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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007
Blogues - Intergalacticrobot

Vela, de Nam June Paik - foto de Joequbik

Vou ser sincero. Quando tirei a minha licenciatura em Santarém, enfadava-me o vazio que existia na cabeça de grande parte dos meus colegas. Hoje em dia, mais maduro (como diria o miúdo da publicidade ao ecoponto), vou apreciando mais outras manifestações de inteligência que não as puramente intelectuais. Tinha uma colega de turma que adorava ter-me nos seus grupos de trabalho apenas para me cortar a palavra e ridicularizar cada uma das ideias que tinha. Graças a Deus, tive os tomates para dizer ao grupinho: Bye, Bye... E foi assim que me comecei a relacionar com pessoas dignas desse nome. Quando comecei a participar nos raros projectos académicos daquela terrinha ainda estremunhada na noite medieval da apatia, uma das poucas pessoas que admirava sinceramente pelo fervilhar de ideias e interesses era o Artur. Não foi o único (e não vou fazer listas, porque não é elegante), não era do meu curso, mas as algumas conversas de café que tivémos,  as vezes em que nos reunimos na casa onde estavam a Sandra Almeida e a Maria José Bispo  para fazer noitadas a estudar ou as algumas (poucas) vezes em que  fomos em grupo ao Cinema ou ao teatro (coisa muito rara naquelas bandas) demonstravam que estava frente a alguém que lia, que se interessava, que queria aprender e ensinar, que não se limitava a ver o marasmo de uma lezíria bovina sobre umas portas altaneiras onde o sol parecia demorar a bater e onde os mouros surpreendidos por Afonso Henriques ainda pareciam ressonar na lassidão de uma capital do Gótico só mesmo na brincadeira.  Depois, novamente por via da Sandra Almeida (que já não actualiza o blog há muito, muito tempo...), descobri o Artur de novo, agora em formato electrónico. O IntergalacticRobot é um prodígio de fertilidade de ideias, imagens, experiências, de desinquietação, de leituras cruzadas, explicadas, elevadas ao cubo da clarividência. O Artur parece ter na mão uma cornucópia de onde saem notícias, denúncias, galáxias, monstros, música... E no meio disto tudo só me arrependo de não ter conversado mais com o Artur quando o conheci e quando foi meu conterrâneo. Enquanto eu lia Walter Scott e os neo-realistas, o Artur já prescrutava as palpitações sanguinolentas do surrealismo electrónico de um mundo esventrado antes de nascer. Era eu Almeida Garrett ao modo de João Mínimo e já o Artur sentia o mundo à maneira inquieta, gótica, romântica e visceral dos Cantos de Maldoror. Hoje, estando as tripas electrónicas do mundo definitivamente de fora e sem esperanças de que cicatrizem a não ser com o extermínio completo desta civilização, encontro no blog do Artur centelhas de vontade relacionadas com a profissão que com ele compartilho. Vejo nas suas palavras uma alegria em estar com os alunos e em com eles construir um pouco mais de mundo que me serve de exemplo, frente à minha crescente desilusão. Cada projecto por ele delineado e dado à luz parece ser um raio de esperança. Basta acreditar que as crianças podem não ser como desejaríamos, porque são humanas, mas podem ser melhores, muito melhores do que o azedume profissional em nós, delas vai destilando. Para se ser professor é preciso ter fé. Para ter fé, precisamos de constante leitura e meditação  sobre os textos sagrados, caso contrário, desligamos a ficha que nos liga à esperança. O Artur é, quanto a isso, um profeta. Pode até não notar, mas até os seus ornitorrincos são imagens proféticas da hibridização necessária à sobrevivência do sonho entre os fogos fátuos que apenas iluminam a podridão. Há que abrir janelas. Inspirar. Seguir em frente. Em direcção às estrelas... ou mais além...
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publicado por Manuel Anastácio às 22:15
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007
Wikipédia: Há quanto tempo...

Um artigo da Wikipédia (ataques bombistas em Londres a 7 de Julho de 2005) em modificações sucessivas.

Continuando a publicar as minhas respostas integrais ao Helder Beja:

 - Há quanto tempo começou a escrever na Wikipedia e porquê?

