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Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2006
A Vaidade dos Gladíolos

Gladíolos, de Vincent van Gogh

O meu último post (sem contar com a "curta") levantou algumas perplexidades e permitiu a alguns curiosos questionar aquilo que até então não tinham tido a coragem de perguntar: "o que é isso de miosótis e de gladíolos?"... As rosas, enfim, são os amigos ou aqueles a que me atrevo de assim designar depois de algumas palavras trocadas. Quanto às outras flores, entendamo-nos: pertencem a uma taxonomia puramente pessoal e subjectiva onde não estão presentes quaisquer juízos de valor sobre a qualidade dos respectivos blogues mas, apenas, a minha sensação de proximidade em relação aos autores. Nos gladíolos estão tanto os blogues que leio pela sua inquestionável relevância literária, artística, científica ou opinativa como aqueles que, mais modestos nos seus fins, revelam alguma afinidade electiva com o autor deste blogue. Quanto aos miosótis, lá chegaremos. Falemos um pouco mais dos gladíolos e da vaidade - outro ponto que levantou alguma celeuma (quase que me sinto o Saramago, a lançar postas de pescada ao pessoal, à espera de reacções - com a diferença de que eu não estava à espera de reacções). Para mim, os gladíolos simbolizam a Vaidade na sua essência. Mas não quero, com isto, dizer que os autores dos blogues aí inscritos sejam "vaidosos" (ou, pelo menos, vaidosos sem razão). Creio que esta minha idiossincrasia botânica terá origem, provavelmente, num dos primeiros livros que li: "O Rapaz de Bronze" de Sophia de Mello Breyner Andresen , onde, a dado passo, se diz que"... os gladíolos gostavam muito de ser gladíolos e achavam-se superiores a quase todas as outras flores." Bela semente para um outro post seria a secreta inveja que os gladíolos nutriam pelas camélias, mas duvido: ainda tenho pendente o estudo botânico do jardim de Erasmo... Adiante: creio que me estou a enterrar (o que pode ser bom, tendo em conta o contexto vegetal). Alguns dos meus visitantes (se, por acaso, estiverem inseridos entre os gladíolos) gritar-me-ão aos ouvidos que não são nada vaidosos e que, por isso, é injusta a classificação. Reparemos, por exemplo, no comentário (que muito me alegrou) da Manuela Ramos que, não estando nos gladíolos, mas nos miosótis, me deixou: "
quanto à vaidade permita-me discordar: essa não é a razão principal por que escrevo. De todo. Mas isso fica para tentar explicar melhor depois. Agora só queria deixar aqui a minha "voz""... Vejamos: a minha noção de Vaidade não coincide, de facto, com a noção da maioria das pessoas. Talvez por ter lido, muito, Carl Rogers ("Tornar-se Pessoa"), Mathias Aires ("Reflexões sobre a Vaidade dos Homens") e Erasmo, a minha noção de vaidade não é, de modo algum, negativa. Se o livro de Eclesiastes diz que, para o Homem tudo é vaidade, não é apenas para nos alertar da va(n)idade que existe nos nossos mais sérios esforços para melhorar o mundo e que terminam, inevitavelmente, no pó da Terra. Não. De facto, se não houvesse Vaidade, não faríamos coisa nenhuma. Erasmo de Roterdão é particularmente inteligente na sua ironia a respeito da "Filáucia" ou amor-próprio, ao revelar tanto os seus defeitos como as suas virtudes (englobando estas os próprios defeitos, como só poderia acontecer num encómio escrito pela própria Loucura). Rogers, por sua vez, chamou a atenção para a clara verdade de que se temos amor pelos outros, esse amor nasce, necessariamente, do nosso egoísmo. A nossa cultura, com raízes num cristianismo estatal, prega o ódio à vaidade e ao egoísmo. Mas, curiosamente, o egoísmo só é detestável quando é defeituoso e contraditório - isto é, quando o indivíduo, ao negar amor aos outros, o nega a si mesmo. Quem escreve por amor (aos outros, ao mundo, à vida, à beleza, ao conhecimento) tem sempre uma semente de bom egoísmo. É esse desse egoísmo que invisto os meus gladíolos e não, simplesmente, da vácua superioridade dos gladíolos de Sophia. São gladíolos porque são espadas (gladius) que investem em lutas com as quais me identifico. O guerreiro que não tem vaidade na sua espada está condenado à derrota. Espero, portanto, que a Maria me entenda se eu a contradisser dizendo que a vaidade, como motivo de escrita (ou de qualquer outra digna acção humana) é, de facto, uma verdade universal.

Quanto aos miosótis... Ficam para amanhã. Está frio...
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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006
Curta 11
Como me vai levar algum tempo a avisar toda a gente que tenho um novo mail (ainda não perdi a esperança de recuperar o antigo), se me quiserem contactar é ir à barra esquerda direita deste blogue e clicar onde diz  "Escrevam-me". Logo direi se consegui recuperar o antigo...
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Domingo, 17 de Dezembro de 2006
São Rosas, senhor... São Rosas... Ah... E uma orquídea.

