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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007
Quem controla a Wikipédia - Parte I

Painel de azulejos da Via Sacra, Alcaide, Fundão. Foto minha em Creative Commons.

Ao fazer a ronda pela blogosfera que o pouco tempo livre me permite, tive o prazer de encontrar um post do Paulo Hasse Paixão, onde se fazia o elogio da Wikipédia. Ora, quem elogia a Wikipédia, elogia-me a mim. Não porque eu seja a Wikipédia (ultimamente, para meu desgosto, nem sequer tenho tido tempo para contribuir nela), mas porque acredito, de facto, que a Wikipédia tem um papel importante na produção de conteúdos na Internet. Com ressalvas de que todos deviam ter consciência, mas não têm. Estou, mesmo, a pensar em enviar um mail a todas as escolas portuguesas a alertar quanto às precauções a ter quando se utiliza a Wikipédia, ao mesmo tempo que farei a apologia de todas as suas virtudes educativas, especialmente no que diz respeito à participação dos alunos na criação, debate e desenvolvimento de conteúdos na Wikipédia - isso sim, é educativo, mais que a simples e acéfala "consulta" de um conjunto de materiais em constante metamorfose e que, por vezes, tem mesmo conteúdos perigosos, tendenciosos, e obscenos (entenda-se por obsceno o que se entender). Ora, o artigo do Paulo a má hora me levou à caixa de comentários onde encontrei um comentário que espoletou uma série de más leituras que, contudo, merecem uma resposta ou, pelo menos, uma análise atenta. Não tenho tempo para escrever tudo o que me passava pela mente enquanto passava de link para link, ora em blogs retrógrados e/ou desinformados, ora nas páginas eliminadas da Wikipédia, a que tenho acesso na qualidade de "administrador" da mesma. Luís Bonifácio, autor de um blog bastante interessante, e que o Paulo adequadamente considera uma das pérolas da blogosfera portuguesa, foi, contudo, também autor de um texto onde reclamava contra o artigo "Pederastia" da Wikipédia, apodando-o de "inacreditável". Note-se que eu mesmo considero que o artigo está mau - ainda que as concusões do caro Luís Bonifácio sejam um tanto ao quanto estranhas e, até mesmo, ofensivas à inteligência - e muito daquilo que ele considera inacreditável é, apenas, objectividade (não estou a dizer que o artigo está objectivo - refiro-me apenas a alguns aspectos apontados pelo Luís). Mas vamos por partes. E hoje não vou poder abarcar todo este emaranhado de críticas e desinformação. Acontece que o Luís Bonifácio é leitor de um blog asqueroso [decidi reconsiderar o adjectivo - limito-me a discordar do seu autor] designado de "Wikipedia Watch", que o levou até ao artigo referido, através de um post onde se faz referência a um suposto duplo critério na Wikipédia, porque dois artigos, feitos pelo autor do Blog, Orlando Braga, foram eliminados. Note-se que Orlando Braga é idolatrado por grande parte da blogosfera de extrema-direita, principalmente entre a ala homofóbica. Antes de prosseguir (quando puder), deixo-vos aqui o texto de Orlando Braga que foi "censurado" e apagado da Wikipédia, depois de assim ter sido decidido pela comunidade, que considerou o texto panfletário. Tenho acesso ao texto, na qualidade de administrador. Os outros utilizadores não podem aceder aos textos eliminados, deparando-se, se deles forem à procura, com uma página vazia: neste caso, aliás, a uma página bloqueada a novas edições, para evitar a sua "recriação".

Passo, então, a transcrever o texto que, posteriormente analisarei, para que se compreenda o problema em questão (e há muito a compreender):

Lobby gay, ou lóbi gay, define-se como um grupo de pressão que visa influenciar o poder político no sentido da promoção de políticas homófilas (p.ex o casamento entre homossexuais, a adopção de crianças por casais homossexuais, leis "anti-discriminação", projetos de interesse dos LGBT, etc.). O lobby gay também se esforça em censurar ou criminalizar informações e opiniões que não convenham a seus interesses.

 Lobby gay em Portugal e Brasil

As associações que em Portugal fazem lobbying junto do poder político são a ILGA Portugal, o Clube SAFO e a associação Não te prives. A Juventude Socialista e o grupo de trabalho homossexual do Bloco de Esquerda têm feito lobbying junto dos partidos que integram no sentido de liberalizar o casamento homossexual em Portugal.