Comecei a escrever para a Wikipédia há mais de três anos. Encontrei-a por acaso, na sua versão em inglês, e descobri, pouco depois, que poderia existir um versão em português. Na altura existiam menos de 3000 artigos e a maioria era composta de textos inqualificavelmente mal escritos ou copiados em inglês da Wikipédia anglófona, com um aviso no cabeçalho a dizer que o artigo estava em tradução. Onde todos viram um site mal amanhado com mau conteúdo, eu preferi ver um embrião de algo novo. Ainda não entendia bem o quê – e ainda hoje estou a descobrir, três anos depois – mas a Wikipédia, mesmo que sucumbisse amanhã, devido às críticas e ataques que recebe de todos os lados, iria subsistir enquanto conceito. A Wikipédia é uma nova forma, dialogante, interactiva, participativa, de aprender. Repare que digo aprender e não "informar". A Wikipédia, pelo menos no seu estádio actual (e isto é especialmente verdade para a Wikipédia lusófona, em fase ainda mais embrionária que a anglófona) não é, no sentido próprio da palavra, uma enciclopédia. É uma enciclopédia mutante. Já lhe chamei "centro de negociação da verdade" numa resposta a um artigo do Pacheco Pereira, mas um colega Wikipedista meu, num acesso de mau humor próprio de uma certa camada de Wikipedistas, disse que isso era linguagem de "sociologista medíocre". Não sendo eu sociólogo, mas mais diletante que outra coisa, creio que o elemento da mutação foi o que mais me atraiu no projecto. E descobri algo que vale a pena. É importantíssimo que as pessoas utilizem a Wikipédia. Com uma condição: que entendam a forma como esta funciona e quais os seus reais objectivos. Quem usa a Wikipédia apenas para se informar está a cometer um erro enorme. A Wikipédia serve para aprender. Não para informar. São coisas absolutamente diferentes e que é necessário distinguir. A Wikipédia é, no fundo, um processo e não um resultado. Quem não entender isso devia abster-se de a usar. E isso inclui o meu pouco amigo Wikipedista que me chamou de "sociologista medíocre". Até este Wikipedista que eu volto a citar, no meu ponto de vista, não entende o que é a Wikipédia, ao criticar - no pior sentido da palavra - a minha visão crítica do que seja este projecto. Há muitos fãs da Wikipédia que a chamam de "maior enciclopédia do mundo" e outras aberrações publicitárias. A Wikipédia não é nada disso. Nem sequer é uma boa enciclopédia, apesar de, eventualmente, ter (alguns) óptimos artigos. Mas é melhor que uma Enciclopédia. É melhor que um centro de negociação da verdade. É… não sei o que é. Não sabia o que era. Mas vou continuar a tentar saber. E gostaria que todos chegassem a este ponto de não a conseguir definir para a melhor compreender.

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publicado por Manuel Anastácio às 09:58
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2007
Curta 36
Tenho um certo prazer masoquista em ler blogs de gente estúpida (não, nenhum dos blogs da barra ao lado se inscrevem nessa categoria). Desta vez, o blog é de um brasileiro, e é provavelmente, o blog mais asqueroso que já vi. Chama-se Língua Brasileira. Merece link - mas só este, para não dar demasiado protagonismo a coisas desta espécie. Um belo exemplo de como os racistas e xenófobos adoram acusar os outros de xenofobia e racismo. Mais bonito ainda: a quantidade de vezes em que aparece a palavra "ignorância". Infelizmente, reconheço que algumas das coisas que esta coisa diz até são verdade. Portugal está profundamente cancerizado por pessoas iguaizinhas a ele. Eu não proponho qualquer extirpação de tumores, repressão ou censura. Só não podemos é ficar calados a ver a marcha dos comensais da morte. Não tenham dúvidas. Lord Voldemort está vivinho da Silva. Mas não é agindo como ele que poderemos ganhar a batalha. Um bom exemplo foi aquela coisa toda em relação ao Museu Salazar em Santa Comba Dão. Um coisa é criticar (e aquela espécie de Museu tem muito que se lhe critique), outra coisa é querer acabar com as larvas alimentando-as com o seu petisco preferido: ódio.
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publicado por Manuel Anastácio às 07:20
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Terça-feira, 26 de Junho de 2007
Manhã em gotas

Crucifixo, Sé de Viseu. Foto minha em Creative Commons.

No princípio, a manhã em gotas

E o hálito matinal da terra.

Os fungos adormecem estremunhados,

Envoltos em estrume quente.

A manhã em gotas escorre nos vidros

Enquanto pássaros comem a última estrela

Fragmentada

No terraço.

Amanhã, em gotas,

Bafejaste-me a cara com miasmas recessos

Carcomidos de escuridão

Para que acorde para a morte

Despedaçada no terraço,

Na forma de uma manhã em gotas.

Mas sem orvalho.

 

Os pássaros param à vez, e escutam

As arestas cortantes

Da morte em gotas da manhã,

A riscar-lhe os papos rubros de sangue.

Param à vez,

Por gotas de uma manhã

Que não canta, só corta, rasga

Despedaçada que está ali,

Despedaçada no terraço

Como se fossem migalhas

De pão recesso.

Sem orvalho.

Sem cheiro a pão fresco.

Só a morte, despedaçada

Em miasmas carcomidos de escuridão.

Engolem a morte.

