Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
LI

O Entroncamento é, provavelmente, a localidade que mais odeio de todas as terras lusas. Lá vivi os piores momentos da minha vida e lá estive à beira de me desfazer no pó dos desgraçados. Uma terra fantasma, um subúrbio de favos vazios num cruzamento de vias que cada vez tem menos importância para as pessoas que, antes, dali só conheciam um ponto de paragem feio de doer, mais algumas anedotas sobre vegetais anormalmente executados pela Natureza. Hoje, estando eu numa das (que poderiam ser uma) mais belas cidades do mundo, chegam-me aos ouvidos sinais de uma sabedoria e largueza de horizontes que não vejo entre aqueles que construiram e reconstruiram a Praça da Oliveira e a Colegiada da Senhora da mesma árvore. Há, talvez, na mediocridade das pedras, a elevação das almas. Foi entre a escória do Entroncamento que contruí o que de melhor há em mim. Entre as fachadas ritmicamente perfeitas de Guimarães, porém, sentiria adormecer a força do amanhã, não houvesse outro calor primaveril que o do granito mandado erigir pela Mumadona. Amo esta cidade como jamais amei qualquer pedaço de terra (exceptuando talvez a paisagem irremediavelmente extinta e impossível de reinventar do Carvalhal da minha infância). Talvez por isso me doa tanto a vulgaridade que se mantém naqueles que um dia serraram uma oliveira sagrada aos olhos do povo e a continuam a fazer em pedaços, sabendo que o povo é manso e dado à meditação morta de um rosário feito de caroços de azeitona.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:24
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