No Brasil, o lobby gay atua principalmente através de interferências de ONGs de defesa dos interesses de homossexuais junto ao poder público e estatal (Executivo, Legislativo e Judiciário) e aos meios de comunicação. Entre os grupos que participam do lobby gay, destaca-se o Grupo Gay da Bahia (também conhecido como GGB, fundado pelo militante gay Luiz Mott), além de várias outras entidades e pessoas comprometidas com a promoção dos interesses dos GLBT no Brasil.

Conspiração gay

O termo surgiu na política portuguesa em 1995 quando durante a campanha eleitoral para as eleições legislativas, um candidato a deputado cabeça de lista pelo distrito de Aveiro acusou publicamente outro candidato de fazer parte do lobby gay. Trata-se aqui de um outro fenómeno baseado na crença de que existe um grupo clandestino constituido por poderosos homossexuais que visa a ocupação de lugares de topo na política portuguesa. A sociologia encara este fenómeno como uma teoria de conspiração clássica. "Trata-se, segundo me parece, de um equívoco em relação ao próprio termo lobby na maior parte dos casos, embora o mito também diga respeito à existência de um lobby formal e clandestino de estilo maçónico, o que está completamente por provar, até porque não tem consequências visíveis, como seria de esperar de um verdadeiro grupo de pressão", afirma o sociólogo Manuel V. Cabral.

"Não se deve escamotear alguns comportamentos de tipo lóbista que os gays assumem quando se organizam em grupos. Tal como um heterossexual se sentirá propenso a preferir uma funcionária mais bonita a outra menos atraente, também os gays poderão usufruiur de alguma vantagem junto de um empregador homossexual. Esta prática não pressupõe de forma alguma a existência de uma organização solidária, mas é mais do que suficiente para alimentar invejas e respectivas mitologias. Parece-me tratar-se de clubismo puro e simples, mero sentimento de pertença, aliado a algum oportunismo dos que usam a sua sexualidade para subir na vida."

Segundo um inquérito realizado no portal Portugal Gay [1], 30 % dos gays acreditam na existência de um grupo influente e organizado que trabalha clandestinamente em prol da comunidade homossexual, 55% não acreditam que exista e 15 % reconhece a actividade lobista das associações que se batem pelo diereito dos homossexuais, mas duvidando da sua eficácia.

"Características como a sexualidade são transversais, afectam indíviduos nas mais diversas posições. Há homossexuais de esquerda e de direita, ricos e pobres, católicos e ateus, com concepções sobre a pratica da homossexualidade muito distintas e não poucas vezes antagónicas. Uns são discretos e não assumidos, outros desejam reconhecimento e participam em marchas de orgulho, outros lutam abertamente pela aquisição de direitos, e outros não querem para sí mais do que a liberdade para viver a sua sexualidade no recato do lar. Não é um grupo social forte e coeso como as religiões ou os partidos políticos, e não creio que seja sequer comparável a um clube de futebol. E isso compromete a ideia de que possa existir uma organização clandestina que os una e que para eles trabalhe", comenta Artur Abellard, sociólogo catalão especialista em minorias.

Lobby gay e pedofilia

O jornal semanário português Expresso publicou em 2004 uma extensa reportagem em que dava conta de uma investigação da polícia judiciária aos circuitos de prostituição do Parque Eduardo VII em Lisboa, suspeitando da existência de um grupo de homossexuais organizados tão poderoso como os "Igreja Católica, a Opus Dei ou a Maçonaria". Essa vertente da investigação foi abandonada e re-orientada para a pedofilia. "É mais um estigma com que temos infelizmente que viver. Se estamos escondidos somos hipócritas subversivos, se assumimos a nossa sexualidade somos apontados na rua como molestadores de crianças, se somos promovidos no emprego fazemos parte de uma força das trevas. É uma condição bastante dura.", testemunha um homossexual que preferiu manter-se no anonimato.

