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Quarta-feira, 31 de Maio de 2006
Ono no Komachi - ritual
A flor-leopardo (Belamcanda chinensis) apresenta bagas negras, envoltas numa túnica que despem graciosamente, parecendo reflectir um ritual japonês traduzido em gestos botânicos. Acreditava-se que vestir roupa às avessas, durante o sono, propiciava sonhos amorosos mútuos.

Quando o meu desejo

Ultrapassa o suportável
Cubro-me às avessas
No negro manto da noite
Como que imitando
Bagas de flor-leopardo.

(Versão de um poema de Ono no Komachi, por Manuel Anastácio, a partir de várias traduções em inglês)
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publicado por Manuel Anastácio às 19:36
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Sonho num dia de Verão
Hoje lá fui com os meus meninos filmar o "Sonho de uma noite de Verão" numa quinta de Guimarães, meio abandonada a não ser dos murmúrios entre o matagal espesso que envolve os jardins. Lá pus os amantes shakespearianos a correrem pelos labirintos, mas fiquei apenas pela metade. Píramo e Tisbe ainda terão de esperar para morrer à sombra destas árvores. Infelizmente, com a pressa, não cheguei a fotografar os meninos. Fica para a próxima.









publicado por Manuel Anastácio às 00:46
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Segunda-feira, 29 de Maio de 2006
Ono no Komachi - madrugadas


Mais dois poemas de Ono no Komachi...

Ter-me-á ele aparecido

Porque adormeci
Pensando nele?
Se então soubesse que estava a sonhar
Jamais teria acordado.

Esta noite de outono
Foi longa apenas em conceito.
Nada mais fizémos
Que nos olharmos em silêncio
E logo veio a madrugada.


... fazendo lembrar Romeu e Julieta:

It was the lark, the herald of the morn;

No nightingale. Look, love, what envious
streaks


Do lace the severing clouds in yonder East.

Night's candles are burnt out, and jocund
day


Stands tiptoe on the misty mountain tops.
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publicado por Manuel Anastácio às 19:46
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Domingo, 28 de Maio de 2006
Quem queima livros...


No século XI, na Pérsia, foi fundada uma seita muçulmana dirigida por Hassan Sabbah que, com sede na cidade-fortaleza de Alamut, aterrorizou o Império Seljúcida com acções homicidas e, simultaneamente, suicidas. Os sectários eram incubidos de matar os adversários em local público e, depois de o fazerem, entregavam-se docilmente à ira dos assistentes que prontamente os esquartejavam. O nome da seita deu origem às palavras “assassino” e outras semelhantes em várias línguas europeias. Desde Marco Polo que se acredita que o termo provém de “haxixe”, por “haschichiyun”, que significa “fumador de haxixe”. A forma como se entregavam à morte não era claramente compreendida pelos seus contemporâneos, principalmente por parte dos ocidentais, que julgavam que tais actos só poderiam ser explicados pelo uso de drogas que elevassem o sentimento político e religioso a tais extremos. De facto, sabe-se hoje que o termo provém de  “Assass” – o seja, “os fundamentos” da fé islâmica. Os assassinos não eram, portanto, nada mais que fundamentalistas, no sentido próprio da palavra.

Acontece que o seu fundador, Hassan Sabbah, além de sanguinário era também um dos homens mais cultos da sua época. Conhecia pormenorizadamente a filosofia aristotélica e os comentários feitos pelos eruditos árabes, as obras de referência da medicina, da Ciência em geral e, claro, da religião. Por isso, Alamut, além de uma cidade inacessível e preparada para longos cercos, fazendo lembrar o urbanismo próprio do “Senhor dos Anéis”, era, também, detentora de uma das mais completas bibliotecas da Idade Média. No século XIII, depois de 160 anos de invencibilidade, a cidade rendeu-se a Hulagu, neto de Gengis Khan, que decidiu destruir tudo. Sem deixar pedra sobre pedra. A biblioteca não foi poupada, juntando-se ao rol interminável de braseiros alimentados por papiros, pergaminhos e alfarrábios onde a humanidade, em vão, tenta retratar-se. O príncipe ainda decidiu dar mostras de alguma magnanimidade ao permitir a um historiador, Djuvayni, encher um carrinho de mão com o que pudesse antes de reduzir o resto a cinzas. Este, sunita fervoroso, encheu praticamente todo o carrinho com os exemplares do Alcorão – acto, quanto a mim, de uma impiedade sem precedentes. De facto, se a palavra de Deus é eterna, por que salvar umas dúzias de exemplares, quando se poderiam salvar outras palavras que, não sendo eternas, por isso mesmo, deveriam ser preservadas?

