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Sábado, 31 de Maio de 2008
Disparates II

Pormenor de talha policroma, capela do Paço de Ançariz, Escudeiros, Braga. Foto minha em  Creative Commons

 

- Diga-me, conhece palavras de origem árabe?...

- Não, não estou a ver...

- E se eu lhe disser... Alentejo, Almodôvar...

- Ah sim, como Lisboa, que era Olissipo...

(Programa "Quem quer ser Milionário")

 

O comunicado termina positivista, com a crença de que os Jogos Olímpicos de Pequim serão um sucesso.

in Infordesporto, mas inspirado na fala de um jogador de futebol (que não sei identificar), hoje, também ele muito positivista.

 

O professor Manuel Anastácio (Carvalhal, Abrantes, 16 de Março de 1975 - ) é um intelectual português. Vive atualmente em Guimarães, no norte do país. Anastácio foi um dos iniciadores da wikipédia lusófona, quando esta tinha menos de 2 000 artigos e era, essencialmente, coordenada por Jorge Candeias. A sua ação na Wikipédia tem-se caracterizado pela criação e expansão de verbetes de altíssima qualidade, pela alimentação de polémicas estéreis e pela atribuição do prestigioso prémio internacional Medalha de Carrasca. Anastácio tem se distinguido também por uma intransigente, frequentemente agressiva, mas sempre coerente posição anti-fairuse.

 

O professor Anastácio foi galardoado com diversos prémios. Entre eles devem incluir-se a medalha de ouro no 3.º WikiConcurso, o Martelo Negro, o prémio ouro da WikiPrenda, e o primeiro lugar no 6.º Wikiconcurso. O professor Anastácio vai ser também agraciado com a chave de ouro da cidade onde nasceu: Carvalhal.

 

A dedicação do professor Anastácio à Wikipédia é internacionalmente reconhecida. Numa atitude coerente, já por mais de uma vez abandonou o projeto, mas sempre regressou dado o apelo das bases. O seu estatuto de administrador por vezes contestado nunca foi verdadeiramente posto em questão, e é agora um dos administradores com mais tarimba. Enquando administrador carateriza-se por uma atitude cordial em relação aos outros editores. Quando em algumas vezes se excedeu nos seus insultos, chegou a mesmo a pedir para o bloquearem, dando assim prova de imparcialidade e sensatez.

 

Manuel Anastácio anima o blogue Da Condição Humana, um blogue de pequena dimensão e diminuta audiência, caracterizado pela atenção dada à literatura.

Artigo "Manuel Anastácio", da Wikipédia, apagado após votação. O autor do arrazoado é um impagável JP. Só soube da existência do artigo depois de ele ter sido apagado. Mas, devido a privilégios de administrador, consegui recuperá-lo aqui para o blogue. Acompanhava o artigo uma fotografia minha com a legenda: "

 


Manuel Anastácio,

 

o verdadeiro e único,

nas suas próprias palavras

totalmente alienado,

numa fotografia que o beneficia.

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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008
Vénus reflectindo sobre o que lê

Vénus reflectindo sobre o que lê. Escultura em granito, data desconhecida, Paço de Ançariz, Escudeiros, Braga. Foto minha em Creative Commons

 

 

É terreno privado. Pedras privadas. Interesse público. O lugar é o Paço de Ançariz, Angariz ou Ancariz, em Escudeiros, Braga, e que terá sido pertença do arcebispo Dom Diogo de Sousa, que o terá trocado pelo Campo da Vinha – conta a anfitriã que pouco sabe contar daquilo que vi. Como passava por lá frequentemente, e tendo eu manifestado interesse em conhecer os jardins e as pedras, conhecimentos houve que me abriram o portão ao lado da capela. Das pedras que vi, e das quais me falta bibliografia e palavra ajuizada para as compreender, restou-me o encanto e a revolta. Encanto, porque não há Miguel Ângelo nem Brancusi que me enterneça mais que os rudes talhadores de  granito das terras lusitanas. Não há igreja românica ou gótica que passe indiferente à minha vista. Cada rosa, signo-saimão, entrelaçado, flor-de-lis, carantonha, ave, monstro, sereia, esfinge ou pormenor pornográfico que se insinue na pedra medieval é por mim admirado à exaustão. Sou daqueles chatos que se demoram nas visitas em museus a olhar os pormenores que quase ninguém quer ver. Infelizmente, grassa a praga, nos museus, de se proibirem as fotografias (mesmo sem flash). Por isso, não são poucas as vezes em que gostaria aqui de falar de alguns desses pormenores, e não falo, porque me falha a pena, faltando-me a janela.

