Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2006
A Vaidade dos Gladíolos

Gladíolos, de Vincent van Gogh

O meu último post (sem contar com a "curta") levantou algumas perplexidades e permitiu a alguns curiosos questionar aquilo que até então não tinham tido a coragem de perguntar: "o que é isso de miosótis e de gladíolos?"... As rosas, enfim, são os amigos ou aqueles a que me atrevo de assim designar depois de algumas palavras trocadas. Quanto às outras flores, entendamo-nos: pertencem a uma taxonomia puramente pessoal e subjectiva onde não estão presentes quaisquer juízos de valor sobre a qualidade dos respectivos blogues mas, apenas, a minha sensação de proximidade em relação aos autores. Nos gladíolos estão tanto os blogues que leio pela sua inquestionável relevância literária, artística, científica ou opinativa como aqueles que, mais modestos nos seus fins, revelam alguma afinidade electiva com o autor deste blogue. Quanto aos miosótis, lá chegaremos. Falemos um pouco mais dos gladíolos e da vaidade - outro ponto que levantou alguma celeuma (quase que me sinto o Saramago, a lançar postas de pescada ao pessoal, à espera de reacções - com a diferença de que eu não estava à espera de reacções). Para mim, os gladíolos simbolizam a Vaidade na sua essência. Mas não quero, com isto, dizer que os autores dos blogues aí inscritos sejam "vaidosos" (ou, pelo menos, vaidosos sem razão). Creio que esta minha idiossincrasia botânica terá origem, provavelmente, num dos primeiros livros que li: "O Rapaz de Bronze" de Sophia de Mello Breyner Andresen , onde, a dado passo, se diz que"... os gladíolos gostavam muito de ser gladíolos e achavam-se superiores a quase todas as outras flores." Bela semente para um outro post seria a secreta inveja que os gladíolos nutriam pelas camélias, mas duvido: ainda tenho pendente o estudo botânico do jardim de Erasmo... Adiante: creio que me estou a enterrar (o que pode ser bom, tendo em conta o contexto vegetal). Alguns dos meus visitantes (se, por acaso, estiverem inseridos entre os gladíolos) gritar-me-ão aos ouvidos que não são nada vaidosos e que, por isso, é injusta a classificação. Reparemos, por exemplo, no comentário (que muito me alegrou) da Manuela Ramos que, não estando nos gladíolos, mas nos miosótis, me deixou: "
quanto à vaidade permita-me discordar: essa não é a razão principal por que escrevo. De todo. Mas isso fica para tentar explicar melhor depois. Agora só queria deixar aqui a minha "voz""... Vejamos: a minha noção de Vaidade não coincide, de facto, com a noção da maioria das pessoas. Talvez por ter lido, muito, Carl Rogers ("Tornar-se Pessoa"), Mathias Aires ("Reflexões sobre a Vaidade dos Homens") e Erasmo, a minha noção de vaidade não é, de modo algum, negativa. Se o livro de Eclesiastes diz que, para o Homem tudo é vaidade, não é apenas para nos alertar da va(n)idade que existe nos nossos mais sérios esforços para melhorar o mundo e que terminam, inevitavelmente, no pó da Terra. Não. De facto, se não houvesse Vaidade, não faríamos coisa nenhuma. Erasmo de Roterdão é particularmente inteligente na sua ironia a respeito da "Filáucia" ou amor-próprio, ao revelar tanto os seus defeitos como as suas virtudes (englobando estas os próprios defeitos, como só poderia acontecer num encómio escrito pela própria Loucura). Rogers, por sua vez, chamou a atenção para a clara verdade de que se temos amor pelos outros, esse amor nasce, necessariamente, do nosso egoísmo. A nossa cultura, com raízes num cristianismo estatal, prega o ódio à vaidade e ao egoísmo. Mas, curiosamente, o egoísmo só é detestável quando é defeituoso e contraditório - isto é, quando o indivíduo, ao negar amor aos outros, o nega a si mesmo. Quem escreve por amor (aos outros, ao mundo, à vida, à beleza, ao conhecimento) tem sempre uma semente de bom egoísmo. É esse desse egoísmo que invisto os meus gladíolos e não, simplesmente, da vácua superioridade dos gladíolos de Sophia. São gladíolos porque são espadas (gladius) que investem em lutas com as quais me identifico. O guerreiro que não tem vaidade na sua espada está condenado à derrota. Espero, portanto, que a Maria me entenda se eu a contradisser dizendo que a vaidade, como motivo de escrita (ou de qualquer outra digna acção humana) é, de facto, uma verdade universal.

