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Cena de Eduardo Mãos de Tesoura. Sem buxo.
A Gerana pergunta o que é buxo. Em primeiro lugar, é, de todas as plantas, provavelmente a que é mais utilizada na nem sempre nobre arte da topiária, que consiste em aparar árvores e arbustos de forma artística, como fazia o Eduardo Mãos de Tesoura. De facto, é das poucas plantas que gosto de ver aparadas. As árvores têm dignidade própria e uma beleza superior quando não são forçadas a caber nas formas do mau gosto humano. Claro que nem chego a falar do deplorável e criminoso costume de cortar drasticamente os ramos a árvores de grande porte, de modo a promover todos os anos uma copa desproporcionada de pequenos ramos enfezados - costume tão frequente no meu Portugal arboricida e que tem sido especialmente denunciado pelo meu amigo Nuno Teixeira Santos. O buxo (Buxus sempervirens), porém, permite devaneios artísticos ao jardineiro sem que a planta perca a sua dignidade. O jardim de "O Rapaz de Bronze", de Sophia de Mello Breyner Andressen dá especial atenção ao jardim de buxo, local que enchia as medidas da vaidade dos gladíolos.
Não confundir buxo com bucho, que é o estômago de alguns animais e que é utilizado na gastronomia da Beira Baixa e arredores. Na minha terra natal, o bucho de carneiro é utilizado para fazer "arroz de maranhos" que, geralmente, é confeccionado em bolsinhas de estômago cozidas. Quando havia a matança do porco (actividade que envolvia sempre muita gente, como se fosse uma festa) havia dois momentos altos que marcavam os trabalhos depois da morte do porco: quando se assava a passarinha e quando se assava o bucho. Quanto à passarinha, nunca entendi o que era bem ao certo - e não tem nada a ver com a genitália feminina, porque os porcos machos também a tinham. Santo Google diz-me que no Brasil chama-se passarinha ao pâncreas do Boi, mas não sei se poderei fazer a extrapolação. O bucho - o estômago do porco - era cozido com as morcelas logo no primeiro dia da matança e era comido grelhado mais tarde, marcando o final de toda a azáfama que se seguia à morte do porco - e que cabia sempre às mulheres. Os homens, depois de matar o porco, dedicavam-se à nobre arte de bem beber e petiscar.
Há ainda o bucho revirado, mal que dava a certas crianças e que não sei explicar. Terei de investigar. Santo Google não me ajuda.
Jardim do Palácio de Mateus, Vila Real.
Milheiro em Brufe.
Pães quentes. Luz de Outono.
Disse num comentário abaixo que no Norte de Portugal (ou, pelo menos, numa determinada área onde me movo) pão não é o mesmo que na minha terra de origem. Na verdade, a questão não se prende tanto com o vocábulo pão, mas com o artigo que o precede. Onde nasci, tal como aqui, pão aplica-se a um alimento básico feito de farinha de cereais. A diferença linguística reside no momento da compra. Ninguém compra pão. Todos compramos um tipo específico de pão: onde nasci, havia papossecos e carcaças - aqui, são pães. Apenas pães. Onde nasci, um pão é uma unidade aimentar familiar que se corta em fatias. Aqui, um pão é uma unidade alimentar individual. Aqui, a unidade alimentar familiar é "o pão". A diferença está na utilização do artigo definido ou indefinido. Claro que os nomes dados ao pão em Portugal merecem outras considerações. Muito haveria a dizer sobre bicos, bicas, pão-de-ovelhinha, bolas, caralhotas - para não falar do que se entende pelas variedades regionais que, num espaço tão exíguo como é o de Portugal permite chamar de pão alentejano a coisas tão diferentes como um ovo de um espeto. Fica para depois.
Números 1, 5, 6, 7, 9, 11 e 14, das 'Catorze Anotações' de Fernando Lopes-Graça. Quarteto Lyra, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos, em Novembro de 2006 .
