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Quarta-feira, 30 de Julho de 2008
As regras do Haikai

Sanshô dayû (o Intendente Sansho), de Kenji Mizoguchi. Dizer muito com pouco.

 

A Cris deixou-me, mais abaixo, um comentário muito interessante e decidiu bater-me por eu infringir as regras do Haikai. É verdade, infrinjo-as forte e feio. Não é preciso bater.

 

E isso, porque a minha relação com o Haikai é paradoxal. Por um lado, sou pouco zen (digo eu) e fujo como posso à concisão naturalista e efémera do género. Gosto, isso sim, da ideia de concisamente eternizar o momento com reflexões pessoais sobre o que há de sagrado numa imagem, num som, num cheiro, num instante passageiro dos sentidos. Os meus haikais nada têm de  filosofia oriental, mas resultam da transposição do género para um perspectiva católica eivada de heresia, muito própria dos ocidentais. Não consigo dissociar, de facto, religião de poesia. E é um facto, não sou budista.

 

Assim, fujo às regras que definem a pureza do Haikai e prefiro subverter o género, seguindo, por outro lado, um modelo ainda mais rígido e dogmático (católico, diria eu) que foi definido pelo poeta brasileiro Guilherme de Almeida. O que resulta disto pode não ser, de facto, um haikai. E não é.

 

Guilherme de Almeida infringia as regras não só no que diz respeito ao uso de rimas, como na atribuição de títulos aos seus poemas. Ao atribuir um título, está a fazer uma interpretação do mesmo. Está a fugir ao momento em si e a atribuir-lhe uma significação também ela religiosa. Exemplo:

 

Caridade

 

Desfolha-se a rosa

parece até que floresce

o chão cor-de-rosa.

 

Além do título, dá-se também à liberdade de fazer uma comparação a caminho da metáfora, o que também vai contra as regras puristas do haikai.

 

Reparemos agora no poema de Vasco Graça Moura proposto pela Cris:

alma de cântaro

uma tarde, no japão,
o paulo rocha explicou-me
as técnicas do haiku.

íamos dentro de um
autocarro a caminho
do cimo de um monte,

vendo a paisagem mais
ou menos azulada, sem dar
pelos solavancos.

sou mau aluno. faço
um exercício em casa,
sem contar muito as sílabas:

"no cântaro de barro
cresce a sardinheira:
alma em flor de cântaro?"

 

Para começar, Vasco Graça Moura usa o Haikai como unidade estrófica de um conjunto maior, o que também subverte o entendimento do que é um haikai. O haikai é-o isoladamente. Ao juntá-lo a outros, compondo um todo concertado, onde estes se sucedem de modo a contar uma história, o haikai é destruído, torna-se impuro porque faz parte de um encadear de momentos, quando deveria reflectir o momento em si, único e conciso. Por isso, Vasco Graça Moura está-se tanto nas tintas para as regras do haikai quanto eu.

 

Mas, tal como disse: eu mesmo tenho uma posição paradoxal quanto a isto: por um lado não quero saber das regras, porém, imponho outras. Porque a rima é um elemento de que não consigo prescindir quando me expresso através do verso. Os constrangimentos da forma poética: a métrica e a rima, ainda que possam parecer algo anacrónicos na poesia contemporânea são, para mim, o corpo material onde encarna a poesia - e da poesia portuguesa em particular.

 

Ao trazer para a língua portuguesa uma forma que nasceu para ser cultivada em língua japonesa já estamos a dessacralizar o género. Mais: estamos a profaná-lo. E é isso que tanto o Vasco Graça Moura, o Guilherme de Almeida e outros poetas de língua portuguesa fizeram. Sabem que o conceito é intransponível para a nossa língua.

 

Aquele dia

 

Borboleta anil

que um louro alfinete de ouro

espeta em Abril

 

Guilherme de Almeida, ainda: puro catolicismo com ressonâncias pascais. Aquele dia. Não é aquele momento. Naquele mês. E a rima nada trava. Antes, faz fluir as palavras que, sem rima, não teriam o mesmo valor ritual de sacrifício. Sacrifício da própria palavra, espetada com o louro alfinete de ouro de uma forma poética presa, morta, a pedir que seja ressuscitada ao ser recitada como as ingénuas orações que se ensinam às crianças.

 

Ó meu anjinho da guarda

Minha doce companhia

Acompanha os meus passinhos

Pela noite e pelo dia.

 

(inventei agora)

 

As estações estão presentes, tal como a Primavera no poema de Vasco Graça Moura que, contudo, não se inibe de ver uma alma num cântaro de barro. Nada pueril. Tal como neste, também de Guilherme de Almeida, de que muito gosto:

 

Consolo

A noite chorou

a bolha em que, sobre a folha,

o sol despertou.

 

(onde é que a rima trava alguma coisa?...)