Claustro de D. Afonso V, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha (foto minha, em GFDL)

A criação dos blogues permitiu que todos os que tivessem acesso a este grande luxo que é a Internet pudessem, finalmente, serem editores de si mesmos. Todos podem escrever e saber que são lidos por desconhecidos. A palavra escrita, ao contrário da palavra dita (pelo menos antes do advento das gravações de voz) pode ecoar entre desconhecidos cujos caminhos caminhos nunca se cruzarão com o nosso. Sabemos que escrevemos para um leitor ideal ou provável, mas o leitor efectivo, esse, é sempre uma incógnita que, provavelmente nunca conheceremos. Mas é aí que reside toda a vaidade de quem escreve, bem ou mal. E é à vaidade que quero chegar - quem quer que escreva (ou pinte, ou componha, ou projecte...), fá-lo movido única e exclusivamente pela vaidade. Que outra motivação teríamos para gravar, para além de nós, os nossos pensamentos se não nos envaidecêssemos deles? Teremos razão para nos envaidecermos deles? Na maior parte dos casos, não. Se quiséssemos proceder a um auto-de-fé semelhante àquele que um licenciado, um cura e um barbeiro procederam na biblioteca de Dom Quixote, movidos apenas pelos critérios pessoais de um pequeno grupo, poucos seriam os livros a salvarem-se. E digo poucos, mesmo que esses poucos fossem alguns milhões. A verdade é que aqueles que escrevem dividem-se entre os que amam os livros, quaisquer que eles sejam (incluindo os livros que abominamos - é esta uma espécie diferente de amor), e aqueles que com um livro ou meia dúzia deles pretendem destruir os que vieram e os que queiram vir. Os imperadores chineses (incluindo o do livrinho vermelho) tinham essa mania de querer recomeçar a História com os livros da sua própria escolha. Outros houve, e continuam a existir, que mantêm essa fúria assassina contra a mais bela das vaidades humanas. Contudo, se há livros que todos os dias morrem, comidos por insectos em arquivos bolorentos ou desfazendo-se em cinza, a escrita etérea da internet multiplica-se, entranha-se, espalha-se, contamina as mentes com grandes verdades e grandes ideias salpicadas por doses astronómicas de boatos, mentiras e sentimentos mesquinhos. Tudo como dantes, mas com outra velocidade, outra magnitude e com outra generosidade. No meio de tantas palavras, ainda assim, persistimos em escrever com a esperança de que alguém nos leia - mesmo que seja para criticar, rectificar, ensinar... Mas, é claro, o que mais desejamos é sempre uma palavra de apoio, um elogio, um afago à nossa vaidade. E isso é bom. A vontade de ser-se amado é o primeiro motivo para amarmos.

Quando comecei a coleccionar links para outros blogues que visito regularmente, pensando em como organizá-los, preferi dispô-los por graus de afinidade. Não uma afinidade objectiva, mas puramente pessoal. Se compararmos os blogues de cada grupo veremos uma grande heterogeneidade de formas e temas reunida no mesmo ramalhete floral, excepto no caso da orquídea, porque há cavidades do coração apenas com lugar para uma flor. Mas no cesto das rosas, cabe sempre mais uma. E é com prazer que as vou adicionando, de forma caótica: as amarelas, as vermelhas, as brancas, sem preocupações de monocromatismo.

Dos tempos em que não tinha blogue, ou em que estes, que eu saiba, não existiam, tenho apenas dois pés de rosa: da Sandra e do Artur. A Sandra é uma amiga com quem compartilho o gosto pela poesia, pelo cinema, pelo teatro e com quem tive o prazer de ver os Irmãos Catita ao vivo (numa noite que terminou no posto da Guarda de Santa Apolónia) ou de saborear uns belíssimos pezinhos de coentrada n' "A Maria", no Alandroal, acompanhados de um Borba, rótulo de cortiça, memorável.
O Artur, dono do admirável Intergalacticrobot, designer gráfico vanguardista de uma revista académica de número único, onde participei (A "Ti' Merenciana") cultivava, então, o estilo blasé e despreocupado. Sempre cheio de ideias e projectos, gostava de Kieslowski, de Cronenberg e sabia deplorar, de forma discreta, inteligente e irónica, o deserto acéfalo que rodeava a então designada Geração Rasca. Foi graças à Sandra que o descobri na Blogosfera, para meu grande proveito e ilustração.

Depois, já por aqui, comecei a ter a lata de nomear amigos à força. E eles, coitados, pressionados pela minha presença sufocante, lá me vão aceitando a amizade dita virtual, mas que, por mim, reputo como bem real. Sinto-lhes a presença, por vezes, na caixa dos comentários e, por vezes, na caixa de correio-electrónico (que, por acaso, terei de mudar, já que não consigo aceder à conta que mantinha - tenham, pois, atenção ao vosso mail, já que lhes enviarei o novo endereço que vou passar a usar). Destes amigos, o primeiro foi o José Eduardo Lopes, de "A Estrada de Santiago", com quem não troco mais comentários à sua arte de fundir e quebrar palavras em cristais porque o seu sistema de comentários não me aceita nem pintado. Outro dos primeiros amigos foi o superlativo Paulo Brabo, da Bacia das Almas e que, do outro lado do Oceano, rapidamente me abriu as portas acolhedoras e fascinantes do seu Monastério, após pouco mais de meia dúzia de palavras sobre as Índias Ocidentais. À conta dele conheci o Jo Lorib, verdadeiro construtor de pontes sobre o Atlântico, com quem partilho a Wikimania e que, por sua vez, me apresentou ao José Cunha-Oliveira, dono de uma brilhante colecção de apontamentos sobre Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira que, inscrevendo-me na sua Frota Honorária, por sua vez, me deu a conhecer nova rota em direcção ao D'Noronha, senhor da sua arte e que comigo partilha a paixão pelas árvores.

Foram, exactamente, as árvores e outras plantas mais rasteiras a servirem de guardiãs de um labirinto, circular como o tempo e as estações, que passa pelos apontamentos e imagens do Filipe-um-amador-da-natureza e, depois, pela serenidade rural filtrada pela lucidez e bom gosto de uma inimitável Ana Ramon, autora de alguns simpáticos  e belíssimos "mails", repletos de pérolas, que a autora, contudo, prefere não ver divulgadas por mãos alheias. Outras agrestes vias, ramificam, do mesmo modo, pelo que designei de miosótis: aqueles que ainda tenho pudor de colocar entre as rosas.O Digitalis Kitsch Blog, em cujos arquivos encontramos bastantes razões para aí deambular, em vários registos, floresceu também por aqui, disseminado já não sei por que benfazejo agente transportador de sementes.