Ligações externas

(este texto, apesar de ter sido eliminado da Wikipédia está, contudo, creio eu, em GFDL, já que o seu autor assim o pretendia ao colocá-lo lá).
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Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
Um, Dois, Três, Zero


Tímpano da Igreja de Paradela, representando o Cordeiro de Deus, seguido por uma ovelha de menores dimensões. Museu Arqueológico de Barcelos. Foto minha, em Creative Commons


Há algo nas religiões que se assemelha às lâminas de barbear. Não há dúvida que a invenção do monoteísmo – ou a sua revelação, consoante os gostos e as crenças – foi, para todos os efeitos, uma evolução civilizacional sem precedentes. Um só Deus para toda uma humanidade tão diversa e intolerante: este foi, talvez, o primeiro passo para a concepção da unidade do ser humano e para o universalismo humanista que fundamenta as grandes ideologias da contemporaneidade. Nacionalismos cegos (não ponho em causa o patriotismo, compreenda-se, nem o bairrismo – eu mesmo considero-me muito patriota e bairrista) não entram, sequer, no campo das ideologias mas, tão somente, no campo da idiotice. Não há que teorizar sobre aquilo que é absolutamente um retrocesso à mentalidade tribal. A unidade divina corresponde, na evolução espiritual do Homem, à descoberta do ponto de apoio de Arquimedes – a humanidade só poderia elevar-se à Paz Universal se a alavanca da Política assentasse num pressuposto fixo, fulcral e exterior à própria humanidade. A teoria está certíssima – e se a Paz Universal continua arredada do nosso horizonte é porque, de facto, o monoteísmo puro é a mais intragável das ideias. Os muçulmanos dizem várias vezes ao dia que é Um, é Um, é Um, tantas vezes, e com tantos adjectivos, desde Misericordioso a Implacável, que pouco resta da sua unidade. O cristianismo oferece tantas variantes, que dificilmente se aceita a ideia fulcral do número um. Por incrível que pareça, o número dois apareceu na deriva das religiões institucionais como uma flutuação no vazio. Mas é, contudo, o número que mais adeptos conquista, se fizéssemos contas a partir das crenças íntimas, em lugar dos registos paroquiais. Manes, Mani, Manikhaios ou Maniqueus, o profeta do Maniqueísmo tentou provar a excelência da máquina de barbear com duas lâminas, que, no fundo, não era mais que uma faca de dois gumes. O dualismo, por ser tão óbvio e afim à psicologia humana, é aquele a que mais rapidamente e duradouramente nos afeiçoamos. No desenvolvimento intelectual e afectivo de qualquer ser humano, o número dois resume a natureza e os seus ciclos, a sexualidade e a ideia de complementaridade e é a base da maioria dos fenómenos perceptivos fundo/figura, que nos leva, surpresa das surpresas, à descoberta da unidade! Só isolando o objecto da sua envolvente é que nos apercebemos da sua unidade. Só nos apercebemos do número um depois de convivermos, desde a concepção, com o dois: fome e satisfação, dor e prazer. Tão óbvio e confortante é o dois que as religiões institucionais fazem tudo para o denegrir. Mas confesso que em termos de lâminas para barbear, prefiro as três. Um banco com três pernas não balança – da mesma forma, as lâminas estabelecem entre si uma dinâmica de pura adaptação à pele e os cortes são reduzidos ao mínimo. Uma maravilha. Claro que em termos religiosos, a coisa não é tão estável: a Santíssima Trindade é um fardo pesado de compreender e, ainda mais, de aceitar. Mas aceita-se, graças à ajuda de São Dois que, para permanecer na Eternidade – e para não se imaginar um Deus muito quietinho fora do Tempo – precisa de um eterno empurrão/processão das suas partes. O terceiro elemento da divindade, o Espírito Santo, aparece para distender na Eternidade um processo activo de criação. Vem trazer e, simultaneamente, resolver a inquietação e a dúvida que, inegavelmente, sempre foi consubstancial ao Filho: e as suas últimas palavras, em toda a Paixão são disso prova. “Tenho Sede”, por exemplo, mesmo quando lido na sua mais literal das significações, transparece a humanidade carnal e necessitada de Jesus e estabelece um elo entre um apelo ao homem, que o tenta desalterar, e outro apelo ao Pai, a quem se dirige a acusação de abandono que leva ao desfecho e à morte. A nítida separação entre Pai e o Filho, pela dúvida e pela dor, só poderia ser resolvida, se quiséssemos manter a unidade destes dois, pela intercessão do número três – o número da actividade criativa cuja função é manter tudo em perfeito equilíbrio. Quatro lâminas de barbear – ou cinco, como já há agora, já é exagero. Os deuses tetra ou pentaformes são absolutamente deselegantes e totalmente desadequados às curvas do rosto de um homem.