Sangram dos papos escarlates

Irisados, em gotas infulgentes, pela manhã.

Não voam, devoram os restos

De uma madrugada de ossos

Que fingem ser sementes.

 

Em gotas cortantes, a manhã risca-me o vidro em frente.

Num chiar fino

De luz que ilumina o sangue

Exposto ao ar da manhã

Em gotas,

Como todas as manhãs,

Em que se esvaem as nossas noites,

Perdendo-se

Gota a gota,

Nos charcos onde se apagam as estrelas.

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publicado por Manuel Anastácio às 15:53
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2007
Wikipédia: PT e BR

Base lateral do portal da Igreja de Vilar de Frades, Barcelos.

A Igreja de Vilar de Frades tem-me ocupado os últimos dias. O resultado pode ser lido aqui, sem vandalismos - e aqui sabe-se lá como (melhor ou pior, o risco será mínimo se aprender a verificar o histórico de um artigo na Wikipédia antes de a usar).

Entretanto, depois de o artigo sobre a Wikipédia ter saído no Público, e depois de o Helder Beja ter resumido (de forma competente) o essencial, ainda fiquei com uma data de linhas escritas sobre o assunto e que julgo que é um desperdício deitar fora. Por isso, vou publicar as respostas a cada uma das perguntas feitas.

  1.Existem mais brasileiros que portugueses a editar a wikipedia, certo? Como se gere a questão linguística português /português do Brasil? É pacífica?

É um facto que existem mais brasileiros que portugueses registados na Wikipédia. Tenho, contudo, algumas dúvidas quanto à quantidade de trabalho produzido pelos dois. Parece-me que, em geral, os utilizadores mais activos são portugueses ou brasileiros residentes na Europa - mas pode ser apenas uma impressão pessoal, que não se baseia em qualquer dado estatístico. Existem muitos contribuidores que reclamam por não existirem duas Wikipédias em separado, para cada uma das normas linguísticas. Contudo, verifica-se que a maioria dessas pessoas ou acabou de conhecer o projecto há pouco tempo e ainda não está familiarizado com os seus objectivos e métodos, ou estão pouco interessados com o projecto e apenas aproveitam para provocar os outros colaboradores, usando de uma boa dose de xenofobia e preconceito, como é frequente numa certa camada de utilizadores da Internet em geral. A Wikipédia, como é aberta à colaboração de todos, não tem forma de evitar esse género de utilizadores. Cada Wikipedista lida com a situação como entende. Há quem fique irritado e peça votações para que os mesmos sejam bloqueados, outros ignoram-nos, entre outras opções que vão sendo discutidas e que, eventualmente, resultam na definição de políticas do próprio projecto. Por enquanto, a esmagadora maioria dos Wikipedistas lusófonos prefere que o projecto se mantenha aberto às duas normas linguísticas, presumindo-se que os utilizadores africanos usarão a norma portuguesa europeia. Creio que a Wikipédia lusófona é um excelente meio para aproximar os países da CPLP, ao incentivar o respeito mútuo pelas diferentes formas de escrever e falar o português. Contudo, o preconceito é generalizado nos dois lados do Atlântico. Isso nota-se, aliás, fora do âmbito da própria Wikipédia. São frequentes os intelectuais da nossa praça a dizerem, sem qualquer vergonha na cara, que os brasileiros escrevem mal. Depreendo que ponham o Jorge Amado e o Machado de Assis no mesmo saco. Mas o contrário também acontece: muitos brasileiros detestam a simples possibilidade de os antigos colonizadores terem uma presença efectiva e actuante num projecto de Língua Portuguesa - e desejariam, com certeza, que apenas se aceitasse a norma brasileira, até porque é, de facto, a norma mais utilizada no resto do mundo, por quem aprende a Língua. É por isso, frequente, que muitos utilizadores se limitem a "corrigir" alguns verbetes, passando a ortografia brasileira para a ortografia europeia ou vice-versa. Em geral, revertemos esses assomos de orgulho ortográfico. Noto, contudo, entre os utilizadores que vão passando pela Wikipédia, que a tolerância em relação à outra norma se vai estabelecendo com o tempo - e que à alergia inicial se vai substituindo a vontade de conhecer com outra profundidade a outra norma, ao mesmo tempo que vamos compreendendo melhor a nossa. A Wikipédia não vem para nos formatar a todos por igual, mas para aprendermos com as nossas diferenças culturais e individuais. É, aliás, mais uma razão para utilizar a Wikipédia, e é mais uma razão que justifica aquilo que eu chamo de "aprender" com a Wikipédia.