Finalmente, o Paulo Hasse Paixão, que inscrevi na minha lista de gladíolos assim que comecei a ler os seus comentários à sua selecção de 7 pérolas da Colecção do Dr. Rau, e que me deu a conhecer as "69 Love Songs" de Stephin Merritt (que há algum tempo estão a reclamar algumas palavras minhas por aqui), e de quem já aqui comentei a audácia em propor uma existência heteronímica para Sócrates (o verdadeiro... mesmo que o não tivesse sido, de facto), teve a impudicícia de escrever este post que, só pelo título, vale como uma coroa de louros.

É bom ter amigos. É bom ter rosas com que encher o cesto vazio da vida. A blogosfera é apenas mais um canteiro. Obrigado, pois, por se deixarem, assim, colher...
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publicado por Manuel Anastácio às 21:26
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006
As Pequenas Memórias

Pormenor de "As Tentações de Santo Antão" de Hieronymus Bosch (1450 – 1516) - Museu Nacional de Arte Antiga

Já depois de ter começado aqui as minhas recordações de infância, confesso, comprei o último livro do Saramago. Eu sei, eu sei... Hoje em dia, dizer que se leu o último livro do Saramago é quase tão mau como dizer que se leu o último do Paulo Coelho, do Santana Lopes (nome interessante de incluir nesta lista, tendo em conta o termo de comparação) ou da mulher do Pinto da Costa. Fica bem ignorar o Saramago pelo que ele escreve, mas cai bem bater no ceguinho pela arrogância que o senhor vai demonstrando nas suas entrevistas. Eu sou daqueles que vê na arrogância de Saramago apenas um sinal da sua humanidade - os senhores sempre muito modestos e conciliadores parecem-me sempre muito suspeitos. E, sinceramente, espanta-me o sururu que se levanta entre tantos comentadores das suas entrevistas a respeito de tudo. Muitas vezes, quando ainda não tinha acesso, como hoje tenho, às prontas reacções da opinião pública via blogosfera, ao ler os "Cadernos de Lanzarote", quando se me deparavam uns daqueles momentos tão saramaguianos que consistem em dizer "que grande bomba lancei eu hoje entre os intelectuais portugueses", "que grande polémica se irá instalar à minha conta", "os rios de tinta que hão de correr à conta do que eu disse", parecia-me tudo isso muito pouco provável. As asserções de Saramago - as "polémicas" - pareciam-me apenas claras e rasteiras. Mas parece que Saramago conhece melhor a opinião pública do que eu. O pessoal irrita-se, de facto, com o que ele diz! Uma simples metáfora, bem aplicada, como aquela do David a derrotar o Golias com uma bazuca (ou seria apenas uma pistola?) foi, quase imediatamente, considerada uma tirada antissemita!... Claro que há outra estratégia, que é atacar Saramago pelo que ele terá ou não feito no Diário de Notícias. Eu sei pouco sobre o caso. Mas, para mim, Saramago é mais um escritor que um político. E fico-me nesta. Se é verdade que não delirei com "As Intermitências da Morte", nem com o "Ensaio sobre a Lucidez", nem com "O Homem Duplicado", a verdade é que não me arrependo nada de os ter lido. Quanto a "As Pequenas Memórias", a história é diferente. A sua única arrogância consiste na vontade de perpetuar aqueles que nunca saberão que o foram, transfigurando-os em constelações luminosas sobre um fundo negro, ainda que a sua luz seja apenas a da mais opaca e incongruente humanidade. Sem nos precavermos, somos atirados para confissões dolorosas e, por vezes, abjectas. As primeiras experiências sexuais, a mulher embriagada que entreviu a masturbar-se, a sádica experiência a que foi submetido por um grupo de rapazes, quando vivia em Lisboa... E fico a pensar numa das passagens de "Os Cadernos de Lanzarote" onde o autor reage de forma brusca a uma simples menção, por parte de um amigo, quanto ao seu chão com juntas pintadas a chá (se isso lhe feria a privacidade, que dizer agora?). A linguagem destas memórias, por sua vez, atinge, nalgumas frases, a mais cristalina das perfeições. Pode haver quem não goste. Eu compreendo. Mas eu gosto. E não resisto a copiar para aqui as cordilheiras que me rasgaram a alma, entre as planícies de aluvião e lodo fértil da Azinhaga.

"Antes do ponto em que teria de abandonar a estrada para  meter a corta-mato, o caminho estreito por onde ia pareceu terminar de repente, esconder-se atrás de um valado alto, e mostrou-me, como a impedir o passo, uma árvore isolada, alta, escuríssima no primeiro momento contra a transparência nocturna do céu. De súbito, porém, soprou uma brisa rápida. Arrepiou os caules tenros das ervas, fez estremecer as navalhas verdes dos canaviais e ondular as águas pardas de um charco. Como uma onda, soergueu as ramagens estendidas da árvore, subiu-lhe pelo tronco murmurando, e então, de golpe, as folhas viraram para a lua a face escondida e toda a faia (era uma faia) se cobriu de branco até à cima mais alta. Foi um instante, nada mais que um instante, mas a lembrança dele durará o que a minha vida tiver de durar."

