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Domingo, 30 de Julho de 2006
Buscas pedidas - "Manuel Anastácio assassinos"

Assassinatos na rua Morgue, ilustração de Aubrey Beardsley (1872 - 1898) para o conto homónimo de Edgar Allan Poe

Já aqui falei sobre alguém que entrou neste blog depois de procurar por "Manuel Anastácio assassinos". A primeira suposição é de que alguém tinha a esperança de encontrar o meu nome em alguma lista dos mais procurados pela interpol. Pois bem, os únicos Manuéis Anastácios que encontro na Internet são, além da minha excelentíssima pessoa, que ocupa a grande maioria das páginas apresentadas pelo motor de busca (a vaidade humana não tem limites):

a) um antigo aluno da Universidade de Évora licenciado, em 2005, em Economia;
b) o presidente da Junta de Freguesia de Parreira, na Chamusca (que terá sido um craque na bola);
c) um professor pertencente à comissão de honra da campanha de Manuel Alegre;
d) o director adjunto do planeamento e desenvolvimento patrimonial da Administração do Porto de Lisboa;
e) o autor do livro "Espécies florestais de madeira branda nativas da Bahia";
f) um engenheiro civil que vive numa moradia bioclimática, na Charneca de Caparica, com a mulher e os dois filhos;
g) um aposentado brasileiro de 70 anos, técnico de massagens;
h) um atleta amador da Atouguia da Baleia;
i) segundo o Diário da República, um Director Adjunto da DP (não sei o que seja a DP);
j) um senhor de Cabo Verde, conhecido como Nhonhô, falecido num acidente de viação;
k) o director da Director Besleasing e Factoring - Instituição Financeira de Crédito;
l) o dono de um ponto de venda da Grundig, na Madeira (Camacha).

 Acho que é tudo, excluindo os Ricardos Manuéis Anastácios, os Vascos Manuéis Anastácios e outros cujo primeiro nome não é Manuel. Ora, da lista não consta nenhum assassino. Valha-nos isso.

Mas, refazendo a busca no Google, ficaremos mais elucidados quanto ao que o nosso visitante pretenderia: de facto, tirando uma referência ao post do blog Anarc@s&Lib€rais?#!, onde se refere esta mesma problemática (e que subiu imediatamente para o terceiro lugar na lista do motor de busca), o googleante podia estar, simplesmente, à procura do post onde falo da seita dos assassinos... Mas não é essa a minha convicção. Creio que o indivíduo deve pertencer à seita dos Fairusistas, da Wikipédia. Para quem desconhece esta guerra - existem duas facções de Wikipedistas: os que defendem que devemos aproveitar a doutrina legal norte-americana do Fair Use, de modo a ser possível inserir nos artigos do projecto conteúdos (imagens, principalmente) protegidas por direitos de autor; e aqueles que só conseguem conceber a Wikipédia constituída apenas por conteúdos livres, de modo a facilitar a sua disseminação - facção a que pertenço. Passo a copiar a resposta que dei, um dia a um wikipedista que não compreendia esta minha posição:

Nem sequer são as razões legais as que deviam contar na decisão, mas as de carácter filosófico e de princípios. Queremos a Wikipédia como um conjunto de saberes e conteúdos livres, acessíveis directamente a todos, facilmente disseminada (o que inclui, também, ser vendida - desde que o vendedor não proiba a livre cópia e desenvolvimento dos conteúdos), ou uma Wikipédia mais completa, com mais imagens (algumas das quais seriam, de certeza, bastante úteis e informativas, não o nego) mas que não se distinguirá de qualquer outro site da Internet porque os seus conteúdos deixarão de ser totalmente livres? Com conteúdos não livres, estaremos a providenciar uma mentira, acima de tudo: estaremos a dizer "estes conteúdos podem ser livremente usados", quando não podem. Estaremos também a fomentar a irresponsabilidade de usuários que não entendem o sejam direitos de autor e que usarão o pretexto do Fair Use para minar ainda mais a credibilidade da Wikipédia. As discussões sobre o que será ou não Fair Use enterrarão ainda mais a Wikipédia em burocracias que castram por completo a capacidade criativa dos usuários, presos a questões legais (porque aceitar o Fair Use não irá descomplicar, mas complicar - porque o Fair Use não significa "poder usar qualquer conteúdo desde que para fins educativos", como sustentam os a favor - de facto, tal como na Wikipédia em inglês, cada caso terá de ser visto isoladamente para verificar o quão legítimo é o seu uso - resultado: ficaremos entupidos com material violador de direitos de autor que não poderemos apagar de imediato porque ficará numa enorme lista de espera de material supostamente usado de forma legítima). A sua adopção fará com que artigos, já ilustrados, não mereçam a atenção de possíveis criadores de conteúdos livres (alguém se dará ao trabalho de arranjar material ilustrativo livre, provavelmente menos apelativo, quando um artigo já está belamente ilustrado com conteúdos não livres????). (...) [este assunto] envenenou por completo a Wikipédia em português - tornando-a de um passatempo edificante e um prazer, um centro de amargura, traições, falsidades, hipocrisia e terrorismo psicológico. Talvez não tenha seguido o início desta discussão. Foram os Fairusistas quem começou a minar a esplanada, depois de uma votação clara sobre o assunto, chamando todos aqueles que tinham até então dado o seu melhor pelo projecto, de ditadores, espalhando mensagens de arrogância e desrespeito pelas ideias dos outros... Não tenho a menor dúvida (nem sequer uma pequena ponta de dúvida) de quem tem sido mais prejudicial à Wikipédia, ainda que ambos os lados se tenham expressado de forma menos própria. Espero, apenas, que, com o tempo, consiga separar o trigo do joio. Claro que espero manter contigo uma relação frutífera e amigável. E é como amigo que lhe peço para pensar sobre o assunto. Ler tudo o que já foi escrito (até as coisas "reprováveis" - somos humanos e perdemos por vezes a cabeça, mas quem não utilizou já linguagem menos própria quando vê os seus sonhos ameaçados pela inconsciência e irresponsabilidade dos outros?). Abraço grande, mesmo que um dia venha a contribuir para que este meu sonho, de uma Wikipédia livre, seja derrubado por algo tão fútil como o uso de conteúdos que não servem aqueles que deviam ser os nossos principais objectivos (a liberdade de disseminação dos conhecimentos). Como já disse por várias vezes: sou a favor da liberdade na Wikipédia, até da liberdade de a arruinarem adoptando políticas irresponsáveis e que negam os seus princípios fundadores. (23 de Abril de 2006)

