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Sábado, 30 de Agosto de 2008
Eu sou uma força do Passado - Pier Paolo Pasolini

Excerto de "O requeijão" de Pier Paolo Pasolini

 

Eu sou uma força do Passado.

Só na tradição está o meu amor.

Venho das ruínas, das igrejas,

Dos retábulos, das aldeias

Abandonadas sobre os Apeninos e os Pré-alpes

Onde viveram os irmãos.

Percorro a Tuscolana como um doido,

Pela Ápia como um cão sem dono.

Tanto contemplo o crepúsculo, a aurora

Sobre Roma, sobre a Ciociaria, sobre o mundo

Como os primeiros actos da Pós-memória

A que assisto, por privilégio censitário

Da orla extrema de qualquer idade

Sepulta. Monstruoso quem é nascido

De vísceras de mulher morta.

E eu, feto adulto, cirando,

O mais moderno de todos os modernos,

Procurando irmãos que o não são mais.

 

Pier Paolo Pasolini in Poesia in forma di rosa

versão de Manuel Anastácio

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Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008
Joel Costa: Questões de Moral

Orson Welles, em "O Requeijão", de Pier Paolo Pasolini. Pelas afinidades óbvias, ou não, com o Joel Costa.

 

Há uns bons oito anos atrás, dormia eu junto à torre da igreja do Alandroal, onde era presenteado, toda a noite e de quarto em quarto de hora com as badaladas de um sino muito devoto à Virgem. E, de manhã, quando o cansaço de uma noite de vigília forçada já conseguiria fazer frente aos carrilhões de Mafra, tinha de aceitar a minha sina de assalariado com horário a cumprir. E lá me deslocava do cubículo traseiro do número um da Rua do Rodo para a exígua casa de banho onde ouvia, como sempre, na minha invariável monotonia, a Antena 2, na altura com um programa da manhã chamado "O Despertar dos Músicos" onde, entre algumas árias de ópera e alguns andamentos de concertos para piano, violino ou oboé, me chegava a voz de Joel Costa num pequeno apontamento matinal. Sempre fui de tomar o pequeno almoço em casa e não sou bebedor de café, mas o momento em que Joel Costa começava a falar, como quem ainda está com o humor negro da noite a fazer remelas com a insuportável luz da manhã, transfigurava por completo os minutos que faltavam até subir a estradita que dava à impressionante escadaria da Escola Dom Diogo Lopes de Sequeira. O cubículo, que fora o único sítio que conseguira alugar para aquele ano lectivo numa terra que lembrava o deserto, tornava-se, de súbito, num café de mesas limpas, chocalhar de chávenas e cheiro a pastéis e a pingos directos (esta dos pingos directos ainda não se dizia assim, em terras tão meridionais, mas agora soa-me bem).

 

Joel Costa é um escritor e leitor de primeira água - quero eu dizer: de primeira bica. Com cafeína suficiente para abrir os olhos a uma preguiça da Amazónia. Isto digo eu (como diria o Joel), que nunca li nenhum livro dele (mas que lerei, de certeza, não venha a tipa da foice romba mais lesta que o tempo que tenho para ler). "Balada para Sergio Varella Cid" e "O Assassino de Salazar" estão já na lista de livros que  terei de ler. Por que? Por causa da força torrencial do seu discurso, simples, directo, coloquial, variando, segundo a real gana do autor, do bom ao mau humor. Torrencial como a água revolta que arrasta consigo os pedregulhos do alto para o raso chão aluvial do quotidiano. E digo isto sem o ter lido. Assim é, por causa dos programas que sigo religiosamente, na minha monótona e monolítica sintonia radiofónica na Antena 2. Joel Costa é autor de um programa chamado "Questões de Moral". E acabo de ouvir um certo Elogio ao gordo (ouvir aqui ou aqui, se entretanto os links não não passarem de validade) que me deixou, primeiro, com vontade de o plagiar, depois, com vontade de o citar (mas como, se a torrente é toda ela una e se ao pegar num pedregulho do alto, logo pede o Caos de blocos para cair todo por ali abaixo?). Entretanto, descubro esta biografia, não assinada, mas onde o estilo do Joel (ele que me perdoe o tutear) se derrama com toda a sua força revolucionária disfarçada de reacção:


Joel Costa, personagem atípica e polidisciplinar, nasceu em Lisboa e não tem a mínima formação universitária.


