Quinta-feira, 19 de Abril de 2007
Curta 32

Chaminé da Tia Augusta. Na Wikipédia. Ajudei a fazer o telhado... :)

Descobri o meu artigo na Wikipédia, sobre a freguesia em que nasci, semi-traduzido para espanhol (com alguns erros, é certo, e com as legendas ainda em português), e para inglês (ainda que os anglófonos tivessem sido mais preguiçosos na tradução que nuestros hermanos). Sei bem que é difícil para a maioria das pessoas compreender isso, mas a comoção que me toma quando vejo um artigo despretencioso como este (ainda assim, provavelmente, o mais completo sobre esta obscura freguesia de Abrantes) é de uma ordem quase mística e faz-me recordar aquele outro filme que vi um dia, há uns oito anos atrás, às tantas da manhã, na SIC, após uma maratona de trabalho, sobre a teoria dos seis graus de separação - o único filme de Will Smith que provavelmente valerá a pena ver (não tenho a certeza, o resto sempre me passou ao lado). Há uma corrente viva na Wikipédia que a torna em poesia em movimento. Sei que há pessoas que até vão gostando de me ler mas que me censuram esta "obsessão" pela Wikipédia. Essas pessoas, que muito me lisonjeiam ao pedirem-me para escrever mais "posts", poemas, contos ou outras coisas (dependendo dos gostos: duvido que agrade minimamente em todos os géneros ao mais fiel dos meus leitores - e confesso que sempre que leio um post, noutro blog qualquer, sobre a vacuidade dos blogs, julgo que estão a falar de mim) não compreendem, de facto, que o que menos interessa é a Wikiverdade ou a Wikimentira. Há algo mais ali. Algo de profundamente humano, a atar almas com fios de verdade  e com uma perceptível mancha desagregadora de podridão. Podridão, contudo, que não é pior que aquela que nos vendem em revistas científicas "fiáveis" cujos estudos científicos (e resultados) são encomendados por poderes económicos e políticos. Aqui, sabemos o que comemos.

Carreguei no histórico desse "meu" artigo e comparei versões. E descobri que alguém acrescentou sobre as chaminés da minha freguesia de nascença, que estão associadas às rosas dos ventos. Pois é. Ainda bem que escrevi aquele artigo. Se não tivesse começado, não teria aprendido algo que sempre tinha ignorado, como cego à evidência. Alguém completou as minhas palavras, e sinto-me grato por isso. Coisa que os escritores que assinam sempre em baixo nunca sentirão. Pior para eles.
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publicado por Manuel Anastácio às 21:28
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Segunda-feira, 16 de Abril de 2007
Paraíso Tropical

"Boys in red" - crianças à saída de uma fábrica de tinta, no Bangladesh. Foto de Mak em GFDL.

Escrevo este post com apenas uma mão. A outra está ocupada a refrescar o dedo anelar num copo de gelo porque me queimei ao grelhar a gigantesca posta do acém que me serviu de jantar. Sim, não sou vegetariano. A minha tendência para o politicamente correcto ainda não chegou aí. Sempre que reflicto no acto bárbaro que é comer carne, o meu lado egoísta anestesia uma certa parte do cérebro, ao mesmo tempo que as minhas glândulas salivares decidem dar razão a Pavlov e ao canito que todos os estudantes de psicologia conhecem, sem saber o seu nome, ao contrário dos cães nos romances do Saramago, sempre presentes, sempre Constantes. Com C maiúsculo. Acto bárbaro, o de se falar de um cão sem o chamar pelo nome (ou, pior ainda, chamá-lo pelo nome do dono ou de um gajo que fazia experiências com ele).

Serve isto de intróito para falar de uma telenovela. Yep - sim. De uma telenovela. Não sou, actualmente, grande apreciador do género. Gostei muito do "Roque Santeiro"  e de "A Sucessora". E lembro-me de, em pequeno, vítima do "horrível" trabalho infantil  (é-me permitida a ironia, já que a partir  dos meus 11 anos, até à altura em que ingressei na classe privilegiada dos professores, passei 70% dos meus fins de semana, feriados e férias a trabalhar nas obras), ter conseguido escapulir-me de uma montanha de cofragens sujas com pregos para limpar para ver um pouco do compacto de episódios de uma novela cómica que tanto se poderia chamar de "Cambalacho" como "A Rainha da Sucata" (maravilhoso exercício cinéfilo que, felizmente, já conseguia decifrar nos seus muitos níveis de leitura) ou mesmo "Sassaricando" (mas creio que esta é muito anterior ao episódio que vou contar)... Quando consegui, enfim, um momento para entrar num café onde estava a passar a novela, a poucos passos da obra, na árida paisagem do Entroncamento, que na altura era um paraíso para a construção civil desenfreada, sorri durante alguns minutos para a sucessão de cenas cómicas e de sonho que me permitiriam, depois, perante a massa desconjunta de madeira impregnada de cimento e ferrugem, imaginar que também a vida teria um final feliz. Por alguma razão, revelo agora, incluí na minha lista dos 100 filmes, a "Rosa Púrpura do Cairo" de Woody Allen e "A Quimera do Riso" de Preston Sturges. Porque fazer os desgraçados sorrir e sonhar não é uma arte. É um imperativo ético.

