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Quinta-feira, 31 de Agosto de 2006
Pois

Esta imagem do meu sobrinho a nadar no Rio Homem, no Gerês parece uma mentira digital, mas é verdadeira. E juro que a realidade cristalina desta água suplanta em muito qualquer onirismo fotográfico. E que o único tratamento no Photo Editor resumiu-se a reduzir a imagem, de modo a torná-la mais levezinha para os navegadores, de acordo com as admoestações do Artur. É verdade, também, que a qualidade da minha pobrezita HP 635 não é das melhores. Ainda assim, uso-a à exaustão, para impaciência da Carla que justamente troça do meu ar pateta de turista à japonesa. E logo eu, que desespero quando, em visita a alguém, vejo o cicerone a puxar de um álbum para mostrar coisas como... sobrinhos a nadar. Pois.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:55
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006
Pormenores - Igreja da Colegiada da Oliveira (Guimarães)


Sem grande tempo para actualizar o blogue, ainda assim, quis deixar uma pequena amostra do interior da Igreja da Colegiada da Oliveira, em Guimarães. A pintura não é nenhuma obra prima da arte sacra, mas gosto especialmente do tema: Santa Ana ensinando a Virgem a ler (com Santo Joaquim ao lado) - pela valorização da mulher sem a perspectiva assexuada das "virgens" (apesar da leve alusão ao manto azul celeste da menina), pelo gosto da leitura, pela ternura do acto de ensinar, pela gratidão que deveria existir em aprender.  Os anjinhos eram dispensáveis, mas quem sou eu para criticar estes arroubos sacro-mitológicos?
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publicado por Manuel Anastácio às 10:26
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Domingo, 27 de Agosto de 2006
Blogues - A Estrada de Santiago

Peregrino, portal menor da Catedral de Santiago de Compostela. Fotografia de Yearofthedragon, em Creative Commons

O conto de pequenas dimensões tem raízes profundas na tradição oral. Se os aedos gregos recitavam grandes poemas épicos (ainda assim recorrendo a esquemas mnemónicos facilmente identificáveis até nas obras homéricas), o vulgo não profissionalizado tinha, obrigatoriamente, que recorrer à anedota, ao provérbio, às romanças, às xácaras, às loas. E, aliado à curta dimensão vem, geralmente, o carácter poético da composição (comum à generalidade  das formas referidas, excepto para a anedota). Isso tanto se deve à já referida função mnemónica da poesia como ao carácter ambíguo da mesma, que permite sugerir tudo o que não é possível dizer. A poesia tem, de facto, um carácter sintético, enquanto que o romance-prosa vive, essencialmente, da análise (então, o romance moderno após Joyce...). A micro-narrativa está, portanto, na fronteira entre a poesia e a prosa. José Eduardo Lopes, que muito me tem honrado com a sua presença por estas bandas, apresenta-se, na Revista Minguante, como alguém que brinca com as palavras como se fossem peças de Lego - ainda assim, com medo de as quebrar. Mas uma das características das peças de Lego não é, exactamente, a sua resistência e indivisibilidade quase atómica? Serão as palavras assim? Na verdade, não. Quem define a palavra como uma unidade linguística não sabe o que diz. A palavra é uma entidade múltipla, não só pelos múltiplos sentidos que permite de forma pacífica (largamente explorados na anedota brejeira), mas pelos sentidos subversivos - aqueles que causam estranheza, ao tornarem a palavra em algo material,

Escrevia para fixar o tecido da existência. Acreditava piamente nisso. As suas palavras eram linhas, pontos, alfinetes. Mas, quando se levantou o vento, o tecido sacudiu-o.

capaz de, efectivamente, se estilhaçar no pó opaco da anedota imediata

Ele achava que a alunagem tinha sido perfeita. Mas a pedido dos pais da aluna, o Conselho Directivo da Escola instaurou-lhe um processo.


ou nos cacos cortantes e resplandescentes da poesia.

Não adianta viver do passado, não há sangue correndo nas estátuas de sal

E se juntarmos pó a partículas de luz ficaremos, pois, frente a uma adequada imagem da Estrada de Santiago - aquela faixa  coloidal que atravessa a escuridão da noite  numa mistura de opacidade com transparência. Assim são os micro-contos de José Eduardo Lopes, ao aliarem a opacidade dos conceitos à acção deliberada das palavras que não são mero objecto passivo de brincadeira, mas a ferramenta, o utensílio transformador com que se cria uma nova realidade.