Foi exercendo na vida e nas circunstâncias intersticiais do tempo, o inteiro e o parcial, diversas e quase disparatadas actividades: paquete, bancário, empregado de escritório, contraguerrilheiro forçado, contabilista incompetente, dactilógrafo temporário, auxiliar de cartografias, cantor lírico, sindicalista, actor de cinema, novelista de gaveta, dramaturgo de cesto de papéis, conferencista de pequeno (e por vezes mau) porte, assessor político, classificador de espectáculos e ghost writer – embora, como grande admirador de romancistas americanos, também gostasse de ter sido marinheiro, publicitário, porteiro da noite, alcoólico, piloto aviador na II Guerra, estucador, jornalista e pastor evangélico.
Em 1994, por um acaso, inicia a inesperada actividade de autor radiofónico. Colabora com a RDP-Antena 2 e é autor de trabalhos que têm merecido o reconhecimento do público e da crítica: Questões de Família e Questões de Moral - actualmente no ar –, além de outras colaborações avulsas. Em 2003, o grupo de teatro Intervalo levou à cena a sua comédia Isto é a Gente a Falar.

 

Quem quiser continuar a sorrir disparatadamente com toda a seriedade destas crónicas de pura excelência literária, ainda por cima com o excelso suporte de escolhas musicais da mais pura melomania, é só aceder aos podcasts dispensados pela RTP. É. A RTP também faz coisas boas...

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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008
Il Vangelo Secondo Matteo

Excerto de "O Evangelho Segundo Mateus" de Pier Paolo Pasolini.

 

Em 1962, o Papa João XXIII convocou vários autores, não crentes, para um diálogo em Assis, entre os quais, Pier Paolo Pasolini. Durante a estadia, o realizador pegou no evangelho, leu-o como se fosse um romance, e passou a desejar firmemente realizar, sem guião, a vida de Cristo.  O seu "Evangelho Segundo Mateus" poderá, de facto, tresandar a amadorismo devido às austeras opções do seu conceptor. Parece o tipo de filme que um grupo de alunos católicos adolescentes, mas com alguma consciência política, conseguiria fazer com poucos recursos e muita vontade de trabalhar. Cenas simples, filmadas com o dogmatismo do Cinéma Vérité, actores não profissionais, guarda roupa que parece absurdo e música, à primeira vista, anacrónica. Tudo impregnado de uma imperfeição sobre a qual paira um sopro divino jamais conseguido por outro cineasta (pelo menos por mim visto), desde as xaropadas de Zefirelli ao sadomasoquismo de Mel Gibson. Scorcese é um caso à parte e há muito tempo que pede que o volte a ver.

 

A linguagem cinematográfica deste Evangelho de Mateus segundo Pasolini é uma linguagem puramente poética. Os planos são como unidades de significado e ressonância (tal como as palavras num poema) que são dispostas segundo o sentido ético e estético do autor. Tal como num poema podem existir palavras feias, também neste poema sacro aparecem elementos que repugnarão a muitos espectadores habituados aos filmes de época que impecável e artificialmente transmitem um colorido sucedâneo da verdade. A sensibilidade dos crentes é, contudo, sempre respeitada - de facto, não é de admirar que o filme conste na lista dos filmes preferidos de João Paulo II e na lista dos filmes recomendados pelo Vaticano no que concerne à religião. O suposto marxismo deste filme, parece-me, está mais na cabeça de alguns que no próprio filme. De facto a estética marxista, ou pelo menos aquela que nos chega sem ser datada e fora de validade, sempre foi, paradoxalmente, profundamente religiosa. É certo que fazendo uma certa transferência de valores e significados do campo do maravilhoso cristão para um outro tipo de maravilhoso: o da dignidade do ser humano vulgar que é transfigurado ao concretizar em si a imagem do Espírito que move o Mundo. Neste sentido, o filme é marxista, mas não do ponto de vista ideológico - sê-lo-ia tanto quanto foram Mateus - e Jesus, avant la lettre. Embora o mais correcto seria admitir o marxismo como uma forma alterada do cristianismo. São estas contas de outro rosário, que em nada tocam no filme de que agora falo, ainda que conste que Sartre tenha chamado Pasolini à parte, dizendo  "Estaline reabilitou Ivã, o Terrível; Cristo ainda não foi reabilitado pelos Marxistas." Quanto mais conheço de Sartre, mais gosto das moscas.

