Domingo, 17 de Outubro de 2004
A Sucessora
Durante muito tempo pensei que os argumentistas da telenovela "A Sucessora" tinham feito plágio cinéfilo da "Rebecca" de Hitchcock que, por seu lado, era baseado no romance de Daphné du Maurier. Afinal, Carolina Nabuco, escritora brasileira é, na verdade, a autora da ideia genial que hoje em dia é já utilizada como paradigma psicológico (como o complexo de Édipo, de Electra, etc) por alguns académicos - a da sombra da "outra", vista como o ideal inalcançável... O livro, editado em 1934 (quatro anos antes da edição de "Rebecca") é, no entanto muito pouco conhecido fora do Brasil (será que é conhecido no próprio Brasil?)... Isso é, claramente, uma injustiça - digo eu, mesmo sem ter lido o livro. Há que vender este livro e apontar o estigmatizador dedo do plágio à tão celebrada du Maurier (até que me provem que afinal, as ideias de uma e de outra apenas convergem em alguns pormenores, o que duvido)... Espero que o(a) leitor(a) que me chamou a atenção me tenha perdoado a gaffe...
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publicado por Manuel Anastácio às 20:16
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Quinta-feira, 7 de Outubro de 2004
Anteros, de "As Quimeras", de Gérard de Nerval

  Abel e Caim, por Gustav Doré

Aqui vai a quarta tradução de outro poema de Gérard de Nerval: Anteros, aquele que pune quem não corresponde ao amor que lhe é votado...

Perguntas: tal raiva no coração
e em colo ágil cabeça indomada?
Se de Anteu minha raça originada,
Volvo a Deus vencedor cada aguilhão.

Sim, sou o que lhe inspira punição,
Marcou-me a fronte com boca irritada,
Na palidez de Abel ensanguentada
Igual a Caim, rubra obstinação.

Jeová! Vencido por teu génio, enfim,
“Tirania!” – do abismo grita assim,
Meu avô Bélus ou Dagon, meu padre,

Três vezes no Cocito me aspergiram.
E os dentes da serpe antiga exibiram,
Guardando a Amalecita, minha madre.

 

(Gérard de Nerval, "As Quimeras", versão de Manuel Anastácio)

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publicado por Manuel Anastácio às 14:10
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Terça-feira, 5 de Outubro de 2004
Hórus, de "As Quimeras", de Gérard de Nerval

Num espasmo, Kneph abala o universo,
A mãe Ísis levanta-se da cama,
Num acesso a seu fero esposo clama,
No verde olhar, de ardor antigo imerso.


“Vede, sucumbe este velho perverso,
Expirou p’los lábios gelo que inflama.
Deus dos vulcões! Extingui do olhar a chama.,
Rei dos Invernos, peado transverso!


“A águia, foi. Um espírito novel
Me invoca a cingir o véu de Cibele…
Eis o filho amado de Hermes e Osíris!”


A deusa esquivou-se em concha dourada,
Volvendo o mar a figura adorada,
Os céus brilharam sob o manto de Íris.

 

(Gérard de Nerval, "As Quimeras", versão de Manuel Anastácio)

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publicado por Manuel Anastácio às 16:49
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Abraão olhando o céu
Judeu orando, de Marc Chagall

 

São incontáveis como as estrelas
As estradas e as pedras,
As alheiras
E as fogueiras.

Incontáveis as gerações
Que viram Um
Na promessa de muitos...

Avaros das suas recordações
Incontáveis
Registadas
No ter e haver
Do destino comum
Da senda dos exércitos e nações.

Porque são incontáveis os caminhos,
Os quadrantes e pergaminhos
Onde os compassos riscaram,
Na cabala das costas
E Oceanos,
A única rota que resta
Para dar paz aos nossos anos.
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publicado por Manuel Anastácio às 03:20
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2004
Os Bichos
Mulher e gato, de Toulouse Lautrec

 

Gérard de Nerval acabou os seus dias da forma que os seus poemas parecem predizer: na loucura… Foi apanhado um dia a conduzir, por uma trela, uma lagosta – porque não ladra, o que é uma grande vantagem em relação aos cães. O Mário Elias, de Mértola, tinha, supostamente, duas ratazanas que reconheciam nele a sua natural bondade. A Adília Lopes vive enterrada viva em gatos… Baudelaire também gostava destes bichos de garras afiadas… T. S. Eliot dedicou-lhes uma série de poemas – que com umas musiquitas ao jeito do Andrew Lloyd Webber, originou o musical “Cats”… O Zé Maria queria urinar em cima da ponte com dois gatitos-bomba debaixo do braço… Cá para mim, o tipo está a pensar em escrever um livro de poesia – aposto que não seria pior do que outros que vão sendo publicados…
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publicado por Manuel Anastácio às 19:36
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