Citando a Cris:


Um Haicai ou Haiku é um um momento muito íntimo, vivido até à última instância, sentido intensamente, por quem o escreve. Dizer muitíssimo em tão pouco.
Como li, e, vou voltar a citar, “De referir que, no Oriente, o conceito de união entre o homem e a natureza é diferente do ocidental: o homem também é a natureza, por isso, o conceito de união remete para aquele momento específico em que o homem reconhece essa natureza a que ele também pertence.”

 

Um momento muito íntimo. Certo. Dizer muitíssimo em tão pouco. Certo. E ainda mais acertada é a citação onde é dito que a relação entre Homem e Natureza é diferente no Oriente e no Ocidente. Enquanto que os orientais consideram que o homem também é natureza (o que está correctíssimo), os ocidentais, em que me incluo, são culturalmente constrangidos a ver na natureza o reflexo do homem e das suas obsessões. Por isso cultivamos as fábulas e vemos nas flores as chagas de Cristo. Os meus haikais, não o sendo, também aí subvertem o género ao adaptá-lo à forma de sentir ocidental. Faço-o de forma consciente. Não é preciso bater, que

 

A chuva que bate

Na poça da velha choça

Vai-se num rebate.

 

É assim.

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Terça-feira, 29 de Julho de 2008
Sabe mais que uma paramécia?

Busby Berkeley Dreams, dos Magnetic Fields: uma coisa bonita para compensar a prosaica questão que se segue.

 

Hoje mandei ao provedor da RTP a seguinte mensagem, depois de ter visto o programa "Sabe mais que um miúdo de 10 anos". A mensagem não diz tudo o que devia porque as mensagens ao provedor não podem ultrapassar este número de caracteres:

 

A respeito do programa "Sabe mais que..." de hoje:

Numa das perguntas, mal formulada, a concorrente respondeu de forma errada e continuou a jogar. Na segunda resposta, a concorrente respondeu correctamente e foi eliminada, tendo sido aceite a resposta errada dos miúdos! É simplesmente revoltante, e faz-me pensar se quem define as questões sabe minimamente o que está a fazer. Já vi neste programa situações ambíguas e perguntas mal formuladas, mas nunca uma situação destas, em que a concorrente deveria, para que se faça justiça, continuar o jogo no ponto onde ficou.

1: Perguntava-se "que nome se dá à raiz das plantas que é ramificada?" - ora, esta questão é absurda, além de ambígua: ou se interpreta como "das raízes de uma planta, qual é a que é ramificada?" (nesse caso, a resposta seria: a raiz principal - que é ramificada, e a partir da qual saem as raízes secundárias); ou se interpreta como "qual é o tipo de raiz que apresenta ramificações" (e aí, a resposta seria "raiz aprumada", que é o tipo de raiz constituída por uma principal, da qual saem as secundárias).  Seja como for, volto a dizer que estas duas interpretações da questão são meramente um exercício de boa vontade da minha parte, já que a questão é absurda, ilógica, ambígua e reveladora de uma abissal ignorância. Contudo, qual não é o meu espanto quando os meninos respondem, todos, "raiz fasciculada" - o que é manifestamente errado, já que uma raiz fasciculada é uma raiz composta por um feixe de raízes principais que, inclusive, até podem nem ser ramificadas! É inadmissível que este erro se mantenha sem explicação clara por parte do apresentador num dos próximos episódios, já que estamos a falar de conteúdos programáticos da escolaridade obrigatória e não de um assunto obscuro só para iniciados.

A segunda questão, então, é confrangedora: "como se designam duas rectas que se cruzam num ponto, não formando ângulos rectos?" (cito de memória). A concorrente respondeu, correctissimamente, "rectas oblíquas" e foi eliminada. Os alunos responderam mal e passaram por sabichões. Não explico mais porque só me restam 95 caracteres. Basta ir a um livro de matemática. Dos mais básicos.

Obrigado. Espero resposta.

 

Faltou dizer que, mais importante que os direitos da concorrente em questão, está o dever da televisão pública em não deseducar.

 

O que aconteceu no programa de hoje derivou apenas da forma  quase fraudulenta como o jogo é feito. Os concorrentes, depois de errarem as questões a que podem errar (se forem salvos pelos miúdos) têm de admitir publicamente que não sabem mais que um miúdo de 10 anos. Ora, esta senhora (a concorrente), ainda que não tenha tido uma prestação brilhante, respondeu bem a uma questão a que todos os miúdos responderam de forma errada. Os técnicos do programa, que provavelmente vão analisando as questões e as respostas dadas, devem ter duvidado da resposta que tinham à frente - é que para uma questão tão simples, não era de crer que aqueles meninos tão inteligentes errassem em conjunto e, ainda por cima, com a mesma resposta (algo a que qualquer professor está muito habituado)... e devem ter ficado em dúvida.  Entre a sua ignorância e a certeza ingénua das crianças, preferiram ir atrás das crianças. Desta vez falharam na sua estratégia de fraude que consiste em não mostrar as respostas das crianças quando estas erram em conjunto, que é para poderem humilhar o concorrente obrigando-o a dizer que não sabe mais que um miúdo de dez anos. E deu em curto-circuito - aliás, o apresentador, Jorge Gabriel, que deve saber um pouco mais de geometria que os sabichões que dirigem o programa e os sabichões de dez anos, "corrigiu" a senhora demonstrando uma visível confusão, e limitou-se, claramente, a cumprir ordens - se lá de cima dizem que um ovo é um espeto, quem é ele para argumentar? Ainda assim, esqueceu-se - propositadamente? - de pedir a humilhação pública à dita senhora... A concorrente saiu claramente incomodada, sabendo perfeitamente que estava certa, mas resignou-se. Não devia. Devia ter reclamado.