Claro que poderia falar do imperador chinês que mandou queimar os livros escritos antes de si, para ter o privilégio de inaugurar a própria História. Claro que poderia falar do fim da biblioteca de Alexandria ou do Index Librorum Prohibitorum. Poderia falar dos Nazis... Enfim, a História é um desenrolar infinito de destruição. Um rolo onde se estendem em filas actos que mostram à saciedade que o mundo se divide numa pequena parcela dos que escrevem ou protegem livros e outra grande parcela constituída por aqueles que têm prazer em queimá-los e se deliciam com a volúpia do obscurantismo.

Já sabem como sou adepto da Wikipédia. Sei como é uma ideia frágil. E sei como está destinada ao fracasso. É inevitável que um dia destes nada reste da utopia de se escrever abnegadamente a súmula da cultura humana deste século, sob um ponto de vista imparcial. A ideia de ter uma página, volúvel, à inteira disposição de quem nela quiser escrever é demasiado bela para sobreviver à grunhice humana. Claro que no histórico de cada artigo da Wikipédia encontramos cada alteração feita ao texto. Se alguém mudou uma vírgula, saberemos no futuro quem foi – se um anónimo, se um utilizador registado. Dirão que não passam, os dois, de anónimos. E que a autoria anónima poderá ser aceitável para um poema mas não para textos de cariz científico. Eu, por mim, recuso-me a ver as coisas dessa maneira. Eu contribuo para a Wikipédia e não sou um anónimo, e conheço pessoas que, sob um nick ou sob o seu próprio nome, associam as suas contribuições a alguém real. Mas ainda que todos permanecessem anónimos, ainda restaria a esperança de que as contribuições boas suplantassem as más. Seja como for, acabe quando acabar (mesmo que acabe apenas com um escândalo financeiro, com os responsáveis pelo projecto a rasparem-se com os donativos que permitem a aquisição de toda a maquinaria que mantém a Wikimedia em funcionamento), haverá sempre uma relíquia daquilo que foi feito. Restará um destroço de intenções.

Mas quem são os príncipes mongóis que ameaçam este sonho? Quem serão as pessoas que me fazem desacreditar no futuro da Enciclopédia livre? Serão ignorantes? Seria bom dizer que sim. Mas a verdade é que os energúmenos que se divertem a escrever disparates na Wikipédia não se escondem todos no anonimato. Alguns têm orgulho em dizer: estive lá a mangar com aquele pessoal – com aqueles nerdzinhos, picolhos, viados-ou-lá-o-que-é – que se dá ao trabalho de escrever textos que qualquer um pode apagar, mesclar de mentiras, destruir. Há aqueles que têm orgulho em dizer: fomos lá e deixámos algum trabalho para os tonhós que vigiam as mudanças recentes sem serem pagos. Fomos lá e troçámos da bondade e da ingenuidade de quem acredita em tal utopia.

Há, dentro deste grupo, aqueles que chegando lá, decidem deixar a sua marca, não destruindo os artigos que já existem, mas inaugurando novos com meia dúzia de tolices. Depois, vão para os seus blogs ou fóruns gabarem-se da proeza. Quando os seus artigos são finalmente detectados e eliminados pelos abnegados contribuidores da Wikipédia, continuam a sua deplorável actuação supostamente humorística dizendo que os seus textos foram censurados. Esta reviravolta é interessante: o destruidor passa a acusar aquele que constrói de destruição. Dirão, então, que escrever um texto humorístico na Wikipédia não é um acto de destruição, mas um acto de criatividade. E eu digo: o tanas. É apenas um acto de obscurantismo e de falta de carácter. Para quem não saiba, a Wikimedia tem à disposição dos engraçadinhos uma desenciclopédia onde poderão escrever as suas tretas. Escrever textos humorísticos ou ficcionais na Wikipédia é um acto de barbárie. É um acto vergonhoso e deplorável que tem apenas como fim destruir o sonho de quem é ingénuo, com a perversidade de quem troça da bondade alheia.

É pena, mas a cambada obscurantista dá a cara. Senti-me ainda mais enojado pelo facto de conhecer, indirectamente, uma destas abéculas que se vangloriam publicamente das suas vergonhas. Vão até ao blog http://begueiro.blogspot.com/ : e vejam de que massa é feita este tipo de gente. Esperemos que deste estrume nasçam, algum dia, rosas. Como o blog é colectivo, ainda dou o benefício da dúvida aos outros participantes. Mas este senhor Ivan (Evandro Saraiva) devia ter vergonha na cara.

