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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007
Quem controla a Wikipédia VI


"Der Hölle Rache", por
Natalie Dessay em "A Flauta Mágica" de Mozart. Paris 2001

Em resposta a um comentário do JLCA, ex-wikipedista que merecia toda a minha consideração (ainda que não propriamente a minha simpatia) escrevi-lhe a seguinte "carta":

Caro JLCA:

respondi ao seu comentário no meu blog. Compreendo que não esteja minimamente interessado em continuar a participar nela depois dos acontecimentos em que esteve envolvido. Mas não me parece bem que me considere um fanático da Wikipédia. Sou apologista da Wikipédia, mas na justa medida, como centro de discussão e de crescimento intelectual. Não como "Enciclopédia". Em lado algum demonstrei desrespeito pelos especialistas e académicos. Apenas desprezo a presunção de alguns que se julgam donos da verdade. A verdade não é atribuída a ninguém por diplomas académicos. Procura-se. E esse procurar é direito de todos. A Wikipédia é um meio como outro qualquer, com as suas especificidades. Creio que continuará a participar no crescimento intelectual da humanidade de outras formas. Aliás: apesar de nunca lhe ter tido especial simpatia (os seus modos foram quase sempre desagradáveis para comigo e para com outras pessoas que até podem nem ter a sua inteligência e cultura, mas têm desejo de crescer nesse sentido), sempre o considerei uma pessoa com capacidades acima da média (e muito acima, particularmente, da média dos contribuidores da Wikipédia). Mas a Wikipédia é também um local onde se aprende a negociar. Quem não tem capacidade para regatear ideias não pode sobreviver na Wikipédia. Claro que considerará o regateio uma forma pouco nobre de procurar a verdade ou de crescer intelectualmente. Acontece que esse regateio já existe entre a comunidade académica e científica mundial, com a diferença que nesse caso só podem regatear aqueles que aprenderam o que sabem nas redomas esterilizadas das instituições académicas. Há quem tenha, contudo, contribuído para o crescimento intelectual da humanidade por outros caminhos. A Internet, com ou sem Wikipédia, será sempre um amontoado de conteúdos díspares e falsos, com alguma verdade à mistura. A Wikipédia não vem para aumentar a confusão, mas para formar pessoas capazes de ler, pensar e criticar, sabendo ouvir críticas - de toda a gente, incluindo tanto os mais doutos investigadores que tenham a humildade de descer ao pântano como o Tio José da Taberna. Quem não gostar dessa ideia, tem apenas uma coisa a fazer: ignorar a Wikipédia. Mas censurá-la nunca será bom, porque mais vale uma página com mentiras que pode ser discutida e remodelada no próprio instante a milhões de páginas fixas no firmamento da Internet onde os autores negam, até, simples comentários. Não desprezo ninguém. Mas desprezo a falta de vontade, que tanto se vê entre os lusófonos, de dialogar, de argumentar. De procurar a verdade, em vez de guardar os seus simulacros num cofre lacrado com os selos das Universidades. Abraço, e espero que continue a utilizar a sua inteligência e cultura de um modo edificante. Entrar na Cruzada contra os bárbaros Wikipedistas não me parece o melhor caminho, mas se entrar nela, estarei sempre disposto a usar das armas pacíficas do diálogo e da argumentação, bem como da exposição de valores e princípios de vida. Esses são inegociáveis, mas a verdade, ou o que dela alguma vez poderemos vislumbrar, é. É-o a toda a hora. E não a concedo a si nem ao Albert Einstein.

Agradeço desde já qualquer comentário que venha a fazer no futuro, mas agradecia que lesse o que escrevo e não comentasse apenas aquilo que julga que eu escrevo. Abraço cordial,

Manuel Anastácio

Termino com uma nota crítica em relação à Wikipédia lusófona, ao dizer que, desde sempre, tem sido pródiga em expulsar os seus contribuintes mais fervorosos e com maiores capacidades. Isso deve-se, quanto a mim, a uma das características que mais tenho apontado em relação aos lusófonos em geral - e que tanto verifico entre aqueles que permanecem na Wikipédia como aqueles que a abandonam furiosos. Espero mesmo que não seja uma característica que se incruste indelevelmente nas nossas almas a partir da Língua Portuguesa - língua de poetas e oradores, mas pouco dada à troca de palavras. Isso nota-se, por exemplo, na nossa literatura epistolar, onde abundam as cartas de contínua afirmação das afinidades e tão poucas as de confronto de ideias. O que é que há na nossa língua, na nossa cultura, que nos indispõe tão facilmente contra as ideias dos outros e que nos feche numa persistente cegueira de orgulho?