Na altura em que comecei a escrever isto, estava a começar uma telenovela na SIC. O título, sensaborão, é "Paraíso Tropical". Mas, como em outras novelas de Gilberto Braga, tem Caetano por fundo. Teve, hoje, um maravilhoso travelling espácio-temporal do interior selvagem do Rio de Janeiro, de dia, até Copacabana à noite. Teve uma sequência deslubrante (vista deslumbrante) e maravilhamente artificial - quase arcaica, como no "Niagara" com a Marilyn - de uma tempestade no mar e uma quase morte por afogamento. Tem uma casa de meninas e uma posição politicamente correcta sobre o assunto. Tem uma fotografia fria (ao contrário dos enjoativos tons pastel e abuso de filtros pelas outra novelas da Globo) a fazer lembrar um filme de Ken Loach (autor de outro filme que faz parte da minha lista: "Kes"). Não digo que vá seguir a novela com muita atenção. Não tenho tempo para fidelidades televisivas (excepto para o "Lost").

Mas, com isto, esqueci-me de contar o episódio daquela vez em que entrei num café, no Entroncamento, para ver um pouco da novela. O empregado de balcão, vendo-me interessado na mesma, e estando eu, um miúdo com 12 ou 13 anos, sujo das obras, mudou de canal para que eu saísse.

Talvez isso explique muitas coisas. Por exemplo, a lágrima que reprimi, por ser piegas, quando li aquele momento de "Coração" de Edmondo de Amicis, em que o rapazinho rico, indignado, quer limpar o sofá sujo pelo colega que acaba de chegar do trabalho e que pelo seu excesso de zelo doméstico recebe apenas, e justamente, um raspanete do pai que lhe explica que a sujidade do trabalho não é sujidade. É honra. E pronto. Lá vem a lágrima piegas, de novo, a querer insinuar-se.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:17
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Domingo, 15 de Abril de 2007
Senhoras

Azinheiras em Fátima. Foto minha em Creative Commons

Nada me leva a dar importância especial a Fátima. Não sinto qualquer magnetismo ou envolvência transcendental naquele local, ao contrário do que dizem muitas pessoas, incluindo algumas insuspeitas de misticismo. A arquitectura apenas me ofusca os olhos graças à fotossensibilidade. Muita pedra branca, e os meus olhos ressentem-se. E como passo a vida a estropiar óculos de sol, é de olhos desprotegidos que a minha retina é bombardeada pela luz do recinto que, devido à sua curvatura, funciona como uma lente que cega quem nela ingressa. Os santos são esculpidos de forma rude e antipática. As obras da Igreja da Santíssima Trindade ainda estão envoltas de taipais devidamente decorados com mensagens religiosas, de onde se destaca uma de conteúdo óbvio, com um feto humano a ilustrar. As pessoas que, de acordo com a mensagem sado-masoquista de Fátima, se rastejam pelo corredor de pedra lisa até à capela das aparições já são menos. As obras cortaram a meio o caminho da auto-flagelação. E as pessoas preferem a Via Sacra na sua extensão integral.

Ao correr os recantos de um local que em nada me inspira santidade, uma oração, proposta numa parede, faz-me lembrar que a mensagem de Fátima assenta em grande parte na ideia de Inferno como local de tortura eterna. Há que rezar (o terço, presume-se) pelos descrentes e sofrer por aqueles que ultrajam a mãe de Cristo - dizem. E fico embasbacado com a contradição: reza-se para que os descrentes não sofram as penas do Inferno - isso até parece bonito e misericordioso da parte de quem reza. Já não parece é bonito e misericordioso em relação a Quem se reza. Se a ideia de Inferno é, por si mesma, de uma maldade extrema (e por isso rezamos para que os injustos - até eles - dela sejam livrados), porque é que o Todo Poderoso concede em manter em tal condição as almas dele apartadas? É que o Inferno foi mostrado aos pastorinhos sem qualquer dose de anestesia.