Viviam nas antípodas um do outro(...) Ainda assim, precisam um do outro, e esperam que os céus se recurvem para se reunirem sobre a linha do Equador.

Os seus contos começam frequentemente com uma acção - com um verbo, uma frase proferida, com um "depois" ou "um quando" - e terminam, explicitamente ou não, com a afirmação de uma urgência, nem sempre possível de satisfazer, mas imanente à condição humana.

    - Parece que estamos em Vila Pery – disse – cheira-me a queimadas e a laranjais carregados…
 Fiquei imóvel como uma estátua, quase sem respirar. Senti a pressão da mão aliviar enquanto ele adormecia de novo. Voltei a correr para dentro de casa, ainda assustado e a pensar no sucedido. A mim, só me cheirava a mijo retardado.

Já tinha prometido ao José um comentário um pouco mais elaborado, já que raramente consigo comentar directamente n' A Estrada. Aqui fica, pois, um pequeno prólogo, onde o melhor, claro, são as citações que tive o descaramento de roubar. Como roubariam os peregrinos, com certeza, alguns frutos ao longo do seu caminho.
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publicado por Manuel Anastácio às 15:20
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Sábado, 26 de Agosto de 2006
Elogio da Loucura - O jardim de Erasmo

Jardim com girassóis de Gustav Klimt.

"O Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdão é uma obra essencial, não só como documento cuja leitura é imprescindível para compreender o humanismo renascentista, mas também para reflectirmos no pouco que evoluímos desde a época em que foi escrito. Erasmo era um fervoroso católico, amigo do fervoroso mártir do catolicismo (e da coerência) Thomas More, a quem a obra é explicitamente dedicada. O próprio título, em grego, "Moriae Encomium" pode ser lido como "Elogio a More".

É a própria Loucura (má tradução esta, mas já tradicional entre nós: melhor seria "estultícia" ou mesmo "estupidez") quem nos acolhe nestas páginas de erudita frescura, onde não há lugar para bolor nem para ratos de biblioteca.

É difícil dizer quem é, de facto, esta deusa, dispensatriz da felicidade humana - a Loucura, filha de Pluto e da Mocidade. Pluto é o deus das riquezas. A Economia, portanto. Bem a representou Frank Capra no seu "Mr. Deeds Goes to Town" (com a feliz tradução, em Portugal, de "Doido com Juízo"), quando a insanidade do seu protagonista é transformada em gráficos em tudo semelhantes aos que registam a evolução dos indicadores económicos.

Nasceu esta Loucura (a não confundir com Insanidade) nas Ilhas Afortunadas, onde foi amamentada pela Rusticidade, filha de Pã e pela Embriaguez, filha de Baco. O rol de parentes é digno de nota e reflexão. Mas quedo-me, por hoje, perante a descrição, botanicamente interessante, da sua terra natal. Somos imediatamente advertidos de que ali não crescem plantas inúteis como "narcisos, malva, cebolas ou feijões" mas, no seu jardim de Adónis, "arruda, angélica, erva-viperina, manjerona, trevo, rosas, violetas e lírios" - segundo a minha tradução a partir da que foi feita por John Wilson em 1668. A lista proposta por Álvaro Ribeiro (Guimarães Editores) coloca entre as primeiras "o asfódelo, malva, esquila, lupino e favas" e, entre as segundas, "moli, panaceia, nefentes, amaracus, ambrósia, lótus, rosa, violeta e jacinto". Os nomes propostos por Álvaro Ribeiro são, de longe, mais poéticos. Principalmente porque ninguém os usa. Sei que esquila (além de significar "tosquia") é, de facto, um tipo de cebola (cebola-albarrã - valha-nos o Santo Houaiss). Mas entre narcisos e asfódelos (sem acento na edição que tenho entre as mãos), pouco há de semelhanças, a não serem as ressonâncias mitológicas (os Campos Elíseos teriam uma grande profusão de asfódelos, se formos a confiar em Homero, na "Odisseia"; e o narciso, esse, era o tal que sofria de Filáucia*). Quanto a nefentes, tanto quanto sei, são plantas insectívoras e cujo cheiro pouco terá a condizer com o jardim de Adónis. A moli é uma planta fictícia, também referida na Odisseia, capaz de dissolver feitiços, como o perpetrado por Circe aos companheiros de Ulisses, transformados em porcos e que é considerada a planta que se opõe ao lótus, aqui colocada no mesmo rol. Panaceia, além da cura de todos os males, pode ser também o nome do Solanum cernuum ou Solanum martii, conhecidos respectivamente por Braço-de-preguiça e Braço-de-mono, mas duvido que Erasmo, ou qualquer outro europeu as conhecesse na época (e hoje, ainda assim...). Ambrosia é também do rol da mitologia - néctar de que se alimentam os deuses, ainda que também exista um género botânico com o mesmo nome, além da erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides) que também aceita a olimpíaca designação. Finalmente, amaracus será o mesmo que amáraco ou orígano (do tipo dos orégãos, para não complicar).