É por isso que precisamos urgentemente de mais blogs (com caixa de comentários aberta a tudo e a todos, inclusive a palavrões indecorosos - ou que publiquem devidamente os mails que lhes são enviados - por todos, incluindo o Tio José da Taberna) e de maior participação na Wikipédia. Porque temos muito a aprender. O marasmo intelectual português (e brasileiro - e africano) assenta muito no lodo estagnado dos  títulos académicos e dos pindéricos anéis de curso. Se o Tio José da Taberna me disser algo edificante e o Senhor Doutor me disser, com ar altaneiro: "fale comigo quando tiver o doutoramento" - não tenho dúvidas. Preferirei o Tio José da Taberna. E é por isso que sempre defenderei que o Tio José da Taberna também tem direito a controlar a Wikipédia.

Os Senhores Doutores, por seu lado, sê-lo-ão duas vezes mais aos meus olhos (ou mais ainda, consoante o seu mérito - porque eu valorizo o mérito, ao contrário do que dizem aqueles que fingem que me lêem) se souberem descer do pedestal.

O blog do Orlando Braga continua fora do ar... Será que quando voltar (se voltar) os meus comentários ainda lá estarão? Ou foi a máfia fanática dos Wikipedistas que moveram-se, em conjunto com o Lobby Gay, para calar o Orlando?...
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publicado por Manuel Anastácio às 17:40
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Sábado, 24 de Fevereiro de 2007
Curta 28

Início de L'Orfeo de Claudio Monteverdi, dirigido por Jordi Savall, dirigindo o Concert des Nations e a Capella Reial de Catalunya. Toccata (aquela música que toda a gente conhece, logo no início), um Ritornello e a ária "Dal mio Permesso amato" na voz de Montserrat Figueras. No Liceu de Barcelona. (o vídeo não pode ser visualizado aqui, mas basta ir aqui.)

Ah... ia-me esquecendo... Parabéns a você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida, hoje é dia de festa (...) à menina Ópera... Uma salva de palmas...

Clap clap clap clap...

Porque só há duas coisas melhores que a Ópera:
a) uma meia dúzia de outras que são semelhantes à Ópera;
b) Sentir a pele de quem se ama, como aconteceu comigo, pela primeira vez, neste mesmo dia, há cinco anos atrás...
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publicado por Manuel Anastácio às 23:10
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Quem controla a Wikipédia - Parte V


Eugenia buxifolia - foto de B.navez que, graças à Wikipédia, é de todos nós, porque está em Creative Commons. Porque "a Myrtaceae by day, keeps the sanity away", como cantaria a Marlene para o Gary, em Marrocos. Não - esses ainda não estão em Domínio Público.

Uma das críticas mais frequentes à Wikipédia prende-se ao facto de ela ser escrita pelas mãos e, pior ainda, pelas mentes não iluminadas de amadores - exceptuamos, obviamente, o caso dos vândalos que, em termos gerais, só vandalizam a Wikipédia porque querem demonstrar que ela não é fiável (é como se eu me tornasse assassino para provar que a humanidade não tem emenda), isto é, vandalizam por uma boa razão. Foi assim que recebi um mail de um senhor chamado xxxxx[nome removido a pedido desse senhor] que me remetia para um artigo de Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa. Pena é que eu não possa estabelecer um diálogo com este senhor, como estabeleci com o Orlando Braga (cujo site desapareceu desde o meu último post, de forma muito estranha e suspeita) ou mesmo com o Janer Cristaldo, que até parecia disposto a dialogar comigo mas que deixou de me responder assim que saiu o número da "Nature" que comparava a Wikipédia à Britânica (não que esse estudo venha comprovar nada do que eu defendo - até porque eu não defendo a fiabilidade da Wikipédia). Pedi o contacto do autor do "Referência Fast Food", mas ninguém me respondeu da sua meritória revista. Os detractores da Wikipédia têm uma fobia aguda a conversas e argumentações - é por isso mesmo que nunca poderão contribuir para um meio de (des)informação tão estimulante como a Wikipédia. Entenda-se que escrevo (des)informação sem qualquer sentido pejorativo. A Wikipédia exige uma participação activa do leitor. Se é daquelas pessoas que nunca carregará no "editar" de um artigo da Wikipédia, o meu conselho é, simplesmente: não vá lá, que não aprenderá nada. A Wikipédia só informa verdadeiramente quem com ela interage. Quem duvida, quem procura, quem reescreve, quem discute. É claro que há sempre aqueles que vão apenas à procura de disparates ou que tentam descobrir os podres da poderosa máfia que controla a Wikipédia e pretende enganar o povo... Ora, o povo só é enganado pela Wikipédia se for muito parvo - e se usa o copy-paste em vez de usar o cérebro. A Wikipédia é a Enciclopédia escrita pelo povo, apagada pelo povo, desfigurada pelo povo e reconstruída pelo povo. Eu compreendo, é revolucionário de mais, não é?... Os partidários da Reacção preferem, mesmo, um mundo onde o Mestre e o Doutor vão deixando cair migalhas aos famintos que se rojam passivamente a seus pés. 

