Quinta-feira, 22 de Março de 2012
Bestiário I

Um gafanhoto mexe as mandíbulas sem osso

Uma formiga-leão alada olha desconsolada

Os pais dos que serão mortos pelos seus filhos.

Seguem, insetos, os trilhos do nada

E no nada são tudo o que a vida alguma vez quis ser.

Uma carraça espreita a seara de sangue de uma só colheita

Um pardal alheio ao mal e à injustiça

Ouve com preguiça o canto de um santo esfarrapado,

E sobre um estrado, um pombo larga parasitas

Sobre outras caganitas onde bactérias fecais

Fazem bacanais, mas sem maldade.

Sem piedade,

Um louva-a-deus cuida dos seus

Dando o pescoço à maternidade.

E os vermes, pouco dados à estética,

Dão uma aula peripatética sobre a decomposição em fatores primos.

Uma ave-do-paraíso, sem do bem ou do mal fazer juízo,

Aceita o impreciso fluir das escolhas

E morre sem outra angústia que a angústia de morrer.

E os búzios, sem nada ouvir,

Fingem repetir o que não lhes foi dado, jamais, a discorrer.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:46
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