Quanto aos miosótis... Ficam para amanhã. Está frio...
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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006
Curta 11
Como me vai levar algum tempo a avisar toda a gente que tenho um novo mail (ainda não perdi a esperança de recuperar o antigo), se me quiserem contactar é ir à barra esquerda direita deste blogue e clicar onde diz  "Escrevam-me". Logo direi se consegui recuperar o antigo...
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publicado por Manuel Anastácio às 22:28
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Domingo, 17 de Dezembro de 2006
São Rosas, senhor... São Rosas... Ah... E uma orquídea.

Claustro de D. Afonso V, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha (foto minha, em GFDL)

A criação dos blogues permitiu que todos os que tivessem acesso a este grande luxo que é a Internet pudessem, finalmente, serem editores de si mesmos. Todos podem escrever e saber que são lidos por desconhecidos. A palavra escrita, ao contrário da palavra dita (pelo menos antes do advento das gravações de voz) pode ecoar entre desconhecidos cujos caminhos caminhos nunca se cruzarão com o nosso. Sabemos que escrevemos para um leitor ideal ou provável, mas o leitor efectivo, esse, é sempre uma incógnita que, provavelmente nunca conheceremos. Mas é aí que reside toda a vaidade de quem escreve, bem ou mal. E é à vaidade que quero chegar - quem quer que escreva (ou pinte, ou componha, ou projecte...), fá-lo movido única e exclusivamente pela vaidade. Que outra motivação teríamos para gravar, para além de nós, os nossos pensamentos se não nos envaidecêssemos deles? Teremos razão para nos envaidecermos deles? Na maior parte dos casos, não. Se quiséssemos proceder a um auto-de-fé semelhante àquele que um licenciado, um cura e um barbeiro procederam na biblioteca de Dom Quixote, movidos apenas pelos critérios pessoais de um pequeno grupo, poucos seriam os livros a salvarem-se. E digo poucos, mesmo que esses poucos fossem alguns milhões. A verdade é que aqueles que escrevem dividem-se entre os que amam os livros, quaisquer que eles sejam (incluindo os livros que abominamos - é esta uma espécie diferente de amor), e aqueles que com um livro ou meia dúzia deles pretendem destruir os que vieram e os que queiram vir. Os imperadores chineses (incluindo o do livrinho vermelho) tinham essa mania de querer recomeçar a História com os livros da sua própria escolha. Outros houve, e continuam a existir, que mantêm essa fúria assassina contra a mais bela das vaidades humanas. Contudo, se há livros que todos os dias morrem, comidos por insectos em arquivos bolorentos ou desfazendo-se em cinza, a escrita etérea da internet multiplica-se, entranha-se, espalha-se, contamina as mentes com grandes verdades e grandes ideias salpicadas por doses astronómicas de boatos, mentiras e sentimentos mesquinhos. Tudo como dantes, mas com outra velocidade, outra magnitude e com outra generosidade. No meio de tantas palavras, ainda assim, persistimos em escrever com a esperança de que alguém nos leia - mesmo que seja para criticar, rectificar, ensinar... Mas, é claro, o que mais desejamos é sempre uma palavra de apoio, um elogio, um afago à nossa vaidade. E isso é bom. A vontade de ser-se amado é o primeiro motivo para amarmos.