Ora, o artigo do senhor Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa é muito interessante e está cheio de legítimas preocupações a que eu, como professor, não me posso furtar. Se um aluno meu me trouxer um "trabalho" que é uma cópia da Wikipédia, receberá um raspanete. Se me disser, contudo, que fez uma alteração num artigo - e a alteração for positiva, terei, pelo menos, muita fé nesse aluno. Mas se esse aluno me trouxer uma cópia de um outro texto qualquer, de um livro escrito por académicos consagrados, o raspanete será na mesma medida. E o exemplo que vou dar nasceu exactamente da leitura do artigo do senhor Coelho da Costa que refere, a dado passo, o verbete "Arianos". Interessante referir que essa versão, anterior à minha, tinha tido participação de um dos raros "Doutores" participantes na Wikipédia: o senhor Carlos A. P. Campani (é certo que Doutor em Ciências da Computação e não em Antropologia, mas, ainda assim, um Doutor - claro que, agora, com o Tratado de Bolonha, o que não vão faltar são Doutores, pelo menos em Portugal). Decidi, então, eu, leigo, fazer o que o senhor Coelho da Costa não fez (porque se ele escreve alguma coisa é para ser pago... ia lá agora trabalhar para aquecer...) e comecei a melhorar o artigo. E a aprender coisas. A dada altura desisti de melhorar e tive de reescrever tudo. A falta de referências bibliográficas do artigo anterior à minha intervenção não permitia reutilizar informação alguma. Para começar, consultei as obras de referência (poucochinhas, que o ordenado de professor não dá para bibliotecas) que tenho em casa. E dou de caras com o verbete "Arianos" da Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, da Editorial Verbo, Edição Século XXI (isso do século XXI é treta, asseguro-vos). Se o artigo da Wikipédia era mau (que era), este aqui... não, não era mau. Estava bem escrito e até não estaria mau se a Enciclopédia se chamasse Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Edição Século XIX. Afinal, é só mudar um I na numeração romana. Para os editores desta Enciclopédia nem sequer se pôs a hipótese de esclarecer os leitores de que aqueles dados "científicos" pertencem ao tempo da Maria Cachucha e que o autor, José Domingues Lampreia, foi um antropólogo da "Junta de Investigações do Ultramar". Isto só para contextualizar, que não sei se a Junta tinha alguma ligação ou não com o Ministério da Propaganda.

Pois bem, o artigo que passo a transcrever serviu muito bem, como fonte bibliográfica, para o primeiro esboço do artigo que tenho em mãos (a versão do artigo "Arianos" ao momento em que escrevo este post não é uma versão definitiva, mas um ponto de partida), principalmente para uma das secções.
Peço desculpa se violo - aqui, não na Wikipédia - algum direito de autor, mas creio que, neste caso, o interesse público sobrepõe-se ao interesse dos particulares.

Arianos - ANTR. Do sânscrito arianam. Povos de raça branca que se supõe originários do Sul da Ásia, mais determinadamente da região de Hindu-Kusch, no Pamir, e consignados no Genesis como descendentes de Jafet. Essencialmente braquicéfalos, eram dotados de estatura elevada. Tradicionalmente atribui-se a Chemsid a divisão dos A. em quatro grupos ou castas: Catures ou sacerdotes, Asgares ou guerreiros, Sebaisas ou agricultores e Anuqueques ou artífices. Primitivamente pastores, aprenderam mais tarde a agricultura com os povos do Ocidente, com os quais se cruzaram, devido às contínuas migrações que durante séculos realizaram, tendo-se difundido por toda a Europa. Conservaram uma identidade de origem demonstrada por alguns ritos e tradições comuns, ainda existentes, e uma unidade linguística, supondo-se o sânscrito como um aperfeiçoamento da originária língua ariana. Nos tempos védicos desconheciam a escrita, mas mais tarde conheceram e aperfeiçoaram os caracteres cuneiformes. Atribui-se-lhes também a invenção do tijolo. Agrupavam-se em grandes famílias ou clãs, chefiadas pelo pater familia. Praticavam a cremação dos cadáveres, encerrando depois as cinzas em vasos de barro. Divinizavam a vaca, a que rendiam culto.