Boa noite a todos.

Nota: risco o último parágrafo porque o Ivan teve o bom  senso de retirar do seu blog o vergonhoso post  a que me referia. Está perdoado. Obrigado pelo gesto.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 21:47
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Sexta-feira, 26 de Maio de 2006
Pesadelo na Quinta do Costeado

Hoje fiz com os meus alunos (11 - 12 anos) o último ensaio do "Sonho de uma Noite de Verão" de William Shakespeare. Terça-feira, vou com eles para uma quinta de Guimarães (Quinta do Costeado), junto à Cruz de Pedra (segundo o guia da Michelin: "Cães de Pedra", eh eh eh...) para filmá-los a recriar amores desalinhados e alucinados sob o auspício das Fadas. Anteontem, fui à procura de roupa para todos na Casa da Marcha Gualteriana. A Casa da Marcha é um espaço fascinante, largo, alto e cheio de trastes misturados com obras de arte popular nascidas para encher os olhos de quem assiste a uma das festividades mais marcantes de Guimarães, as Gualterianas, em honra de São Gualter, discípulo de São Francisco de Assis, e que morou algures para os lados da minha escola. É aqui que são feitos os carros alegóricos, por meia dúzia de abnegados vimaranenses (só quando as festas se aproximam é que o pessoal decide vir em magotes, mais para empatar que para ajudar), além das roupas e outros adereços para os desfiles. Enquanto por lá deambulamos, damos de cara com recriações dos cantos mais belos desta cidade lado a lado com amostras de referências culturais do resto do mundo: monumentos, bustos de artistas, de reis, algumas pinturas, animais verdadeiros e míticos, tudo feito de esferovite, armações de madeira e muita folha de alumínio... Como na Ópera. A Casa serve também, para muita gente, como o recurso inevitável (e gratuito) quando se precisa de guarda-roupa de fantasia. Numa sala, dispõem-se em fila roupas de reis, rainhas, guerreiros, selvagens, animais, astronautas, etc, que já fizeram a delícia dos espectadores das Gualterianas de anos passados. O pior é que quando lá cheguei, muita da roupa não estava lá. Alguns cravas tinham pedido roupas para o Carnaval e ainda não as devolveram. Tive de ficar com os restos. Uma pele meio esfarrapada para o Puck (a Lucília), roupas astecas para quase todos os rapazes, menos para o Teseu (o Simão), para o Filóstrato (o Tiago João) e para o Egeu (o Vítor Daniel, que irá vestido com o hábito de uma confraria qualquer - o que não fica mal com a severidade da personagem). As fadas (o quarteto terrível: Marta, Marylin, Carla, Cláudia, mais a Vânia) e  ficam com umas roupas de início de século-ou-lá-o-que-é, mas com muitas rosinhas (a Marta não parou de reclamar com a piroseira, mas agora já está toda contente e a pensar em ir ao cabeleireiro antes das filmagens), a Hipólita (a Tânia Conceição) experimentou de tudo e lá escolheu um severo vestido com rendas pesadas do século XVIII, a Helena (a Nádia) desesperou e nem o vestido branco de cetim a satisfez, a Hérmia (a Diana) lá ficou com um vestido amarelo palha a lembrar uma personagem de Proust, o Oberon (o Marcelo) fica com uma pobre túnica branca de tecido grosseiro (terá que manifestar a sua majestade com outros artifícios de actor) e só a Titânia (a Tânia Fernanda – grande promessa para as artes de representação) é que, parecida com uma Nossa-senhora-não sei-bem-do-quê é que parece totalmente satisfeita. A cabeça de burro do Bottom não é muito convincente, mas o actor vale mais que o adereço. E finalmente, o Luís, com o seu papel duplo, além da sua roupa asteca, irá envergar um vestido verde com uma capa vermelha no papel de Tisbe… Enfim, vai ficar uma salganhada… Mas aquilo não é um sonho mesmo? O Ingmar Bergman que se ponha a pau – os meus alunos até estão a pensar vender o filme para a feira (quando ainda nem sei se vou conseguir fazer a montagem como deve ser)…

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 00:32
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Quarta-feira, 24 de Maio de 2006
Ono no Komachi - Maresia e abandono


Não há aqui algas,
Neste braço de mar.
Será que não o sabe este pescador
Que insiste, em vão, em cansar as pernas?

-----

Mais amarga que a angústia
de sentir a carne contra carvão aceso
É esta despedida em Miyakoshima,
Indo um para a capital
Deixando o outro numa praia deserta.

-----
Ono no Komachi,
Traduzida por Manuel Anastácio, a partir de várias
versões em inglês.