Resta, contudo, o número zero – uma conquista científica ainda mal assimilada pela religião que a ele associa apenas o niilismo, o ateísmo ou a anulação da dor – se nos virarmos para outras bandas místicas. Mas não, é no zero e na ausência de lâminas que reside o futuro de qualquer religião em devir. A depilação recorrendo à luz amplificada por emissão estimulada de radiação promete o abandono desses símbolos de castração que são as lâminas. É na luz que reside o próximo passo da Humanidade – a mesma luz que esclarecerá, de uma vez por todas, por que raio de luz é que tentamos apor números à Divindade, desde que Abrão, antes de receber mais um a no nome, cortou uma data de bicharocos em sacrifício. Disse-lhe Deus: Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho". Abrão foi buscar todos esses animais, cortou-os ao meio e pôs cada metade em frente de outra metade; mas não cortou as aves. (…) Ao pôr do sol, apoderou-se de Abrão um sono profundo, enquanto o assaltava um grande e escuro terror. Quando o sol desapareceu e caíram as trevas, uma labareda fumegante e um archote de fogo passaram entre os animais divididos (Génesis, Capítulo 15).
Note-se, aqui, a presença do número três cortado pelo fogo, e do dois, concretizado em duas aves, não cortadas. Os animais da terra, símbolo da matéria, tiveram de se submeter à divisão; as aves, símbolo da espiritualidade (não é o Espírito Santo representado por uma pomba?)  prescindiram desse corte. Não sei o que quer dizer. Mas pressinto. É tão bela a poesia do inexplicável…

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Domingo, 28 de Janeiro de 2007
O Grito

"O Grito do Ipiranga" - Pedro Américo (1888)

 - Chalaça, não aguento mais.

- Esperai apenas por aquela curva. Corre por ali um riacho. Terá algo mais para se limpar que calhaus e folhas secas.

 Avermelhado pela urgência, sorriu perante tão amável conselho e apertou o corpo contra o cavalo, enquanto as dores o começavam a agoniar. Assim que ouviu a água a correr, saltou para o chão e, enquanto se dirigia para a beira do córrego, aproveitou para ir baixando as calças. Ainda antes de se pôr de cócoras, sentiu o baixo ventre a explodir. Seria isto o que as mulheres sentiam ao dar à luz? - pensou. Mas envergonhou-se de tal pensamento. Não era digno da sua pessoa pensar no que sentiriam as mulheres quando faziam aquilo para que tinham sido feitas por Deus Nosso Senhor. A ele tinha cabido outra parte no processo e tinha muito prazer nisso. Entrar muito nas dores das mulheres era pouco menos que deixar-se contaminar por uma esfera que não era a sua nem pretendia ser. Mas que o mistério do baixo ventre feminino lhe tomava em cerco a alma, lá isso tomava. Qualquer vulva era sagrada, e a ele era dado a oportunidade fácil de haurir o sacro espírito da mãe natureza que se lhe apresentava em todas as formas, tons e cheiros, desde a mais corpórea catinga  ao mais etéreo, enjoativo e incensado dos perfumes. Apesar do cheiro pútrido da soltura, não lhe era indiferente o espaço vivo onde rebaixava o corpo à mais comum e vulgar das maleitas. Além dos arbustos, os cavalos parados resfolegavam e os donos riam sem grande alarde. Dele, talvez?... Importaria isso? O respeito que lhe deviam mantinha-se apesar de saberem bem que ele era tão humano quanto eles. Mais humano ainda. Não o dizia, por modéstia, mas sentia-o. Havia mais de homem numa gota do seu sangue ou do seu sémen do que em todo o corpo do mais limpo de diarreias dos seus acompanhantes. Acocorado junto a um ribeiro, à espera de sentir algum alívio dos intestinos rebeldes, era mais digno que qualquer um deles, se por acaso a traição ou a descrença se lhes insinuasse num sorriso de comiseração. Entre ele e o passarito que deixara o excremento branco que manchava a pedra à sua frente, pouca diferença haveria. O pássaro talvez tivesse nas suas mãos um destino a ele desconhecido - talvez o rumo das constelações, à noite, pudesse por ele ser desviado, enquanto que a si, pouco mais lhe havia calhado que a liderança de homens. Duas almas que deixavam no mundo um rasto de excrementos. Eis como, provavelmente, a Divina Providência os poderia classificar, da mesma forma clara e descritiva com que a sua esposa falava dos percevejos de élitros pentagonais ou de insectos que emergiam de baba viscosa com formas mais exuberantes que as dos lírios do campo que teriam envergonhado Salomão. Mariquices, isso de competir com flores no que à roupa diz respeito, quando umas calças de linho e um chapéu de palha bem chegariam para contentar cada ser humano, incluindo ele. Não pretendia outro ornamento que a honra e o cumprimento cabal do seu destino. Chegou-se à água e limpou-se. Levantou-se, mais leve, ainda que sentindo ameaços futuros. Foi abotoando o uniforme em direcção ao cavalo, guardado pelo padre Belchior que o aguardava. Ouviu então os cascos de um cavalo que se aproximava em louca correria. Reconheceu o cavaleiro, Paulo Bregaro, de seu nome. Este, assim que reconheceu o vulto régio, freou violentamente o cavalo que espumava pela boca, correndo o risco de conhecer a mesma sorte que os quatro que lhe tinham antecedido na correria, apenas para que algumas folhas de papel chegassem às mãos de alguém que, com mais acerto, usara água ainda há instantes - não havendo, de facto, indícios de que se usasse papel para outros fins que escrever em tal época.