Serviu bem como fonte bibliográfica. Mas leiam o artigo actual da Wikipédia. Daqui a uma semana, voltem à Wikipédia e leiam o mesmo artigo. Depois, voltem a ler este. Talvez se faça luz, então, sobre quem controla a Wikipédia.



Para ler o artigo actual da Wikipédia basta carregar neste link (não confundir com o link para a versão que existia na altura em que escrevi este post, e que apresento no texto - de facto, desde essa altura para cá, já houve alterações no artigo, pelo que se quiserem participar no mesmo - corrigindo erros ortográficos, por exemplo - devem procurar a versão mais recente: esta).

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publicado por Manuel Anastácio às 17:38
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Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2007
Quem controla a Wikipédia - Parte IV

"A liberdade guiando o Povo" de Eugène Delacroix (1798 - 1863)

Confesso que sou incpaz de resumir tudo o que se passa na minha refrega com o Orlando Braga a respeito da Wikipédia. Ele vai escrevendo os seus artigos e eu vou comentando. Honra lhe seja feita que, até ao momento, não apagou nenhum dos meus comentários - mal seria se o fizesse, ele que se diz tão contra a censura.

Ora, está na altura de revelar quem é que controla a Wikipédia... Pois bem, quem me deu a resposta foi, sem mais nem menos, o próprio Orlando Braga, que no seu último post publicou um EXCELENTE artigo de Rich James sobre o papel disruptor da Wikipédia no meio académico. A Wikipédia, sob o meu ponto de vista, é, mais ou menos, para a Sociedade da Informação o que as Invasões Bárbaras foram para o Império Romano - destruiram muito, mas sem elas, onde é que nós estaríamos?... este artigo, absolutamente NOTÁVEL, foi escolhido pelo Orlando Braga que fez questão de destacar apenas umas passagens onde se fala de alguns episódios, bem conhecidos, aliás, de vandalismo ou de abuso de alguns usuários em páginas que deviam cuidadas com outro esmero pela Wiki em inglês e que têm feito correr alguma tinta e fez subir a Wiki para tema do dia na CNN há uns tempos atrás. Pois bem. Eu li o artigo todo. Não me limitei a ler o que o Orlando sublinhou a amarelo fluorescente. E o artigo termina de uma forma BRILHANTE:

Wikipedia, Google, the blogosphere, del.icio.us are all emergent tools for negotiating truth in the hyperconnected world. It is a new Commons. The Wikipedia incidents suggest this commons deserves caretakers. But don't look for them elsewhere. We are the caretakers. The new essential educational outcome is the skill to negotiate a "world in which truth, and therefore authority, is never static, never absolute, and not always true."

De facto, a Wikipédia é isso mesmo: um local onde a verdade é negociada. Pode ser que o resultado final seja considerado, como o Orlando Braga considera, apenas uma manifestação de um lobby do politicamente correcto. Aliás, eu diria: a Wikipédia é a quintessência do Politicamente Correcto. É o Politicamente Correcto em acção. A procura do consenso - a tentativa de escrever algo que agrade a Gregos e Troianos... Isso não é possível? Pois não... Ehehe... E tem de ser possível? O que interessa é o processo, não o resultado! Ainda ontem estive uma hora, no IRC a controlar um conflito de edições entre um utilizador que queria escrever no artigo que um partido político brasileiro era de extrema-esquerda enquanto outro utilizador dizia que não. Pedi referências bibliográficas. Elas apareceram. E em vez de se dizer que o partido era de extrema-esquerda, referiu-se que alguns opositores o consideram de extrema-esquerda, como o deputado tal que dessa forma se expressou em determinada notícia de um órgão de comunicação representativo. E acabou o conflito... Esse, pelo menos. O quê? Uma hora de discussão por causa de uma frase? Para que se chegasse a uma frase de pura correcção política? Exacto. Os Wikipedistas são doidos, não são? São, com certeza. Acontece que o politicamente correcto nascido desta negociação, emerge da apresentação de factos devidamente comprovados por fontes fiáveis. A Wikipédia não pretende ocupar o lugar das fontes de informação confiável, mas ser um foco de discussão e de negociação, onde todas as vertentes tentam, com muitos insultos à mistura, chegar a uma formulação POLITICAMENTE CORRECTA, baseada em factos. Acontece que isso dá trabalho. É para nerds. Pois é. Há muita gente a desistir da ideia quando descobre que vai ter de dialogar com o inimigo para criar um artigo que não terá a sua assinatura, mas que será um resultado híbrido - nem carne nem peixe...