Ora, nisto tudo, onde entram os assassinos? Simples, no calor do debate, deu-me, a certa altura, para chamar de criminosos e assassinos a todos os Fairusistas. Mantenho a ideia de que são assassinos, de facto, mas assassinos de ideias - mas deixei-me de tais discussões, até porque a hipocrisia e os paninhos quentes constituem, talvez, o pior da Wikipédia, na sua vertente de "comunidade". Seja como for, a facção dos Fairusistas é, em termos gerais, composta por provocadores. Os usuários novatos bem intencionados acabam por riscar o seu nome da lista à medida que se vão percebendo do género de gente a que estão a fazer companhia. O nosso amigo estava, portanto, muito provavelmente, à procura de provas que me incriminassem como "vândalo" e "difamador", até porque, apesar de andar ultimamente arredado daquelas paragens, ainda sou considerado por alguns como "o Papa" anti-fair-use... Creio que está explicado o mistério.
publicado por Manuel Anastácio às 21:18
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Sábado, 29 de Julho de 2006
A Bela Adormecida

O grande dragão vermelho e a mulher vestida com o sol, de William Blake (1757 - 1827), Nova Iorque, The Brooklyn Museum of Art

Enquanto ela dormia, nem sempre lhe ficava a velar o sono. Sabia sempre que ainda dormia enquanto percorria cada uma das salas abandonadas onde a única brisa, suspendendo eu a respiração, só podia vir da sua respiração compassada. Creio que só eu conseguiria ver a subtil ondulação dos velhos cortinados.  As janelas estreitas que acompanhavam as salas dispostas em volta de um único claustro desnivelado eram os únicos vultos a acompanhar-me na espiral da nossa solidão. Quando a deixava, no quarto do topo, depois de sentir que os seus olhos amainavam depois da tempestade de algum pesadelo, saía para uma pequena varanda sobre o recinto interior e descia a primeira volta da espiral - o único local onde conseguia olhar o céu e, onde, por vezes, sentia o vento e a chuva que escorria até ao fundo, acompanhando o meu percurso até à entrada da primeira sala, junto à grande porta de entrada, por onde se escoava por um orifício. Por vezes, encostava o ouvido ao pequeno ostíolo e parecia ouvir de novo a respiração dela, sabendo bem que não podia ser, porque se a água desaparecia por ali, não ia, com certeza, em direcção ao quarto mais alto. Mas o ritmo parecia o mesmo. Regular, como um peito cansado e sem esperança. Depois, subia de novo pelas salas que se sucediam em corredor, até à útima, no alto. Deslizava então para o seu lado e parecia que nunca a tinha conhecido de outra forma. Queria que se virasse para mim, me olhasse nos olhos e me contasse o sonho que tivera enquanto me levantara da cama. Mas dos seus sonhos só me falava através da pele que se arrepiava contra o meu ventre frio e pela suspensão imediata da sua respiração, como se estivesse em pânico. Afastando-me, novamente a respiração parecia retomar o seu caminho circular.