Há muitos educadores em Portugal que olham a Wikipédia com desprezo, dizendo que está, em grande parte, escrita em "brasileiro". Muitos alunos copiam os seus trabalhos directamente da Wikipédia e apresentam-nos aos professores que, reconhecendo a ortografia brasileira, ficam irritados dizendo que o texto é de má qualidade. Há quem diga que os alunos deveriam, ao menos, ao entregar o trabalho ao professor,  mudar a ortografia para aquela que é oficial no seu país. Ora, isso é um aspecto de menor importância. Tal como já disse, a Wikipédia, quando é usada no seu nível mais básico (isto é, apenas como fonte de consulta - e não como fonte de aprendizagem através do seu próprio processo de trabalho colaborativo), deve ser utilizada apenas como ponto de partida. Por isso, o que qualquer professor deve fazer quando encontra um trabalho copiado da Wikipédia, esteja ele escrito seja em que norma for, é explicar ao aluno que um trabalho dá trabalho. Não se pode limitar a copiar. Exige um esforço sério de escrita por parte do aluno, a partir de um trabalho de pesquisa que não se pode restringir a uma só fonte bibliográfica (esse é um erro muito comum, entre certos professores, que pedem aos alunos para fazerem "resumos" - ora, artigos de enciclopédias raramente podem ser resumidos! Um trabalho escolar não deve nascer do resumo de coisa nenhuma, mas da confrontação de várias fontes bibliográficas, e quem tem acesso à Internet não se pode queixar da falta de informação para confrontar).

Mas voltando à questão linguística: quem tem preconceito em relação às normas estabelecidas da Língua Portuguesa e julga que só no seu país é que se escreve bem deveria rever bem tal ideia e verificar o quanto de xenófobo há nessa atitude... Devemos cultivar a nossa norma linguística sem desprezar as outras. É essa a atitude generalizada dos Wikipedistas. É essa a mensagem que chega a quem tenta impor a sua forma de escrever neste projecto.

É certo, contudo, que é aconselhável e aceite (aceito) que os artigos maioritariamente escritos numa norma mantenham essa norma. Por isso, se algum português escrever num artigo que em grande parte já está escrito na norma brasileira, é geralmente aceite que alguém retoque essa contribuição para a adaptar ao estilo do resto do texto. Eu, por mim, não tenho qualquer problema - e acho até bonito - em encontrar um texto na Wikipédia que esteja escrito numa norma mista. De facto, se a Wikipédia é apenas uma semente, cabe a quem quiser usar os artigos, noutro local, transformá-los a seu gosto. Por exemplo, se quiser publicar um texto da Wikipédia no meu blog posso perfeitamente modificar o texto para a norma portuguesa. Só ficarei irritado com o estilo dos artigos da Wikipédia se para eles olhar como se fossem um produto final.  E não são. Os produtos finais devem ser feitos por outras pessoas: peguem nos melhores textos da Wikipédia, adaptem-nos, verifiquem a veracidade das informações e publiquem-nos. Se isso for feito por alguém idóneo, já estaremos, de facto, perante um produto final. O futuro virtual da Wikipédia está fora da própria Wikipédia - na mão de quem quiser utilizar o que lá está, oferecido, gratuitamente, a todos - nem em português do Brasil nem de Portugal - mas no português de todo o lado.

Esta questão não é, pois, pacífica. Mexe com orgulhos e patriotismos primários. Mas creio que a Wikipédia não deve transigir na sua abertura às duas normas. E tudo leva a crer que assim continuará a ser. Há, felizmente, mais pessoas interessadas em fazer pontes que a erguerem fronteiras. Isso é particularmente verdade para quem tem contribuido de forma séria neste projecto
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publicado por Manuel Anastácio às 10:56
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Domingo, 24 de Junho de 2007
Chucha no dedo


Chucha - desenho de patente nos Estados Unidos da América (1900)

Dizem que a Wikipédia dissemina erros pela net. A mim, pelo contrário, parece-me que é a net a disseminar erros pela Wikipédia.

 

Este texto aqui...

“A chupeta foi inventada por um médico russo, Stoitchcovsky, na antiga União Soviética. Ele não agüentava mais o choro constante de sua filha, Katerínikoskitóva, e aperfeiçoou um método de silenciamento que ele conhecera quando trabalhava na KGB (ex-agência de inteligência russa). Como ele não queria matar sua filha, que apesar de chata era muito amada, trocou o ferro derretido por plástico e colocou na boca da filhota. Como isso funcionou com perfeição, Stoitchcovsky adaptou a chupeta (como ficou conhecido o instrumento silenciador de crianças) e fez com ela um isntrumento de alimentação (já que a criança chorava na hora de comer porque precisava tirar a chupeta). Stoitchcovsky só não ficou milionário com sua invenção porque tudo na época era controlado pelo Estado e eles assumiram a patente da chupeta e da mamadeira. Isso era tão útil que até os Estados Unidos incorporaram a chupeta e a mamadeira em seu país, mas fingiram que foi uma criação norte-americana para não admitirem a utilização de um instrumento soviético em suas crianças. Ah, antes que eu me esqueça, Katerínikoskitóva continuou usando chupeta e mamadeira até a vida aduta, quando se tornou a primeira pessoa do mundo a ter todos os 32 dentes tortos.”