 

Na geometria euclidiana, num mesmo plano (o que se segue pode não ser verdade para outras geometrias que, seja como for, não fazem parte do currículo do ensino básico):

Duas rectas que se cruzam são rectas concorrentes.

Todas as rectas que não são paralelas são concorrentes.

As rectas concorrentes podem ser perpendiculares (se dividirem o plano em quatro ângulos rectos) ou oblíquas (em todos os outros casos).

 

Se a RTP não apresentar, em horário nobre, as devidas correcções, é porque, como boa aluna que é, está à frente das orientações do Ministério da Educação que já podemos adivinhar para um futuro próximo, de modo a aumentar o sucesso escolar a que todos os meninos e meninas supostamente têm direito:

 

se os alunos respondem todos (ou quase todos, já agora) com uma resposta errada alternativa ao que é geralmente aceite pela comunidade científica, o professor deve aceitar a resposta da maioria dos alunos e corrigir o manual, a enciclopédia ou qualquer outra fonte que os contradiga.

 

É tão bom ser-se criança em Portugal... a chatice é que quando forem adultos maiores de tamanho, ninguém os tratará como crianças de pleno direito que ainda serão.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:34
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Domingo, 27 de Julho de 2008
Traduttore, traditore

Um Réquiem Alemão, Op. 45, 2.º andamento, Johannes Brahms, Filarmónica de Berlim, Coro da Rádio Sueca e Coro de Câmara Eric Ericson, sob a direcção de Claudio Abbado

Serviu o  meu último post para chegar à conclusão que sou mesmo um bicho papão. Só o António, a Gerana e a Cris me fizeram a vontade e cederam ao meu desejo de ser comentado. Gostaria de ter visto a caixa de comentários com alguns impropérios contra a minha versão do soneto, confesso. Tenho algumas saudades do tempo em que, na Wikipédia, recebia insultos anónimos a toda a hora. Era sinal de que aquilo que escrevia tocava os corações e mexia com os espíritos. Era uma altura em que recebia poemas populares dignos de um cantar ao desafio, como:

 

Sois administrador , Sois fascista
Sois um Reles Wikipedista
Pois lhe dirigo este poema,
Para que pense de uma vez por todas
Que a liberdade de opinião,
deva ser do povo de uma nação.

 

Mas da Wikipédia terei de falar mais tarde, ainda mais agora que, à medida que cada vez (e inevitavelmente) é mais lida - e cada vez de maior utilidade - paradoxalmente, parece, a olhos desavisados, apenas o extremo reduto do vício do copy-paste, da falta de seriedade intelectual e sinal de uma cultura moribunda. Mas isso fica para depois. Voltemos ao soneto.

 

Já aqui defendi que não há texto que seja mais traduzível que a poesia, ao contrário do que é dito por aí. Um pedaço de prosa objectiva, ao ser traduzido, impregna-se de interpretação, de lacunas e de referências que deixam de fazer sentido com a transposição para outro código linguístico. A objectividade é, então, radicalmente traída pela subjectividade do tradutor e pela própria matéria linguística que, por mais parecenças que tenha com a matéria original, conforma todo um outro texto.

 

O problema já não se põe com a poesia. O poema original é sempre o menos interessante do fenómeno poético. A poesia não reside, de facto, no poema, mas no(s) leitor(es). E quantas mais leituras se interpõem entre o poema e o destinatário do poema, mais o poema vive, ao ramificar-se em matéria linguística viva. Reparem nos poemas mais conhecidos de Camões, estudados, dissecados até à mais seca exaustão por gerações de estudantes que de tudo só pareciam ganhar vontade de vazar o segundo olho ao poeta. São grandes poemas por que razão? Apenas porque são de inegável qualidade literária? Porque evocam verdades profundas e intemporais? Se assim fosse, seriam apenas bons poemas - não "grandes poemas". Um poema torna-se grande quando é continuamente interpretado, traduzido, transfigurado, corrompido, parodiado, manipulado. Torna-se grande quando, mais que lido, é usado. Torna-se grande quando prova o seu poder de gerar novos textos ou, mais adequadamente, novos contextos. Quando é lido em voz alta, e o leitor salpica a leitura com gralhas; quando é decorado e a memória altera a construção das frases para algo mais íntimo e pessoal; quando é transformado em canção, num quadro... quando não desemboca num beco sem saída.