-----
Pensei em Martim Codax (mais no segundo poema), ao
subverter/traduzir estes dois poemas:

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
E ay Deus, se verra cedo!

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publicado por Manuel Anastácio às 23:24
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a) Artemisa

Perguntou-me um leitor porque é que um dos poemas que traduzi, de Gérard de Nerval se chama "Artemisa". De facto, o seu conteúdo é constituído, essencialmente, por referências cristãs. Ora, não me cabe a mim explicar aquilo que vem envolto de mistério das mãos do autor. Uma árvore não explica os frutos - dizia o Miguel Torga... Mas como não sou a árvore, vou tentar dar algumas pistas. Sem ser exaustivo. Porque, enfim, a poesia não pode ser explicada (mas, de vez em quando, convém explicar alguma coisa para que os desconfiados não julguem que andamos a misturar alhos com bugalhos).

Na verdade, a resposta é muito simples - ainda mais se tivermos em conta que não existem quaisquer religiões puras no mundo (e ainda bem – é um sinal de esperança) . Mais que isso: todas têm tendência a repetir os mesmos mitos em formas diferentes. As religiões, como a arte, distinguem-se não tanto pelo conteúdo (por vezes, prescindem mesmo dele), mas pela forma...

 

Claro que o sentido do soneto de Nerval não é institucionalmente religioso; de facto, Nerval pertence àquela classe de intelectuais franceses (é que isto acontece mais com os franceses ou com francófilos – não me perguntem porquê) que criam a sua própria religião e que não pretendem que alguém mais a ela se converta. Este soneto de Nerval é, como sempre, carregado de um simbolismo louco. Claro que utiliza todo um código de mistérios e de relações cabalísticas que ultrapassam o que é traduzível e explicável.


Mas o tema é imediato. O eterno feminino. O pungente eterno feminino que desde sempre assombra os mitos e os arquétipos da nossa cultura e que em Nerval estava profundamente ligado à ausência da figura materna: a mãe do poeta morreu tinha ele apenas dois anos. A virgem Maria, todas as santas martirizadas na defesa da sua virgindade e Artemisa têm muito de comum: aliam em si a ideia de vida e de morte. O primeiro verso do soneto, “Em décimo-terceiro volta... à frente...”  inaugura e sintetiza esta ideia. O que volta em décimo terceiro? A hora que se segue à décima segunda – isto é, quando o ponteiro deu uma volta completa ao relógio. Estamos, portanto, a falar do tempo circular e do elo que liga o fim ao início? Do tempo que a natureza parece celebrar com os dias, as noites e as estações? Sim e não. Por um lado, a fecundidade que se associa ao corpo da mulher parece remeter para esse género de tempo, mas… o poema não se refere directamente fertilidade, mas à sua recusa. O que se evoca é o eterno feminino cioso da castidade e da solidão. Artemisa é a deusa que foge da presença masculina e que detesta qualquer assomo de desejo sobre o seu corpo. É a deusa que persegue até à morte aqueles que se atrevem a desejá-la. É a deusa que recusa a sua condição fértil. É a deusa do tempo recto, sem curvas, sem ciclos, sem retorno, sem regresso.

 Mas, por outro lado, temos outro flagrante símbolo feminino: a rosa, evocada em Santa Gúdula, catedral conhecida pela sua rosácea; a malva-rosa (“Rose trémière”, no original), planta em que as flores se sucedem ao longo do caule, como numa espiga, como que conotando a sucessão de vidas, a reencarnação e a memória, e que nega as rosas brancas, símbolo da transitoriedade e do efémero, que caem, no final, sobre a terra. A mesma terra que serviu de túmulo, em vida, a Santa Rosália, desaparecida do contacto humano e escondida numa gruta onde misteriosamente viveu o seu celestial degredo.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:01
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Segunda-feira, 22 de Maio de 2006
No caminho dos sonhos


Poemas subvertidos a partir de originais de Ono no Komachi:


Em noites como esta,
Em que a falta de luar esconde o teu caminho até mim,
Acordo do meu sono, ardendo a minha paixão,
Torna-se o meu peito uma fúria em fogo, uma chama em explosão
Enquanto em mim, o meu coração se desfaz em cinza.
-------------

O tédio da chuva não cessa
E desbota irremediavelmente as flores.
Assim perdi eu a graça da juventude
Nos anos em que meditei em solidão.

-------------

Sem mudar a cor
No vazio
Do nosso mundo
O coração do que chamamos homem
Murcha como uma flor.