 

... está disseminado em cerca de quatro páginas (que eu tenha descoberto), incluindo no site de um jornal brasileiro!

 

Alguém decidiu, entretanto, colocá-lo no artigo Chupeta, na Wikipédia, onde esteve pespegado durante cerca de 11 horas. É muito tempo? É. Mas não é tanto quanto o tempo em que permaneceu e permanecerá em outros sites que não podem ser editados. Os críticos da Wikipédia, contudo, não criticam a possibilidade de qualquer energúmeno poder escrever alarvidades destas em páginas que nem sequer permitem comentários de outros utilizadores. Posso ser muito radical nisto, mas todas as páginas que não permitem, ao menos, a interactividade de um simples comentário, não é digna de existir na Internet. Tudo, incluindo documentos em pdf deveria permitir notas à sua margem. Todas as notas possíveis, de quem quisesse acrescer uma palavra às palavras. Ao menos, saberíamos que há quem não concorde com algumas palavras, ainda que elas apareçam escritas. Caberia a cada um pesar a sabedoria de cada comentário. É por isso que a Wikipédia, indo mais longe no conceito, é o meu milagre das rosas, transmutando mentiras em dúvida. Eu sei – é difícil de perceber, mas nem só de certezas vive o homem.

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publicado por Manuel Anastácio às 11:01
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Sábado, 23 de Junho de 2007
Ombra mai fu

O contratenor David Daniels, cantando "Ombra mai fu", da Ópera Xerxes, de Handel, conduzido por Julius Rudel. Nova Iorque, 1997
 
Estava eu a desligar a televisão quando começou um documentário-entrevista de uma série que se chama "O meu bairro". Parecia interessante, mas estava cheio de sono. Mas o sono passou quando vi que o "bairro" de que se iria falar era sobre o "bairro" de Cláudio Torres - ou, seja, Mértola. E, não sei por que razão - alguma característica vestigial-animal e irracional, por certo - tinha de ver aquilo que já conhecia. Acordei logo. Se fosse sobre outro sítio qualquer para mim desconhecido (isto é, se fosse um programa que me fosse ensinar alguma coisa de totalmente nova), teria apagado a televisão. Mas este gosto em rever as coisas, em saber notícias do torrão por nós já pisado é forte. Muito forte. Ainda mais quando o programa se chamava "O meu bairro" - ora, o bairro de alguém não se limita às ruas e às casas - às edificações - mas às gentes que o habitam. De facto, a minha perspectiva parece reflectir-se nas palavras de Jorge Wemans, director da RTP2 ao Jornal de Notícias:  "Pretendemos mostrar que existem espaços que não só lugares edificados mas são também pessoas e relações que se estabelecem". Ora, ainda há dias, a respeito do filme "Então é assim...", falei de Mértola em tons menos abonatórios (tudo o que não seja laudatório é, na blogosfera, considerado menos abonatório quando não mesmo ofensivo). E referi-me às gentes. Ora, lembro-me bem de alunos que eram excelentes pessoas, lembro-me de colegas de Mértola com quem fazia rádio pirata na escola, mesmo à noite,, com quem fazia gaspacho ao final do dia, antes de uma saída ao Bar Lancelote, lembro-me de alguns alunos de coração grande sem venenos de calculismo, lembro-me do café onde me convidavam para participar da açorda fervente e perfumada de poejos. Lembro-me dos dois alunos com síndrome de Down que não abandonavam a sala de professores - especilamente de um, que desconfiando que eu fosse extra-terrestre ou enviado do diabo, ainda assim me doutrinava sobre o demonismo, com um livro das Testemunhas de Jeová numa das mãos e o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" do Saramago na outra. Lembro-me das vezes que tive de entrar na casa das vizinhas para expulsar as osgas. Lembro-me do Mário Elias a cravar copos de vinho aos visitantes e a demonstrar pela enésima vez que sabia o significado da palavra "polímato". Lembro-me do João - que, estando eu de visita a Mértola, na minha lua de mel, com a Carla, nos cantou, apenas para com os dois como espectadores, entre os arcos brancos da antiga mesquita, o "ombra mai fu" de Handel com uma voz de contralto contratenor1 que nos alagou os olhos. Para mim, o bairro Mértola estendia-se ainda à pizaria "A paragem", na minúscula aldeia de Corvos,  a uma dezena de quilómetros da vila, onde comíamos  massa italiana com nomes operáticos (Turandot,  Turiddu...) e pizas divinas mas, principalmente,  o alentejano cozido de grão, a punheta de bacalhau numa mesa cá fora, entre o horizonte de terra cansada e um céu paciente. Esse foi o meu bairro. Era a Mértola que valia a pena. Hoje, a terra está mais sofisticada, tem outras coisas que valem a pena: pedras, cacos, colunas, mosaicos, calçadas, muros, muralhas, alcachofras de pedra à Cutileiro - os núcleos museológicos são visitáveis (têm a porta aberta!!!...), mas já não é o meu bairro. Foi-o apenas por uma ano.