Foi num dia em que me preparava de novo para me colocar ao seu lado, observando os movimentos ondulatórios sob os seus olhos fechados, em que a toquei e de novo lhe senti o corpo a retrair-se de frio, que a dor me obrigou a sair, não a fosse acordar e perturbar com as convulsões que me obrigavam a torcer o corpo em todas as direcções. Da varanda sobre o pátio interior só conseguia ver as nuvens, adivinhando chuva, vagamente, muito vagamente, iluminadas pela aurora. Rastejando pelo chão, sentia o meu corpo a rasgar-se contra as irregularidades da pedra do chão. Assim me arrastei até ao fundo da mansão negra, onde, por uma fresta da grande porta, consegui ver os restos abjectos do meu corpo ainda pendentes, como estandartes esfarrapados sobre o corpo desmembrado de um soldado. Acometido por uma febre insuspeitada, que parecia tomar-me conta das veias inflamadas, voltei a subir as salas, na fúria silenciosa com que arrancava, como podia, cada pedaço de carne putrefacta que teimava em crescer insidiosamente em volta de um novelo de angústia e calor crescente. As paredes manchavam-se de sangue escuro, e o chão, atrás de mim, estendia uma passadeira triunfal, escarlate. Quando cheguei junto dela, estava exausto, sujo, escorrendo visco e podridão. A porta da varanda batia com o vento e deixava entrar água em salpicos. Saí e deixei a água escorrer por mim, esperando ficar desfeito, diluído, até desaparecer pelo orifício no fundo do claustro em espiral.

Quando parou de chover, já o sol tinha nascido. Levantei-me, fraco, mas decidido a não descer a espiral húmida. Inverti o percurso habitual e entrei na câmara onde ela continuava o seu sono de décadas. Ajoelhei-me ao seu lado e toquei-lhe na face. Não se retraiu. Como se fosse pele da sua pele. Não era um corpo estranho. Beijei-a. Abriu os olhos, desvelados, escuros, mas brilhantes, ofuscados pela luz que entrava pela porta da varanda. Sorriu, por breves momentos, sobressaltando-se logo a seguir. "O dragão?", perguntou, enquanto se entregava aos meus braços e se preparava para levantar. "Matei-o", disse, apontando para as escamas ensanguentadas que juncavam o caminho através das salas.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:27
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2006
Buscas pedidas - "tony carreira - mesmo que seja mentira - letra"

Fotografia da Fonte luminosa Hakusanpark, em Niigata (prefeitura de Niigata, Japão) por Aney, 7 de Outubro de 2005, foto em GFDL

Um dos divertimentos frequentes entre quem tem um blog é espiolhar o que procuravam os seus frequentadores quando aí caíram, armadilhados pelos resultados do Google. Digo armadilhados porque raramente encontram num blog aquilo que procuram, a não ser que o blog seja do tipo informativo. Claro que quem procura algo sobre plantas no Dias com árvores ou no Amador da Natureza sairá, provavelmente, satisfeito, mas se pararem por aqui, engodados por nomes científicos, serão apenas brindados com poemas obscuros do meu herbário. De facto, tenho muita coisa escrita que poderia agradar a estes frequentadores, mas tenho o hábito de fazer, como Bachelard, a divisão entre o mundo nocturno e o mundo diurno. Tudo o que escrevo de  supostamente objectivo e informativo (que é, em geral, aquilo que se procura num motor de busca), deixo no mundo diurno, a Wikipédia. Insiro o meu contributo na grande vaga anónima da produção e divulgação de conhecimento. Pouco me importa se os créditos se esbatem. Mas se vejo alguns dos artigos que escrevi para a Wikipédia utilizados noutros sítios da Internet, não nego que me sinto orgulhoso, bastando-me ver, no fundo da página "Fonte: Wikipédia - texto em GFDL". Quando fiquei furioso com a brincadeira de mau gosto do Ivan (o Bando) do Begueiro, que pretendia provar como o sistema Wikipédia é frágil (como se fosse preciso provar algo de tão óbvio), escreveu-me ele:

Nunca foi meu interesse denegrir a imagem da wikipedia perante os seus utilizadores, mas apenas mostrar a meia dúzia de pessoas como é relativamente fácil inserir artigos na mesma. sinceramente, pensei que palavras como "begueiro" "pica da refer" e "pantufada" nunca fossem motivo de pesquisa de algum utilizador e que os artigos seriam esquecidos em caves poeirentas...

claro que, para mim, este género de brincadeira é inadmissível. Mas o Ivan teve o bom gosto de parar de fazer publicidade ao seu feito no citado blog, retirando o post da polémica. E descobriu, espero, que os seus artigos piadéticos foram devidamente varridos da Wikipédia que, graças aos utilizadores, é tudo menos uma cave poeirenta. Há por lá muita coisa podre, não o nego - vejam o excelente artigo da New Yorker para compreenderem as virtudes e os defeitos da Wikipédia - mas poeirenta... duvido... Ora, o Ivan dizia ainda que "o esforço de várias pessoas em criar uma"utopia" podia ser melhor utilizado em artigos em revistas de várias especialidades ou outro tipo de publicações, como blogs, etc.". Esta frase do Ivan mostra bem como desconhece os reais objectivos da Wikipédia. As revistas de várias especialidades são óptimas, mas onde é que a Utopia entra? E num blog? Simples, não entra. São esforços individuais, legítimos e necessários, mas com objectivos claramente diversos dos da Wikipédia: providenciar livre acesso e distribuição a conteúdos e à sua correcção por todos, em busca de uma formulação não dirigida por pressupostos parciais de nível ideológico, religioso ou outro. Enfim, tudo isto para dizer que a minha fé nesse projecto é suficiente para nele continuar a escrever tudo o que seja puramente divulgação e informação. É nele que deposito a minha "obra diurna" e assim sempre o farei a não ser que alguém me encomende uma qualquer obra de divulgação e me pague devidamente.