 

Sinto que Vasco Graça Moura compartilha comigo esta percepção do fenómeno poético, pelo menos na prática. O "Poème sur le désastre de Lisbonne ou examen de cet axiome: "tout est bien" de Voltaire, citado pelo António nos comentários do último artigo, ou a "Divina Comédia" de Dante deixam de ser de Voltaire e de Dante a partir do momento em que são traduzidos por Vasco Graça Moura, porque Vasco Graça Moura não procura, de modo algum, a fidelidade ao texto original, mas procura registar a febre de que é tomado ao ler o texto original, dando largas à fantasia de ser o autor daquela obra. Quem não sonhou já com a clássica situação do nosso eu vindo do futuro com a grande obra literária da década que se aproxima, bastando-nos a nós plagiar confortavelmente o que o nosso parco cérebro não consegue conceber? Vasco Graça Moura não se limita a "plagiar", até porque o plágio, neste caso, seria uma tarefa incomportável para uma só vida. VGM reescreve e impregna as traduções com a sua interpretação, mas de forma franca e clara. A partir do momento em que considera que os sonetos de Shakespeare são manifestações expressivas da bissexualidade do autor, VGM põe William (é esse o Will do penúltimo verso, ainda que, como a Gerana tenha apontado, o diminutivo de William seja Bill, e creio que já o fosse à época), a dirigir-se a um senhor de quem é escravo. E achei interessante que ninguém focasse este ponto: o poema de Shakespeare é ambíguo quanto à sexualidade do eu poético - VGM torna-o um poema assumidamente homossexual. Não critico essa opção. É uma leitura que apenas torna maior o poema de Shakespeare, enquanto que a minha versão, mais discreta, mantém a ambiguidade original. Eu tento não acrescentar nada ao poema - VGM acrescenta. Eu tento manter abertas as possibilidades expressivas do poema; VGM restringe o poema a um quadro específico, a uma situação que exclui todas as outras possibilidades. No fundo, não são duas versões do mesmo poema, mas dois ramos que nascem do mesmo tronco, dispondo-se em orientações opostas. Não é possível traduzir  poesia de outro modo.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:40
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008
Soneto 57 (William Shakespeare)

Sonnet 57, de Chris Devany

 

Em primeiro lugar, quem sou eu para traduzir Shakespeare? Ninguém, é certo.

Em segundo lugar, quem sou eu para me comparar a Vasco Graça Moura? Ninguém, é certo. Devo referir, aliás, que muito respeito este poeta português, ainda que mais pela poesia de sua própria lavra que pelas suas versões/traduções dos clássicos.

 

Finalmente, pedia (imploro mesmo) que comentem as duas versões em português que abaixo apresento do mesmo soneto de Shakespeare. Quando falo de comentar, não estou a pedir que me afaguem o ego (se é que seria merecedor de isso) mas que digam qualquer coisa. Nem que seja a manifestação da vossa indiferença. Notem que a tradução literal do soneto não é difícil - o único problema, técnico, consiste em manter a forma de soneto.

 

Não vou comentar nem as minhas opções nem as de Vasco Graça Moura. Mas gostaria muito de ouvir, desta vez, algum comentário. Sei que tirando raras excepções, os poucos leitores fiéis que tenho abstêm-se de me comentar (eu sou um bicho papão), mas neste artigo gostava mesmo de ouvir a vossa opinião.

 

 

Being your slave what should I do but tend,
Upon the hours, and times of your desire?
I have no precious time at all to spend;
Nor services to do, till you require.


Nor dare I chide the world-without-end hour,
Whilst I, my sovereign, watch the clock for you,
Nor think the bitterness of absence sour,
When you have bid your servant once adieu;


Nor dare I question with my jealous thought
Where you may be, or your affairs suppose,
But, like a sad slave, stay and think of nought
Save, where you are, how happy you make those.

So true a fool is love, that in your will,

Though you do anything, he thinks no ill.

 

(versão original em inglês de William Shakespeare)

 

 

  

Sendo-te escravo, que farei senão

cuidar-te a tempo e horas do desejo?

Não tenho ao tempo cara ocupação,

Nem, sem que o peças, de servir ensejo.

 

E não censuro a hora sem ter fim

Em que as horas por ti, senhor, vigio,

Nem penso a atroz ausência, amargo-a sim,

Porque a teu servo deste um adeus frio.

 

Nem ouso questionar em meu ciúme

Onde possas estar e o que é que fazes:

Um triste escravo nada mais presume

Salvo onde estás, que a sorte a outrem trazes.

 

Tão louco é amor que quer no teu Will

(haja o que houver) nada pensar de vil.

 

(versão de Vasco Graça Moura)

 

 

 

Teu escravo, que mais poderei fazer

Que sempre responder ao teu desejo?