Há um tipo especial de memória que se prende directamente aos objectos em si mesmos, sem que exista neles, de facto. É a memória que reside nos próprios objectos pelo facto de terem estado fisicamente presentes em determinados acontecimentos. Em termos puramente objectivos, essa memória é inexistente. É uma crença que apenas beneficia os falsificadores de antiguidades, já que só se pode conceber em termos subjectivos: é a presunção dessa presença, verdadeira ou falsa, que, efectivamente, se imprime no objecto. Qualquer marca acidental, involuntária ou contingente num objecto não tem significado em si mesmo. Pode conter em si "pistas" que podem esclarecer determinados aspectos do passado que aí ficam fossilizados, mas não é a esse carácter detectivesco ou científico que me refiro. O ser humano, tal como os elefantes, fetichizam determinados objectos na sua qualidade de relíquias. E o facto de estas serem falsas ou não é secundário. Enquanto não se provar que determinada relíquia é falsa, ela é, para todos os efeitos, verdadeira na sua qualidade de relíquia. Uma relíquia é um objecto onde está impressa a ideia da morte, porque preterifica uma realidade. Torna-a absoluta, completa, canonizada. É por isso que ninguém é santo em vida - em termos teológicos, de facto, nem Cristo o seria até ao momento do sacrifício. O seu nascimento por obra e graça do Espírito Santo tenta resolver o problema ao colocar Cristo fora da ordem natural das coisas, mas o facto de existirem tentações no seu caminho implica uma real possibilidade do ingresso de Jesus na ordem material, imperfeita porque não consumada. Assim que o passado fecha um capítulo, os objectos a ele associados tornam-se as únicas testemunhas desse capítulo que ficará necessariamente por contar na sua globalidade.
Há uns anos atrás ouvi, num programa da manhã da Antena 2, alguém que já não me lembra a entregar à então presidente da Casa Fernando Pessoa uma tábua de um chão que teria sido pisado pelo poeta e, quiçá, que terá testemunhado a fricção da sola dos seus sapatos ou os calos dos seus pés contra o verniz em, provavelmente, alguns dos momentos decisivos da história da cultura lusófona. Momentos esses vividos, pressupõe-se, na solidão própria do escritor. Ora, o valor daquela tábua reside no quê ao certo? Alguém que a veja num museu não ficará em nada mais esclarecido quanto à obra do poeta em causa. Mas tenho a certeza de que se dissermos a um grupo representativo da nossa sociedade, composto por pessoas que já ouviram, pelo menos, falar de Fernando Pessoa e da sua importância como figura tutelar da nossa cultura, serão mais, em termos puramente estatísticos, aqueles que se sentirão arrepiados por estar a ver aquela tábua ("ELE pisou-a!") do que aqueles que se sentirão arrepiados ao ler qualquer um dos mais geniais poemas de Fernando Pessoa. E isso será assim, numericamente, porque é bem provável que aqueles que verdadeiramente são devedores de Fernando Pessoa (os que se arrepiarão com o génio da sua escrita) terão a mesma atitude irracional em relação a esse objecto.
O ser humano, como os elefantes, é um ser vivo religioso. Sempre. Mesmo quando é ateu.
Fernando Lopes-Graça, reconhecidamente não-crente, foi autor de uma das obras sacras mais profundas da arte portuguesa, se não a mais profunda: o seu "Requiem pelas Vítimas do Fascismo em Portugal". Já li muita justificação para a contradição intrínseca que existe na produção artística de muitas peças de Arte Sacra, desde a figurinha posta num altar a uma peça musical, por parte de artistas agnósticos ou ateus. E estas justificações centram-se sempre nos motivos subtilmente religiosos que moveram o autor. Este é o involuntário instrumento de Deus, que através dele providencia um objecto de veneração (quando o autor cria o objecto porque é de alguma forma forçado a fazê-lo ou por pura diversão) ou, pelo contrário, é realmente o artífice de um sincero testemunho de adoração teológica, seguindo um caminho paralelo à ortodoxia e/ou ao misticismo. Fernando Lopes-Graça pertence a este último grupo. Um dia, disse ao seu discípulo Pedro Amaral: "Rapaz: cada homem tem necessariamente um Deus, de outro modo não é possível viver... Ainda que esse Deus seja uma árvore, ou um rio". O Deus de Lopes-Graça pode bem não ser pessoal, omnipotente ou, simplesmente, místico. Pode ser apenas um Deus simbólico. De facto, os ateus não negam o valor dos símbolos. Ora, o símbolo é apenas uma forma mais abstracta da relíquia. O símbolo nasce quando o Homem se apercebe que a memória preterificada (o "pastness of the past") não reside nos objectos em si, mas na memória em si, pelo que o objecto de adoração ou de identificação pode ser criado no presente, com características mais ou menos convencionais que terão, por si mesmas, o poder da evocação (memória). De qualquer modo, o símbolo limita-se a heroizar um conceito absoluto, tal como o faz a relíquia, só que seguindo uma estratégia de linguagem diferente: em vez da metonímia que há num pedaço da "Vera Cruz", o símbolo recorre à metáfora e é, assim, que nasce o sinal da cruz. Memória gravada nos gestos. Poesia. Porque à memória histórica, científica, há que acrescentar e não desprezar a memória como poema; memória com que contamos as coisas para sempre invisíveis. É por isso que me arrepiarei se um dia estiver frente à tábua pisada por Fernando Pessoa. E apetecer-me-á roubar uma lasca e levá-la para casa. Eventualmente, para engastar num relicário. Mesmo que saiba que pode ser falsa.