Pedro estendeu as mãos trémulas. Colhe o fruto, que está maduro, dizia a sua esposa. Baixai a penca contra o chão, rapazinho, diziam as Cortes de Lisboa. O rapazinho, ainda combalido dos intestinos, sorriu. Estava na sua altura de mudar o rumo das constelações. Subiu para o cavalo, deixando cair os papéis que pouco mais faziam que rebaixá-lo a uma alma com um rasto de subserviência e subiu para um morro, rasgando entre as hostes de almas, envergando o sabre, onde parecia luzir um cruzeiro de luz. Junto ao húmus aluvial do Ipiranga, as moscas empenhavam-se laboriosamente na decomposição do mundo.
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Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007
Herbário I - Galium aparine

Fumária (Fumaria officinalis) e amor-de-hortelão (Galium aparine)  - Foto minha, em Creative Commons


Fustigou-te a dor
Sem face, da febre.
E julgaste o amor
Lesto como lebre
Sumindo no chão.
E julgaste o amor
Sinónimo à dor
E alucinação.

Revelei-te a fronte
Que só Deus conhece
- Que a Deus aborrece
Ser apenas fonte. 

Banhou-te o suor
Glabro do desgosto
Chamado a depor.
E logo o teu rosto
Se fechou ao meu.
E julgaste o amor,
Sinónimo à dor,
Como um fariseu.

Com os meus cabelos
Enxuguei-te as dores.
Fossem elas flores,
E não pesadelos… 

Tocou-te o calor
Sem dedos, do ar
Podre, sem odor.
E então, amar
Pareceu vaidade.
E julgaste o amor
Sinónimo à dor
E ingenuidade.

Revelei-te a pele
Através dos dedos
Escrevendo segredos
Em tão nu papel. 

E julgaste o amor
Sinónimo à dor
E afim ao mel.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:41
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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007
Rezas luso-brasileiras para desconjurar o quebranto

Pormenor de "As Tentações de Santo Antão" de Hieronymus Bosch (1450 – 1516) - Museu Nacional de Arte Antiga

Recolhi, com mero interesse antropológico, a seguinte reza para desconjurar o quebranto, de uma senhora da minha terra Natal - Carvalhal, Abrantes. A senhora - que, sem o saber, ao fazê-lo, está a faltar aos preceitos da Igreja Católica - é conhecida por ter mãos nestas coisas. Mas diz que é a oração, e não ela, quem procede à cura. A oração pode, portanto, ser usada por quem acreditar, embora me pareça que a mesma já foi muito alterada pela memória (tanto da curadora quanto de quem lhe ensinou a reza). Há frases cuja intenção original se perde numa construção frásica heterodoxa. É interessante a inclusão bairrista, na principal apóstrofe, da Nossa Senhora do Tojo, cuja devoção é, actualmente, restrita àquela zona de Portugal (embora se creia que a capela da Senhora do Tojo, na Ribeira da Brunheta, fosse local de peregrinação popular desde a Idade Média, embora não existam dados arqueológicos de relevo no local, pelo menos que eu conheça).