 

Faz-me impressão a apropriação por privados daquilo que devia ser pertença de todos. Há em Campo Maior um menir que foi transformado em acessório de uma discoteca. Menos mau é o caso, que a reutilização da Arte não é mais que prolongar-lhe a vida. Pior é quando a arte cai nas mãos de quem a esconde aos olhos de quem a quer ver. Ainda mais quando essa arte é um testemunho histórico que a torna indubitavelmente pertença de todos, usufruída apenas por alguns. A minha conversa de esquerda enjoará a muitos, com certeza, numa época em que ninguém é de esquerda, incluindo os adversários do nosso socrático governo. Mas ninguém me tira da cabeça que há coisas que não podem ter dono, ou cuja posse deveria ser criteriosamente regulada por leis que permitissem o acesso de todos os cidadãos ao seu usufruto. Não proibiria simplesmente a posse desses tesouros da nossa história aos privados porque sei, simplesmente, que na mão das entidades públicas provavelmente ficariam em pior estado ou guardadas com o cadeado da arrogância institucional das nossas ipparescas vergonhas. A história da arte portuguesa há muito que se escoou por entre os dedos dos ladrões liberais anticlericais que despojaram os nossos mosteiros e, depois, entre as palmas apertadas de quem gosta de ter bibelôs de luxo, mesmo que os considere, apenas, pedras sem fala.

 

Ao ir-me embora daquele recinto, de que falarei mais vezes, em breve, vi ao cimo da dupla escada de granito, o corpo deitado dela. Julguei ser uma Senhora da Boa Morte, mas em boa hora me enganei. Não sei o que é. Faltam-me os pergaminhos e o olho clínico. Mas é figura pagã. Não sei o que tem entre as mãos, se é um frasco, se é o próprio coração. Por vezes, dá-me a sensação de que lê. Parece ser para um livro que o seu olhar seguia antes de o ter fechado (ao olhar), como quem reflecte. Pode não ser um livro. É provável que não seja. Para mim, é. Noto nos requintes do lavor de toda a parte superior da estátua, a testa alta, o cabelo voluptuosamente espalhado e… o sorriso. Digno de inveja por parte daquela outra que todos conhecem. Seria isto uma pedra tumular? Não compreendo a forma arcada e abatida do nicho. Não compreendo, sem sei se há quem compreenda. E vacilo entre a vontade de querer saber quem é aquela mulher (sim, estou a citar Buraka) e o desejo de ficar para sempre na ignorância. Mas a elas voltarei. À mulher. E à minha ignorância.

 

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Domingo, 25 de Maio de 2008
Eli Eli lama sabachthani?

Aqueduto de Pegões. Foto minha em Creative Commons

 

Promete não dizeres mais nada
Entre os arcos desenhados pela minha voz.
De nós, nada mais deve restar agora
Que os dois num só, a sós.
Promete não dizeres mais nada
Enquanto durar a nossa constelação.
Promete manter o céu em silêncio
Até que venha a hora
Em que peçam explicação,
E remoam o espanto
Perante o silêncio de água e sangue
Que escorre dos meus flancos
Depois de ter gritado a última acusação
Que ninguém compreenderá.
Porque, nessa hora, não me terás abandonado,
Mas aberto a porta
Para que, enfim, retorne, e entre de novo em mim.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:52
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Segunda-feira, 19 de Maio de 2008
Lars and The Real Girl

Trailer de "Lars and the real girl" ("Lars e o Verdadeiro Amor" - titulo em Portugal, pouco fiel ao original, mas aceitável, tendo em conta a intraduzibilidade).

 

Jesus resolveria os problemas com milagres. É a atitude infantil que espera resolver todos os problemas com um passe de magia. Jesus, no entanto, seria apenas bom. Faria, com certeza, o milagre, se o pudesse fazer. Mas a solidariedade é-o sempre. Milagre. Porque um milagre é um sorriso divino – sorriso, não: gargalhada! E a solidariedade? É dar as migalhas da mesa a Lázaro que sob ela se arrasta? Ou aceitar Lázaro à mesa? E quem aí o aceita? Poucos, de facto.