"O meu bairro", conduzido pela sempre simpática Ana Sousa Dias, guiada pela mão de Cláudio Torres, seguiu-se pelas ruas de Mértola. Qual é o bairro de Cláudio Torres, pelo que se percebeu por este documentário? As pedras. Incluindo a antiga mesquita, hoje igreja, onde ouvi o ombra mai fu. Pedras... Ainda se entreviu um restaurante (O Migas, provavelmente, mas sem certezas). Mas e as pessoas? Não há gente em Mértola? Fiquei apenas a saber que o Cláudio Torres foi lá aceite pelo pessoal (e aceite é a palavra) que via com benevolência aquela gente que em vez de ir para a praia (Vila Real de Santo António ali tão perto...) ia desenterrar cacos... Pouco mais se falou das gentes. Não se viu ninguém de Mértola. Vila vazia. Vila Museu, diz a entrada. Compreendi - ou serei muito mauzinho?... - que os habitantes de Mértola que enchem o bairro de Cláudio Torres são os fantasmas que residem entre o pó e a intersecção de ruínas do antigo gânglio linfático do Guadiana. Serei mauzinho? Talvez. Talvez não.

Um óptimo local para ouvir o ombra mai fu, sem dúvida.

Ombra mai fu
di vegetabile,
cara ed amabile,
soave più.

Jamais a sombra
Cara e amável
Dos vegetais
Foi tão suave.

1Contratenor, claro. Obrigado à Ana Ramon pelo aviso de tal disparate.
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publicado por Manuel Anastácio às 11:45
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Domingo, 17 de Junho de 2007
Arregalar o olho

Pormenor do "Retrato do Mercador Georg Gisze" de Hans Holbein

Há quem me julgue uma pessoa calma. De facto, não sou. A minha paciência tem limites. Mas enquanto que algumas pessoas puxam da metralhadora e desatam a matar colegas de trabalho, eu limito-me a - como diria a minha mãe - a "arregalar o olho". E esta acção de arregalar o olho é, para quem me conhece, tão ou mais violenta que matar alguém. Suponho que se chegasse junto de qualquer um dos meus familiares com sangue a pingar das mãos não provocaria tanto horror quanto provoco com o simples facto de arregalar o olho. Nem sequer é arregalar os olhos - isso implicaria simetria, e a simetria é harmonia a mais para um gesto tão horrível quanto este. O gesto é necessariamente assimétrico: um dos olhos permanece relaxado enquanto o outro se abre até à impossibilidade, com a esclerótica devidamente raiada de sangue. Ora, geralmente, fico assim quando as pessoas interpretam mal as minhas palavras não porque as tenha dito de forma ambígua mas por total incompetência ou, pior ainda, por malvadez irónica. Gosto muito da ironia. Mas tem de ser utilizada enquanto ironia, e não como forma de ridicularizar ideias ou argumentos legítimos - e, muito menos, pessoas (a não ser que essas pessoas mereçam mesmo, mesmo, mesmo...). Detesto, de igual forma, que tentem demonstrar, com falácias, que o raciocínio que eu tento seguir está errado - não porque eu parta do princípio que todos os meus raciocínios estão certos, mas porque eu estou a segui-lo com seriedade, enquanto que os outros apenas estão interessados em sair vitoriosos do combate de ideias. Acontece que eu não vejo uma discussão como uma batalha a ser ganha - não são os participantes que devem sair vitoriosos, mas as ideias que devem sair mais esclarecidas. Infelizmente, tenho por vezes a sensação de que sou, quanto a isso, uma ave rara. Toda a gente gosta de adoptar meia dúzia de verdades e está decidida a morrer agarrado a elas. Alguns ainda têm o pudor de chamar a isso "Fé", outros acreditam no valor intrínseco das suas verdades, com ou sem fé. Para mim, a Fé, tal como concebida pelos Padres e Doutores da Igreja (gente inteligente, ao contrário de muitos dos que julgam que acreditam neles) não se envolve em raciocínios. A Fé é legítima, mas não pode ser inserida como elemento racional. Fazê-lo é negar tanto o raciocínio lógico como a própria fé. É cair no mais absoluto e acéfalo niilismo que aqueles que julgam que defendem a fé tanto votam ao anátema. É cair na boca do nada. É entrar irremediavelmente no limbo do desespero e da escuridão absoluta. Mas cada um escolhe a luz que entende. E há quem goste de se guiar pelos caminhos das trevas, já que a luz cega e confunde (o que é absolutamente verdade).