Quem controla a Wikipédia? Supostamente, devíamos ser todos nós. Acautelem-se: a Wikipédia não vai morrer, mesmo que acabem, em massa, os donativos. A Wikipédia instalou-se e há-de ressurgir de uma forma ou outra se os governos a censurarem, os professores catedráticos a votarem ao anátema ou se todos os mal-intencionados deste mundo se unirem para a vandalizar. Por isso, o melhor é aprender a participar nesta nova forma de cidadania. Registem-se e comecem agora mesmo a participar. Escrevam sobre o que sabem. Ouçam as críticas. Gritem, insultem (não muito, que podem ser bloqueados), ouçam, acalmem-se, pensem, participem. É uma nova forma de cidadania. O Comité Central do Partido Comunista Português aprovou a forma dos artigos a ele relacionados? Óptimo. Carreguem no editar e exponham os podres dos comunas... E se virem revertidas as vossas alterações? Ah, pois é... Simples: apresentem bibliografia, discutam, insultem (mas não muito, que podem ser bloqueados), pensem e aceitem  negociar com os comunas que também terão de aceitar aquilo que for um facto. O problema é definir facto. Em vez de dizer  "o político X foi responsável pelo assassinato do político Y", se isso for controverso, deve-se dizer "segundo o autor Z, o político X foi responsável pelo assassinato do político Y" - isso é um facto. E os comunas da Wikipédia terão é de se calar, e ponto final. Custa muito? Não, mas às vezes, parece...

Quem controla a Wikipédia? Simples. Quem a quer controlar, participando nela e aceitando as suas regras de participação. Limpinho. Os outros só têm é de cair fora. E, de preferência, não a usem, nem como ponto de partida para estudar seja o que for.

Mas como tenho escrito muito sobre o assunto no site do Orlando Braga, vou terminar por listar as discussões que tive por lá. Quem tiver paciência e curiosidade tem muito por onde pegar. Ora cá vai:

The faith-based encyclopedia

Resposta a comentários

A realidade não existe; existe a “Wiki-realidade”

O negócio Wikipedia

Testemunhos

Wikiality — um facto insofismável

Wikiality — um facto insofismável (2)

Nota: O site do Orlando Braga desapareceu do mapa. Diz que está em manutenção... Muito conveniente, diria eu... Mas não quero ser má língua... Nem convencido... Pelo que parece, despareceu mesmo por questões ligadas ao serviço de alojamento. Tudo o que eu disse nessas discussões foi ao ar... é a vida de quem não faz backups de tudo o que escreve...
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publicado por Manuel Anastácio às 20:53
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007
Réquiem pela Wikipédia

O alemão louco colaborando na Wikipédia. Não aconselhável a quem não gosta de gritaria gratuita.