 

A linguagem cinematográfico-poética deste Evangelho é exposta, na abertura, com a crueza silenciosa de um filme que recusa colocar na boca das personagens palavras que o Evangelho lá não quis pôr. Tirando breves e raras excepções, todas as palavras ditas são tiradas do discurso directo presente na escritura. José abandona Maria sem uma palavra, volta sem uma palavra. Planos longos. Silêncios medidos. Na cena do baptismo, recusa-se a descida da pomba. O Espírito Santo, em vez de descer sob uma forma simbólica, torna-se presente pelo movimento da câmara que sobe em consonância com o olhar ascendente das personagens. Os milagres são de uma simplicidade infantil - vemos o leproso, corte, vemos Jesus, corte, vemos um homem curado. Jesus andando sobre as águas é, contudo, a mais bela das imagens que poderia imaginar para tal cena, ao juntar luz e horizonte. Simples poesia de claridade, como se fosse Sophia de Mello Breyner a conceber o plano.  No Sermão do Monte, Pasolini atreve-se a fazer uma interpretação, perfeitamente legítima, do texto, ao mantê-lo como uma peça única, a nível de estrutura discursiva, fazendo, contudo, uso de uma bela sequência de montagem para sugerir que tais palavras não tenham sido proferidas de uma vez, mas em diversas ocasiões e locais, ao variar as condições atmosféricas, a paisagem de fundo e a luminosidade que envolvem Jesus. Na Paixão, não se procura o dramalhão melodramático nem a violência gratuita - Pasolini é, até, brando demais: a coroa de espinhos mal parece tocar na testa do supliciado.

 

A música e o guarda roupa são mais dois aspectos que podem provocar estranheza mas que pertencem de forma absolutamente coerente ao código escolhido por Pasolini. Ouve-se, como se vê no excerto que abre este artigo (a adoração dos magos), o espiritual  "Sometimes I Feel Like a Motherless Child", provavelmente cantado cantado por Odetta, ainda que alguns, mal informados devido à falta de créditos no genérico do filme, citem Marian Anderson ou mesmo Billie Holiday. Da mesma forma, ouve-se Bach, Mozart, Prokofiev ou a Missa Luba. Este ecletismo de fundo tem uma significação religiosa e teológica particularmente poderosa, ao imprimir um carácter intemporal à história que é contada, tomando uma atitude semelhante às dos pintores sacros que, desde sempre (excepto na modernidade - embora não ponha as mãos no fogo) têm inserido as personagens do evangelho em trajes e espaços arquitecturais que nada devem ao rigor histórico, não só por ingenuidade (ou, talvez, jamais por ingenuidade) mas porque ao fazê-lo transportam diacronicamente a figura de Cristo através dos tempos, já que, enquanto Deus, se mantém fora do Tempo. O guarda roupa é, neste sentido, particularmente interessante e revelador, especialmente no que diz respeito aos estrondosos chapéus de algumas personagens, directamente inspirados em Piero della  Francesca e não em qualquer pesquisa de carácter histórico.