"A avó Carolina morreu quando eu tinha dez anos. Minha mãe apareceu uma manhã na escola do Largo do Leão com a infausta novidade. (...) Lembro-me de ter olhado nesse momento o relógio de parede que havia na sala de entrada, por cima de uma porta, e, como alguém que conscientemente trata de recolher informações que poderão vir a ser-lhe úteis no futuro, pensei que deveria fixar a hora."

"Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse, pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo."

"Conversei com a Alice, que me recebeu bem, mas sem demasias, dancei com ela (se àquilo se podia chamar dançar, guiava-me ela mais a mim do que eu a ela, e tenho a suspeita - se não quiser dar-lhe antes o nome de certeza - de que, em certa altura, fez um gesto resignado para uma amiga que dançava perto). Por fim, já tarde (hoje sei que foi aquele gesto que me fez renunciar à Alice para sempre), despedi-me vencido." -
passagem esta que antecede, cronologicamente, apenas algumas horas, a passagem, acima, da faia.

"Puxei, fui puxado, mas a luta não durou muito. A linha estaria mal atada  ou apodrecida, com um esticão violento o peixe levou tudo atrás, anzol, bóia e chumbada. (...)  Foi então que me ocorreu a ideia mais absurda de toda a minha vida: correr a casa, armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas definitivas com o monstro. Ora, a casa dos meus avós ficava a mais de um quilómetro do lugar onde me encontrava, e era preciso ser pateta de todo (ou ingénuo, simplesmente) para ter a disparatada esperança de que o barbo iria ficar ali à espera (...) Voltei ao sítio, já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei. Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água."

"Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer." Assim mesmo. Eu estava lá."
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publicado por Manuel Anastácio às 22:25
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Domingo, 10 de Dezembro de 2006
A Arte como resumo da Natureza

Primeira ilustração (1904) da Kunstformen der Natur1, de Ernst Haeckel: "Phaeodaria" (hoje em dia conhecidos como radiolários).

A arte não pode ser a reprodução de um dado aspecto da natureza. Em A Verdade e a Verossimilhança das Obras de Arte, já Goethe defendia que o produto da arte humana, enquanto reprodução da natureza, será sempre inferior à própria natureza. Mais se poderá pensar se considerarmos que a organização que preside à maioria dos fenómenos naturais (ou pelo menos àqueles que consideramos especialmente belos) existe desde um nível microscópico, enquanto que os mais perfeitos resultados da actividade humana serão sempre imperfeitos se observados ao pormenor. Até a superfície polida de um mármore renascentista revelaria apenas um caos de saliências e excrescências inestéticas. Este facto tornou-se particularmente flagrante para os primeiros microscopistas que não tiveram pejo em destruir a reputação dos mais perfeccionistas dos ourives, principalmente daqueles que se gabavam da minúcia dos mais ínfimos pormenores da sua arte. O centro de mesa da baixela dos Duques de Aveiro, de François-Thomas Germain, presente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, é um dos exemplares deste género de arte, que continua a fascinar quem a vê, apesar de a Arte ter, entretanto, enveredado por outros caminhos, cada vez mais afastados da Mimesis reprodutora e cada vez mais identificados com a Mimesis transfiguradora da realidade. De facto, desde sempre que se procurou acentuar, no objecto artístico, aquilo que era considerado de essencialmente belo, bom ou adequado na realidade natural - não sabemos se as ancas exageradas da Vénus de Willendorf eram, de facto, consideradas belas, mas seriam, com certeza, expressão de algo visto como bom - a fertilidade. A confusão que se foi estabelecendo na mente humana, ao longo dos séculos, e que foi valorizando cada vez mais a "reprodução fiel" da realidade chegou, por vezes, ao ponto de se querer reproduzir aquilo que, supostamente, era imperfeito na natureza, como a putrefacção que se verifica em alguns dos frutos cinzelados no centro de mesa de Germain. Na verdade, até a putrefacção, vista ao pormenor, é repleta de pormenores que, sem esforço, consideraríamos belos. Os naturalistas do século XIX, armados com uma prodigiosa janela para o infimamente pequeno, rapidamente assentiram que a natureza era em tudo superior, em termos formais, à actividade artística - e, paradoxalmente, passaram a identificar a própria natureza com a Arte, erro que, contudo, lhes deve ser perdoado já que tinham formação em biologia e não em estética. Este equívoco é patente numa das obras naturalistas do século XIX que mais admiro, da autoria do "pai" da Ecologia ", Ernst Haeckel: as imagens que constituem a sua "Kunstformen der Natur" ("Formas Artísticas da Natureza") partem da acepção de que o pormenor, na natureza, tem de ser, sempre, simultaneamente complexo e regular. As imagens obtidas pelos microscópios da altura não devia ser famosas, pelo que muitas das perfeições homenageadas nas suas ilustrações são, acima de tudo, Arte nascida não da imitação, mas da transfiguração imaginativa da Natureza. Querendo exaltar a perfeição da Natureza, Haeckel limitou-se a provar de que a perfeição nem existe nos seus lindos e improváveis radiolários nem nas imagens rendilhadas que deles esboçou (porque qualquer desenho ou pintura será sempre, apenas, um esboço), mas na imagem mental que concebemos para a perfeição. Uma obra prima da Arte Humana será, não aquela que tecnicamente é mais perfeita, mas aquela que melhor se adequa ao seu objectivo: em geral, emocionar ou suscitar o sentimento da beleza, ainda que nem sempre. O Fradique Mendes, de Eça de Queirós, bem sintetizou a relação entre a Natureza e a Arte ao afirmar que "A Arte é um resumo da natureza feito pela imaginação". Vistos ao microscópio electrónico, os radiolários de Haeckel assemelham-se mais a grãos porosos de areia que a obras primas da Natureza, o que significa que o resumo, por vezes, é maior que o resumido. O que significa, também, que até a Natureza tem imperfeições em alguma das suas escalas de grandeza. Não sei se serve de Consolação, isto de saber que a nossa noção de Belo não se prolonga continua e uniformemente (ou, melhor, hiperbolicamente) em todas as escalas. Talvez cause, pelo contrário, desolação entre aqueles que procuram nas perfeições da Natureza as provas do Desenho Inteligente de Deus. Talvez. Eu continuo a acreditar que sem imperfeições, a beleza de nada serve.