Nada me custa o tempo despender,

Nem eu livre do teu querer me vejo.

 

Nem maldigo o não-acabar dest' hora

Em que eu, a vós submisso, o tempo meço

Nem remoo na amarga demora

Por vosso adeus causada, em que me empeço.

 

Nem pergunto, no meu ciúme imenso

Pelo que te ocupa nem onde estás.

Assim, quieto escravo, em nada penso

Mais que na alegria que a outros dás.

 

Louco o amor, seja a tua vontade

Como for, nunca a terei por maldade.

 

(versão de Manuel Anastácio)

publicado por Manuel Anastácio às 11:48
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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008
Magnólias brancas e dois haikai

 

Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, por Hayley Westenra.

 

Vai avançada a altura das magnólias brancas. Tem o meu sogro uma destas árvores de cor verde escura lustrosa que dá apenas uma flor por ano. E, ao que parece, oferece o resplendor branco da flor apenas por um dia. Uma noite passada e já as folhas esmorecem com cor de ferrugem. Nunca vi a flor dessa árvore, floresce sempre um dia antes de lá ir, mas pelo simples facto de ser única e durar apenas um dia, quando olho para essa árvore, julgo que nela mora uma fénix, invisível ao meu olhar, mas que, sem dúvida alguma, lá permanece. Em contrapartida, em Guimarães há muitas destas magnólias brancas, como estas que fotografei no parque da cidade, há uma semana atrás.

 

 

I.

Na concavidade

Clara de tépala rara,

Voluptuosidade.

 

II.

Vai ao branco a Obra

Da luz sobre os braços nus

Do dia que dobra.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:02
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Domingo, 20 de Julho de 2008
Vivre sa Vie

"Vivre da Vie", de Jean-Luc Godard. "A Paixão de Joana D' Arc" de Carl Theodor Dreyer.

 

Uma história vulgar de uma mulher que quer mundos e fundos. Que quer a sua liberdade mas consente em se prostituir e submeter-se às regras feitas pelos homens. Uma mulher vulgar que não o é, porque é um conceito puro, criado por Jean-Luc Godard numa altura em que movia marés cinéfilas a repensar a linguagem do cinema e a utilizar à exaustão a palavra desconstrução em conversas aspirando à intelectualidade. "Vivre sa Vie" faz parte do movimento que veio a confirmar o Cinema Francês como senhor feudal da arte cinematográfica para intelectuais, ao mesmo tempo que não se rejeitava, em absoluto, a força expressiva e o imaginário do cinema para as massas. "Vivre sa Vie" é dedicado aos filmes de série B que, pegando e glosando a citação de David Wark Griffith preferida de Godard ("um filme é uma rapariga e uma arma"), são isso mesmo,  os filmes que menos mascaram a necessidade de vampirizar a beleza feminina, com algum condimento de violência. Godard faz isso mesmo: pega em Anna Karina, sua mulher na altura, e usa-a  de forma descarada, impiedosa, até, fazendo do seu desejo real de ser actriz o objecto que depois é espelhado, de forma absoluta e literal, no percurso da personagem. É uma mulher que quer a todo o custo a sua liberdade, desligando-se de qualquer afecto moral e maternal, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, aceita enlaçar-se a outros por obrigações cujas exigências profisionais não são compatíveis com o egoísmo que desde sempre a move. A citação de Montaigne, que abre o filme, sustenta que é necessário emprestar-se aos outros e dar-se a si mesmo. Esta mulher, contudo, jamais se empresta. No máximo, aluga o invólucro exterior - invólucro esse que é igualmente alugado a quem vê o filme. O paralelismo entre a prostituição e a actuação é mais que evidente.  A personagem é designada como "Nana", nome de outra personagem, do romance homónimo de Zola e que percorre o caminho inverso desta. A Nana de Zola é uma mulher que sai das ruas para se tornar actriz e destruir a vida aos homens. A Nana de Godard tenta o teatro e o cinema (num filme série B, com Eddie Constantine - que Godard utillizará mais tarde no seu "Alphaville") e acaba nas ruas destruída pelos homens, mal comparada com Joana D'Arc - já que entre as citações que repassam todo o filme, não há citação mais sublime que todo o excerto de "A Paixão de Joana D' Arc" de Carl Theodor Dreyer, onde também uma mulher é julgada por homens e por estes votada ao martírio. Mas há, a meu ver, ainda outra inversão referencial, a outro filme de Carl Theodor Dreyer: "Ordet", "A Palavra". É uma referência mais subtil, eventualmente apenas impregnada no tecido conceptual proposto por Godard de forma indirecta ou inconsciente. Uma das obsessões do filme são exactamente as palavras, a sua imperativa necessidade, e a sua incapacidade para exprimir a vida interior e a complexidade dos sentimentos ("a felicidade não é alegre"). Ora, no filme de Dreyer, a palavra subentendida no título é Vida. Aqui, é o título, "Vivre sa Vie" - "Viver a sua Vida" que nos faz seguir o caminho inverso do filme de Dreyer. "Ordet" é a história de um caminho que ascende à Vida; "Vivre sa Vie" a  história de um caminho que desce literalmente para  a morte, como bem é sublinhado pelo último movimento da câmara. E Nana segue esse caminho sem, jamais, emprestar (ou alugar) mais que a sua parte exterior e sem, provavelmente, se dar a si mesma. No início do filme o seu ex-marido cita uma improvável composição de uma criança que diz que as galinhas são compostas por uma parte exterior, e outra interior - e que se nos livrarmos das duas, fica a alma. É interessante que a alma não seja confundida com a parte interior. É algo à parte. Intransmissível. Os planos à face de Anna Karina sucedem-se, de perfil, de frente, ao espelho (podendo ver-se simultanemante face e nuca), alternadamente eclipsada pela cabeça de um homem, ofuscantemente iluminada ou transformada em sombra, num ensaio exaustivo sobre a fotografia do corpo humano - da sua exterioridade. Até que Edgar Allan Poe, citado no seu conto "O retrato oval" complementa a história da alma da galinha ao identificar a vida - a alma - com essa mesma exterioridade: ao captar-se dos outros a sua imagem está-se-lhes a retirar-lhe a alma, como supostamente acreditavam muitas tribos indígenas do Novo Mundo. Godard diz-nos, com todas as letras, que está a sacrificar a sua mulher ao usá-la como o próprio material de moldagem da obra, transferindo a sua vida para o filme - tornando o filme na substituição da própria vida.