Lembro-me de uma discussão sobre um problema de matemática. Um rapaz comprava uma bicicleta por 15 euros e vendia-a por 20 euros. No dia seguinte, voltava a comprá-la por 25 euros e voltava a vendê-la por 30 euros. A questão final era: "nas quatro transacções efectuadas, quanto é que o rapaz lucrou"? Ora, é óbvio que o rapaz lucrou em cada compra/venda 5 euros, o que dá 10 euros. Com todas estas transacções, o rapaz ganhou efectivamente 10 euros. Acontece que há pessoas que, ofuscadas pelo facto de a segunda compra ter sido com um montante maior, julgue que o lucro da primeira transacção se esvai!!! Que se reduz a zero... Aliás: que se reduz a valores negativos - valores negativos (-5) que, somados ao lucro final (+5) dá 0 (zero) . Provavelmente, haverá entre os leitores pessoas que julgarão que sim - que não há lucro nenhum. E não há mal em que fiquem nessa confusão. Mal será, contudo, se depois da seguinte ilustração ainda não entenderem o erro em que persistem:

Imaginem que tenho 100 euros comigo.

Compro um bicicleta por 15 euros - fico com 85 euros.

Vendo-a por 20 euros - fico com 105 euros. Certo?...

No dia seguinte, compro a bicicleta por 25 euros. Fico com 80 euros.

Vendo-a por 30 euros. Fico com 110 euros.

Fico, portanto, com 10 euros a mais do que os que tinha no início da transacção. Mas há quem persista no erro abstracto dos valores negativos (falaciosos) que se anulam com o lucro final. Pior é quando o indíviduo que persiste nesse erro é professor de matemática! Pior ainda: quando propomos a prova prática do lucro efectivo. Primeiro dizemos: Ora, se não há lucro da parte do rapaz, também não haverá prejuízo para o outro parceiro das transacções, que para efeitos de raciocínio até se pode supor ser sempre a mesma pessoa. Isso parece lógico - é, aliás, o fundamento racional de qualquer equação: num sistema fechado, dividido em duas partes, quando uma das partes perde alguma coisa, a outra ganha, já que o sistema é fechado - acontece que o professor que connosco fala é esperto e diz logo: pois! Mas o mercado não é um sistema fechado. Pois não. Ora porra. Era tão simples se vivêssemos num livro de exercícios com soluções no final da página... Mas adiante: já que não há lucro, também não há prejuízo, certo? Perguntamos... Mas aqui, o nosso amigo já começa a vacilar... Bem, se calhar nem sempre é assim. E nós perguntamos: então o lucro ou prejuízo podem ter geração espontânea, certo? Melhor ainda: se não é assim, temos pela frente uma idade áurea da economia em que em cada transacção todos terão lucro!!! Ou, na pior das hipóteses, será melhor que se proiba o comércio, caso contrário, entramos todos em prejuízo... Porque se não concebermos que para um dado lucro corresponde o mesmo valor em prejuízo para a outra parte, teremos necessariamente de aceitar um dos cenários atrás apresentados. Mas fiquemos por aqui. É mais simples chegar ao pé do  outro tipo e dizer: olha lá: tens aí essa caneta, vou comprar-ta por cinco euros e depois compras-ma tu por dez... E o tipo diz: não, porque assim ganhas cinco euros. E eu digo: com certeza, mas não te preocupes, que eu a seguir volto a comprá-la por quinze euros (perco assim os cinco euros que ganhei - fico com cinco euros de prejuízo) e vendo-ta depois por vinte euros, cujos cinco euros de lucro apenas servirão para repor os cinco que perdi da segunda vez que ta comprei. Eu não vou ganhar nada. Por isso tu também não vais perder nada. A não ser que acredites que no meio disto tudo fizémos como o mágico que faz desaparecer coelhinhos na cartola... E aí: será que o nosso caro amigo cai na esparrela? Era o caías!... A "matemática" é muito bonita em teoria - pensa ele - mas não a vou experimentar na minha própria carteira! O que é engraçado, porque mesmo perante a prova prática continuará a defender que não houve lucro... De gritos, não é? Pois bem, é nessa altura que eu costumo arregalar o olho... Podia, de facto, puxar de uma bazuca e dar cabo, com uma boa explosão, com a estupidez humana. Mas aí seria eu a ser mais estúpido ainda, pelo que haveria lucro espontâneo na estupidez.