 

Estruturando-se em torno da humanidade de Cristo, a força principal da autoria colectiva deste filme teria de residir nos actores. E assim é, tanto no sorriso de Margherita Caruso (a jovem Maria) como na sua repetição, mais tarde, no sorriso de aprovação resignada de uma Maria envelhecida (Susanna Pasolini, a mãe do cineasta) naquela passagem tão brusca e impiedosa do evangelho, quando Cristo é avisado da visita de sua mãe e este responde que a sua mãe e seus irmãos são aqueles que o seguem. Passagem esta que, tanto pela forma ingénua  mas generosa da fala de Cristo (Enrique Irazoqui) como na forma como a mesma é ouvida e percebida por Maria, se torna, paradoxalmente, numa homenagem à sua mãe, na vez da crueza do excerto da escritura sagrada. É, novamente, daqueles momentos em que o ímpio Pasolini parece entender melhor o espírito cristão que qualquer outro cineasta movido pela crença. Na cena final da paixão, é de novo Susanna Pasolini que carrega em si o sofrimento de toda a passagem quando, como já foi dito, Cristo passa por ela sem grande expressividade a nível da dor física - o que remete, aliás, para a genial curta-metragem "O requeijão", de Pasolini, anterior a este filme e (muito) menos bem recebido pelo público católico.

 

O Evangelho de Pasolini é, em suma, a palavra em vez do verbo. A consequência em vez da origem. O ser humano que sente em vez do ser humano que é. Sem negar a divindade que inegavelmente se resume a um sorriso.

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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
Carlos Nejar, o poeta da Condição Humana

"The Tunnel", vídeo de César Meneghetti, em colaboração com Carlos Nejar

 

O que é a condição humana? Já muitos leitores entraram por aqui dentro à procura da resposta. E levaram, com certeza, a melhor resposta possível: uma mão cheia de nada. É, provavelmente, isso, a condição humana - apesar do nada e do vazio, ainda assim, resta a mão.

 

A poesia de Carlos Nejar, que descobri há pouco, poucochinho, numa antologia da Editora Pergaminho, é sobre a mão, ainda que não se esqueça do nada. Jacinto do Prado Coelho chamou-o de poeta da Condição Humana. E é-o, por diversas razões, sobre as quais não é possível dissertar.


É esta a condição de não ser homem:

dormir, placidamente, sem remorsos,

no curral dos mortos.

(Canga, 1971)

 

É uma poesia centrada na ideia da repetição ritual das palavras, como se toda a sua obra poética pertencesse ao mesmo poema. É lugar comum dizer-se que todo o artista faz e refaz a mesma obra. Não sendo bem verdade, isso pode, contudo, significar duas coisas: ou que faz várias obras que se repetem; ou cada obra completa as anteriores, formando um conjunto mais ou menos harmónico. Carlos Nejar pertence a estes últimos criadores.

 

Mas o que mais me fascinou foi a sua capacidade para abraçar o Amor, Deus e a Morte em fórmulas de uma exactidão religiosa onde a forma pagã se converte em conteúdo próprio de um cristianismo impartilhável. Nejar é um poeta sempre religioso porque a sua mão, cheia de nada, sabe tocar o absoluto. Se estivesse cheia de alguma coisa, teria primeiro de largar coisa. Em Nejar não há coisas, porque todas essas coisas se fundem, ora na decomposição dos vermes ora nas auroras que perfilam a eternidade possível onde assenta a esperança.


Escreverei aurora nos navios,

nos bosques, nas manhãs dentro do vento,

Escreverei aurora no horizonte,

nas tardes, nos silêncios, nas areias.


Escreverei aurora sobre os mapas,

nos cisnes, nos pássaros, nos rios.

Escreverei aurora sobre os homens,

aurora nas mulheres, nos meninos,

aurora sobre os olhos, sobre os braços.

Aurora está contigo.


Escreverei aurora com o nome de minha mãe

ou uma árvore na infância.

Escreverei aurora no murmúrio das águas,

das palavras.