Nota 1: A imagem que aparece no canto superior esquerdo do layout do meu blog é também desta mesma obra de Haeckel.
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publicado por Manuel Anastácio às 15:00
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Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006
Professores III


Lupinus luteus - Otto Wilhelm Thomé, in Flora von Deutschland, Österreich und der Schweiz - 1885

Na minha quarta classe, mudei para a escola "velha". O edifício caracterizava-se por um traço arquitectónico próprio do Estado Novo. A Senhora Professora, Josefina de seu nome, vinda do Sardoal, era dona de métodos antigos, mas eficazes. Na primeira aula, mostrou a régua descomunal, de madeira, antes de a fechar na gaveta da secretária. Claro que desconhecia as mais elementares leis da Física. Deveria saber que, quanto maior a régua, menos dói a reguada porque a mesma pressão é distribuída por uma área maior. Mas a força da imagem foi suficientemente localizada na retina para que, até ao final do ano não tugíssemos nem mugíssemos. Foi um ano de pura tranquilidade. A régua não saiu da gaveta, apesar de a senhora, já com uma certa idade, nos permitir circular pela sala quando entendêssemos, desde que fosse para aprender alguma coisa. Um jogo muito básico que os alunos acabaram por inventar consistia em especarmo-nos em frente a um mapa de Portugal - daqueles velhinhos, enrugados e com os caminhos de ferro a destacado. Um dizia uma terra, ao acaso, e os outros procuravam entre as letras minúsculas. Assim, quem sabe, li, provavelmente, pela primeira vez o nome de Mértola, do Gavião, de Joane, Aveiras de Cima, Alandroal, Monsaraz e outros locais que viriam a inscrever-se na rota da minha vida, de forma tão aleatória quanto a que usávamos para escolher localidades do Norte ou do Sul. Claro que a professora era muito nacionalista - não daquelas nacionalistas xenófobas, entenda-se, era mais uma nacionalista orgulhosa do passado que não tivémos,  ainda que não faça mal pensar que sim: graças a ela tive acesso à História de Portugal tal como era transmitida naqueless tempos gloriosos em que a História eram histórias . Enfim, mais mitologia que história. Mas diga-se, em abono da verdade, que era esta a história que gostávamos de ouvir. Era esta a história que levávamos ainda para os recreios, fingindo guerras e reconquistas, julgando cada um ser um D. Afonso Henriques gigantesco e com uma espada tão pesada que só ele conseguia levantar. Tretas. Mas belas tretas. Hoje, é só subir uma ladeira, a partir de minha casa, e depararo com a famosa estátua do nosso primeiro rei, concebida pelo Soares dos Reis e coberta de verdete e com a Igreja de São Miguel do Castelo ao fundo, onde, conta a lenda, teria sido baptizado. Fenomenal acontecimento esse, de se ser baptizado numa igreja que ainda não existia, pois remonta apenas ao século XIII. Ao lado da estátua, outro logro nacionalista: o Paço dos Duques, com as suas altaneiras chaminés e salões reinventados pelo arquitecto Rogério Azevedo, em 1937, ao gosto monumental do Presidente do Conselho, António Oliveira Salazar (que aí estabeleceu residência oficial, nas suas poucas viajens para estas bandas), e de acordo com o que teriam sido, talvez, muito talvez, os gostos dos dois primeiros Duques de Bragança. Mas, naquele ano, ainda acreditava que podia dizer (e pensar) que os portugueses  eram uma raça de heróis e que as pedras venerandas o atestavam. Hoje sei que somos da mesma massa que os outros.

Foi o ano em que o recreio da escola dava para um campo amarelo de lupino incandescente. O ano em que íamos apanhar girinos quando a professora faltava, chegando mais tarde a casa do que se tivesse havido aula. O ano em que, como Moisés no deserto, furei um muro com a ponta do guarda-chuva e começou a jorrar uma fonte de água que durou durante o ano todo (creio que, mais tarde, o dono entubou-a na direcção de um tanque). Foi um belo ano. Que durou mais que um dos anos de agora, nas contas de uma clepsidra infantil.

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Terça-feira, 5 de Dezembro de 2006
As Bodas de Fígaro

Cena de "As Bodas de Fígaro" (Teatro da Trindade/Inatel)