Eram quatro da manhã e ainda estava a meio de um artigo sobre o Feneco. O MSN, ligado, piscava de minuto a minuto com o H2mnO a perguntar-lhe se em Portugal se dizia "percebo" em vez de "entendo". De vez em quando, para desanuviar, saltava até às Páginas Recentes e verificava as contribuições de mais uns vinte anónimos. Um tinha acabado de substituir a biografia de Marie Curie por "Nuno Álvares é viado", mas o OS2WARRR já tinha feito a reversão... Metido!... Mais uma edição a menos na sua lista de Wikipedistas mais activos. Tinha mas era de começar a fazer como o Lípido: começar a gravar a cada frase que fizesse. Um só artigo valer-lhe-ia cerca de 15 edições, o que lhe permitiria aceder aos cinco mais... Parou. Censurou-se. Não! Não podia fazer isso! Estava a usar de forma egoísta os recursos da Wikimedia, fundação sem fins lucrativos que precisa de alguns milhões de dólares anuais, vindos apenas de donativos, para manter a funcionar um dos sites mais usados do Mundo sem qualquer dependência de publicidade. E arrepiou-se: é preciso que haja mais gente como eu, nesta febre louca, para que isto se mantenha em pé? Vendo que vacilava na fé, fustigou-se com o teclado. Teria de gravar o artigo sobre o menor dos canídeos (carece de fontes... o Lijó diz que carece de fontes... Ora porra... Onde é que tinha lido isso: encontrou algures que os canídeos "variam muito de tamanho (desde o pequeno feneco até ao lobo)"... Isso significa que o lobo é o maior dos canídeos???... Será? Quanto é que mede uma hiena? Não... as hienas pertencem são
hienídeos - nem sequer aos felídeos... Existem felídeos? Foi  ver... Sim, aliás: não existe a espécie hiena - esse é apenas um nome genérico para todos os animais dessa família...  Mas e os tamanhos? Como fazer as contas? Relação entre comprimento e envergadura? E onde raio é que ia encontrar essas medidas? Até podia ter uma data de Fenecos em casa - mas não podia ser, só com fontes bibliográficas é que valia). Entretanto, o artigo sobre a IURD estava sob fogo cruzado. Um IP escrevia "Cambada de LADRÕES" e outro escrevia "A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é uma igreja cristã de linhas neopentecostais..." Hum... O artigo sobre Neopentecostais deveria chamar-se como? Existiria algo como Neopentecostalismo. Santo Google nos valha... Não é que existe mesmo? E começou a modificar o artigo que, afinal, já existia. Espera aí: ele, que há segundos atrás estava a pensar em fenecos e nada sabia sobre neopentecostais, estava agora a expandir um artigo sobre uma corrente religiosa? E daí? Estava apenas a fazer a massa. Os pormenores seriam, mais tarde, refinados por quem soubesse. Terminou o Feneco e deu uma olhadela à Esplanada. Os Fairusistas acabavam de, supostamente, comprovar astuciosamente que a Wikipédia Lusófona era ilegal porque apresentava como conteúdo livre material que o não podia ser. Foi até ao site da Sociedade Portuguesa de Autores e mandou um mail ao Webmaster para esclarecer dúvidas... Mas, provavelmente, ninguém responderia. Ninguém faz trabalho de advogado gratuitamente. Ninguém faz nada gratuitamente. Gravou o artigo do Feneco, fez o redireccionamento de "Vulpes merda" para... Merda! Vai ser gozado por todos: era Vulpes zerda e não merda!... E o m nem sequer está perto do z... Vai de marcar com "Eliminação Rápida", justificação: "erro meu" - eram 5 da manhã. Tinha de acordar às 8. Ao "salvar", apareceu uma caixa amarela na parte superior do monitor. Mensagem: "Caro senhor, este Wikipédia [este? Que raio de vontade de masculinizar A Wikipédia...] é uma vergonha censuraram-me o artigo sobre a "Igreja dos Egrégios Santos do Novo Mundo", dizendo que não é enciclopédico, quando há tantos artigos sobre Pokémons ainda mais quando acabei de ler um que diz que o Tricachu tem 25 pontos de força e 90 de resistência o que é falso aliás tenho aqui a caderneta de cromos que indica claramente que tem 45 de cada, excepto quando se aproxima de qualquer Ungilimon com ligações ao elemento fogo por isso esta enciclopédia é uma vergonha os administradores são uma escória uma máfia uma panela de viados que querem impor a sua visão mesquinha do mundo... etc etc etc". Respirou fundo - valeria a pena ler o resto?... Uma coisa era certa, os artigos dos Pokémons eram do piorio. Mas não seria, com certeza, ele a procurar uma caderneta de cromos dos mesmos para verificar a fiabilidade de cada um dos parâmetros dos bicharocos. O Feneco era mais importante. E tinha, obrigatoriamente, de descobrir onde é que vira que era o menor dos canídeos, antes de dormir. Lembrou-se ainda de ir ao site pt-wikipediasentinel-letrasfuradas.blogger.com onde viu que os seus argumentos da noite anterior eram rebatidos com uma lista de provérbios. Um deles dizia «Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita.»... Subscrevia... Depende do que é que está torto: o espírito ou a matéria?