Quando comecei a coleccionar links para outros blogues que visito regularmente, pensando em como organizá-los, preferi dispô-los por graus de afinidade. Não uma afinidade objectiva, mas puramente pessoal. Se compararmos os blogues de cada grupo veremos uma grande heterogeneidade de formas e temas reunida no mesmo ramalhete floral, excepto no caso da orquídea, porque há cavidades do coração apenas com lugar para uma flor. Mas no cesto das rosas, cabe sempre mais uma. E é com prazer que as vou adicionando, de forma caótica: as amarelas, as vermelhas, as brancas, sem preocupações de monocromatismo.

Dos tempos em que não tinha blogue, ou em que estes, que eu saiba, não existiam, tenho apenas dois pés de rosa: da Sandra e do Artur. A Sandra é uma amiga com quem compartilho o gosto pela poesia, pelo cinema, pelo teatro e com quem tive o prazer de ver os Irmãos Catita ao vivo (numa noite que terminou no posto da Guarda de Santa Apolónia) ou de saborear uns belíssimos pezinhos de coentrada n' "A Maria", no Alandroal, acompanhados de um Borba, rótulo de cortiça, memorável.
O Artur, dono do admirável Intergalacticrobot, designer gráfico vanguardista de uma revista académica de número único, onde participei (A "Ti' Merenciana") cultivava, então, o estilo blasé e despreocupado. Sempre cheio de ideias e projectos, gostava de Kieslowski, de Cronenberg e sabia deplorar, de forma discreta, inteligente e irónica, o deserto acéfalo que rodeava a então designada Geração Rasca. Foi graças à Sandra que o descobri na Blogosfera, para meu grande proveito e ilustração.

Depois, já por aqui, comecei a ter a lata de nomear amigos à força. E eles, coitados, pressionados pela minha presença sufocante, lá me vão aceitando a amizade dita virtual, mas que, por mim, reputo como bem real. Sinto-lhes a presença, por vezes, na caixa dos comentários e, por vezes, na caixa de correio-electrónico (que, por acaso, terei de mudar, já que não consigo aceder à conta que mantinha - tenham, pois, atenção ao vosso mail, já que lhes enviarei o novo endereço que vou passar a usar). Destes amigos, o primeiro foi o José Eduardo Lopes, de "A Estrada de Santiago", com quem não troco mais comentários à sua arte de fundir e quebrar palavras em cristais porque o seu sistema de comentários não me aceita nem pintado. Outro dos primeiros amigos foi o superlativo Paulo Brabo, da Bacia das Almas e que, do outro lado do Oceano, rapidamente me abriu as portas acolhedoras e fascinantes do seu Monastério, após pouco mais de meia dúzia de palavras sobre as Índias Ocidentais. À conta dele conheci o Jo Lorib, verdadeiro construtor de pontes sobre o Atlântico, com quem partilho a Wikimania e que, por sua vez, me apresentou ao José Cunha-Oliveira, dono de uma brilhante colecção de apontamentos sobre Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira que, inscrevendo-me na sua Frota Honorária, por sua vez, me deu a conhecer nova rota em direcção ao D'Noronha, senhor da sua arte e que comigo partilha a paixão pelas árvores.

Foram, exactamente, as árvores e outras plantas mais rasteiras a servirem de guardiãs de um labirinto, circular como o tempo e as estações, que passa pelos apontamentos e imagens do Filipe-um-amador-da-natureza e, depois, pela serenidade rural filtrada pela lucidez e bom gosto de uma inimitável Ana Ramon, autora de alguns simpáticos  e belíssimos "mails", repletos de pérolas, que a autora, contudo, prefere não ver divulgadas por mãos alheias. Outras agrestes vias, ramificam, do mesmo modo, pelo que designei de miosótis: aqueles que ainda tenho pudor de colocar entre as rosas.O Digitalis Kitsch Blog, em cujos arquivos encontramos bastantes razões para aí deambular, em vários registos, floresceu também por aqui, disseminado já não sei por que benfazejo agente transportador de sementes.