            “Lars e o Verdadeiro Amor” (“Lars and the Real Girl”), apresentado como uma comédia romântica é, no entanto, para mim, a mais simpática e saudável das alegorias cristãs que já vi até hoje. O filme não é sobre um tarado que julga que a sua “boneca insuflável” é um ser real e amável (sendo amável aquilo que é passivo de se amar). O subcontexto sexual do filme é apenas um acidente num quadro de pura moral e ternura comunitária cristã. É uma história de amor na acepção exposta por São Paulo no seu célebre capítulo 13 da Primeira Epístola aos Coríntios. Fosse eu professor de Educação Moral e Religiosa ou catequista, e mostraria o filme sem quaisquer pruridos na consciência aos alunos, como exemplo do que deveria ser a vida cristã. Como deveria ser, não como é.

            “Lars”, sem ser uma obra prima, é um bom exemplo de que como o cinema não vive apenas de devorar as misérias humanas, podendo mesmo ascender ao mais cândido dos optimismos sem que tenha, por isso, de alienar por completo o espectador num mundo de maravilhas que mantenha em coma o seu sentido crítico. Não precisa de envolver as personagens numa via sacra para justificar a redenção final. Um percurso de placidez e sorrisos pode dar origem a um filme tão apaixonante como outro em que as personagens são obrigadas a enfrentar as próprias tripas.

            A argumentista, Nancy Oliver, que já tinha participado na série “Six feet under” não procura a clássica fórmula que passa por angustiar o espectador para tudo redimir com uma resolução benévola no final. Todo o filme é imerecidamente benévolo para seres humanos que improvavelmente aceitariam o desafio de acolher no seu seio um corpo cuja alma reside no seu exterior – o desafio de compartilhar a loucura por um bem maior. A alma desta boneca anatomicamente correcta encomendada pela Internet, apresentada por Lars como sua namorada, nasce, não apenas  da imaginação iludida de Lars, mas também da aceitação incondicional daqueles que conferem à ilusão a força da necessidade. A boneca não aparece naquela comunidade apenas como meio para a resolução das angústias de Lars, mas como meio de justificação e laço de união comunitário. Não é uma mascote. É uma extensão de alma de um dos seus membros, tornados ainda mais queridos porque extraviados da senda mental por onde quase todos seguem. Uma extensão de alma que pede urgentemente para se libertar, de modo a permitir à alma que lhe deu origem um regresso a casa. Não se esqueçam que a Ética é, segundo Heidegger, a habitação do homem nos deuses. Lars, sem morada, regressa a casa pela mão daquela comunidade cristã que não o repudia nem dele se enoja e que mesmo dele se rindo, o faz com a compaixão de quem não fere nem com palavras. Da mesma forma, a própria boneca, Bianca, não sendo, também regressa a casa, sendo.

            O filme não é uma obra prima. Mas não me lembro de melhor prova – não da existência de Deus mas, pelo menos, da sua dolorosa necessidade. Talvez Deus seja uma ilusão. Bianca é uma ilusão. Logo, talvez Bianca seja Deus. A lógica não é perfeita. Mas a conclusão, sofisma ou não, ajusta-se às mil maravilhas. Colocaria este filme na lista dos dez melhores filmes de sempre sobre Deus… Hum… isso dava um post… :)

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publicado por Manuel Anastácio às 22:46
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Domingo, 11 de Maio de 2008
Professores IV

Genérico inicial da Telenovela "Dona Xepa" (1977)

              Doutora Maria Judite Serrão Andrade, licenciada pela Universidade de Coimbra em Ciências Históricas e Filosóficas, fundadora do Externato Rainha Santa Isabel no Sardoal e directora do mesmo até 1980. Dá actualmente nome à escola onde estudei durante sete anos, e onde dei aulas durante um ano, quando era ainda apenas a escola do Sardoal sine nomine. A Doutora, de quem, em vão, procurei alguma nota biográfica relevante na Internet, foi minha professora no sexto ano de escolaridade, de “Estudos Sociais” e de Língua Portuguesa. Rapidamente me adoptou como aluno predilecto desse ano, sem falsas intenções igualitárias, que não tinha. Era implacável com a ignorância e com a mediocridade. Cruel com os alunos que diziam e escreviam disparates. Trazia amendoins (para macacos), ou dizia que havia de trazer, para os alunos que, estando em tempo de “furo” se especavam a olhar para dentro da sala, perturbando a frágil atenção dos alunos por ela disciplinados na estrita observância do único e verdadeiro método de estudar: que consiste, basicamente, em estudar.