Não poderei dizer muito quanto à simbologia de tal jardim (e da sua antítese) - a não ser que a inutilidade das primeiras é uma simples ironia. Mas prometo que vou investigar.

Estão dadas as pistas. Ajuda será bem vinda.

*Amor-próprio, no código proposto por Erasmo.

P.S. Esqueci-me de dizer que lupino é o mesmo que tremoços.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:58
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Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006
Pormenores - Pia Baptismal da Sé de Braga


Logo à esquerda de quem entra pela fachada norte da Sé de Braga, está a sua pia baptismal, de estilo manuelino. A sua base tétrica assenta em cabeças toscas de leões a devorarem corpos humanos e a concha está coberta de "putti" entrelaçados com ramos de carvalho carregados de bolotas. Mas o pormenor que mais me intriga é o desta pequena composição, desgarrada do resto pela erosão do tempo. Não sei se fará referência ao martírio, como a ensanguentada base, se ao terno acto da amamentação, se, apenas, e obviamente, ao baptismo. A primeira vez, pareceu-me uma pietá - a cabeça do corpo deitado cai para o lado, como sem vida, mas isso é desmentido pela mão que agarra o ombro da personagem de cabelo comprido. Perante a indefinição, rendi-me ao óbvio. A personagem do ápice estaria simplesmente a preparar a debaixo, de contornos perfeitamente infantis, para o sacramento do baptismo - forçando a cabeça a inclinar-se, enquanto o corpo da criança, surpreso, recusa separar-se do colo supostamente protector (da mãe? do sacerdote?). A mísula que lhes serve de base seria, pois, a pia baptismal. Mas fico decepcionado com a explicação. Até que volto a olhar para os leões da base e para os membros que se contorcem debaixo das suas patas e bocas bestiais e penso em Abraão com Isaque pronto a ser imolado. Penso na criança a debater-se e a recusar ocupar o lugar da rês sacrificial. E penso na bestialidade de um pai que, tendo fé em vozes ou visões, se prepara para derramar o sangue do filho sobre o altar. E a pura água corrente do baptismo parece macular-se, então, como fonte nascida na base de um matadouro.
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publicado por Manuel Anastácio às 13:23
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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2006
Buscas pedidas - "Ribeira da Brunheta IV"


Chego finalmente ao velho casario da Ribeira da Brunheta. A aldeia viva, em si, não é aqui, mas, para mim, não existe outra. Sinto-me um pouco incomodado em verificar que este passeio veio apenas tornar em mim ainda mais pungente o nefasto sentimento do saudosismo. Mas, por outro lado, há que olhar para estas ruínas, para estas estruturas de adobe e vigas de madeira derruídas como um testemunho necessário para o futuro. A máxima cristã da necessidade da morte para que se viva - o mito da fénix renascida - pode ainda dar frutos neste chão queimado. É preciso não pararmos no romantismo das ruínas nem na nostalgia anémica das recordações. Mas, infelizmente, ainda resta por aqui a noção de que arrasar para construir (sem qualquer pretensão de reconstruir) é mais barato. Uns barracões de chapa de zinco, mais acima, devorados pelas chamas, fazem-me pensar no que será melhor: o completo abandono das terras ou a sua desfiguração completa. É que, apesar de pouco restar, a face viva do passado ainda é reconhecível. E seria uma pena que sobre ela apenas recaísse a erosão do labor inconsciente de quem não dá valor às pequenas coisas.



Por quanto tempo ficará aqui esta oliveira sobranceira ao jardim abandonado? Não será substituída por uma geneticamente formatada pelos padrões míopes da economia agrícola europeia? Por quanto tempo deixarão estas adelfas crescerem sem peias à sua sombra? Estas adelfas que, provavelmente, são irmãs das que cresciam em volta da Capela da Senhora do Tojo, no alto desta aldeia - e onde o meu passeio não se chegou a prolongar. As adelfas da Senhora do Tojo, local de uma aparição caseira, já não existem. Um incêndio reduziu-as a cinzas.