Horta, couves galegas, milheiros e muro. Em Brufe.
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Festival de Jardins de Ponte de Lima. Vencedor de 2007: "O jardim das avestruzes". Ricinus communis. Tóxicos? Muito menos que nós. |
"A procura da luz" - de Maria Martins. Foto de Robert Portoquá.
O Saramago (que também já tem um blogue) também sempre nos prometeu livros que nunca chegaram a ver a luz. As minhas edições de capa suja e usada de alguns dos seus romances ainda continuam a prometer livros que nunca foram ou serão escritos, ou que foram convertidos, na sua intenção, em outros. Eu prometi um livro à Gerana. Chamar-se-ia "Só porque Deus não está ouvindo". Estou bem decidido a escrevê-lo. Poesia, claro. Não há tempo nem imaginação narrativa para romances, como deixo a entender numa auto-entrevista alguns artigos abaixo. O título, claro, tem uma sonoridade brasileira, até porque, sendo editado, sê-lo-á no Brasil. E achei, desde o início, que devia brincar exactamente com a tensão entre o português do Brasil com o português de Portugal. A certa altura, com poucos poemas (inéditos) ainda no forno da reescrita, decidi mostrar um à Gerana. Ela, compassiva (para usar um adjectivo com que o Brabo me presenteou um dia), abraçou o poema e quis dá-lo a conhecer como bebé prematuro, frágil e, talvez por isso, mais biologicamente necessitado de amor. Estou crente de que o livro, ainda que com pequena tiragem, será editado. Ainda que o poema já tenha sido publicado no blogue da Gerana, acho por bem deixá-lo aqui também.
Está quieta. Não te mexas.
Ignora-me.
Demora-me.
Enterra-me.
Distende agora os membros sobre o chão.
Pensa que o teu corpo é uma prisão.
E não tenhas dúvida de que o é.
Esteja quieta. Não se mexa.
Me ignora.
Me demora.
Me enterra.
Distenda agora o peso pelo chão.
Pense que seu corpo é metal em fundição.
Nem duvide, porque é.
Está quieta. Não se mexa.
Ignora-me.
Me demora.
Espreguiça-te lentamente, ao chão rente.
Levante-se agora.
Paisagem parcial da freguesia de Rendufinho. Só porque foi o artigo 10 000 da Wikipédia Lusófona. No tempo em que ainda tinha algum tempo para nela escrever.
Um dia, o Indech, da Wikipédia, chamou-me de Manuel Anastácio, o Intenso. Gostei. Gostaria de ainda o poder ser. Não sou, mas não por falta de intensidade.
A caminho do Gerês, sempre que passo por uma terreola chamada de Rendufinho, a intensidade vem ao de cima. Fico furioso por o pessoal da terra ainda não ter em letras hollywoodescas "Bem Vindo a Rendufinho - o artigo 10 000 da Wikipédia Lusófona". Mas fico ainda mais furioso pelo facto de o artigo se manter, hoje, com a mesma incipiência franciscana com que nasceu das mãos do Jorge Candeias. Ingrata gente. Os rendufinhenses, claro. Que as candeias apagaram-se há muito.
Tal como me sinto triste por não poder dar o meu empurrãozito à grande e imperfeita epopeia que é a Wikipédia, sinto-me culpado por dizer que tenho um blogue e deixá-lo dias a fio com a mesma paisagem. Não sou muito pessoa de escrever sobre coisas de agora e para agora. Não sou muito adepto dos fotologs, e nem a qualidade da minha máquina fotográfica nem o meu dedo e olho fotográficos se ajustariam a tal propósito. Sou letras, definitivamente. Se fosse realizador de cinema, a coisa seria diferente. Um bom director de fotografia faz maravilhas, se bem mandado.
Só para justificar a proliferação de Gosto des nos próximos tempos. A regularidade de artigos "normais" (ou o-que-a-casa-gasta) será pouco mais ou menos a mesma. Para que os visitantes, simplesmente, não sejam presenteados com uma data insonsa a servir de maçaneta.
Chão a caminho de "O Abocanhado" em Brufe, antes de comer javali com arroz de carqueja nas nas minhas bodas de madeira.
O "Gosto de..." é, obviamente, plagiado do Shark. Eu também gosto de pessoas. Mas não tenho lata de as fotografar. Sinto que lhes estou a roubar a alma. Sem que o consintam.
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