(Nome da pessoa a benzer), Deus te fez,
Deus te criou,
Deus te tire o mal que no teu corpo entrou:
Nas tuas pernas
Na tua barriga
No teu estômago
No teu coração
Nos teus olhos
Na tua cabeça
No teu interior, fizeram-te mal.
Atravessados Sol e Lua, tornem a vir
Que te hão-de deixar a tua saúde.
São três, são três, são três as pessoas da Santíssima Trindade.
Com que se benze o quebranto,
Com água da fonte,
E com Bom Jesus defronte,
Que é tão bom, que é tão santo,
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo:

Valei-te o Senhor dos Aflitos;
Valei-te a Senhora do Tojo;
Valei-te o Divino Espírito;
Valei-te o Santíssimo Sacramento;
Valei-te aqui São João
(repetem-se os últimos cinco versos, 5 vezes)
Que te tirem o teu mal e te ponham são.

As santas cruzes de Cristo te alevantem maus olhos odiados.
Aleluia,
Aleluia,
Aleluia!

Credo, credo,
Credo, credo,
Credo, credo
Credo à Virgem.
Nossa Senhora te entregue.
(repetem-se os dois últimos versos, três vezes)

Valei-te o Divino Espírito Santo
Que te leve do teu corpo para fora esse malvado quebranto
Lá para as ondas do mar
- que ninguém o possa apanhar.

Santo é só Deus
Santo é só Deus
Santo é só Deus

Abrenúncio
Abrenúncio
Abrenúncio

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A reza é feita perante o doente, com uma bacia de água defronte e com um copinho de azeite. Depois de feita a reza, molham-se os dedos no azeite e deixam-se cair algumas gotas sobre a superfície da água. Se o mal é, de facto, quebranto, as gotas individualizar-se-ão na forma de pequenas lentes, com um centro de luz, semelhante a olhos (os olhos das bruxas que lançaram o quebranto) - caso contrário, o azeite espalha-se sobre a superfície... Posso estar enganado em questões de pormenor quanto a este procedimento [ver a este propósito o comentário de Sónia Henriques a este artigo].

Tal aparato divinatório é comum deste género de rezas. Nos autos da Inquisição no Brasil há a denúncia de um tal de Bento de Lima Prestello, vindo  das minas do Sabará, da freguesia de Santo Antônio da Roça Grande, que averiguava se a maleita era provocada por feitiço ou não, entregando algumas raízes "contra beninos" nas mãos do doente: se a mão tremesse (não sei se a ele, se ao enfermo, mas creio que a este último) é porque a doença era consequência de magia. A reza consistia em: "Jesus, Nome de Jesus, Deus te fez, Deus te curou, Deus acanhe a quem te acanhou. Deus te tire o mal que no teu corpo entrou: o ar de lua, ar de figueira, ar de pereira, ar de perlezia, ar de corrupto, ar de inveja, ar de feitiçaria, ar de enchaque, ar de maleitas e mais coisas que não estou ciente pelos poderes da Virgem Maria, São Pedro e São Paulo, que o corpo de (diz o nome do doente)  fique são e salvo como na hora em que foi nascido, assim como Nosso Senhor sarou das cinco chagas. Padre-Nosso, Ave Maria". Há, de facto, contactos na forma e no conteúdo das duas rezas. Seria interessante averiguar outras semelhantes para estudar um fenómeno característico da tradição oral luso-brasileira.