Mas interrompia frequentemente as aulas para recordar os momentos de catraia indisciplinada que se recusava a beijar a mão da Madre Superiora, no colégio interno que frequentava. Era simplesmente um hábito nojento, esse de beijar os dedos que não sabia onde teriam andado, provavelmente conspurcados ainda mais pelos beiços das suas colegas e das outras freiras a quem passava a vida a infernizar com partidas que nos faziam rir a bandeiras despregadas, mas que jamais poderíamos pensar em executar, até porque os pais pagavam o suficiente às freiras para a aturarem, o que supostamente, os nossos pais, com os filhos no ensino público, não faziam.

Era conhecida pela alcunha de “Dona Xepa” devido ao facto de coxear, tal como a personagem da novela. Não havia professora mais temida nos anais daquela escola. Contou-nos como passara a claudicar o passo, numa viajem por um país nórdico que a minha memória já não consegue localizar. Comprara com o marido uma gigantesca lata de arenques que, numa travagem brusca lhe magoou irreversivelmente a perna. Era, aliás, levada de forma absolutamente reverencial, de carro, até junto à porta de um dos pavilhões onde se situava a antiga sala dos professores. Sala onde, um dia, me chamaram, para elogiarem as minhas capacidades de aluno de excelência num meio onde apenas florescia a exiguidade da burrice, e de onde saí humilhado pelo facto de, desprecavido, ter aparecido com as mãos todas sujas de tinta de caneta e com o pull over salpicado da feijoada do almoço na cantina. Era ainda uma criança – disse um dos professores. Obrigado. Não fazia ideia. Onde é que é a saída?

No início do ano lectivo, as turmas que calhavam com a “Xepa” tremiam de medo. As histórias que corriam sobre o seu rigor draconiano e veneno corrosivo das palavras que derramava sobre os alunos enformavam um tipo de mitologia que a tornavam numa terrível divindade intocável, cujo ascendente político e social (por nós pressentido mas mal compreendido no seu significado) tudo legitimava. Mas, para mim, rapidamente se tornou numa figura algo patusca, de nariz grande, ao género de Karl Malden, que frequentemente ficava roxo quando se assoava e irritava. E quando, entusiasmada, explicava como, em vez de beijar a mão à Madre Superiora, se aproveitava do apêndice nasal para fingir que cumpria o preceito.

A Doutora Judite merece, de facto, que o seu nome perdure naquela terra que hoje já não é tão árida, como antes, em cérebros. Estes fazem-se, semeiam-se e levam tempo a germinar. Não com os caldos de baixa exigência dos tempos que correm, nutritivos apenas para bactérias. A pressão aplicada com rigor num corpo flácido espevita a circulação. Lembro-me bem das composições enxaropadas que escrevia quando estava nesse sexto ano de escolaridade. Lembro-me bem das críticas ferozes da Doutora Judite. Pode não me ter tornado um grande escritor, mas abriu-me bem os olhos para o ridículo que se encerra em certas conjunções de palavras e para a beleza das ideias, sem as quais as palavras se perdem, como sons sem eco.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:58
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Sábado, 10 de Maio de 2008
Voca me

Confutatis e Lacrimosa, do Requiem de Mozart, John Eliot Gardiner conduzindo os English Baroque Soloists e o Coro Monteverd, Palau de la Musica Catalana, Barcelona, Dezembro de 1991.

  

A mãe sentava-se no canto. Aborrecido com o seu silêncio acusador, fazia-lhe uma careta, acendia a televisão, aborrecia-se ainda mais, levantava-se e saía. Sem dizer nada. Seguia ao longo da estrada, atravessava os campos sem prestar atenção à erva ou à terra que calcava, ao rio escondido entre salgueiros e choupos ou às torres de tijolo abandonadas, e espreitava o local onde, por vezes, as prostitutas esperavam a paragem de um carro que justificasse a espera. Passava rente a elas, à espera de um comentário ou mesmo de uma proposta. Às vezes acontecia, não a proposta, que não havia tempo para diversões gratuitas, mas a frase solta de quem se esconde atrás de um falso descaramento. Ou de um verdadeiro, se este for a acção de perder a cara, de diluir a face numa vergonha misturada de coragem, desespero e fraqueza. Mas, isso, ele não entendia. Tinha alguma pena delas, mas não o bastante para as olhar como seres humanos, como, de facto, não se olhava a si mesmo. Ele era o que passava, o que agora desejava. O que fazia.