Escreverei aurora de mansinho

como se diz: amada.

Escreverei aurora.

(Livro de Silbion, 1963)

 

A música da poesia de Nejar é uma música pitagórica, numérica, geométrica. Quero dizer com isto que a beleza musical, sonora, da poesia nejariana é, ao contrário da maioria dos poetas, de uma perfeição traduzível, porque reside não na Língua Portuguesa, mas na ideia e na concepção do poema enquanto conjunto de unidades dispostas segundo uma arquitectura puramente musical, ainda que o seu sentido literal mantenha intacta a sua significação. Não poderei imaginar ao que soará qualquer um dos seus poemas em japonês ou em aramaico, mas nada disso importa, porque o elemento sonoro que compõe estes poemas não se prende a uma língua. É por isso que Nejar não é um poeta brasileiro, nem lusófono. É um poeta da língua transcendental - não de uma língua original, mas de uma língua que paira sobre todos os idiomas.


Deus não é a palavra Deus

e andorinha,

a palavra andorinha.


Há um poço

que não entra

na palavra poço.


O amor, na palavra amor.


E Deus é tudo isso.

(O Chapéu das Estações, 1978)

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Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008
Sabe mais que uma paramécia? III

"A Vida de Galileu Galilei" - uma coisa ridícula (mas bem humorada) para combinar com outra coisa ridícula (menos bem humorada).

 

Responderam-me assim do programa "Sabe mais que um miúdo de dez anos", na sequência da minha queixa:

 

Ex.mo Senhor:

 

Em nome do Provedor do  Telespectador agradeço o email que enviou.

 

Face a algumas reclamações dos Telespectadores foi solicitada uma explicação ao responsável do concurso « Sabe mais do que um miúdo de 10 anos?».

 

Enviamos, em anexo, a resposta que nos foi enviada, esperando que seja suficiente,

 

Renovando os nossos agradecimentos pela sua colaboração

 

Melhores cumprimentos

 

Chefe de Gabinete dos Provedores

 

Fernanda  Mestrinho

 

 

Eis a resposta:

 

 

Perante as dúvidas manifestadas por alguns telespectadores quanto à pergunta «Como se designam duas rectas que se intersectam num ponto sem formar um ângulo recto?», à qual a concorrente respondeu «oblíquas», vimos esclarecer o seguinte: 

1 – A pergunta foi elaborada de acordo com os conteúdos programáticos do Ministério da Educação para a disciplina de Educação Visual e Tecnológica do 2º Ciclo do Ensino Básico, que mencionam explicitamente (na página 22) a necessidade de os alunos consolidarem as noções de «vertical», «horizontal» e «oblíquo», relacionadas entre si e importantes para a concepção do espaço.  

Assim, os programas e os materiais pedagógicos disponíveis distinguem claramente a «posição da recta no espaço» e as «relações entre rectas». Citemos, por exemplo, o manual Novo Espiral (5º e 6º anos), publicado pela Texto Editores, da autoria dos professores José Manuel Mesquita, Feliciano Mendes Gaspar e Dinis de Carvalho (toda a página 52, particularmente clara), bem como os seguintes sítios da Internet destinados a professores e alunos da disciplina de EVT: 

http://www.ensinarevt.com/conteudos/geometria/index.html 

http://www.livroevt.no.sapo.pt/index2.htm  (procurar Geometria) 
 
 

 

2 – De acordo com as referidas fontes – seguidas pelos professores de EVT do 2º Ciclo na sua prática quotidiana – , «a posição das rectas no espaço determina a sua orientação: horizontal (1), vertical (2) ou oblíqua (3):  
 

 

É claro que, quanto à sua orientação no espaço, qualquer recta que não seja horizontal ou vertical será sempre oblíqua. 

3 – Já no que diz respeito às «relações entre rectas», e ainda citando as mesmas fontes, elas podem ser: 

A) Paralelas – «Duas rectas chamam-se paralelas quando mantêm sempre a mesma distância entre si. Por mais que as prolongues, nunca se encontram.»