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publicado por Manuel Anastácio às 14:16
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Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Noli me tangere

Nolli me tangere, de Correggio (1489-1534)

Era uma vez uma senhora muito casta chamada Madalena. Acentuo que era casta porque o nome Madalena dá-se a certos abusos - e as tentativas de Dan Brown em limpar o nome da mais famosa das Madalenas não têm tido tanto sucesso quanto o romance. O pessoal continua a dizer que era uma ex-prostituta: nada a fazer! Por isso mesmo, a senhora gostava de dizer que era apenas Madalena1 - nada de ex- qualquer coisa - até porque, segundo ela, as brasileiras já lhe tinham tirado qualquer possibilidade de negócio. Mas continuava casta porque, de boa cepa lusa, só casaria com um português da mesma cepa. No seu sangue puro corriam as últimas gotas do mais ancestral dos portugueses. Os mais insígnes genealogistas faziam remontar a sua árvore ao último dos "H
omo neanderthalensis" a reagir com raça e determinação à decadente mestiçagem (e os sotaques e crioulos horríveis que daí vieram a seguir) com uns tais de "Homo sapiens sapiens", de baixa linhagem. Ela estava destinada a um príncipe de sangue puro, isso sabia ela... O que ela não sabia é que a disposição dos seus olhos na caixa craniana provocavam um efeito de distorção visual no que dizia respeito aos tamanhos... Pelo que (não, não é nada disso que estão a pensar) sempre viveu na ignorância, julgando que o seu cérebro ocupava um volume maior que o da média da população, que prosseguia numa espiral de decadência devido à contaminação do seu sangue pelo contacto com pretos, intelectuais, brazucas, jornalistas, muçulmanos, professores,  judeus, ciganos, poetas, artistas e outros exemplares da pior escória a que, às vezes, a sua miopia designava de "padres, missionários e freiras" (vá-se lá saber a causa da confusão, já que ela mesma era muito católica, e quando rezava, rezava com muito sentimento e paixão).

Um dia encontrou o seu príncipe. Fez-lhe o teste do calhau debaixo do colchão ortopédico e, tendo-se ele queixado que a sandes de coirato estava mal passada, ficou rendida. Quis casar-se. Mas foi difícil encontrar um padre que não fosse brasileiro - ainda tentaram mudar de religião, mas o Brásiu (como ela dizia) estava em todas. E antes quereria ir para a cama fora dos laços do matrimónio, do que receber o sacramento "matrimoniau" em vez do sacramento "matrimonial". O seu último exemplar de neanderthalensis concordou. Foi para a cama com ela... e perdeu-lhe o respeito. Começaram a fazer coisas vergonhosas, como a falar com sotaque brasileiro enquanto... enfim, não vou entrar em pormenores sórdidos. Claro que isso era só na intimidade. Ninguém diria que aquela senhora tão correcta (jamais correta, Deus me livre!), que até escrevia "poix" em vez de "pois" (a primeira forma é a forma clássica, já utilizada por Fernão Lopes) era, no fundo, uma "safadona"... Mas era. E graças a isso, tiveram muitos neandertalitos que, contudo, foram dizimados décadas depois, mas como santos mártires da Nação, ao recusaram-se a beber guaraná durante uma celebração eucarística obrigatória, no terceiro ano do reinado de Marcelo Rossi III.

1Também não gostaria nada dessa ideia de ser a Madalena do Proust se, por acaso, soubesse o que isso alguma vez foi. Mas gostava muito da Iglésias... ah... as canções daqueles tempos... Aquilo sim!...

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publicado por Manuel Anastácio às 19:56
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Domingo, 21 de Janeiro de 2007
Em Hiroshima

Excerto de "Hiroshima, mon Amour" de Aain Resnais.

Estive naquele hospital,
Em Hiroshima,
Não te lembras?
Em Hiroshima,
Sob uma chuva de cristal
Cinzento radioactivo
Que em segundos nos sepultou no nada
Por um bom motivo.
Por um bom motivo morremos na cidade abrasada,
Numa segunda madrugada
Em Hiroshima,
Não te lembras?
Mas... não te lembras?
Como podes sorrir,
E julgares que invento?
Eu, sei-o, estive lá,
E vi o céu abrir,
No silêncio matinal,
A porta ao vento.
Não estiveste também tu, afinal,
A beber a água envenenada do Ota-gawa,
Em Hiroshima?
Eu abracei-te lá,
Em Hiroshima.
Despedi-me de ti
Em Hiroshima.
Como é possível não te lembrares?
Quando, como eu, sentiste a mesma manhã no rosto,
E foste por ela sublimada
Num tão escuro instante
E em que, por ironia,
Dois sóis, um tão perto e outro, distante,
Iluminaram o dia.
Em Hiroshima.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:51
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Curta 21