Contudo, o meu mundo nocturno não tem lugar na Wikipédia. É o meu mundo parcial, motivado pelos meus gostos, pelas minhas ideias, pelas minhas preocupações, pelos meus sonhos e afectos... Um comentarista dizia, há alguns posts atrás, que este blog era "tão «letras»! Tão váculo que até repele. Mas não se preocupe, está em boa companhia com o resto do país e das suas elites..." - ora, não sei o que este senhor pretendia, ao certo, dizer com "váculo" ou com "letras". Mas queria dizer, com certeza, que o meu lado nocturno em nada o encantava. Está certo. Mas se, por outro lado, pretendia dizer que não faço nada de útil (isto é, se pretendia expandir para a minha pessoa a vácua inutilidade do meu blog), é porque desconhecia que, por exemplo, me dediquei várias horas a escrever sobre afídeos, sobre orcas e poinsétias.  Que me dediquei à divulgação da história de Portugal escrevendo sobre Censura em Portugal, sobre o Estilo manuelino e Gil Vicente. Que escrevi (e semi-traduzi) artigos que me parecem bastante potáveis sobre sistemas de datação, sobre Cinema Western, além de biografias como as de Dante Alighieri, Charles Dickens, Molière, William Butler Yeats, Eusébio de Cesareia e Franz Schubert, entre outras centenas de artigos onde contribuí como pude. Todos estes temas, um tanto ao quanto díspares, exigiram-me várias horas de consulta e de escrita. E, tanto quanto me parece, o facto de ter depositado estes textos na Wikipédia só os valorizou pelas melhorias que receberam posteriormente e que não seriam efectuadas se estivessem apenas neste blog. Se não tenho grandes presunções quanto às elocubrações nocturnas que aqui semeio, acredito que cada contribuição minha na Wikipédia tem um inegável poder germinativo. Sempre vi o projecto como semente e nunca como fruto. É isso que os detractores da Wikipédia não compreendem quando discursam antolhados pelas portas abertas do projecto.

Entretanto, sempre que vejo que alguém aqui caiu de pára-quedas, empurrado pelo Google, e saiu de mãos a abanar, fico sempre com alguma pena da pessoa. Mesmo que a pessoa tenha entrado à procura de algo que não é, de forma alguma, suposto encontrar aqui. Também antevejo como interessante a reflexão sobre o motivo que terá levado alguém a escrever na barra de busca "Manuel Anastácio assassinos"... Será que existe algum assassino com o meu nome? Credo!...

Mas, para começar, vamos lá dar ao povo o que ele pede. O meu blog aparece (hoje) em sexto lugar nas buscas do Google para "tony carreira - mesmo que seja mentira - letra"... Ora bem, isso é fácil. Não vou comentar o valor poético da letra desta canção (que por estranha coincidência, estava a passar há pouco na SIC), mas não me custa nada copiá-la para gáudio do próximo frequentador que aqui chegar por engano:

Não
Não me digas que pensas em partir
Não
Não me fales no adeus, em te perder
Sim
Não te importes até de me mentir
Eu prefiro me iludir
Do que sofrer

Não
Não me digas que p´ra ti acabou
Não
Não me fales que há outro p´ra quem vais
Sim
Faz de conta que eu sou quem já não sou
Deixa-me ao menos sonhar
 
Um pouco mais
Diz-me que nao sais da minha vida
Mesmo que seja mentira
Mesmo que seja por dó de mim
Diz-me tudo menos a verdade
Talvez um dia mais tarde
Mas por enquanto é melhor assim
Por isso mente-me até ao fim
 
Não
Não me faças já sofrer esta dor
Não
Continua a fingir que nada foi
Sim
Por aquilo que a gente já passou
Deixa-me ao menos sonhar
Vai só depois
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publicado por Manuel Anastácio às 16:47
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Quinta-feira, 27 de Julho de 2006
Ono no Komachi - Outono III (Fim)

Luar, de Thomas Cole (1801-1848)

Ao ver o luar
Derramando-se entre as árvores
O meu coração, repleto,
Transborda de Outono.