Fui ver, dia 2 de Dezembro, no Centro Cultural Vila Flor, aqui em Guimarães, a versão em português de "As Bodas de Fígaro", nascida da adaptação a cargo de Nuno Côrte-Real, e com encenação de Maria Emília Correia. Claro que preferia ter ouvido tudo no italiano original, mas a adaptação não estava mal de todo e a música até encaixava. Não sendo um produto destinado aos apreciadores mais exigentes do género (não sei bem se faço parte desse grupo), o espectáculo, que já foi classificado como uma "Pop-opera", acertou em cheio no objectivo de dar ao público umas boas três horas e tal de divertimento puro, muitos sorrisos e algumas gargalhadas. A opção por uma encenação anacrónica e repleta de referências absolutamente alheias à história original não é propriamente a que mais me agrada, mas saí satisfeito com a tentativa. Aliás, faltam mais destas tentativas no deserto cultural português que, sem querer embandeirar pelo lado dos Ruis Rios de má memória, tem empestado os palcos apenas com produções para intelectual ver. Se, de vez em quando, algum filme de qualidade tem bom acolhimento nas bilheteiras, é porque existe já um público que se fixou nas salas à conta de espectáculos de cariz mais popular. Querer obrigar o povo a gostar logo de Ingmar Bergman, Visconti e Manoel de Oliveira é absurdo. Há uns anos, foram muitos os professores de Português que tiveram a infeliz ideia de levarem os seus pupilos a ver o "Non, ou a Vã Glória de Mandar". Claro que enraizaram apenas nestes o ódio puro ao cinema português. Um adolescente não está interessado em extasiar-se perante o espectáculo de um plano interminável de uma árvore logo no início do filme; não consegue compreender, muito menos, a força trágica do olho arregalado de pavor no fim do mesmo. Para o adolescente fica apenas a má impressão dos actores que parecem simplesmente estar a representar mal apenas porque têm diálogos inverosímeis e empastados por uma época e uma maneira de reflectir. É preciso começar pela sedução. Ao menos, o cinema tem meios de sedução tentaculares. Por alguma razão existem mais cinéfilos a amar as grandes obras primas do cinema do que melómanos que gostam de ópera. Não é porque o cinema é mais fácil de digerir, mas porque o cinema se alojou no nosso quotidiano. A ópera não - continua a ser vista como um privilégio de classes altas - e, pior, um privilégio que se dispensa com muito gosto. Houvesse mais versões destas: agradáveis, simpáticas, económicas, e já terá teríamos um público embrionário disposto a voos mais amplos. José Corvelo, como Fígaro, esteve bem, Lara Martins, no papel de uma Susana aparentada à Emília do Sítio do Picapau Amarelo, encantou com a sua desenvoltura, Teresa Gardner, como condessa, conseguiu alguns bravos após a primeira ária do segundo acto; Mário Redondo, feito conde feudal, como que retirado de um filme de Akira Kurosawa de baixo orçamento (falo apenas do guarda-roupa, não da sua prestação) conseguiu sintetizar o melhor do espectáculo, ou seja, um correcto compromisso entre o canto e a representação. Os cenários, simples e garridos, kitsch que baste, a roçar, por vezes o infantil (algo a lembrar "As pistas da Blue"), também não estavam mal - o dossel do quarto nupcial, o jogo de escadas na trama nocturna no final da ópera e a passagem entre o primeiro e segundo acto com alguns malabarismos simpáticos pelo meio mostram bem como se pode fazer muito com pouco. Creio que foi a última representação. É pena. Haveria, com certeza, mais público no resto do país pronto a deixar-se levar por um sorriso. Porque, de Mozart, nesta adaptação, ressuma essencialmente o sorriso e a simpatia. Não foi um Grande Espectáculo de Ópera. Foi, simplesmente, um Espectáculo que se devia repetir mais vezes nestes moldes e que, ainda assim, merecia mais aplausos que aqueles, muitos, que recebeu. Eu levanto-me com respeito. E fico à espera de mais.
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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006
Buscas (des)pedidas: "Veneno para andorinhas"

Andorinhas num ninho - foto de Immanuel Giel (2004), em GFDL

Alguém entrou no meu blogue à procura de "veneno para andorinhas". E isso é como entrar no Blogue do Gandhi à procura de actos de terrorismo para atingir determinados fins. Eu sei que a primeira coisa que temos de saber sobre todas as ferramentas informáticas é que são, essencialmente, burras, mas há limites. As andorinhas são, de todas as aves que marcam o nosso tempo cíclico europeu, aquelas que melhor encarnam a poesia da fecundidade e da vida. Para não falar na quantidade astronómica de moscas a que nos poupam. Está bem que cagam as paredes todas, abaixo dos beirais onde decidem colocar os seus ninhos de lama. Está certo que os montes de esterco que se formam nas varandas, repletos de exosqueletos quitinosos, não são agradáveis de ver. Mas será tão mais difícil limpar o chão do que colocar veneno em pontos estratégicos para que estes benévolos seres deixem de conspurcar as lindas superfícies brancas, tão caras à arquitectura moderna? Aproveito o momento para retomar a minha reflexão sobre o Kitsch. Querer matar andorinhas porque estas cagam paredes (não concebo outra razão para querer assassinar estes arautos da Primavera) é, na pior acepção da palavra, o extremo do Kitsch. Algum arquitecto, daqueles que detestam amores-perfeitos, dirá que as andorinhas é que são Kitsch e que só a Floribella se lembraria de as defender. Pois bem, vou socorrer-me das palavras de Milan Kundera para sustentar que as andorinhas têm todo o direito de marcarem com listas de merda as lindas maquetes dos nossos arquitectos (incluindo os "arquitectos" conhecidos como "desenhadores"), a bem do bom gosto e do bom senso - e da inteligência.

No capítulo 3 da sexta parte de "A Insustentável Leveza do Ser", depois de o narrador expôr as suas apreensões infantis quanto  ao pensamento blasfemo de imaginar Deus Nosso Senhor (feito à nossa imagem - desculpem, é ao contrário, enganei-me) com intestinos, este diz:

"Os gnósticos antigos sentiam-no tão claramente como eu, aos cinco anos. Para acabar de uma vez por todas com este maldito problema, Valentino, gão-mestre da Gnose do século II, afirmava que Jesus 'comia, bebia, mas não defecava'.

A merda é um problema teológico mais difícil do que o mal. Deus ofereceu a liberdade ao homem e, portanto, pode admitir-se que ele não é responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela existência da merda incumbe àquele que criou o homem, e só a ele."