Bem, não estava à espera, mas a lista dos 100 filmes da minha vida está a provocar curiosidade... E creio que causará ainda mais decepção: é que os filmes da nossa vida podem bem ser os piores filmes da vida de qualquer um dos nossos amigos. Mas a questão recorrente é: Quando publicas a lista?... A resposta é simples! Eu não vou publicar a lista! Ela ir-se-á publicando filme após filme, onde falarei deles e justificarei a paixão que por eles nutro. Os 10 filmes do topo estão estáveis e não têm saído do lugar. Os outros é que vão mudando de dia para dia, uns subindo, outros descendo e outros sendo obrigados a sair, não por não merecerem aí constar, mas porque a lista pretende ser, também, representativa do Universo dos filmes que me acompanharam - enquanto que se fosse apenas a referir aqueles que mais amo, teria uma data de Hitchcocks a ocupar o lugar de outros... É por isso, que hoje me vi obrigado a arrancar dois filmes da minha lista de uma forma absolutamente anormal: a "Janela Indiscreta", um título quase óbvio neste tipo de lista - e "Hiroshima, mon Amour" de Alain Resnais... Isto, enquanto permanecem filmes que, não vencendo na balança dos afectos, teriam de vencer na batalha pela biodiversidade... É um mundo cruel... Entretanto, posso dar a notícia de que vou começar a revelar, ainda não muito em breve, um por um, primeiro, os que vão do 11.º até ao que está em 100.º lugar. Só depois revelarei os 10 primeiros. Será interessante ouvir críticas às minhas escolhas, caso a caso. Peço desculpa aos mais impacientes, mas não quero colocar a lista imediatamente, por diversas razões. Terá de ser gota a gota. Além de que quero dar algo mais que uma simples lista, mas um mapa de sentimentos e deslumbramentos.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:16
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Sábado, 20 de Janeiro de 2007
Curta 20
O Luís Gaspar, do Estúdio Raposa, depois de ter tido a amabilidade de responder prontamente a uma sugestão minha, para que lesse uma das lendas dos judeus, como têm sido magnificamente traduzidas pelo Paulo Brabo, deu-se ao trabalho de espreitar algumas das minhas tentativas literárias. Pegou em "A Bela Adormecida", que dediquei à minha orquídea, e leu-o como se fosse aquilo que pretendia ser: uma carta de amor.

Se quiserem ouvir, o programa é o Lugar aos Outros 36 e inclui também duas poesias de Joaquim Alves, português da Beira Baixa. Tendo eu nascido e vivido a maior parte da minha vida para essas bandas (geograficamente no Ribatejo, culturalmente, na Beira Baixa), tudo me leva a crer que não houve coincidência. Talvez o Luís tenha notado semelhanças na semente... Não sei... Será do sotaque?...
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publicado por Manuel Anastácio às 20:30
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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007
Curta 19
Esta senhora aqui escreveu numa caixa de comentários de um blog:

Que me perdoem, mas realmente odeio brasileiros, odeio o seu sotaque e tudo o que está relacionado com eles!!!
Bjokas gandes
Madalena

Antes de mais: esta senhora começa por dizer "que me perdoem". Só perdoo perante uma retractação sincera da mesma. Mas duvido que ela se importe muito com isso de perdões.
Supostamente, este comentário é xenófobo só a brincar, tal como o post que lhe deu origem. E eu "perdi razão" ao chamar a esta senhora (e, já agora, às suas amiguinhas) o que este comentário parece dizer sobre ela: que é uma idiota. A dona do Blog, feita censora, apagou as minhas mensagens onde ofendo esta 1 - em extenso: uma - pessoa. Mas manteve as mensagens onde ofende... quantas pessoas são mesmo? Só os brasileiros fora do seu país?... Dá para aí quantos? O engraçado, é que a dona do Blog,  que desde o início da discussão se socorria da liberdade de expressão, não me concedeu esse direito... Quanto a mim, mantenho: todas as piadas racistas, xenófobas ou que são potencialmente motivadoras de ódio entre seres humanos são próprias apenas de idiotas. Idiotas, idiotas, idiotas...

Ah: mas mesmo, mesmo, mesmo IDIOTAS!
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publicado por Manuel Anastácio às 19:32
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