            Não queria saber de futuros nem do bem que todos lhe diziam querer. Preferia fugir pela cidade e chegar tarde a casa. A mãe, sempre no canto, não lhe fazia perguntas. Por onde andaste, que fizeste, nada. O pai chegava mais tarde ainda. Com ele falava. Pouco, mas falava, de raparigas, do futebol e, infelizmente, por vezes, da escola, a que faltava invariavelmente. Tal como, por vezes, lhe oferecia a tareia que, na escola, se dizia não receber. Mas preferia a mão pesada do pai ao silêncio acocorado da mãe.

            O pai seguia em primeiro lugar para o quarto, cansado, enquanto a mãe parecia de volta ao canto depois de nem ter sido possível reparar que de lá tivesse saído.

            Ele também não ia logo para a cama. A vida de mandriice trazia-lhe a leve sensação de que o tédio era o maior dos prazeres porque exigia a procura de entretenimento, o que era a melhor forma de se entreter, já que chegando o divertimento, de novo se instalava o tédio. Mas era tudo uma sensação. Não se julgue que pensava nisso – e muito menos por estas palavras. Até porque conhecia poucas palavras, incluindo tédio. Entretenimento, saberia vagamente o que queria dizer. Até porque os dias eram uma fiada de horas que convinha encher de tudo, menos de palavras. Na escola, tudo eram palavras. E tédio, vontade de expandir aquelas paredes brancas sujas com becos de aventuras estranhas e olhares sedutores como o da morte. A escola parecia tão suja como os caminhos que o chamavam, mas sem os recantos onde anichava o seu desejo de ócio orgânico. De um tipo de sono acordado que queriam constantemente perturbar com palavras, imagens e raciocínios que só se tornavam vagamente interessantes quando reduzidos a anedota e ao ridículo da sua pomposidade e inutilidade exposta. Ao exercício do descaramento.

            Não ia logo para a cama. Olhava para a mãe, no canto. Sempre acusando-o com o olhar, apenas com o olhar, que não lhe levantava a mão. Já o fizera e arrependera-se. Tiveram de correr com os irmãos mais pequenos para casa da avó, que se recusou à troca inversa. A mãe passou a recolher-se ainda mais para o canto até à altura em que a forçaram a fazer qualquer coisa, a castigá-lo de alguma forma, para que não se tornasse no gandulo que todos pressagiavam que viria a ser. Castigou-o fechando à chave todas as pequenas coisas a que teria alguma afeição. Alguma, pouca. Bater-lhe, nem se atrevia, nem ninguém a tal a aconselhava. Ele ignorou o acidente: as ruas não se fechavam a cadeado. Um dia, quando voltou, estava a mãe deitada no chão, a gemer e a apontar na direcção do armário onde tinha o medicamento que a deveria socorrer. Ele puxou um banco e ficou a olhar para ela, silenciosa, no chão, de olhos cada vez mais vidrados, respirando a custo, talvez suplicando, ou não, até que começou a esboçar o sorriso plácido da paz que nunca tivera. Ele deixou-se ficar, até que o pai chegou. Vieram os bombeiros buscar-lhe o corpo. Seguiram-se dias de silêncio sem tédio e sem procura, até que tudo voltou ao mesmo, sempre ao mesmo, com ela sempre ao canto. Presente ali só para o castigar com o silêncio, ao canto, dizendo-lhe que também ela não faria nada para o salvar.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:57
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
Do Amor I
Rex Tremendae, do Requiem de Mozart, English Baroque Soloists e o Monteverdi Choir. sob a regência de John Eliot Gardiner , Palau de la Musica Catalana, Barcelona, Dezembro 1991.