B) Concorrentes – «Duas rectas chamam-se concorrentes quando se cruzam num único ponto (ponto de intersecção).» 

 

C) Perpendiculares – «Duas rectas chamam-se perpendiculares quando formam quatro ângulos rectos entre si.»  
 

É claro que duas rectas perpendiculares são sempre concorrentes. 
  
 

4 – Tendo em conta o exposto e recordando a pergunta formulada no concurso – «Como se designam duas rectas que se intersectam num ponto sem formar um ângulo recto?» –, a resposta «oblíquas» não pôde ser considerada correcta, já que «duas rectas que se intersectam num ponto sem formar um ângulo recto» são sempre concorrentes (era esta a resposta), mas, como se depreende dos conceitos acima apresentados e adquiridos pelos alunos do 2º Ciclo do Ensino Básico, podem existir casos de rectas oblíquas que não se intersectem em qualquer ponto, isto é, que não sejam concorrentes, mas paralelas entre si. Veja-se o seguinte exemplo, em que estamos perante duas rectas oblíquas que não se intersectam:  
 

4 – Julgamos que esta explicação poderá contibuir para esclarecer os telespectadores. 

Cordiais cumprimentos, 

Fernando Pinto do Amaral

(Consultor do programa «Sabe Mais que um Miúdo de 10 Anos?»)

 

 

Não vou fazer mais comentários além do mail que enviei:

 

Caros:

Sou professor de Ciências da Natureza. Raízes fasciculadas não são raízes ramificadas. Não é por persistirem no erro que ele passa a ser verdadeiro.

Quanto à vossa explicação a respeito das rectas, é hilariante e revoltante. As inferências que fazem a respeito da noção de horizontal, vertical e oblíquo e das informações sobre relações entre rectas é ainda mais revoltante porque em nada esclarecem - fazem apenas uma embrulhada a partir de premissas que não parecem ter entendido.

«Como se designam duas rectas que se intersectam num ponto sem formar um ângulo recto?»

Meus caros: rectas que se intersectam num ponto sem formar um ângulo recto são e serão sempre rectas oblíquas, ainda que sejam sempre concorrentes. Nada do que me enviaram como justificação serve porque é uma justificação absurda e sem nexo.

Além do mais, o link http://www.ensinarevt.com/conteudos/geometria/index.html apresenta incorrecções na apresentação dos conteúdos. Quem mantém o site "Ensinar EVT" deve corrigi-lo de imediato - eu mesmo contactarei os autores do mesmo. Quanto ao segundo link, ele é bem claro:

"Rectas concorrentes, são rectas que se cruzam num ponto."

e


"Rectas perpendiculares, são rectas concorrentes que se cruzam num ponto [logo, são concorrentes] formando entre si ângulos de 90º ou seja ângulos rectos."

Não fala de rectas oblíquas, que são as concorrentes que não são perpendiculares (isto é, não fazem ângulo recto).

Como a RTP prefere manter o erro, vou falar com várias associações, incluindo a Associação de Professores de Matemática, para que se alertem os alunos para não assistirem a programas que supostamente têm uma componente educativa mas que falham no essencial, ao não admitirem o erro.

É vergonhoso que a televisão pública transmita ideias erradas e não tenha o civismo de apresentar as devidas correcções.

É revoltante. Tratarei de dar mais visibilidade a este assunto, apelando não só a associações de carácter pedagógico e científico como aos outros órgãos de comunicação concorrentes que, com certeza, terão gosto em explorar o filão.

Cumprimentos,

Manuel Anastácio

publicado por Manuel Anastácio às 13:58
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Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008
Sabe mais que uma paramécia? II

Genérico da série "Zorro" da Disney.

 

Já lá vão nove dias. O provedor do telespectador continua de férias e nada disse a respeito disto.