(Versão de Manuel Anastácio
de um poema de Ono no Komachi,
a partir de uma tradução de Hirshfield & Aratami)

E, assim, termino as minhas (sub)versões de poemas de Ono no Komachi.
publicado por Manuel Anastácio às 17:25
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Quarta-feira, 26 de Julho de 2006
Mexilhões de cebolada


Pois bem. O mexilhão. Molusco de aspecto obscenamente sugestivo, efemeramente imortalizado (passe a antítese) pela música pimba ("mexe, mexe, mexe... Mexe, mexe, ó mexilhão... Tu gostavas tanto, não queiras dizer que não!..." - interessante a alternância entre versos de cinco e de sete sílabas métricas ) e pela grande poesia ("O mar bate na rocha... O mar bate na rocha... O mar bate na rocha... E quem se f*** é o mexilhão"). Coitado do bicho. Não tem culpa do cacofónico nome que tem na língua de Camões nem dos tristes usos de que é alvo. Depois, é petisco que nem sempre é devidamente servido. Quando comprado congelado, sem concha, tem tendência a ficar emborrachado e seco... Quando comprado vivo, tem uma triste aparência, coberto de estruturas calcárias segregadas por estranhos vermes marítimos e cracas-ou-lá-o-que-é, que, com certeza, constituirão belas composições para quem as procura entre a praia do forte e a praia de mil regos, na Ericeira, mas que seriam simplesmente abjectas num prato.

Lembro-me (aqui vem a "madalena" do post de hoje, em sentido próprio) de comer, com a Carla Cristiana, uns deliciosos mexilhões de cebolada, de entrada, no restaurante do Monte da Madalena, em Ponte de Lima. Um restaurante lindo, entre árvores ainda mais bonitas, onde o Alvarinho rimava com carinho, mas que tinha uma sobremesa simplesmente pavorosa com chila, leite creme e passas de uvas, numa mistela absolutamente imperdoável para a conta servida no final. Chamava-se "Delícia Madalena", a pouco deliciosa mistela. Mas os mexilhões ficaram na memória. O Alvarinho não. Ficou apenas a nublar a memória. Era a sua função. A minha irmã bem o sabia quando namorava com o meu cunhado. Sabe-se lá o que as videiras da tia Augusta teriam aprendido em conversa com as garrafas que os dois para lá atiravam. Desculpem-me a piada privada. Privada mesmo, que a minha irmã não deve ler o meu blog, penso eu de que...

Pois bem. O grande problema dos mexilhões é mesmo deixá-los com uma aparência aceitável. Dois quilos de mexilhões é muita concha a raspar (com facas duras, que devem arrancar a bicharada de raiz). É preciso lavá-los insistentemente e ir cortando as suas barbas verdes e fibrosas que, se não saírem, dão, também, mau aspecto.  Depois, vai um copinho de vinho branco para um tacho, com umas três colheres de sopa de azeite, uma pitada de sal e piri-piri. Quando ferver, os pobres dos mexilhões rapidamente descobrirão que o tormento do mar a bater na rocha era apenas o seu paraíso. O que vale é que o sofrimento não dura muito. Enquanto eles agonizam, salpicam-se com pimenta. Há medida que os pobres univalves se vão rendendo à sua sorte, abrem as conchas e são colocados retirados do tacho. Os mexilhões já abertos, antes de entrar no tacho, também já não devem nele entrar. Mexilhão cru, aberto, é mexilhão morto. E mexilhão morto, só se estiver cozido mesmo... Mas não muito, senão fica seco. Depois, colocam-se três cebolas, três tomates e três dentes de alho, tudo em rodelas, no molho deixado pelo último suspiro dos mexilhões. Tapa-se o tacho e deixa-se cozer lentamente... De vez em quando, abana-se o tacho. Enquanto isso, tiramos uma concha a cada um dos mexilhões. Quando a cebolada começar a apurar, prova-se e rectificam-se os temperos. Em geral, é necessário pôr um bocadinho mais de sal (esperemos que não seja necessário um pouco menos) e, talvez, um salpico mínimo de açúcar para dar cabo da forte acidez do tomate. Quando tudo estiver no ponto, pumba com os mexilhões de volta para o tacho, só para ganharem um pouco de vida...

E servem-se, com vinho verde branco gelado, claro. Se for Alvarinho, melhor... Mas a Retoma ainda não bateu à minha porta. É que Alvarinho rima, mesmo, com carinho...
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publicado por Manuel Anastácio às 23:48
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Terça-feira, 25 de Julho de 2006
Les Mystères de Paris

Gravura de Beaucé e Staal, para a edição das Obras Completas de Eugène Sue, em 1851

