Sábado, 3 de Março de 2012
A Árvore da Vida, de Terrence Malick

Terrence Malick é um cineasta que faz filmes bonitos mas imensamente chatos. Ao ver "A Árvore da Vida" passei da sensação de que o filme era uma imensa sinfonia servindo de glosa ao livro de Job para, lentamente, me aperceber que Malick não fez mais do que um imenso videoclip, magistral na beleza das imagens e na sua montagem poética, mas não mais que um videoclip da MTV numa versão mais extensa e com música de melhor qualidade. Há um fundo teológico e filosófico, é verdade, mas que não acrescenta nada a um cruzamento entre duas páginas de filosofia existencialista com alguma teologia de cordel. Há a opinião de que filmes destes só são assimiláveis se abrirmos o coração e as nossas angústias a novas experiências estéticas, sendo estas um meio de revelação ou uma porta para uma outra percepção da realidade. Segundo esta tese, o filme só poderá ser acolhido no seu total valor se não fizermos juízos precipitados ou se já tivermos definida a receita daquilo que pretendemos ao ver um filme. Ora, eu não prescindo da minha exigência de que um filme ou tem de me mostrar algo em  que não tinha pensado ou sentido ou tem de apresentar aquilo que já tinha sentido, mas sob uma nova perspectiva. E isso tanto vale para o mais simples melodrama, a mais desvairada comédia ou o mais incompreensível experimentalismo. Acontece que este filme, apesar de ter material humano de excepcional qualidade, com uma interpretação arrepiante de um jovem Hunter McCracken, ao lado de uma esplendorosa Jessica Chastain e um convincente Brad Pitt, não consegue jamais acrescentar nada ao enigma da existência, seja pela via da Graça seja pela via da Natureza. Há a exposição de angústias e meras imagens evocativas de uma coisa qualquer para além da morte e das desgraças. Uma coisa qualquer. Não pretendia, obviamente, respostas, nem nenhum filme ou livro que tenha amado até hoje mas deu, mas falta justificação para o absurdo, sem que se assuma o absurdo. É um filme sobre coisa nenhuma, onde nem a intuição parece intuir o quer que seja. Com tanta coisa dentro, que acaba por se perder num caos nem genesíaco nem apocalíptico. Uma chama brilha ao fundo, mas o génio de Malick não me parece digno nem da Palma de Ouro nem de uma nomeação para os Óscares. Será o filme da vida de muita gente, mas só se deixarem passar ao lado filmes, livros e sinfonias que intuem muito mais, inquietam muito mais e dão uma paz mais consistente para as perturbações da alma. Que este filme tenta tudo, e de certa maneira consegue, se formos fãs das versões abreviadas das Seleções do Reader's Digest, mas ao contrário. Não é de evitar, mas não é de ir a correr para ver.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:26
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4 comentários:
De artur a 3 de Março de 2012 às 00:49
"um videoclip da MTV numa versão mais extensa e com música de melhor qualidade. " pois, precisamente. cá por mim editava o filme só com as esplendorosas imagens cósmicas e ficava com um belíssimo wallpaper em movimento. um fime belo (mas não um belo filme), só que no cinema ia adormecendo...
De Manuel Anastácio a 3 de Março de 2012 às 13:02
Wallpaper em movimento. Isso. :) Confesso que também me deu o sono, a mim, que aguento um Manuel de Oliveira sem bocejar.
De Manuel Anastácio a 3 de Março de 2012 às 13:04
"um imenso videoclip, magistral na beleza das imagens e na sua montagem poética, mas não mais que um videoclip da MTV numa versão mais extensa e com música de melhor qualidade"(...) falta: e sem gajas a abanar luxuriosamente o rabo.
De glaucia lemos a 3 de Março de 2012 às 16:46
Oi Manuel, não vou falar sobre o filme, que não o vi, nem sou lá estas coisas como crítica de filmes, até se anunciou por aqui um curso, mas jamais aconteceu. Estou ás voltas de onde e como dizer Sim a um convite de q fui notificada feito por você para participar de um rede cujo nome não guardei. O link da notificação comunicou q não encontrara a página. Não sei o que seja, mas não o ponho em dúvida vindo de você. Como posso responder? :-))

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