A Wikipédia era uma batalha, apenas. Uma batalha do que é torto pela rectidão. Teve de desligar o computador e deitou-se. Fechou os olhos... Ainda tinha uma lista de arquitectos sem biografia para terminar. Que percebia ele de arquitectos? Nada. Não percebia nada de nada. Mas aprendera alguma coisa.

Ao menos, era melhor que jogar Tetris. E adormeceu, beatificamente (ainda pensou no artigo sobre a Beata Alexandrina que precisava de uma nova imagem porque a que lá estava ia ser eliminada no Commons - havia de ir a Balazar no fim de semana seguinte...). E lembrou-se, ainda, de a "História do Cerco de Lisboa" - onde um revisor acrescentou um não às palavras dos cruzados que (não) ajudaram Afonso Henriques a conquistar Lisboa. Havia coisa mais bonita que a Wikipédia, no que à escrita diz respeito? Não, não havia. Um dia, tudo acabaria - os fundadores do projecto desapareceriam debaixo de um processo de fraude, os governos proibiriam os seus conteúdos depois de descobrirem que as suas biografias os faziam descender do cruzamento de ratos com galinhas, além de os descreverem como "Drag Queens" malucas (informação, por certo, verdadeira, o que a tornaria ainda mais perigosa). O interessante era saber até onde é que tudo iria. Por quanto tempo é que a boa vontade conseguiria manter à tona a mais disforme e fascinante das Bibliotecas que a humanidade alguma vez concebeu.

Obrigado, Wikipédia. Se não durares mais três meses, como dizem, continuarás a ser uma semente. Uma luz. Uma fé. Uma escuridão. Uma droga, um amor-ódio. Uma dependência. Uma espada de destruição e um tijolo. Um motivo para pensar. Para não dormir. Para aprender que ninguém sabe o quer que seja, mas o que vale é acreditar, procurar e tentar, quando se acredita procura e tenta com e através do amor - amor por todos, pela humanidade - ... pela almofada... Há alguma coisa que valha a pena?... Sim: dormir. E amar. Dar...
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publicado por Manuel Anastácio às 23:01
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Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007
Munecos






A minha direcção de turma tem feito bonecos de lã para angariar fundos para uma visita de estudo. Se alguém quiser  comprar um destes bichos nascidos da imaginação de uma turma irrequieta e que não me permite escrever o que gostaria neste blog, a base de licitação é de 5 "novelos" (como se diria nas rifas) para cada um...

Podem começar as propostas na caixa de comentários - devem indicar o nome do boneco: respectivamente, escaravelho, mocho e lagarta...

Portes de envio não incluidos...

Claro que não estou à espera de propostas aliciantes (aliás, não espero, sequer, propostas)... Tenho de pensar em pô-los nos EBay... Será que dá?... Vou pensar nisso.
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publicado por Manuel Anastácio às 23:18
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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007
Curta 27
Ah... Mais vale gravar corações nos tampos da mesa de uma escola que na casca de uma árvore...

As árvores servem, romanticamente, para coisas mais bonitas... Como fazer sombra, ou acolher a intimidade de quem se beija... Ou algo mais...
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publicado por Manuel Anastácio às 23:06
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Curta 26
No Dia dos Namorados não se devem fazer posts.

Mas é só para dizer que amo a Carla Cristiana.... Agora, fazia um coração com uma setinha, com o verbo to love mal conjugado... Não... Faço isso amanhã, com corrector ou com um X-acto numa das mesas da escola... Mais vale tarde do que nunca....
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publicado por Manuel Anastácio às 23:03
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Curta 25
Ela, assim que entrou, dirigiu-se à secretária de forma resoluta, decidida e com o brilho nos olhos de quem fizera uma enorme descoberta. Estendeu, orgulhosamente, o dedo avermelhado frente ao rosto do professor. E disse:
- Stôr, desde a última aula...
Neste entretanto, o professor gritou ao Rui que entrou e deu um pontapé ao Pedro.
E ela, olhando o rosto avermelhado do professor, dirigiu-se silenciosamente para o seu lugar, por entre mochilas que voavam. Não falou do dedo. Abriu com desalento e resignação o caderno diário. O professor, sem saber o que ela queria dizer, tinha de responder à desordem e às agressões - não podia ignorar o mal que vinha de fora da sala. Sentiu-se, então, desgraçado, por perder, à conta daqueles que dele nada queriam, a palavra que avermelhara um dedo. Sabia que, por orgulho, já não ouviria a história com o mesmo entusiasmo. Há coisas que só se dizem ao entrar na sala. Chorou intimamente. Por dentro, enquanto recitava as regras, como quem repete o terço. Porque os professores não choram de forma visível. Caso contrário, são comidos vivos.
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publicado por Manuel Anastácio às 00:15
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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007
Nostalgia

Genérico inicial do filme "The Go-Between" de Joseph Losey - um filme que não está na lista dos 100 porque tenho, antes, de o rever com atenção. A música, fantástica, é de Michel Legrand.