"Vivre sa Vie" de Jean-Luc Godard. Arte é vida.

 

No fim de tudo, o que fica? Uma obra-prima, pelo seu virtuosismo experimental e enquanto obra de arte conceptual, teórica,  baseada numa poética onde a forma quer ser o próprio conteúdo. E onde qualquer interpretação jamais conseguirá levar a cabo um discurso coerente porque o conteúdo do filme - as ideias, porque Godard filma sempre ideias e não histórias - é tão contraditório e paradoxal como o seu objecto de identificação, havendo, contudo, uma extrema coerência de conjunto. É como se pressentíssemos que há uma mensagem de verdade plena e de reveladora profundidade, mas que, passada para o corpo da palavra, encarna de novo numa coisa concreta, impossível de interpretar porque apenas é. Porque o que é, apenas é, não pode ser interpretado, sob pena de morte. Joana D' Arc interpretou as suas visões como ordens de Deus. Porthos (um dos  três mosqueteiros, citado no filme pelo filósofo Brice Parain, fazendo de si mesmo - vivendo a sua vida, deixando-se vampirizar pela câmara) também morre porque tenta interpretar o mistério da possibilidade de se dar um passo em frente. Esta pena de morte é apenas um pretexto poético, é certo. A angústia existencial é igual para aqueles que nada interpretam, e de nada vale a pena julgar que quem se atreve a enfrentar o absurdo da condição humana será mais feliz, que não o será. O diálogo de Nana com Parain, quase a caminho do martírio final, centra-se nessa inutilidade das palavras, da interpretação e da expressão discursiva, ao mesmo tempo que se conclui, de forma inconclusiva, que o discurso é afim ao amor. Viver sem falar seria tão apaziguante como não amar - mas é impossível. Inútil, isso de querer explicar as coisas, de entendê-las, mas impossível de prescindir, porque faz parte da nossa condição amar - amar uma mulher, um objecto, uma ideia. E quem ama, discursa - e quem discursa, ou conversa (e empresta-se) ou faz poesia (e dá-se)."Vivre sa Vie", de Jean-Luc Godard. Cena do filósofo (Brice Parain).

 

Incluí este filme no 56.º lugar da minha primeira lista de filmes da minha vida. Foi o primeiro sobre o qual quis discursar. Agora, só faltam 99.

"Vivre sa Vie", de Jean-Luc Godard. Cena da dança.

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Sábado, 19 de Julho de 2008
Enciclopédia Íntima: Quelidónia-maior

Quelidónia-maior, foto minha em Creative Commons

 

Ao contrário das estevas e das pútegas, não havia erva-das-verrugas na terra onde nasci e cresci. Hoje há, mas não lhe chamam erva-das-verrugas. Chamam-lhe "betadine" ou "erva-do-mercúrio" e, tendo sido cultivada nos jardins, começa agora a aparecer aqui e ali de forma espontânea (sem grandes hipóteses de se tornar numa planta invasora). Quando se corta uma folha ou um caule, forma-se uma gota de seiva que, aplicada numa ferida, ajuda a estancar o sangue e facilita a cicatrização, desde que não haja o perigo de entrar na corrente sanguínea - ou seja, no caso de uma ferida aberta. Eu já usei, e fiquei bem servido. Há livros que dizem que é uma planta perigosa, de seiva altamente tóxica e corrosiva, como se nos seus vasos corresse ácido sulfúrico a fumegar. Por mim, só se aproveita do aviso a precaução necessária de a não ingerir, até porque esta flor amarela, não parecendo, é uma papoila.