Amor,
Minha só e única razão
para chorar o eterno deserto
interno em mim.
Minha só e única razão
Pensamento e fim:
Fizesse eu de luz o poema
que deveria, por maior razão, nos teus olhos se reflectir
e limitar-me-ia a descobrir,
ainda mais,
a minha boçal, trivial, banalidade.

É por isso,
por mero egoísmo,
e medo de te perder,
de nos perder,
que prefiro a escuridão dos caminhos abertos pelas palavras.
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publicado por Manuel Anastácio às 21:33
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Domingo, 4 de Maio de 2008
Katyn
Trailer de "Katyn", de Andrzej Wajda

Este filme, ainda por estrear em Portugal, é a última obra do mestre Andrzej Wajda. Trata de um massacre, como tantos massacres. Trata de sangue, de medo, de nojo, de desespero. Há uma imagem de alguém que lava o chão de um quarto escuro com um balde de água que tenta somente diluir o excesso de vermelha viscosidade deixada pela última vítima. Quando digo "lava" digo, tão somente, de lançar água ao chão. As paredes, essas, mantêm-se salpicadas como um quadro de Pollock. Todos sabemos que aqueles homens serão massacrados, que uma bala lhes trespassará o cérebro, um após outro, enquanto recitam o "Pai Nosso" à beira de uma vala de terra cinza onde se amontoam os corpos daqueles que ainda não arrefeceram e que, por arrefecer, serão soterrados.

Lembro-me de em pequeno, em casa dos meus padrinhos, em Chão de Meninos, junto a Sintra, de ter visto, provavelmente, pela primeira vez na minha vida, um resto mortal  ainda suficientemente esculpido de vida para se chamar de horror . Era um dia de humidade. Os meus padrinhos viviam junto ao cemitério de Chão de Meninos, cujos jazigos (coisa que não existia na minha terra, onde as mais ricas campas eram meras pedrinhas com letras douradas inscrustadas e fotografia a preto e branco) eram, para mim, na minha inocência religiosa, "a casa de banho de Nossa Senhora".  Descíamos por uma ladeira, em direcção a uma quinta onde íamos buscar leite fresco e onde o cheiro da bosta de vaca e de cavalos se misturava, num matiz que me marcará para o resto da vida, com o cheiro das madeiras da serração onde trabalhava o meu padrinho e que ainda hoje procuro quando chego às imediações do cemitério - em vão, que a serração já fechou as portas há muito, e o cheiro da bosta, na quinta, já deu lugar a uma urbanização. Lembro-me de em pequeno, numa manhã húmida, ter descido até um local que a minha geografia mental já não consegue situar de forma clara, e ter visto uma mão a sair de uma derrocada de barro vermelho. De pouco mais me lembro. Creio que vi uma maca a transportar um corpo coberto por um lençol. Alguém (creio eu que um adulto e uma criança, não tenho a certeza) tinha ficado soterrado num deslizamento de terra.

Neste último filme de Wajda (quem leu a minha lista de filmes já sabe que é um dos meus realizadores de referência), nomeado este ano para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, o último plano fez-me reviver a sensação de humidade que tive naquela manhã. O incómodo de estar vivo - de ainda estar vivo. Haverá momentos em que permanecer vivo será o pior. Gostaria de pensar que a dor se anula quando a morte é irremediável. Mas duvido. A dor, o nojo, a podridão, cobre-nos a existência. Estamos todos frente à vala comum onde os que nos precederam nos esperam, como na capela dos ossos, em Évora. Pouco nos interessa se quem nos mata é soviético ou nazi. Pouco interessa, a não ser que os soviéticos ou os nazis queiram tornar a nossa dor em matéria de propaganda.

Durante décadas, a Polónia do Pacto de Varsóvia acreditou que as balas tinham sido projectadas pelos alemães quando, na verdade, tinham sido os "libertadores" russos a cometer a proeza. Os alemães quiseram que as viúvas gravassem a sua voz contra a invasão assassina dos russos - e algumas mantiveram a dignidade de não defender um assassino apontando o dedo a outro. Depois, os russos quiseram  que essas mesmas viúvas silenciassem a sua voz e se abstivessem de inscrever no mármore dos túmulos a verdade incómoda para o estado. Não o fizeram. Por dignidade. Porque só a dignidade das convicções poderá fazer frente às manhãs húmidas que nos assombram os olhos de criança. Mas isto é apenas um (precariamente) adulto a falar.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:41
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