[...] * texto truncado por vontade do autor, a ser reposto caso se justifique.
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publicado por Manuel Anastácio às 13:43
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Sábado, 16 de Junho de 2007
Curta 35
Do Portugal Profundo
Imagem do Apdeites v2

António Balbino Caldeira, autor de um blogue onde exerce o que devia ser o simples direito à liberdade de expressão - e que já uma vez foi aqui objecto de uma curta, foi convocado para prestar declarações como arguido no âmbito de inquérito judicial relativo ao assunto do percurso académico (e utilização do título de engenheiro) de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa...

Por favor: digam-me que isto não é verdade... Não pode, pois não? Ou pode? Se calhar pode... Desculpem-me. Vou ali vomitar e já volto.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:13
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Enciclopédia íntima: Retrato

Foto de Luís Efigénio/NFactos

O artigo do Público sobre a Wikipédia está equilibrado e não se deixa levar por equívocos nem por ideias e premissas erradas sobre o que seja o projecto, à maneira de Pacheco Pereira e afins. Entretanto, a fotografia que publicaram da minha pessoa acabou por reflectir o meu calculismo simbólico... O Luís Efigénio, que estoicamente aguentou a insistência felina do Mies em interromper a sessão fotográfica teve a ideia de me rodear de livros e de me fotografar em ângulo picado, como se o Espírito Santo viesse para iluminar o Wikipedista perdido na floresta escura do meandro osmótico que se estabelece entre entre a Wikipédia e os livros. Perante a sugestão, decidi rodear-me de alguns ícones: com o portátil com que escrevo este post sobre as pernas,folheio, à direita, uma página de um volume do Houaiss. A Língua portuguesa em primeiro lugar, claro, mas sem o bairrismo da Pátria Lusa. Mas, sem esquecer que, afinal, sou português (e não admito que me digam que não sou patriota... fanático não, mas patriota sou, ainda que me esteja a borrifar para os resultados da Selecção Nacional), tenho, sob o meu braço direito, a "Viagem a Portugal" do Saramago - reconhecível por quem conhece os livros pelas capas. Ainda do meu lado direito, à frente, uma biografia de Pedro IV de Portugal, primeiro imperador do Brasil - novamente, a referência explícita à lusofonia que, não excluindo os países africanos e Timor, tem de se centrar prioritariamente na relação Portugal / Brasil, já que se assumem como os dois pólos orientadores da Língua Portuguesa. No mesmo monte, aparece a obra completa de Jorge Luís Borges - e que autor mais Wikipédico existe que este???... A biblioteca de Babel, o caminho da impossibilidade de qualquer conhecimento, apesar da inevitável e justificadora persitência de quem nele segue, bem como a centralidade do leitor enquanto verdadeiro criador do texto lido justificam que tivesse de convocar Borges. E, finalmente, do meu lado esquerdo - ainda um lado meu, e do coração, ainda que simbolicamente mais crítico, tenho um volume aberto da Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira da Cultura, Edição Seculo XXI. Ora, é uma enciclopédia, com certeza. Que uso frequentemente, com certeza. E que critico frequentemente pelas suas passagens com tantos erros como a Wikipédia, com a diferença de que os erros desta Enciclopédia foram todos (espero eu) escritos com boa intenção - e não poderão ser corrigidos por quem os encontrar. E cujos erros são tornados verdade por estarem subscritos por nomes "credíveis", ao contrário dos anónimos que editam a Wikipédia.

Um retrato deverá convocar a tensão entre o retratado e a sua duplicação através de uma imagem que a ele apenas se refere, mas não o substitui. O retrato é uma interpretação do outro condicionada pelos meios físicos de execução da obra - condicionantes esses que se esbatem na pintura (cujas condicionantes são mais técnicas que que "referenciais") mas que são especialmente prementes na fotografia. Esta, estando, hoje, longe da simples tarefa de reprodução do real continua a ter no real a sua matéria prima, mesmo quando o objecto final - a fotografia - não é uma entidade sensorialmente reconhecível. Contudo, mesmo um retrato abstracto, coisa perfeitamente possível, terá de ter, paradoxalmente, um elemento mimético reconhecível. A acção de retratar vai buscar o seu nome ao latim retrahere, que significa copiar. Copiar, acima de tudo, para resgatar da morte. Por alguma razão os primeiros retratos aparecem em contextos funerários, como no retrato rupreste da Floresta de Vilhonneur ou na cultura egípcio-romana. Contudo, é na época renascentista e, mais especificamente na pintura flamenga que o retrato chega a confundir-se com o seu próprio ideal, ao transcender a reprodução física, integrando uma linguagem que vive do contexto e do carácter gerador de significados das imagens usadas. Não sou propriamente um modelo fotográfico, mas parece-me que o Luís Efigénio tem alma renascentista.
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publicado por Manuel Anastácio às 14:24
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