 

Pois, é que nem todas as papoilas são vermelhas e comunistas. Há-as amarelas e extremamente reaccionárias. Estas adoram agarrar-se aos muros das igrejas, conventos e solares minhotos, gostam de alguma sombra, e mesmo quando crescem no entulho (como alguns reaccionários - que nem todos nascem em berço de ouro) necessitam de água como de pão para a boca. Os comunistas também necessitam de água, mas costumam florescer mais em terra seca e sol aberto.

 

É ainda chamada de quelidónia-maior (que as quelidónias menores nem sequer são quelidónias, mas ranúnculos, flores amarelas e de pétalas brilhantes que nascem junto às ribeiras) e erva das andorinhas - o que vai bem com a palavra grega que dá origem ao nome científico e ao semi-vulgar "quelidónia", Chelidón, que significa "andorinha" porque floresce com a chegada das andorinhas e volta à discrição da verdura com a partida destas aves em Setembro.

 

Com a partida do "Dias com árvores" cabe-nos a nós, herdeiros da mais bela das realizações blogosféricas nacionais, manter viva a vontade de olhar para o ímpeto verde da natureza que a estupidez humana tão eficientemente quer travar. Quis, por isso, aplicar um pouco de seiva na ferida. Um pouco de betadine. Antes que as andorinhas partam definitivamente.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:44
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Sábado, 5 de Julho de 2008
Allegretto

Final (início) do filme "Irreversible" de Gaspar Noe. Allegretto da sétima sinfonia de Beethoven.

 

Irrompeu do caos

O silêncio

E fez-se a maresia, o instante

E a solidão.

Irrompeu da espuma a tristeza,

A lágrima, a nuvem e a primeira imagem da nudez.

Irrompeu do caos

O silêncio: a primeira imagem da surdez desejada.

Irrompeu do caos e da lama

O silêncio purificante de uma chama, e o desejo

Da brutal carícia das coisas impossíveis,

Sobre a laje fria dos banquetes irreversíveis dos abutres.

 

Foi na secura resignada dos meus olhos

Que as lágrimas se espelharam,

Derramando-se no cântico lago do mundo.

 

Ao inclinar a cabeça servil

Soltaram-se, em gemidos, os cabelos da escravatura.

E abriu-se o caminho da tua viral doçura

Dos abismos sob as estradas e caminhos

Dos nossos infantis amplexos.

E irrompeu do silêncio a oração, então esquecida,

Dos abraços reflexos.

 

Descerrou-se o mármore.

 

E acolheu-se o silêncio nas palavras

Nuvem, água e maresia.

 

Descerrou-se o mármore

E entrou em trabalho de parto a poesia.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:00
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Enciclopédia Íntima: Memória (I)

Trailer de "Youth Without Youth" de Francis Ford Coppola.

 

A memória é uma das faculdades cognitivas mais mal compreendidas, mas também uma das mais fascinantes. Primeiro, porque, individualmente, manifesta-se de formas insuspeitas, por caminhos que ainda não entendemos, quer a nível fisiológico, quer a nível da sua estrutura conceptual. Segundo, porque é também um fenómeno social: há uma memória colectiva que se relaciona com outros conceitos como, por exemplo, o imaginário e, a nível da teoria da comunicação, com os suportes ou canais de comunicação. Terceiro, porque é uma faculdade da própria natureza, podendo-se manifestar em outros seres vivos que não o ser humano ou, quiçá, até em seres não vivos.

 

Há memória se houver evocação. A evocação é a contemplação de um objecto ou acontecimento não directamente apreendido pelos sentidos ou que pode, simplesmente, não existir. Há memória quando um animal reage a uma situação em conformidade com os efeitos que espera dessa situação (por exemplo, no reflexo condicionado) porque apesar de a situação ser, na altura, apreensível directamente pelos sentidos, os efeitos da mesma não o são. O cão sabe que o pau, batendo-lhe nas costas, provoca dor, e reage a quem o ameaça com o pau, não porque a memória evoque o pau, que é apreendido directamente, mas porque a memória vai evocar a dor, o que o obriga a reagir. Da mesma forma, há memória quando evocamos numa imagem, num som ou num cheiro o objecto que não está, efectivamente, ao alcance dos nossos sentidos, ainda que estes possam ser parcialmente iludidos. Há memória quando pensamos em flores ao cheirar um perfume. O cachimbo de Magritte é o mais flagrante dos ensinamentos sobre a memória enquanto representação: não é um cachimbo, mas evoca o cachimbo. Da mesma forma, quando vemos a representação de um unicórnio, esse ser, que, ao que parece, nunca existiu, é, da mesma forma, evocado, pelo que pode haver memória do inexistente -  entra-se aqui também no campo do imaginário, mas não exclusivamente. De facto, os próprios factos assentam em conceitos que, para todos os efeitos, não existem. A Matemática não é intrínseca à Natureza, ainda que a Natureza a ela obedeça  sem questionar a sua autoridade. A Matemática não existe, mas, ao ser evocada, tem, para o espírito, a autoridade da existência. Não sendo, é.

