não será, portanto, pura coincidência, com todos os seus tiques de livro de auto-ajuda barata. Antes, apresento o texto original, em inglês.

 

Feliz Natal para todos.

 

 

After A While

After a while you learn
the subtle difference between
holding a hand and chaining a soul
and you learn
that love doesn't mean leaning
and company doesn't always mean security.
And you begin to learn
that kisses aren't contracts
and presents aren't promises
and you begin to accept your defeats
with your head up and your eyes ahead
with the grace of woman, not the grief of a child
and you learn
to build all your roads on today
because tomorrow's ground is
too uncertain for plans
and futures have a way of falling down
in mid-flight.
After a while you learn
that even sunshine burns
if you get too much
so you plant your own garden
and decorate your own soul
instead of waiting for someone
to bring you flowers.
And you learn that you really can endure
you really are strong
you really do have worth
and you learn
and you learn
with every goodbye, you learn...

 

Veronica A. Shoffstall 

 

 ----------------------------------------------------------------

 

Espera um pouco mais e verás

que dar a mão não é prender ninguém à gratidão forçada,

Que Amor não é apoio

Nem presença é salvaguarda.

Espera e verás

que os beijos não selam contratos

e que os presentes nada mais prometem que aquilo que são.

Que os infortúnios não são derrotas

que nos encolham, em infantis cobardias

mas que, em dignidade, nos podem erguer à mais madura das ousadias.
Aprenderás que os caminhos são feitos hoje,

Que o amanhã é terreno inseguro e vão.

Que nem todos farão eco da tua boa vontade.

E que deves sempre reservar uma migalha de perdão

Até para quem, mais fortemente, usa da bondade.

Aprenderás que sol a mais, queima.

E que falar, não interessa como, alivia a dor.

E que a confiança é um castelo de cartas.

E que num só passo há um eterno acusador.

Que a amizade tem raízes mais largas que o olhar e que o estar.

E que não importa o quê, mas quem.
E que um amigo,
jamais genético acaso,

É sempre escolha e eleição,

Sempre em mudança, como tu,

Nada vos prendendo ao que não são.

Que o Amor é a mais escura via de comunicação.

Que as palavras que nos unem são quebradiças

E estalam de futilidade frente às destrinças

Que para sempre nos calarão.

Mas que há palavras que, depois, confortará terem sido ditas.
E que se somos fruto das circunstâncias,

Nossos são os versos, insignificâncias, com que as manhãs são escritas,.

Que de nada te vale comparares-te aos outros, mas ao que podes ser.

Que é preciso ter atenção às raízes enquanto esculpes o lenho da alma.

E que podes ser mais do que te poderá ser dado a parecer.

Aprenderás, por exemplo, que o tempo morre a cada instante e se escoa em vertigem.

Que não há destino nem advento.

Que ser flexível não é ser frágil,

que cada gesto é múltiplo, e cada olhar, fermento.

Que um herói também hesita.

Mas faz.
Que a paciência se exercita.

E que é dentre os que dizemos inimigos

Que virá, por vezes, a mão que se espera.

Que o Mundo ignora o Inverno na tua alma

E que é em ti, que deves procurar as sementes da Primavera.
Que a maturidade não é idade, mas percurso.

Que o que dizemos a uma criança nunca deve ser banal,

Que os seus sonhos são, do Mundo, o sonho principal.

Que o perdão também foi feito para nós mesmos.

Que mais vale ser injustiçado que ser injusto,

A não ser que ignores a justiça e a verdade.

Que todos odeiam, mas nada justifica a crueldade.

E, finalmente, aprenderás

Entre os adeus

Que os poemas nada esclarecem,

E que as verdades, em palavras, apenas se reconhecem.

(versão de Manuel Anastácio, adaptada de uma das muitas que circulam por aí)

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publicado por Manuel Anastácio às 11:12
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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
Architectonica perspectiva

Foto de G & Poppe

 

É um univalve, ou molusco de uma só concha, como os caracóis e os búzios. Tem uma concha em espiral que, vista de lado, parece a maquete de um sonho. O nome científico foi-lhe dado por Lineu em 1758.

 


Foto de G & Poppe

 

Quando vi pela primeira vez uma destas conchas, no caso, fossilizada, mais que a perfeição da espiral, que constitui a menos arquitectónica perspectiva que se pode ter desta maravilha natural, fiquei encantado com o nome tão belamente escolhido por Lineu. Fui, depois, à procura de mais imagens na Internet. E descobri o claustro circular que tinha imaginado para o meu conto da Bela Adormecida.

 


Foto de Roberto Verzo

 

Não há na mente humana criação alguma que a Natureza, em algum lugar, não tenha já concretizado. Ainda que na inconsciência das coisas perfeitas.

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publicado por Manuel Anastácio às 08:56
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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008
Natal

Poema original de "The Nightmare before Christmas" de Tim Burton.

 

Há natáis que pedem poemas.

Outros não.

Os que pedem, pedem

Poemas de luz celeste em terra escura.

Outros não.

Os que pedem, pedem

Sofrimento em grossos traços de doçura.

E em gritos no tom que eclode

No peito frágil que enfim respira.

 

Outros não pedem.

Não podem. Não querem. Não são.

Outros não.

 

Há natáis que pedem o segredo

Que a luz aos sábios segredou

E  que em caixinhas guardados

Em ouro, incenso e mirra se disfarçou.

Um traz silêncio, que ele dorme.

Um traz aviso, pelo perigo.

Outro, novidade, que o menino ignora.

Porque é de poema o sobreaviso, o aviso e a demora.

Ou não.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:03
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