Finalmente, o Paulo Hasse Paixão, que inscrevi na minha lista de gladíolos assim que comecei a ler os seus comentários à sua selecção de 7 pérolas da Colecção do Dr. Rau, e que me deu a conhecer as "69 Love Songs" de Stephin Merritt (que há algum tempo estão a reclamar algumas palavras minhas por aqui), e de quem já aqui comentei a audácia em propor uma existência heteronímica para Sócrates (o verdadeiro... mesmo que o não tivesse sido, de facto), teve a impudicícia de escrever este post que, só pelo título, vale como uma coroa de louros.

É bom ter amigos. É bom ter rosas com que encher o cesto vazio da vida. A blogosfera é apenas mais um canteiro. Obrigado, pois, por se deixarem, assim, colher...
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publicado por Manuel Anastácio às 21:26
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006
As Pequenas Memórias

Pormenor de "As Tentações de Santo Antão" de Hieronymus Bosch (1450 – 1516) - Museu Nacional de Arte Antiga

Já depois de ter começado aqui as minhas recordações de infância, confesso, comprei o último livro do Saramago. Eu sei, eu sei... Hoje em dia, dizer que se leu o último livro do Saramago é quase tão mau como dizer que se leu o último do Paulo Coelho, do Santana Lopes (nome interessante de incluir nesta lista, tendo em conta o termo de comparação) ou da mulher do Pinto da Costa. Fica bem ignorar o Saramago pelo que ele escreve, mas cai bem bater no ceguinho pela arrogância que o senhor vai demonstrando nas suas entrevistas. Eu sou daqueles que vê na arrogância de Saramago apenas um sinal da sua humanidade - os senhores sempre muito modestos e conciliadores parecem-me sempre muito suspeitos. E, sinceramente, espanta-me o sururu que se levanta entre tantos comentadores das suas entrevistas a respeito de tudo. Muitas vezes, quando ainda não tinha acesso, como hoje tenho, às prontas reacções da opinião pública via blogosfera, ao ler os "Cadernos de Lanzarote", quando se me deparavam uns daqueles momentos tão saramaguianos que consistem em dizer "que grande bomba lancei eu hoje entre os intelectuais portugueses", "que grande polémica se irá instalar à minha conta", "os rios de tinta que hão de correr à conta do que eu disse", parecia-me tudo isso muito pouco provável. As asserções de Saramago - as "polémicas" - pareciam-me apenas claras e rasteiras. Mas parece que Saramago conhece melhor a opinião pública do que eu. O pessoal irrita-se, de facto, com o que ele diz! Uma simples metáfora, bem aplicada, como aquela do David a derrotar o Golias com uma bazuca (ou seria apenas uma pistola?) foi, quase imediatamente, considerada uma tirada antissemita!... Claro que há outra estratégia, que é atacar Saramago pelo que ele terá ou não feito no Diário de Notícias. Eu sei pouco sobre o caso. Mas, para mim, Saramago é mais um escritor que um político. E fico-me nesta. Se é verdade que não delirei com "As Intermitências da Morte", nem com o "Ensaio sobre a Lucidez", nem com "O Homem Duplicado", a verdade é que não me arrependo nada de os ter lido. Quanto a "As Pequenas Memórias", a história é diferente. A sua única arrogância consiste na vontade de perpetuar aqueles que nunca saberão que o foram, transfigurando-os em constelações luminosas sobre um fundo negro, ainda que a sua luz seja apenas a da mais opaca e incongruente humanidade. Sem nos precavermos, somos atirados para confissões dolorosas e, por vezes, abjectas. As primeiras experiências sexuais, a mulher embriagada que entreviu a masturbar-se, a sádica experiência a que foi submetido por um grupo de rapazes, quando vivia em Lisboa... E fico a pensar numa das passagens de "Os Cadernos de Lanzarote" onde o autor reage de forma brusca a uma simples menção, por parte de um amigo, quanto ao seu chão com juntas pintadas a chá (se isso lhe feria a privacidade, que dizer agora?). A linguagem destas memórias, por sua vez, atinge, nalgumas frases, a mais cristalina das perfeições. Pode haver quem não goste. Eu compreendo. Mas eu gosto. E não resisto a copiar para aqui as cordilheiras que me rasgaram a alma, entre as planícies de aluvião e lodo fértil da Azinhaga.