Théophile Gautier dizia que os doentes adiavam a morte para poderem ler o último capítulo de "Les Mystères de Paris", de Eugène Sue. Este romance, nascido na corrente da literatura de cordel, foi um best-seller notável. Publicado em fohetim no Journal des Débats entre Junho  de 1842 e Outubro de 1843, a narrativa desenvolveu-se de acordo com a resposta do público, num mecanismo muito semelhante ao utilizado em muitas telenovelas nos tempos que correm. "Os Miseráveis", de Victor Hugo, foi, em grande parte, inspirado pelo modelo d' "Os Mistérios de Paris" - aliás, uma das suas personagens ganha a vida lendo os capítulos dos folhetins de casa em casa. Pioneiro foi, também, o fenómeno das "obras derivadas" e produtos de merchandising que proporcionou - como acontece hoje com "O Código Da Vinci" ou com o Harry Potter - como a publicação de dicionários de gíria e calão que permitissem a compreensão da linguagem dos tapis-francs (espeluncas frequentadas por malfeitores). Eugène Sue não foi um grande escritor, perceba-se. Mas, não constituindo "Os Mistérios de Paris" uma obra prima, sinto uma especial curiosidade sobre este produto pensado para as massas, de acordo com os gostos das massas, numa época em que o socialismo dava o seu grito de revolta e ainda não se acomodava às terceiras vias da nossa contemporaneidade, em reacção aos maus exemplos dos regimes que sobre ele se levantaram. Ainda mais, o romance reflecte a evolução de pensamento do próprio Sue, que não sendo mais que um dandy cioso da sua originalidade chique, pensou, um dia, que ser socialista assentava-lhe melhor que uns botões de punho novos. Era, assim, um socialismo de salão, uma jóia para exibir nas soirées. Mas Sue não esperava que o povo tão prontamente aderisse às personagens e ao enredo. Um operário desempregado chega a pedir-lhe o endereço de Rudolfo de Gerolstein, a benfeitora personagem do romance. Como diz Umberto Eco n' "O Super Homem das Massas", "a partir deste momento, Sue deixa de escrever Os Mistérios de Paris; o romance escreve-se por si só, com a colaboração do público". Um público que ainda julga que é na benfeitoria dos ricos que reside a salvação da sociedade. Bill Gates seria bem capaz de escrever a sua versão moderna. Eu, por mim, vou entreter-me com a versão antiga mesmo.
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publicado por Manuel Anastácio às 16:28
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Arroz-doce


Cem gramas de arroz carolino. Não pode ser agulha, nem vaporizado, nem Basmati nem outra modernice do género. Quando era pequenino, na minha terra, os casamentos não eram festejados em restaurantes nem em quintas (muito menos em solares, palácios ou outras extravagâncias que a Retoma Financeira permite a quem nela acredita). Era tudo muito caseiro. E não se resumia a um dia, mas a uma semana. As mulheres reuniam-se para fazer o inventário das louças, copos e talheres. Por alguma razão todos os serviços de louça da terra tinham pequenas marcas de tinta no fundo, para que, no final, cada um voltasse a casa com os seus próprios pratos, frequentemente lascados nas bordas devido ao tilintar dos beijos pedidos - para os noivos, para os pais dos noivos, para os avós, para os padrinhos, para tudo o que fosse casal (menos para casais de namorados porque as raparigas solteiras não se sentavam durante todas as refeições - eram elas que carregavam a sopa, o primeiro e o segundo prato, os petiscos finais, como a mistela de sangue e fressura a que se chamava "verde", sem que o fosse, e, claro, as sobremesas). Os homens tratavam de armar uma tenda de grandes dimensões, com telhado de rama de eucalipto, chão de junco e postes enfeitados com hera. Ao longo da tenda, mesas corridas, feitas sobre estacas levantadas do chão, ladeadas por bancos compridos. A comida era feita por um conjunto de "cozinheiras" designadas na primeira reunião das mulheres. Os doces eram feitos na semana antes do casamento, proporcionando ocasião para vários jantares comunitários enquanto ainda houvesse preparativos pendentes. O arroz-doce era branco, não levava praticamente nem leite nem ovos e era toscamente bordado com canela por mulheres apressadas que se limitavam a fazer losangos e arabescos esborratados sobre uma superfície que, chegado o dia do casamento, apresentava rasgos como a terra em tempo de seca. Eu, diga-se de passagem, nunca fui grande apreciador do arroz-doce da minha terra, ainda que agradeça o gesto das vizinhas que ainda vão levando um pratinho dele a casa dos meus pais quando por lá paro. Claro que prefiro quando trazem pão caseiro ou as broas das festas, quentinhas, acabadas de sair do forno a lenha. Mas gosto do meu arroz doce, desenraizado, mas com laivos de leite-creme. Não o leite creme daqui do Minho, que parece papa de farinha Maizena... mas o leite creme fica para depois. Gosto do meu arroz doce. Feito com cem gramas de arroz carolino. Ponho o arroz com uma colher de sopa de manteiga, um pau de canela e uma casca de limão (cortada sem a parte branca do limão) a ferver em água medida pelo triplo do volume do arroz. Quando tenho certeza de que o arroz está cozido, junto meio litro de leite quente, devagarinho. Faz espuma a cada adição, e vai-se formando um creme esbranquiçado a envolver os grãos. A cozinha começa a cheirar a canela e a limão - se não tiverem limão, usem erva-cidreira, e verão o efeito que tem... Lembro-me então, da Salammbô, do Gustave Flaubert, e dos cheiros cartagineses, não sei por que razão (de facto, sei, mas não digo). Depois de achar que o creme está a meu gosto, isto é, depois de penar longos minutos a mexer o arroz que demora a absorver o meio litro de leite, junto quatro (ou cinco) gemas de ovos, caseiros claro... Sim, daquelas galinhas que depenicam as suas próprias fezes... não daquelas que se vêm privadas do fruto da sua própria cloaca. Cada animal é como é e a galinha é assim. E os ovos são mais bonitos e amarelinhos se assim forem... E, graças a Deus, já não há notícias de salmonelas há muitos anos. Junto as gemas depois de as misturar com algumas conchas do arroz cozido, para que não coagule logo, claro. Quando sinto a mistura já suficientemente quente - isto é, se não coagulou, também já não coagula, tumba tudo para o tacho e mexe-se. Logo a seguir, 125 gramas (mais coisa menos coisa - se for menos, tudo bem) de açúcar e mexe-se. Põe-se na travessa e mexe-se para ficar tudo niveladinho. Depois, chama-se a Carla para bordar o arroz. Com as suas mãos de anjo (se não tiverem mãos de anjo, também não posso dar a receita) a canela desliza-lhe entre os dedos e reflecte as bordaduras da travessa. O arroz doce deixa então de ser uma sobremesa. Passa a ser uma pequena gravura ovo-láctea de efémero destino. Nenhum arqueólogo lutará pela sua submersão... Ainda bem.
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publicado por Manuel Anastácio às 01:27
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Domingo, 23 de Julho de 2006
Ono no Komachi - A imperceptível cor da Primavera

