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Sábado, 22 de Janeiro de 2005
Senhora do Ó

Acompanhava este artigo: A Sinfonia das canções tristes de Gorecki, a mais "Mariana" das sinfonias, numa interpretação de Andrew L. Simpson

 

Saberia Maria, a escrava do desejo divino,

O que significava o Ó?

E Job? Saberia, no seu exaltado hino

Ao perfeito círculo do mundo,

Que a auréola de um sacro destino

Pousava no corpo, imundo

De redondas chagas?

Saberia Maria, que no olhar profundo

Do filho que escapara às adagas

Cravadas nos inocentes,

Se reflectiam as fragas

Das tentações ingentes

Que assaltam quem tudo tem?

Saberia Ana  como seriam diferentes

Os ós que semearia Além,

Daqueles que semeou cá?

Saberia Maria o valor do A?

 

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 07:17
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Terça-feira, 18 de Janeiro de 2005
Cão c'm'á gente...

                         Melancolia I de Dürer

Acompanhava este artigo: a música melancólica por excelência: o adagietto da 5.ª Sinfonia de Mahler, numa interpretação nipónica de Hiroki Miyano

 

Quando comecei a traduzir “As quimeras” de Gérard de Nerval, não conhecia ainda uma das interpretações possíveis para o seu “Desdichado” (cuja tradução podem ler algures neste blog). O pior é que a minha tradução (tradução, traição) não bate certo com essa interpretação. Para começar, o poema começa por “Je suis”. Tradução fácil: “Eu sou”… Mentira! Talvez fosse: “eu sigo”, que se diz da mesma maneira em francês. Como é que se pode traduzir algo que nem sequer os próprios detentores da língua original sabem interpretar devidamente? Não se pode, é certo. Traduzir poesia é impossível. Mas, há sempre uns loucos como eu que se abalançam nesta tarefa, com as vagas esperanças de conseguirem escrever algo bonito que remeta até certo ponto para o poema original, mas que se assume, desde o início, como um poema diferente. Portanto, sempre que traduzo, sinto que estou a ser autor de algo que difere formal e substancialmente do poema original. E não há nada a fazer quanto a isso.

 

Ora, continuando o raciocínio: se o sujeito poético segue alguém, é concebível que seja um cão. O poema não seria mais que as recordações pós-túmulo de um cão que seguia um cavaleiro desamparado após a morte da sua dama (vejam o quadro de Durer “O cavaleiro e a Morte”, onde um cão segue melancolicamente o cavaleiro lado a lado com a morte). Existem outras referências que indicam claramente a origem canina da mensagem poética. Se quiserem saber mais, podem ir até http://www.graner.net/nicolas/desdi/textes/suiv.php3 (texto em francês).

 

Na primeira quadra é dito que a sua única estrela está morta (infelizmente não traduzi assim, por razões de métrica) . Suponhamos que essa estrela é Sirius, e isso é provável, tendo em conta que é a mais brilhante estrela do céu nocturno (o que pode ser sugerido pela expressão “soleil noir” – sol negro - que também aparece no poema). Ora, segundo a mitologia grega, Sírius nasceu da metamorfose do cão de Oríon, o titã  caçador… Sírius é também chamada de canícula – a estrela que preside ao tempo quente de verão. Note-se que canícula é também o nome dado ao tempo insuportavelmente quente.

 

Para quem gosta do Harry Potter, é fácil fazer a associação com o seu padrinho, Sirius Black (Soleil noir? Será que o refinamento referencial de J. K. Rowling vai até Gérard de Nerval? Ou ligar o black a uma estrela foi apenas uma coincidência feliz? – seja como for, o facto de o padrinho de Harry Potter assumir a forma de um cão é sinal de que Rowling conhece bem a mitologia grega, no mínimo)…

 

A gravura de Dürer “A melancolia” (palavra que aparece, inclusive, em itálico no original do poema), também representa um cão junto ao anjo da bílis negra. Cão como nós, dormindo na melancolia do mundo.

 

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 23:17
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