"Antes do ponto em que teria de abandonar a estrada para  meter a corta-mato, o caminho estreito por onde ia pareceu terminar de repente, esconder-se atrás de um valado alto, e mostrou-me, como a impedir o passo, uma árvore isolada, alta, escuríssima no primeiro momento contra a transparência nocturna do céu. De súbito, porém, soprou uma brisa rápida. Arrepiou os caules tenros das ervas, fez estremecer as navalhas verdes dos canaviais e ondular as águas pardas de um charco. Como uma onda, soergueu as ramagens estendidas da árvore, subiu-lhe pelo tronco murmurando, e então, de golpe, as folhas viraram para a lua a face escondida e toda a faia (era uma faia) se cobriu de branco até à cima mais alta. Foi um instante, nada mais que um instante, mas a lembrança dele durará o que a minha vida tiver de durar."

"A avó Carolina morreu quando eu tinha dez anos. Minha mãe apareceu uma manhã na escola do Largo do Leão com a infausta novidade. (...) Lembro-me de ter olhado nesse momento o relógio de parede que havia na sala de entrada, por cima de uma porta, e, como alguém que conscientemente trata de recolher informações que poderão vir a ser-lhe úteis no futuro, pensei que deveria fixar a hora."

"Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse, pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo."

"Conversei com a Alice, que me recebeu bem, mas sem demasias, dancei com ela (se àquilo se podia chamar dançar, guiava-me ela mais a mim do que eu a ela, e tenho a suspeita - se não quiser dar-lhe antes o nome de certeza - de que, em certa altura, fez um gesto resignado para uma amiga que dançava perto). Por fim, já tarde (hoje sei que foi aquele gesto que me fez renunciar à Alice para sempre), despedi-me vencido." -
passagem esta que antecede, cronologicamente, apenas algumas horas, a passagem, acima, da faia.

"Puxei, fui puxado, mas a luta não durou muito. A linha estaria mal atada  ou apodrecida, com um esticão violento o peixe levou tudo atrás, anzol, bóia e chumbada. (...)  Foi então que me ocorreu a ideia mais absurda de toda a minha vida: correr a casa, armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas definitivas com o monstro. Ora, a casa dos meus avós ficava a mais de um quilómetro do lugar onde me encontrava, e era preciso ser pateta de todo (ou ingénuo, simplesmente) para ter a disparatada esperança de que o barbo iria ficar ali à espera (...) Voltei ao sítio, já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei. Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água."

"Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer." Assim mesmo. Eu estava lá."
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publicado por Manuel Anastácio às 22:25
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Domingo, 10 de Dezembro de 2006
A Arte como resumo da Natureza

Primeira ilustração (1904) da Kunstformen der Natur1, de Ernst Haeckel: "Phaeodaria" (hoje em dia conhecidos como radiolários).