O capítulo 4 é interessante, e remete para a relação entre teologia e escatofilia e dará tema para uma postagem futura. Passemos ao capítulo 5:

"Todas as crenças europeias, sejam elas religiosas ou políticas, têm por detrás de si o primeiro capítulo do Génesis, do qual se infere que o mundo foi criado tal como devia ser, que o ser é bom e, por consequência, que procriar é uma coisa boa. Chamemos a esta crença fundamental acordo categórico com o ser.

Se, ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por três pontinhos, não era seguramente por uma questão de moral. Apesar de tudo, ninguém pode pretender que a merda seja imoral! O desacordo com a merda é metafísico. O instante da defecação é a prova quotidiana do carácter inaceitávelda criação. Das duas, uma: ou a merda é aceitável (então porque é que se fecham na casa de banho?) ou a maneira como nos criaram é que é inadmissível.

Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ele anão existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch.

É uma palavra alemã que apareceu em meados do século XIX, sentimental, e que depois se vulgarizou em todas as línguas. mas a sua utilização frequente fê-la perder todo o valor metafísico original: o kitsch é, por essência, a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado, o kitsch exlui do seu campo de visão tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável."

O desejo de se viver em ambientes controlados e assépticos é velho para o ser humano. Aliás, o ser humano é, talvez, a única espécie que evoluiu graças a uma involução no que diz respeito a habilidades físicas em decorrência da sua escolha voluntária em modificar o meio em vez de aceitar a ditadura do meio no que diz respeito à sobrevivência. Em vez de sobreviver o mais forte, devido ao sentimentalismo humano, preferiu-se providenciar meios para que os mais fracos pudessem vingar e procriar. E isso só é possível isolando os mais fracos  dos perigos que o meio natural comporta. A arquitectura moderna lida com o problema de duas formas: uma, mais reflexiva e crítica, consubstancia-se na alegoria de "Os Prisioneiros Voluntários da Arquitectura", que integra o volume  "S, M, L, XL" de Rem Koolhaas - outra, mais pragmática, consiste no New Urbanism. No primeiro caso, pretende-se expor a nossa humanidade à aterradora visão de um Admirável Mundo Novo onde tudo decorre de forma limpa e organizada para que, paradoxalmente, compreendamos que o extremo da limpeza é a maior das badalhoquices. No segundo caso, quanto a mim, mais aterrador, porque não consiste em ficção, trata-se de aceitar-se explicitamente a condição de figurante num filme de Walt Disney. E isso implica, no mundo real, matar andorinhas para as substituir por um sucedâneo de plástico. Claro que os sucedâneos de plástico não migram (boa: não disseminam a gripe das aves!) logo, deixando de anunciar as estações, deixam de constituir um dos elos de ligação entre homem, habitante do tempo linear, e a Natureza, mansão do tempo circular. O elemento figurativo "andorinha" passa a ser apenas uma referência a um mundo do qual apenas se quer filtrar aquilo que parece belo.

Quando era pequena, a minha mãe julgava que as "senhoras finas" não cagavam. Quando eu era pequeno, ouvi dizer que as andorinhas eram "as galinhas de Nossa Senhora". Aprendi que quando estas voavam a rasar o chão, muitas vezes em direcção a mim, estavam a adivinhar chuva. Eram animais sagrados. Até que vi uma funcionária da escola, com uma vara, a destruir os ninhos dos beirais. Por uma razão de higiene. Desde essa altura que tenho pó à palavra higiene. Nada contra o sabão,  a água e o desodorizante: mas higiene... faz-me lembrar o cheiro gélido dos hospitais, batas brancas e muita lixívia. Veneno. Prefiro um monte de cocó de andorinha na varanda, para limpar. Faz-me lembrar que nem tudo está, ainda, perdido. Por vezes é preferível remediar a prevenir.
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publicado por Manuel Anastácio às 00:50
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Domingo, 3 de Dezembro de 2006
Curta 10
E não é que a Caminho decidiu utilizar um desenhito meu, da Maria Velho da Costa, numa das suas notícias? Não é nenhuma obra de arte, mas é bom saber que o pouco que desenho é usado pela sociedade civil...

E descubro isso logo no dia em que o Pedro Correia, no Corta-fitas, destacou o meu último post...

E assim vai o mundo em volta do meu umbigo. ;-)
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Sábado, 2 de Dezembro de 2006
Professores II


Erica tetralix
e Erica cinerea (urze), por Johann Georg Sturm e Jacob Sturm - Deutschlands Flora in Abbildungen (1796)