Deixo-me, então, encantar pelos recantos poéticos do que resta, esperando que outra poesia venha a substituir o encanto da degradação. Que estas mesmas escadas sejam pisadas por pés conscientes e com vontade de substituir os fetos e as silvas pelo fruto do trabalho responsável.



Mas que permaneçam estas pedras em consola...



... quando estas voltarem a ser consoladas por uma mão humana...


... que saiba respeitar o Paraíso. Ou reconhecê-lo em sonhos, pelo menos.
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publicado por Manuel Anastácio às 16:17
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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2006
Fantasma rasteiro

Sou um indefectível adepto da série "Perdidos". Confesso que também espero, com a mesma curiosidade atroz, o desfecho do Harry Potter - essa série de livrinhos que tive alguma relutância em pegar, até que devorei em quatro dias os primeiros quatro e tive, depois, de penar pelos outros dois. Com todos os defeitos que tenham, constituem uma história muito bem contada - e não sou daqueles que só atribuem mérito à colecção por ajudar nos hábitos de leitura da criançada. Quanto a "Perdidos", a história é semelhante - não liguei a mínima durante a primeira série. Comecei a aperceber-me do puzzle apenas a meio da segunda série e, depois, lá consegui ver todos os episódios numa ordem algo aleatória, mas sem prejuízo para a compreensão de algo que vive de um mundo fragmentário.

Um dos mistérios da série consiste num fumo negro ameaçador e dirigido sabe-se lá por que vontade. Ao que parece, já Michael Crichton inventara algo semelhante, composto por milhares de nanorobots. Os argumentistas da série juram a pés juntos que este fumo é diferente. Seja ou não (provavelmente, a explicação será simplesmente decepcionante), quando ia a caminho da Ribeira da Brunheta fui acometido por um fumo semelhante, mas amarelo. A nuvem ficou ali, parada, à minha frente, imobilizada sob a torreira do sol.

Não sei o nome desta erva rasteira, seca. Mas que tem um aspecto fantasmagórico, tem. Na verdade, é simplesmente composta por uma filigrana de hastes finas encimadas de frutos esféricos minúsculos. Tentei fotografar em pormenor, mas a minha pobre máquina fotográfica não tem olho para essas coisas. Fica assim mesmo.
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publicado por Manuel Anastácio às 16:33
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Terça-feira, 22 de Agosto de 2006
Pomenores - O músico do portal da Sé de Braga

Encontrei, hoje, este músico na arquivolta exterior do portal românico da Sé de Braga. Mais discreto que os Faunos do órgão (identificados pelos locais como os "mouros" que teriam construído a Sé!!!!), tem na mão um instrumento de corda, tocado com um arco realmente arqueado. Não sei o nome do instrumento. Alguém me ajuda? Na falta de melhor, chamo-o simplesmente de rabeca - violino não é (não será?).

Gosto do pormenor da pequena orelha redonda deslocada, do nariz recto e da boca aberta em canção surda. Mas os pés em movimento, subindo um degrau, num jogo entre o que está dentro e fora da composição revelam bem que é na pedra lavrada que temos de descobrir as origens do cinema...

... sonoro e a três dimensões.
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publicado por Manuel Anastácio às 01:14
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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2006
Historinha pouco infantil

Sonho, ilustração de Carla Cristiana de Carvalho para um conto por escrever. Segue-se uma tentativa.


