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Segunda-feira, 5 de Março de 2012
O Diário de Anne Frank

O Tiago pediu a minha opinião sobre "O Diário de Anne Frank". Ora, este é um livro sobre o qual é impossível ter opinião. Lembro-me um dia de, numa aula, a professora de Língua Portuguesa ter pedido para escrevermos um texto sobre um dos momentos mais fortes, emocionalmente, da nossa vida. Eu não o fiz. Escrevi sobre uma treta qualquer sobre um filme que amava muito na altura (e que agora, embora o considere um dos filmes da minha vida, já pouco me diz) e assim escapei de ter de expor as minhas maiores dores. Até porque naquela idade temos pouco discernimento sobre a tragédia ou sobre a impressão que cada coisa, individualmente, terá na nossa vida. Uma grande amiga minha, de quem perdi totalmente o rasto, escreveu um texto sem particular valor literário mas infinitamente superior àquilo que alguma vez escrevi ou escreverei, a não ser que um dia eu venha a passar por algo semelhante (e queira Deus que não). Quando a professora entregou os textos, ela deu-mo para ler e disse que estava arrependida de ter escrito o que tinha escrito e perguntou-me o que é que eu pensava daquilo. Li o texto. Não era uma obra de grande literatura, mas estava lá tudo o que deveria estar em cada linha da grande literatura. Um grito de revolta, de dor e, ao mesmo tempo, do amor mais profundo. Não vou dizer o que lá estava escrito, porque acho que não devo, mas o importante a reter é que a literatura não é a vida. Pode orientar-nos na vida, preencher grande parte da nossa vida, mas não é a nossa vida. Na altura em que li aquele texto da minha amiga, não chorei lágrimas de comoção como já fiz por coisas menores, disse-lhe apenas que aquilo era coisa sobre a qual não poderia ter opinião. Ela fez um ar triste e disse que me compreendia. Não era possível dizer-lhe que aquela frase ficaria mais elegante dita desta ou daquela maneira, porque há coisas em que a elegância do estilo é dispensável. A verdade é superior a qualquer figura de estilo. E quando a verdade se parece com uma figura de estilo, ou estamos frente a uma anedota verídica ou perante a mais pungente das tragédias. Naquele texto havia apenas a descrição de uma noite em que alguém bateu à porta da minha amiga e deu uma notícia por meias palavras. Hoje, eu poderia dizer à minha amiga: o teu texto está excelente, mas, sabes,  esse último parágrafo em que explicas o que aconteceu e não quiseram dizer quando abriste a porta era dispensável - assim como tu mesma percebeste o que te tinha acontecido com as meias palavras de quem te deu a notícia, da mesma forma o leitor o perceberá. Mas eu nunca o teria dito porque o tema era mais forte que o estilo. Um escritor com alguma capacidade sabe quando é que deve parar de narrar. Muitos jovens julgam que precisam de explicar aquilo que escrevem - e na verdade, precisam, porque estão numa altura de aprendizagem em que é preciso reflectir de forma académica sobre as coisas que escrevem. Eu sou a favor de uma educação académica. Deve-se dar prioridade às coisas certinhas e bem feitas. Os génios saberão, depois, fazer coisas novas. Mas um professor não avalia génios. Tem uma tarefa mais modesta, mas não menos importante. Os génios são avaliados pela Humanidade. É por isso que acho que aquelas histórias sobre os professores que não viram que o Einstein era um génio são um perfeito disparate. Mas voltando à minha amiga e ao seu texto: há palavras sobre as quais quaisquer palavras são demais. Onde a crítica não é possível.

 

Eu não considero o "Diário de Anne Frank" uma obra literária. Está bem escrito e toca na alma de qualquer um, e Anne Frank poderia bem ter vindo a ser uma grande escritora, não fosse a tragédia humana que foi, um dia, um povo ter encontrado uma ditadura de iniquidade a que se aninhar. Mas se não fosse o Holocausto, que seria daquelas páginas? Para começar, não teriam sido escritas, e Anne Frank teria escrito apenas um diário de adolescente sobre as primeiras impressões do amor. Da mesma forma como escreveu? Tenho as minhas dúvidas. A opressão, a perseguição, a miséria e a desumanidade tanto reduzem as pessoas a cinzas como podem fazer despertar nelas uma luz que permanece ao longo dos séculos. Anne Frank teve de viver, perante a permanente ameaça da morte, de uma forma mais intensa do que alguma vez teria vivido em tempo de paz e prosperidade. Não digo, com isto, que a guerra e a intolerância são boas! Jamais! Mas a verdade é que a Natureza e a História têm por vezes estas formas de justiça poética em que aqueles que poderiam passar despercebidos passam a ser heróis. Eu luto por um mundo onde os heróis seriam apenas aqueles que lutassem contra as forças da natureza a favor do seu semelhante humano. Por exemplo, já que o Tiago me pediu que lhe recomendasse um livro, faço-o agora: lê "O Escafandro e a Borboleta" de Jean-Dominique Bauby (até porque tem a ver com a tua confessada vocação). É um livro sobre alguém que, tal como Anne Frank, lutou contra um encerramento forçado e que, se não fosse esse encerramento, passaria por esta vida como um estranho - uma pessoa digna, sem dúvida, brilhante, sem dúvida, mas estranho e desconhecido para todos ou quase todos. Com uma diferença. Bauby escreveu um livro (e um dos mais belos alguma vez escritos) apenas com uma pálpebra. Não porque fosse artista de circo mas porque, encerrado no estado de saúde em que estava, só podia comunicar com o exterior com uma pálpebra. Não podia, sequer, utilizar a linguagem não verbal com que tantas vezes interpretamos as frases de quem conosco comunica. Tinha de se limitar à linguagem verbal, escrita, e a conta gontas. Mas Bauby foi um herói contra um estado de coisas que não foi provocado por outro ser humano. Foi vítima da Natureza. Talvez um dia haja algum neurocirurgião chamado Tiago Peixoto a libertar aqueles que vivem encerrados atrás de uma pálpebra - e que honra e alegria teria eu nisso, como se fosse eu mesmo a fazê-lo. Mas essa é uma luta contra as adversidades da natureza. Todos os heróis deviam ser assim. No caso de Anne Frank, o heroísmo é de outra ordem. Anne perdeu a possibilidade de viver uma adolescência normal graças à iniquidade de outros seres humanos e não porque tinha uma doença ou porque foi apanhada por uma inundação repentina. Foram outras pessoas a colocá-la naquela situação e foram outras pessoas que interromperam antes do tempo aquela obra de humanidade forçada. 

 

O Diário de Anne Frank é mais que um livro e mais que literatura, embora existam livros mais bem escritos. É um grito de humanidade sobre o qual não podemos ter opinião. É um pedaço sagrado de uma vida, uma relíquia de valor infinito. Também os outros livros o podem ou devem ser. Mas não de forma tão violenta. Não porque o livro seja violento. De facto, parece-se bem, e apenas, com um mero diário de uma rapariga mais inteligente do que a média posta numa situação que nunca deveria ter existido. Todos os dias penso para mim mesmo como seria bom que livros como "O Diário de Anne Frank" nunca tivessem sido escritos. Não saberíamos o bem que tínhamos. Mas, Tiago, como saberia bem essa ignorância.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:44
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