Otto Marseus van Schrieck (1619 - 1678): Blaue Winde, Kröte und Insekten ("Corriola azul, sapo e insectos")

Em contemplação
Da chuva insistente
Que cai sobre o chão
Também o meu íntimo
Peito empalidece
Perante a imperceptível
Cor da Primavera.

(Versão de Manuel Anastácio de um poema
de Ono no Komachi, a partir de uma tradução de
Hirshfield & Aratami)
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publicado por Manuel Anastácio às 14:50
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Sábado, 22 de Julho de 2006
Campo de centeio sem papoilas

("Eu espero")  "I wait", por Julia Margaret Cameron (1815-1879).

Ainda antes das cinco da manhã. Um galo fazia estremecer-lhe a respiração oprimida como se a manhã gritasse em dores de parto. Daqui a hora e meia, ouviria o despertador do quarto dos pais a repetir a mesma melodia monofónica. Hora e meia. Tão pouco tempo. Tão pouco calor a envolver-lhe o corpo, pequenino como um grão de areia. Tão pequeno. Ainda não tinha dormido nada. Ao lado, um livro da Enid Blyton repousava as páginas já soltas da lombada frágil. Os maus tinham sido presos. A Ana, a Zé, o Júlio, o David e o cão Tim terminavam a história perante um banquete de scones (ignorava o que fosse um scone) com compota de frutos silvestres e manteiga fresca. Se fosse uma daquelas raras tardes em que podia deitar-se a ler à sombra de uma oliveira ou sentado na ladeira do pinhal, interromperia a leitura, esfomeado perante a imagem de tão prosaicas iguarias. Mas eram cinco e dez. Daqui a uma hora e vinte minutos, ouviria o sino electrónico habitado por demónios desgrenhados pela manhã, arrancados dos seus infernais leitos nocturnos. Ao lado, as Pupilas do Senhor Reitor ainda ecoavam xácaras

Andava a pobre cabreira
O seu rebanho a guardar
Desde que rompia o dia
Até a noite fechar.

As redondilhas corriam em letras brilhantes sobre o fundo negro avermelhado dos olhos fechados e pontuavam o decorrer do tempo que faltava para que o vento arrebatasse Daniel e Margarida defronte do campo de centeio onde o reitor os espreitava. Um vento gélido que levantaria os lençóis quentes da história e lhe exporia as pernas ao frio da manhã às calças frias e coçadas. Andava a pobre cabreira pelos montes. O sol nascia e ele fechava os olhos. Desde que rompia o dia. Até a noite fechar-se abaixo das pálpebras e logo ressurgir com a excruciante melodia do fundo do corredor. Não, hoje ninguém o tirará da cama. Poderá dormir mais um pouco e, ao acordar, voltar a revirar as páginas do Júlio Dinis sem sujá-las com pó de cimento seco. Irá continuar assim, deitado. Ninguém vai pedir-lhe para se levantar já.