A minha terceira classe tinha, ainda, como porteira, a acácia debruçada sobre a entrada. Numa altura em que não existiam professores, mas só professoras, foi novidade espectacular na terra a vinda de um professor. Causava espanto, mormente, o facto de ter menos de trinta anos. Ao que parece, a sua vocação virava-se mesmo para o ensino especial, mas foi com um carinho e dedicação invulgar que foi professor naquela aldeola onde a fama da criançada não era das melhores. Ainda hoje se transmite a ideia de que na minha terra as crianças são, digamos, assim como que diferentes. A freguesia de Carvalhal é o beco sem saída do Concelho de Abrantes. Claro que Souto e Fontes serão ainda mais - mas como esbarram com o rio Zêzere, têm outro aspecto - principalmente devido às casas de luxo de políticos e grandes empresários que passam pelas estraditas de Carvalhal apenas para transportar as suas lanchas poluidoras a caminho dos muitos recantos da Barragem de Castelo de Bode - de onde se escoa a água para a capital. Carvalhal tem a mesma fama que as aldeolas de Trás-os-Montes: os professores são advertidos de que as crianças vão bêbedas para as aulas e que não há gente mais piolhosa em todas as redondezas. Posso testemunhar, contudo, que se isso é verdade para Carvalhal, também o é para todas as redondezas, incluindo os hipocentros da infâmia (designadamente Sardoal e acólitos). Não sei se tinha colegas bêbedos. Com piolhos tinha, com certeza. Mas, como dizia o farmacêutico da minha terra, o professor Baptista Reis (que merecerá um artigo daqui a uns dias), em Carvalhal, tudo acontece depressa. As pessoas crescem depressa, casam-se depressa, têm filhos depressa. Constroem depressa, destroem depressa. Morrem depressa. Eu, depressa fugi de lá. Mas creio que nunca lá vivi. O meu Carvalhal, da minha infância, era aquele se estendia para lá das "fazendas", na altura repletas de frutos tentadores e de vales encantados com castanheiros, sobreiros, medronheiros e um vale sombrio e estéril onde apenas vingava um cancro amarelo de acácias, estas sim, porteiras apenas da desolação. Era a altura em que levava as ovelhas dos meus pais a pastar enquanto tentava decifrar livros que ainda não eram nem para a minha idade nem para a minha real capacidade de leitura - mas dou graças por, desde sempre, andar às voltas com livros que não entendo; só assim os entenderei algum dia. Bucólico espectáculo de que só eu era testemunha. Os habitantes de Carvalhal só se apresentavam na pequena amostra de algum  "fazendeiro" que passasse naqueles caminhos estreitos que agora já não existem, cicatrizados com alcatrão. E enquanto algum carneiro brincalhão tentava mordiscar-me as páginas do livro e dava pinotes de contentamento quando eu me desequilibrava com as suas marradas, lá tentava eu entender coisas que agora me parecem tão simples. Os carneiros são animais muito estranhos - o meu pai teve um, que morreu há coisa de um ano (rebentou-se-lhe as tripas, dizem) e que vinha ter com ele, à estrada, como um cão. Comigo, eram especialmente brincalhões e avessos à minha sede de leitura. Não foram poucas as vezes em que, perante o meu desatino, os tenha visto a rirem-se literalmente na minha cara: abriam os beiços como macacos e mostravam os dentes em ar de troça! Já contei isto muitas vezes e ninguém acredita... Há quem julgue que o riso é privilégio do ser humano. Não é, tal como o choro.

Se a minha sala de estar e escritório era todo o vale a Norte de Carvalhal, com o meu professor da terceira classe, tive o privilégio de estender a sala de aulas para os montes a sul. Nos dias claros, quando a urze e o tojo salpicavam as sombras dos pinhais com manchas de roxo e amarelo, seguíamos em fila cantando canções tolas sobre sapatos velhos e sapatos novos, enquanto espreitávamos, com a curiosidade mórbida das crianças, os montes de lixo que por vezes ladeavam aqui e ali os caminhos. Chegados a um local limpo e com caruma suficiente para fazermos pequenos puffs avant la lettre, assentávamos e abríamos as sacolas de onde tirávamos os cadernos, e os exercícios que tínhamos passado do quadro antes de sair da sala. O professor podia, então, tirar dúvidas, individualmente, enquanto os mais irrequietos e desinteressados corriam entre as árvores até se cansarem e, finalmente, ofegantes, se renderem à obrigação das contas de multiplicar e dividir. Sem gritos, sem ameaças. Todas as salas de aula, com bom tempo, deviam ser assim - grandes como o mundo e com árvores como companheiras. O tempo de recreio misturava-se negligentemente com o tempo de trabalho e saltávamos da matemática para a língua portuguesa como insectos irrequietos, enquanto o professor aproveitava cada gafanhoto, cada teia de aranha ou cada planta para nos iniciar nos mais básicos mistérios da Natureza. Chego a duvidar da existência desses dias. Era numa altura em que o professor não tinha medo de sair com vinte e muitas crianças, de duas classes diferentes (na mesma sala, metade dos alunos terminava a quarta classe com o mesmo professor, no mesmo horário que nós), para um vale isolado. Hoje, temem-se poços, cobras, pedras, ladeiras e processos judiciais. O medo da acusação de negligência tem empurrado os professores para os tugúrios deprimentes das salas de aula. Ninguém sai - ninguém deve falar alto, e, à conta disso todos berram. Lá fora reina o medo e, paradoxalmente, traz-se o medo para dentro de quatro paredes onde todos se atropelam e têm vontade de explodir. Reprime-se a vontade de correr das crianças com processos disciplinares, enquanto estas, munidas até aos dentes com os seus "direitos" negligenciam a possibilidade de alguma vez amarem a escola que são obrigados a frequentar. A escola agoniza.

Este professor foi, talvez, o melhor professor que tive. Um professor que, hoje, esteja onde estiver, não poderá fazer o mesmo que fez com essas duas turmas de há vinte e tal anos atrás. Estará, como todos, preso a quatro paredes. A sua natural bondade já não será reconhecida pelos alunos, porque professor bondoso é professor trouxa. Só uma vez o vi a recorrer à violência física - e acreditem que foi violento!! Uma cana verde a trabalhar nas costas de dois alunos que furaram com um alfinete todos os pacotes do leite escolar não é coisa bonita de se ver. Mas ninguém reclamou. Até os alunos que devem ter ficado marcados nas costas não reclamaram. Sabiam que as vergastadas eram justas e que tinham, com o seu gesto ingrato, traído a confiança do único professor de que alguma vez viriam a gostar no seu percurso escolar. Com aquelas marcas nas costas dos alunos, hoje, o professor teria ido para a prisão. Os alunos não o defenderiam.

Foi, provavelmente, o melhor professor que tive. Não me lembro do nome dele.

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publicado por Manuel Anastácio às 14:20
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