 

Paulo Rendeiro Marques, na Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura diz que a memória existe em todos os animais pluricelulares, excepto nos poríferos e nos mesozoários. Pouco sei de tal bicharada, nem sei a que género de testes foi submetida, mas duvido que não encontremos neles, de alguma forma, o conceito de memória. Não podemos, contudo, cair na tentação de confundir informação com memória. Por exemplo, a memória dos computadores não é, de facto, memória mas, apenas, armazenamento de informação - ou seja, disposição de matéria segundo uma ordem que pode evocar significados a um sujeito. A informação guardada num computador está tanto na memória como nos traços de um desenho sobre o papel... No entanto, depois de esquecermos alguma coisa (de a termos apagado da memória), pode acontecer que a reevoquemos a partir desses repositórios de informação externa à nossa memória. Isso é, de facto memória? É-o, já que algo não apreensível pelos sentidos (no passado) é evocado, posto à nossa apreciação, apesar de já não existir no mesmo contexto espácio-temporal do sujeito. E então, como é que ficamos: uma biblioteca ou um museu são ou não suportes físicos de memória? São. Enquanto existir gente que ao percorrê-los, consiga evocar o quer que seja, mesmo que de forma errada. O arqueólogo que interpreta de forma errónea um dado artefacto, fá-lo não por incompetência ou má fé mas porque a Ciência, enquanto mobilização da memória, vive da aproximação à realidade que se quer evocar tão próxima quanto possível da verdade objectiva, exterior ao sujeito. Acontece que qualquer evocação é sempre acompanhada de distorção e, por vezes, implica a reconstrução total do acontecimento, mesmo quando fomos actores nesse acontecimento. Um dia encontramos uma frase escrita num caderno e sabemos que fomos nós os autores da mesma, mas, por mais que nos esforcemos, não nos conseguimos lembrar o que nos motivou a escrever aquilo nem como e quando o fizémos. Resta-nos colocar hipóteses, algumas das quais, por serem consistentes, acabam por serem tomadas como factos e ficamos convencidos de que nos lembrámos da razão por que  escrevemos a frase.  A convicção torna-se quase certeza, ou mesmo certeza, porque o poder evocativo da hipótese mais consistente chega a propor-nos imagens do acontecimento que já estavam de todo apagadas da nossa memória ou que nunca nela poderiam ter estado, porque nunca as vivemos. Contudo, outra pessoa encontra a mesma frase e diz: escreveste isso naquele dia em que... e descobrimos que fomos traídos pela memória que, neste caso, se confundiu com a imaginação.

 

O conhecimento da História só pode germinar quando assumimos a impossibilidade de regredirmos ao passado, mesmo que a regressão ocorresse apenas com recurso à mentepsicose,  como acontece no filme "Youth without Youth" de Francis Ford Copolla. A Ciência teria sempre de olhar para a arqueologia mental da personagem do filme de Copolla (e do romance de Mircea Eliade) como um caso de imaginação prodigiosa - eventualmente muito proveitosa mas, ainda assim, imaginação e não memória. As duas, mais tarde, poderiam eventualmente diluir-se até a imaginação se transformar em imaginário, que constitui grande parte da memória colectiva.

 

Quero dizer, então, que, na Ciência, a memória tem origem na imaginação? Claro que sim: na imaginação que se desenvolve activamente a partir de um suporte objectivo e/ou cuja consistência e adequação ao que nos é dado a apreender pelos sentidos a habilita a transformar-se em memória colectiva, ou seja, a formar um dado quadro mental, que se inserirá, por sua vez, num paradigma mais vasto.

 

Quando escrevi, no poema do artigo anterior, que "creio (...) num só múltiplo princípio", evoco esta mesma indefinição do começo das coisas, sejamos nós mais ou menos deterministas. Contudo, o fim só pode ser um, ainda que eternamente adiado porque é inevitavemente incognoscível tendo em conta as nossas limitações corporais: esse fim é a verdade. O Juízo Final.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:11
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008
Credo I

Cistus ladanifer (apesar de não ter as pintas na base das pétalas). Numa estrada junto a Amieira do Tejo. Foto minha em Creative Commons

 

Creio num só corpo,

Numa só onda,

Numa só corda,

Num só fim.

 

Creio, acredito

No sal bendito das lágrimas

Na concreta nudez

Da limpidez das águas

Na urgência do florir da terra

E em cobrir telas e folhas brancas

Com as transparências em que acredito.

 

Creio,

Num só grito.

Num só corpo,

Numa só onda,

Numa só corda.

 

E, por fim,

Num só múltiplo princípio.

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