A arte não pode ser a reprodução de um dado aspecto da natureza. Em A Verdade e a Verossimilhança das Obras de Arte, já Goethe defendia que o produto da arte humana, enquanto reprodução da natureza, será sempre inferior à própria natureza. Mais se poderá pensar se considerarmos que a organização que preside à maioria dos fenómenos naturais (ou pelo menos àqueles que consideramos especialmente belos) existe desde um nível microscópico, enquanto que os mais perfeitos resultados da actividade humana serão sempre imperfeitos se observados ao pormenor. Até a superfície polida de um mármore renascentista revelaria apenas um caos de saliências e excrescências inestéticas. Este facto tornou-se particularmente flagrante para os primeiros microscopistas que não tiveram pejo em destruir a reputação dos mais perfeccionistas dos ourives, principalmente daqueles que se gabavam da minúcia dos mais ínfimos pormenores da sua arte. O centro de mesa da baixela dos Duques de Aveiro, de François-Thomas Germain, presente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, é um dos exemplares deste género de arte, que continua a fascinar quem a vê, apesar de a Arte ter, entretanto, enveredado por outros caminhos, cada vez mais afastados da Mimesis reprodutora e cada vez mais identificados com a Mimesis transfiguradora da realidade. De facto, desde sempre que se procurou acentuar, no objecto artístico, aquilo que era considerado de essencialmente belo, bom ou adequado na realidade natural - não sabemos se as ancas exageradas da Vénus de Willendorf eram, de facto, consideradas belas, mas seriam, com certeza, expressão de algo visto como bom - a fertilidade. A confusão que se foi estabelecendo na mente humana, ao longo dos séculos, e que foi valorizando cada vez mais a "reprodução fiel" da realidade chegou, por vezes, ao ponto de se querer reproduzir aquilo que, supostamente, era imperfeito na natureza, como a putrefacção que se verifica em alguns dos frutos cinzelados no centro de mesa de Germain. Na verdade, até a putrefacção, vista ao pormenor, é repleta de pormenores que, sem esforço, consideraríamos belos. Os naturalistas do século XIX, armados com uma prodigiosa janela para o infimamente pequeno, rapidamente assentiram que a natureza era em tudo superior, em termos formais, à actividade artística - e, paradoxalmente, passaram a identificar a própria natureza com a Arte, erro que, contudo, lhes deve ser perdoado já que tinham formação em biologia e não em estética. Este equívoco é patente numa das obras naturalistas do século XIX que mais admiro, da autoria do "pai" da Ecologia ", Ernst Haeckel: as imagens que constituem a sua "Kunstformen der Natur" ("Formas Artísticas da Natureza") partem da acepção de que o pormenor, na natureza, tem de ser, sempre, simultaneamente complexo e regular. As imagens obtidas pelos microscópios da altura não devia ser famosas, pelo que muitas das perfeições homenageadas nas suas ilustrações são, acima de tudo, Arte nascida não da imitação, mas da transfiguração imaginativa da Natureza. Querendo exaltar a perfeição da Natureza, Haeckel limitou-se a provar de que a perfeição nem existe nos seus lindos e improváveis radiolários nem nas imagens rendilhadas que deles esboçou (porque qualquer desenho ou pintura será sempre, apenas, um esboço), mas na imagem mental que concebemos para a perfeição. Uma obra prima da Arte Humana será, não aquela que tecnicamente é mais perfeita, mas aquela que melhor se adequa ao seu objectivo: em geral, emocionar ou suscitar o sentimento da beleza, ainda que nem sempre. O Fradique Mendes, de Eça de Queirós, bem sintetizou a relação entre a Natureza e a Arte ao afirmar que "A Arte é um resumo da natureza feito pela imaginação". Vistos ao microscópio electrónico, os radiolários de Haeckel assemelham-se mais a grãos porosos de areia que a obras primas da Natureza, o que significa que o resumo, por vezes, é maior que o resumido. O que significa, também, que até a Natureza tem imperfeições em alguma das suas escalas de grandeza. Não sei se serve de Consolação, isto de saber que a nossa noção de Belo não se prolonga continua e uniformemente (ou, melhor, hiperbolicamente) em todas as escalas. Talvez cause, pelo contrário, desolação entre aqueles que procuram nas perfeições da Natureza as provas do Desenho Inteligente de Deus. Talvez. Eu continuo a acreditar que sem imperfeições, a beleza de nada serve.

Nota 1: A imagem que aparece no canto superior esquerdo do layout do meu blog é também desta mesma obra de Haeckel.
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publicado por Manuel Anastácio às 15:00
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