Não interessa. As pedras lavradas e a mensagem tão celebrada (e os segredos que metem água por todos os lados) nada me inspiram. Mas as árvores, sim. Com o chão coberto de margaridas e pássaros que parecem ter-se habituado à presença humana. Há ainda locais onde o sofrimento humano aparece na sua devida proporção de terreno e de divino. Não há melhores confessores que os ramos de uma árvore. Mais que profetas, confessores. E fazem perfeitamente o seu papel - até em locais profanados por mensagens dispensáveis.

E é de alma lavada que arranco em direcção à Senhora da Oliveira.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:54
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Sábado, 14 de Abril de 2007
Cinco Haikai

Pormenor do Castelo de Ourém. Foto minha, em Creative Commons

1.
porque o tempo corre
cantai em allegro assai
pela flor que morre

2.
como gotas de água
nascidas em flor rubi
derrama-se a mágoa

3.
no olhar de bruxa
cinzentos tons virulentos
como haste que murcha

4.
a manhã oferece
um galo do sol vassalo
em chão que apodrece

5.
no barro e calcário
os arcos fazem girar
o tempo ao contrário
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publicado por Manuel Anastácio às 14:43
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Terça-feira, 3 de Abril de 2007
Dodsworth - Veneno Europeu

Excerto de "Dodsworth" - conhecido em Portugal como "Veneno Europeu", de William Wyler, a partir do romance de Sinclair Lewis. Outro que não está na lista dos 100, mas...


Vem este filme do tempo em que os norte-americanos viviam a sua Idade da Inocência, à maneira de Henry James. A Europa era o local das raízes, o ninho de uma nostalgia genética que levava o protagonista, o reformado Dodsworth, a rapar frio no convés do navio à procura da primeira luz de Farol vinda de Inglaterra. Mas era, também, o local da tentação do supérfluo disfarçado de autenticidade. A mesma autenticidade que se continua a procurar entre o bolor das árvores genealógicas. Ao percorrer de novo o segredo dos meus 100 filmes, que em breve começarei a desvendar, lembrei-me deste filme e das tardes de cinema gravadas no VHS, na altura em que a RTP fazia serviço público. O tempo de duração de um filme era maior, nessa altura. Absorvendo as experiências que me faltavam na vida quotidiana, cada filme levava à suspensão da realidade e arrastava-me na ânsia de viver e compreender porque vivemos assim e não de outra forma. Os filmes que nos enchem os écrans, hoje em dia, não têm esta densidade. É verdade que nos dizem que o crivo do tempo separa o trigo do joio. Lá virá o tempo em que o ruído tecnológico da nossa cultura do espectáculo se esbaterá no fundo sobre o qual se definirão cada vez mais as obras primas do nosso tempo. Este filme é uma obra prima. E confesso que não entendo como é possível vê-lo tão arredado das escolhas dos cinéfilos. Nunca li o livro de Lewis. Não sei como será a pungente descrição daquela despedida entre o marido traído e a esposa fútil que, ainda assim, muito "charming", recebe um voto de vassalagem. Não sei como aparecerá, em palavras, a insistência odiosa do telefone que toca no mediterrânico ninho de amor, como uma ameaça à felicidade ingénua de um "happy end" inevitável, não fosse a bondade tola de Dodsworth. O excerto que encontrei no You-tube não inclui nenhuma dessas passagens, mas reflecte bem o clima mundano onde a bestialidade disfarçada num vestido de noite e a predação envergando um fraque se degradam em espuma, apenas molhando ao de leve o entusiasmo infantil de Dodsworth (Walter Huston - o velhote que delira por ter estado perante o túmulo de Napoleão) e a circunspeção de Mary Astor numa passagem inesquecível, quando Mrs Dodsworth diz fazer 35 anos naquele dia e, de volta à sala, resume a sua advertência a um "My dear... don't..." e responde ao porquê apenas com um "You're so charming". Não sei bem o que seja "ter classe". Ainda mais, imprimir intemporalidade aos gestos e modos de quem "tem classe". Mas se os homens podem usar como modelo Gary Grant (sem peúgas brancas, claro - e que não, não entra neste filme), creio que Mary Astor, neste filme, consegue concentrar em poucos planos, para as mulheres, os gestos que Paula Bobone, em vão, tenta sistematizar em livrinhos que vendem como pão quente. Já ouvi dizer que é um filme datado. Não é. Só o embrulho é que revela ainda algum caruncho.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:22
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