 

Entretanto, chega-me aos ouvidos uma história curiosa e revoltante, que teve como desenlace um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que demonstra que se a lei dos deuses é má, a lei dos homens não fica atrás. O senhor A (não sei o nome real) concorreu no ano 2000 (ainda com o Carlos Cruz) ao concurso "Quem quer ser milionário" da RTP. Tendo chegado ao patamar dos 3 500 000$00, se respondesse correctamente à questão seguinte passaria para o patamar dos 7 500 000$00. Caso errasse, voltaria ao patamar dos 1 750 000$00, a não ser que desistisse.

 

A questão era:

 

“Qual destas personagens de banda desenhada foi mais vezes recriada pelo cinema? A) Zorro B) Super-Homem C) Tarzan D) Batman.”

 

O senhor respondeu Tarzan. A resposta foi considerada errada - supostamente, seria Zorro.

 

A produção baseou-se num CD-ROM da Microsoft, o "Cinemania 1996", onde constava “Zorro has been portrayed on screen more often than any other comic-strip character: from the Mark of Zorro (1922) to this year’s The Mask of Zorro, he has appeared in70 films”.

 

Ora, o senhor A investigou e consultou também o Cinemania 96, o Corel Movie Guide, o IMDB, e o livroThe Guiness Book of Film- Facts and Feats” de Patrick Robertson em que, no capítulo respeitante às personagens do cinema, “characters and themes” é referido o seguinte: “The other legendary characters most frequently represented on screen have been (…) Tarzan – 83 films (…) Zorro – 65 films”.

 

O Supremo Tribunal de Justiça considerou, que "A resposta que o A. deu era a de maior grau de certitude das possíveis, corresponde ao resultado das buscas mais fiáveis e criteriosas e pode com elevada segurança dar-se como a correcta."

 

Contudo, esta história não tem final feliz, porque a RTP, minutos antes de gravar o concurso, já na sala de caracterização, deu a assinar, ao senhor A., um documento onde constava:

 

“Tenho conhecimento das regras do programa e aceito as condições da produção durante a minha participação na gravação do programa, renunciando a qualquer recurso sobre a matéria.”

 

e

“Ao participar no concurso, aceito também que a produção possa pôr termo à minha presença e participação no mesmo em qualquer altura, tanto anteriormente ao início das gravações, como durante ou no final das mesmas, e que a decisão para tal atitude lhe cabe inteiramente e será irrecorrível. Concordo também que a decisão da produção e todos os pontos será irrecorrível”.

 

O senhor assinou. Em cima da hora, mas assinou. Se não tivesse assinado, nem os 1 750 000$00 ganharia.

 

Portanto, assinou um papelinho que diz, basicamente, que quem faz o concurso é que sabe, põe e dispõe. Se disserem que a areia é composta por 100% de água, o senhor só tem é que se calar e andar para a frente com o que os senhores da produção lhe quiserem dar.

 

O Supremo Tribunal de Justiça considera ainda que o dito concurso se pode classificar como um concurso público com promessa de prémio e não como uma promessa pública. No primeiro caso, a atribuição do prémio, na prática, não é judicialmente obrigatória (é apenas uma "obrigação natural" - um dever moral), já que fica dependente da decisão de um júri (a produção do programa) que, segundo o nosso Supremo Tribunal de Injustiça, é um "factor aleatório" e não um "factor objectivo". Caso de uma promessa pública: se eu disser nos anúncios de um jornal: "dou 500 euros a quem me encontrar o meu cão que é assim e assado", sou obrigado a pagar esse dinheiro a quem me aparecer com o cão, porque o aparecimento do cão é um factor objectivo. Num concurso público com promessa de prémio, além de ser necessária a inscrição (aceite) de alguém nesse concurso (ao contrário do caso anterior, em que me pode aparecer qualquer pessoa, incluindo o meu pior inimigo, com o cão, ficando eu obrigado a pagar o que prometi em público), a atribuição do prémio está dependente (pasma-te, La Palisse!)  de "que o júri, ou promitente, lhe atribuam o prémio" (sic).