A respeito da casa existencialista, ilustrada por uma cabana na Floresta Negra, em Todtnauberg, onde Heidegger terá desenvolvido muito do que compõe o seu pensamento arquitecto-filosófico, Iñaki Ábalos, em "A Boa-vida", define a nostalgia como a manifestação dos conflitos existenciais com o tempo, ou, simplificando, "o produto de uma idealização da densidade e da solidez do passado frente à banalidade do presente".

A densidade psicológica do passado refere-se tanto à experiência individual quanto à experiência transmitida, que resume e carrega os contornos e o contraste de cada acontecimento, especialmente daqueles marcados pela violência e pela decisão. O presente é composto essencialmente por uma  vacuidade indecisa. E quando damos o passo decisivo, fazemos a nossa escolha, ou já nos vemos numa nova realidade que se impôs, alheia à nossa vontade, chegamos a duvidar da resolução (ainda mais se for de alvedrio próprio) porque somos habitantes de uma eternidade em crise. Eternamente expostos ao caminhos que se bifurcam, não somos mais que entidades ondulatórias que se multiplicam em fendas afastadas do centro de cada decisão que tomamos.

O termo nostalgia foi criado em 1688 por Johannes Hofer (1669-1752), um estudante de medicina Suíço, juntando dois radicais gregos:  νόστος - voltar a casa - e άλγος - sofrimento. Refere-se, portanto, ao desejo sofredor de regressar a casa, sendo a casa o lugar espácio-temporal idealizado, condensado, de todas as experiências que consideramos autênticas na nossa vida ou que desejaríamos ter presenciado. Saramago, ao falar de Blimunda e Baltasar Sete-Sóis, diz que "olharem-se era a casa de ambos". A nostalgia é a idealização do mundo sensível filtrado pela memória pessoal. É no mundo sensível que habitamos, mas só nele habitamos relacionando-o com a memória. E não há habitação onde a plenitude da nostalgia se sinta mais acre e docemente que no sentimento que designamos como Amor.

Há cinco anos atrás, num estúdio com uma janela larga sobre a lezíria do Ribatejo, mudei de casa. Ouvir a voz de cada um era a casa de ambos.

Quando comecei a escrever este texto, havia gotas de chuva no vidro em frente, que dá para o conjunto de árvores roxas que daqui a um mês estarão brancas de flores. Tenho saudades do tempo em que essas árvores ficam brancas. Saudades? Sim... Lembram-me a nostalgia da princesa nórdica casada com um Mouro que plantou amendoeiras no Algarve para lhe oferecer um sucedâneo de neve. Pelo menos é o que contam as lendas. Poderemos sentir saudades do que sabemos que virá, porque o tempo ainda (precariamente) é cíclico? Serão as saudades mais pungentes que a nostalgia? São os portugueses mais nostálgicos que os outros povos, ou somos mais apegados à terra que aos bons velhos tempos? Residirá aí a diferença entre a Saudade e a Nostalgia?

Quando comecei a escrever este texto, havia gotas de chuva no vidro em frente, e lembrei-me de um filme que vi quando era ainda muito pequenino, na altura em que estava a ler um livro sobre realizadores de cinema. Nessa altura, os meus sonhos eram divididos por planos maravilhosamente montados. Lembro-me de um, em que a Rita Hayworth mergulhava no oceano, da porta de um vagão de comboio sobre uma ponte sem fim à vista. Tudo filmado num preto e branco tingido de tons dourados. Havia gotas de chuva no vidro em frente, e lembrei-me das imagens iniciais de um filme que vi em pequeno, sem ter grande capacidade para o compreender  – mas que vi fervorosamente porque era referido no livro que estava a ler – e adorei, mesmo sem ter percebido grande coisa. O filme era “The Go-Between”, de Joseph Losey. E começava com gotas de chuva sobre vidros de um carro. E na altura pareceu-me a imagem perfeita da nostalgia. Ainda hoje me parece. Hoje, ainda mais. Só que as gotas não são de chuva.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 21:12
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