-------------

Ainda que corra para os teus braços
Por todos os caminhos dos meus sonhos
Sem cessar
Todos esses encontros
Não valem um só teu acordar.
-------------

À luz do dia, quando acordamos,
Então, ainda compreendo...
Mas quando nos vejo
A tremer sob o olhar hostil dos outros
Mesmo em sonhos: isso sim, é miserável.

Tradução: Manuel Anastácio, a partir de diversas traduções em inglês
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publicado por Manuel Anastácio às 03:04
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A última flor do Lácio
                            
Schubert foi um dos primeiros artigos que escrevi na Wikipédia em português. Lembro-me bem como era a pt.Wikipédia quando o escrevi - meia dúzia de artigos (cada um pior que o outro - muitos deles não interessavam ao menino Jesus). Mas acreditei no projecto. Hoje, a Wikipédia em português está bem melhor. Não é nenhuma maravilha, mas a verdade é que já tem alguns artigos que, se não estão bem escritos, pelo menos fornecem tanta ou mais informação quanto os artigos da Wikipédia em inglês (ainda assim, podemos encontrar uma boa vintena de artigos que nos poderia orgulhar, se tivéssemos olhos na cara - é pouco? Para mim, olhando para o número de "usuários" que escrevem alguma coisa por lá, parece-me uma boa marca...). O que me faz uma comichão terrível é este desprezo que vejo por todo o lado em relação aos conteúdos na nossa Wikipédia. Dizem que é de má qualidade - ora bem!!! Se os próprios portugueses e brasileiros preferem contribuir para a versão em inglês!!! A verdade é que os lusófonos em geral não acreditam na sua própria língua. Ao contrário dos ingleses e norte-americanos, que se esqueceram das diferenças das duas variantes linguísticas, o pessoal de Portugal chega à Wikipédia em português e diz: "ora... isto é um antro de brasileirada" e não volta mais, muito contente intelectualmente pela sua xenofobia linguística. Claro que ficarão furiosos comigo se os chamar de xenófobos. Dizem que xenófobos são os brasileiros, que passam a vida a lamuriar o facto de terem sido colonizados pela cambada de ignorantes que são os portugueses - esses seres abjectos de bigode e barriga de cerveja. E assim, justificando a xenofobia com a xenofobia alheia, vamos andando. A qualidade literária dos textos é colocadada em questão por todos - e para a maioria em Portugal, o que está escrito em "brasileiro" é sempre mau...

A verdade é que a última flor do Lácio tem as pétalas arrancadas. Por ignorância, por descrença, por preconceito, por falta de amor próprio do mundo lusófono. E  tenho a certeza que o estado da Wikipédia em português é um perfeito indicador do estado da nossa língua. Cada link para um artigo da Wikipédia em inglês (como vejo em tudo o que são blogs), ignorando que pode existir um em português ou não se dando ao trabalho de começar nem que seja um esboço na nossa língua, é um sinal de decadência da nossa vontade e do nosso orgulho.
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publicado por Manuel Anastácio às 01:27
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Domingo, 21 de Maio de 2006
Herbário I - Oryza sativa

Em cada bago de arroz há uma lágrima.

E sendo a lágrima a mais poética

E lírica das secreções – em princípio, e sem indecências,

Em cada bago de arroz há uma rima em branco

E no prato, uma sentença.

Não há no arroz servido nenhuma indiferença

Ao franco sentimento de quem o come.

Que quem come arroz nota perfeitamente,

Em cada bago, como é concreta

A secreta dor da lama onde nasceu –

O arroz, e eu – nós todos, já agora.

 

Em cada bago de arroz há uma lágrima

Arrancada à casca escura e dura

Dos olhos que se recusam a chorar.

 

Mas é evitado.

Em cada bago de arroz,

Podes escrevê-lo

– Ainda que nem tenha por grande hábito comê-lo –

Em cada bago de arroz há uma lágrima.

Nascida e proibida de germinar.

É por isso que

Em cada bago de arroz há uma lágrima

Por chorar.

 

Mas em cada lágrima que me serves,

Perfumando as horas em que as choras

Com as marcas escuras que se desenham

Em arabescos de tristeza

Na tua face, há sementes

E flores escondidas no seu secreto embrião.

Em cada bago de lágrima

Descascado da casca onde te encerrei,

Eu sei,

Há uma semente

– A única semente –

Capaz de criar raízes no meu corpo

Com a violenta ternura da tua voz.

Porque entre nós,

Podes escrevê-lo

– Ainda que nem tenha tido por grande hábito comê-lo, –

Estará sempre pendente o beijo

Que falta dar. 

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publicado por Manuel Anastácio às 01:24
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