 

Ora, diz o mesmo acórdão que "A promessa pública não tem factor aleatório – sorte ou acaso – ou subjectivo – gosto artístico do júri – bastando-se com critérios objectivos." e "Se (...) [a] a atribuição galardão depender de factores aleatórios ou subjectivos o regime será o do concurso público."

 

Isto significa que, segundo o nosso Supremo, que a resposta correcta a uma questão  não é um factor objectivo, mas aleatório ou subjectivo. Ora viva o relativismo! E eu que passo tanto tempo a corrigir testes!

 

 

De facto, há que distinguir entre decisões do âmbito estético (concursos onde os concorrentes são avaliados por prestações artísticas, por exemplo) e decisões de um âmbito puramente científico e que pode ser documentado. O Tarzan tem mais filmes que o Zorro - isso é ponto assente...

 

A RTP podia, contudo, ter-se socorrido de outro argumento, mas não se socorreu porque a questão não devia ter sido “Qual destas personagens de banda desenhada foi mais vezes recriada pelo cinema?" mas “Qual destas personagens, originalmente de banda desenhada foi mais vezes recriada pelo cinema?"... É que o Tarzan é a única destas personagens que não nasceu no mundo dos "comics" - de facto, é isso que a fonte usada pela produção do programa diz: “Zorro has been portrayed on screen more often than any other comic-strip character: from the Mark of Zorro (1922) to this year’s The Mask of Zorro, he has appeared in70 films”. O autor desta passagem não considerava o Tarzan como personagem de Banda Desenhada e, de facto, foi-o apenas por arrasto do sucesso que tiveram as versões romanceadas.

 

A produção do programa não tem a obrigação judicial de voltar a dar a oportunidade perdida ao senhor A. Creio que o mesmo se aplicará, segundo esta ordem de ideias, ao caso exposto ao provedor. Contudo, a "obrigação natural" ou moral de ser justo para com o senhor A, que apresentou fontes bibliográficas que comprovam que a sua resposta jamais poderia ser considerada errada, não deve ser desprezada por uma instituição que se diz de "serviço público", principalmente devido ao seu carácter "educativo". É, de facto, um grande exemplo de civismo este, de se escudar em pormenores técnicos para se furtar à obrigação de se ser justo.

Para além do mais, há a questão de que o erro fica por corrigir. Numa televisão pública isso é inadmissível. Ah, pois... é apenas inadmissível moralmente - em termos judiciais, é admissível. Que bom.  Para os escroques.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:28
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Curta 38

O presidente interditou o espaço aéreo sobre a sua casa de férias. Tudo leva a crer que se deva a ameaças do anticiclone dos Açores.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:23
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Sábado, 2 de Agosto de 2008
Mista sobre tela (ao Lengo D' Noronha)

Pretérito perfeito, tríptico 150 x 120, Mista sobre tela, de Lengo D'Noronha (2004)

 

 

A técnica, pretérita, é um discurso seco.

É um gesto de secura e rigor

Que discorre do vigor daquilo que tranquilo perdura.

Um gesto solar. Seco.

 

Aplico massa acrílica com espátula

E faço a textura com o que tiver ao meu alcance.

Agora, deixo que descanse,

Enquanto que ao sol, seco.

 

E onde sentir que um franco clarão aí se deve reflectir,

Pinto com látex branco.

E seco.

 

Com um rolo de espuma

Converto em uma, sem mais nada, superfície

De uma camada de asfalto líquido

Que o polímero acrílico

Em breve seca, enquanto o sol disseca

Em sombra, os ramos abertos do guapuruvú.

 

Com uma estopa embebida em aguarrás

Retiro asfalto até ao tom desejado

Enquanto a forma o asfalto perfaz

Expulso donde o látex foi acamado.

Seco.

 

Aplico verniz acrílico para concreto aparente

– ou, então, betão à vista.

Seco.

Penduro.

É comovente o que a técnica, seca, conquista.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 03:48
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