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Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
Capitães da areia, de Cecília Amado

Dizer que esta adaptação de Capitães da areia é um filme belo é pouco. Como se poderia adaptar uma história destas hoje em dia, em que os excessos do cinema atual obrigam a mostrar as feridas sendo abertas e o sangue salpicando a tela? Esta não é uma história de violência, nem de delinquência, nem de bandidagem revoltada. É uma história de amor adolescente que pouco foge ao universo poético das histórias para a infância. Cecília Amado desenha a história com a mesma ingenuidade poética dos seus heróis, com a mesma ingenuidade com que terá lido a história quando tinha catorze anos e a fez apaixonar-se por Pedro Bala. O recurso a jovens atores não profissionais dá-lhe uma atmosfera de neorrealismo extemporâneo, mas a poesia plástica de cada plano obriga a classificar todo o conjunto como um conto de fadas doloroso, mas de uma doçura suavizada por intervenção dos orixás. Já muitas vezes o disse, e reafirmo, que nunca tendo estado no Brasil, encontrei aí uma Pátria que me foi roubada sem nunca a ter tido. Hoje voltei a encontrar essa luz de um país perdido, parafraseando Camilo Pessanha, e que nunca poderei encontrar. Da mesma forma que o Professor, que por justiça humana deveria ter o amor de Dora, é enjeitado a favor da virilidade extremada de Pedro Bala, também a Pátria que me acolhe em piedade o corpo e me cata os piolhos me recusa os beijos. E um filme, um livro, um conto ou um poema só são nossos quando neles nos encontramos - e eu encontro-me ali metido na minha insignificância perante a força daquelas personagens maiores que os Gregos e Troianos das epopeias. A história de amor adolescente criada por Jorge Amado é intocável, um clássico que conta verdades profundas e violentas sobre a natureza humana e a inexorabilidade dos afetos. A maior das violências e das crueldades mora no coração de quem ama. E é essa violência que conta e que tem de ser contada, mais que os golpes de capoeira e as navalhadas que algum público, sedento de sangue e arena, eventualmente procurará num filme dos dias de hoje. E este "Capitães da Areia" não é um filme dos dias de hoje, é um filme de época e de uma época, sem que deixe de ser um filme para todas as épocas. É magnífica a direção artística, são magníficos os trapos rotos que cobrem aqueles corpos juvenis onde aflora o desejo, é magnífico o sabor musical de uma ópera sambada a que não falta a tragédia de uma Pietá invertida nos seus polos masculino e feminino, mas mais magnífica é a capacidade de recusar o excesso e contar o desejo e a sua consumação sem o erotizar para além do próprio erotismo com que se nasce já, ingenuamente, num mundo onde não há, não haverá nem nunca houve, lugar para tais ingenuidades. Talvez todos vejamos apenas a luz dos países perdidos, dos paraísos perdidos transformados em estrela, como Dora, num céu onde ninguém arde de outra febre que não a da sua luz perene e sombria.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:25
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2 comentários:
De glaucia lemos a 16 de Abril de 2012 às 03:35
Manuel, eu queria fazer um poema em forma de comentário sobre o poema q você escreveu, ao falar deste filme. Tudo o q eu escrevesse, por mais inspirado, não corresponderia a tal objectivo . Estou dizendo coisas q todo o mundo já disse ao querer expressar uma impossibilidade. Se eu conseguir fazer entender como me é significativa a maneira como vc se refere a meu pais, já me dou por satisfeita. Há identificações assim, sem justificativa, ou com alguma, talvez, que pode estar ligada ao carinho brasileiro q lhe é dirigido, e mais não é q o reflexo do q sempre foi por mim recebido e continua sendo, Deus queira ininterrupto. Não vi o filme de Cecília, a neta do Amado Jorge, como é aqui chamado, mas me recordo do livro em geral. Embora a realidade da mocidade do autor esteja sem máscaras no seu texto, nos anos 30 ou 40 do séc. passado, é o amor dos jovens o q centra a história. O amor q não se torna outro, qualquer q seja a condição e as circunstâncias daqueles por ele colhidos, para bem ou para mal. É o mesmo sentimento humano q tanto desvela o paraíso , quanto esfrega ao rosto dos q por ele são tomados, suas limitações de toda espécie. Assim Pedro Bala e Dora conheceram o seu quinhão sofrido e amargado. Seu comentário é um poema q elevou à glória a história do baiano universal. Eu me sinto engrandecida por ele, pelo comentário. E sinto vc tão baiano quanto em outra ocasião pregressa, na qual assim vc se disse. Obrigada pelo Brasil, pela Bahia, por Cecília, por Jorge, por Pedro Bala e Dora, obrigada por mim, e obrigada por você merecer o afecto q merece. Um beijo grande.
De Manuel Anastácio a 16 de Abril de 2012 às 07:56
Gláucia. Fico sem palavras. Amor retribuído sabe bem, muito bem.

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