Ouve pés e água a correr. Portas abrem-se. Uma porta abre-se. A do seu quarto. A voz magoada da mãe não o acaricia hoje. Antes que mais te custe. Pousa a roupa gélida sobre os cobertores. O abismo da luz que se escoa pela porta engole-lhe a esperança. Levanta-se de repente, antes que mais lhe custe. A roupa fria e áspera não parece roupa, é mais uma casca. Desce. O pequeno almoço, sem scones e sem manteiga fresca, cheira bem, cheira a casa. Cheira bem, e é isso que o desespera. Não deveria cheirar bem. Não está certo cheirar bem. Preferia que do prato de cereais se desprendessem vapores sulfúricos e de metano e que nos recantos da cozinha ardessem fogos-fátuos. Mas não. Esses vêm depois. O pai tem a mota a trabalhar. O som ruidoso de metal a estalar rebenta-lhe os ouvidos. Procura um sinal de vómito no estômago. Mas este recusa-se a devolver o que recebeu. Não faz parte dele tal órgão, tão alheio que é àquilo que sente. Consegue, entretanto, enfiar o Júlio Dinis entre a marmita de feijoada envolvida em papel de jornal e as sandes de queijo e chourição. A mota arranca, faz a curva e a rua afasta-se. Seguem-se estradas envoltas em nevoeiro, ramos de pinho e eucalipto. Seguem-se as margens em declive sobre o rio que vai cheio. Os seus olhos fecham-se contra o vento. A noite volta a querer intrometer-se sob as pálpebras. Abre os olhos à força. Agarra-se melhor. Mas a noite é mais forte. O som da mota grita estridentemente a sua xácara de ódio às manhãs que cantam. A noite embala-se nos minutos que faltam para apear-se no pesadelo de um dia inteiro. O rio distende farrapos da noite sobre a superfíce suja do seu caudal. As árvores sucedem-se e a noite cai. Como o seu corpo pequeno, sob a manhã estridente, se abandonou ao rodopiar do chão em declive até ao rio. Não longe de um campo de centeio, até então sem papoilas.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:40
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Sexta-feira, 21 de Julho de 2006
O Jovem Törless


Fotograma do filme "O Jovem Törless", de Volker Schlöndorff, baseado no romance de Robert Musil

"O Jovem Törless" (Die Verwirrungen des Zöglings Törless), o romance de estreia de  Robert Musil (6 de Novembro de 1880, Klagenfurt, Áustria – 15 de Abril de 1942, Genebra, Suíça), em 1906 tem, essencialmente, a forma de um Bildunsroman, ou seja, um "romance de formação". Este género, nascido com Wilhelm Meisters Lehrjahre ("Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister") e que teve dignos representantes na "Montanha Mágica" de Thomas Mann ou no "Retrato do Artista enquanto Jovem" de James Joyce é constituído, igualmente, por retratos autobiográficos onde os autores reflectem sobre as influências que os formaram no que são ou foram de mais essencial. Estes percursos de aprendizagem e descoberta (ou exposição crua ao mistério) fazem caminho entre afectos, ódios, noções de beleza, religião, ocultismo, metafísica, filosofia e perpectivas políticas e éticas. "O Jovem Törless" centra-se na natureza do que chamamos alma e na ambiguidade das motivações humanas. Claro que tem uma forte carga psicológica e política que reflecte de forma crua e incómoda comportamentos que permeiam a história da humanidade. Mas, estranhamente, toma uma posição de aparente indiferença perante o sadismo humano e quase o justifica como um meio, entre tantos, de atingir a lucidez.

Tudo se passa num afamado colégio interno para rapazes. Aqueles alunos são, à partida, a futura elite política e cultural dos seus países. Um destes, Basini, é apanhado a roubar outro colega. Dois alunos, Beineberg e Reiting decidem tomar à sua conta o infractor. O primeiro tem o cérebro povoado de filosofias orientais mal enjorcadas por influência do seu pai, mas tais pensamentos (bem glosados em vários romances de formação, como nos de Herman Hesse) são decididamente insuficientes para Törless, que procura algo de mais claro e perceptível. As concepções tomadas de empréstimo de Beineberg e Reiting resultam apenas em sevícias físicas e sexuais que terminam em experiências psicológicas sobre Basini, cuja alma se torna apenas num objecto manipulável para defender teorias.

Törless sente em relação a tudo uma confusão que não consegue resolver pelo caminho da reflexão lógica. Procura respostas em Kant (sem as compreender) ou no professor de Matemática, depois de os números imaginários bailarem à sua frente, vindos do nada e do ilógico, mas tão logicamente adaptáveis à realidade. Insatisfeito com essas respostas que faltam, Törless segue um caminho paralelo ao dos seus colegas Beineberg e Reiting que termina num lampejo de sabedoria indiferente. É discutível se Törless é, no fim de tudo, mais humano que Beineberg e Reiting ou mais digno que estes. Mas nenhum percurso é definitivo, nem um romance tem a presunção de ser o Evangelho.

Mas a conclusão última de Törless sobre a Verdade é límpida:

"(...) há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O raciocínio que se move na superfície iluminada, que a qualquer instante pode ser conferido pelo fio da causalidade, não é necessariamente o pensamento vivo. (...) Um pensamento - mesmo que tenha passado pela nossa mente há muito tempo - só viverá no instante em que alguma coisa, que já não é o pensar, que já não é lógica, se acrescenta a ele, de modo que sentimos a sua verdade para além de qualquer justificação, como uma âncora que dilacera a carne viva e ensanguentada... Uma grande compreensão só se realiza pela metade no círculo de luz na nossa mente; a outra metade realiza-se no solo escuro do mais íntimo de nós e é, antes de mais nada, um estado de alma em cuja ponta extrema, como uma flor, pousa o pensamento."

(A citação é da tradução de João Filipe Ferreira)

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publicado por Manuel Anastácio às 16:16
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