- Sabes que árvore é esta?
- Não.
- E esta?
- Não. - e bocejou.
- Não gostas de árvores?
- Nem por isso, o que é que há para gostar? Árvores são árvores. - olhou para elas como se fossem a chatice petrificada.
- Claro, árvores são árvores. E isso não é pouco...
- Eu sei, eu sei, isso do oxigénio e do aquecimento global. Até vomito quando o meu professor de Ciências começa a falar nisso.
- Pois. São muito importantes por causa disso. Mas não só. Além da sua beleza própria... Repara como são diferentes umas das outras. Esta aqui, um carvalho, é da mesma espécie que aquela ali... As folhas são parecidas, os frutos são da mesma forma e o pólen de uma pode fertilizar a outra. São da mesma espécie. Não fazemos ideia se podem comunicar uma com a outra, mas sabemos que são da mesma espécie porque, ao darem fruto, provavelmente, o fruto de uma é o fruto da outra, sem que a outra o venha a saber alguma vez.
- E as árvores sabem alguma coisa?
- Claro que sabem. Duvidas? Poderá haver algo mais ignorante que uma semente? Mas a semente sabe quando deve germinar. Sabe que deve espreguiçar a raiz para baixo e que as folhas devem abrir apenas quando romperem a terra, em direcção à luz. E, depois, quem somos nós para não crermos que as árvores possam ter memórias?
- Isto é um carvalho? - e estendeu a mão a um ramo, de onde arrancou uma folha, como se fosse a madeixa que tinha pedido no dia anterior à menina da carteira da frente. Hoje saíra com o irmão só para fazer o jeito. Não estava com grande paciência para observar insectos, lagartas, ervas ou outras excentricidades que noutra altura o teriam deliciado. O irmão tinha histórias para cada pedra, para cada nome. Mas hoje acordara apenas com a dor no estômago de quem ainda não recebeu a resposta que espera. Carvalho era o apelido da menina da carteira da frente. Aquela a quem metera um bilhete meloso com meia dúzia de frases de que agora se arrependia - podia ter dito tudo muito melhor, se tivesse pensado um pouco mais. Até a letra lhe tinha saído tremida. Só pensava no ridículo. Estava mesmo a ver-se a chegar à escola no dia a seguir e ela a rir-se à socapa (ou, pior, abertamente - com os colegas a passarem o bilhetinho uns aos outros) com as amiguinhas irritantes.
- Sim, é um carvalho alvarinho. - disse, enquanto colhia uma flor de camomila e logo se arrependia do gesto egoísta.
- Gosto de carvalhos.
- Gostas? Se nem sabias que era um carvalho...
- Hoje passo a gostar.
Sentaram-se num muro sobre estolhos de hera.
- Passas a gostar?... - sorriu. - Estás apaixonado?
O irmão sorriu para os pés.
- Estou... E daí?
- Então, talvez venhas a dar mais valor às árvores do que pensas. As árvores estão geralmente associadas a histórias de amor. Histórias felizes e histórias trágicas. Houve uma Báucis e um Filémon que se tornaram árvores por vontade dos deuses - uma tília e um carvalho nascendo do mesmo tronco. Houve amantes que uniram o seu sangue ao das árvores, como Píramo e Tisbe, por quem as amoras se vestem de luto... E outras... Houve até uma Madame Bovary que julgava amar quando apenas olhava para os ramos hesitantes da floresta...
- Julgava amar?
- Sim... É complicado. É uma história difícil de explicar. - e sorriu envergonhado por ter tocado em algo que não poderia explicar em maior detalhe - Não como as duas primeiras histórias.
- E todas as histórias de amor têm árvores?
- Tenho a impressão que sim.
- Tu e a tua namorada também têm uma árvore?
O irmão corou. Pensou nela, na varanda, a regar as flores.
- Quem te disse que tenho uma namorada? - perguntou, com falsa indignação.
- Ninguém. - respondeu o irmão, voltando a pensar na carteira da frente...
- Não temos... ainda. Mas havemos de ter.
E o irmão assentiu com a cabeça
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publicado por Manuel Anastácio às 01:33
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Domingo, 20 de Agosto de 2006
Buscas pedidas - "Ribeira da Brunheta III"


Depois da curva vejo, finalmente, a Ribeira a atravessar a estrada. Creio que seja esta a ribeira que dá nome à povoação. Agora é um fio de água. Era o caudal maior quando  a estrada era apenas um carreiro de cabras. Era aqui, quando ainda não havia água canalizada,  (e no Vale Feixo - em Carvalhal) que as mulheres de Carvalhal Baixo lavavam  cestas de roupa.



Lembro-me bem das ervas cobertas de lençóis brancos e das mulheres torcendo-os aos pares.

Onde há, agora, apenas cascalho, dispunham-se as grandes lajes onde a roupa era ensaboada. Até as pedras parecem ter sumido da paisagem.



Era também aqui que, castigados pela sede, nos debruçávamos sobre a corrente (fazíamos cruzes com as mãos sobre a água e repetíamos  ''água corrente não mata gente'' - toda a gente sabe que o que rima é, na mente popular, sempre verdade) e dela bebíamos. Mas tanto a água é agora outra, como o homem que nela banhou os pés. Heraclito chora.



Depois de atravessar a estrada, a água esconde-se por uma pequena represa totalmente coberta de junco e outras higrófilas que se estendem vale abaixo em terrenos mais ou menos pantanosos e cuja fertilidade era proverbial. Mais algumas curvas acima, estarão as casas ricas dos fazendeiros de outrora. Não estou à espera de as encontrar inteiras. Mas é para lá que me dirijo, acompanhando o curso escondido da seiva que me molhou os pés.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:26
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