Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011
Fábulas de Esopo: O leão moribundo

Doente, no fim da vida,

Sufocado de aflição,

Com a força constrangida

Pela dor estava o leão.

De rastos, junto à morada

Da sua jurisdição.

Logo se forma manada

Em torno do decadente.

Em respeito iniciada,

Atraída gravemente

pela dor, se forma fila

querendo ver o doente.

Assim que a morte perfila

os seus traços no monarca

logo a vingança cintila

entre a multidão anarca.

"É boa a ocasião

de fazer o patriarca

sentir a humilhação

que ele já nos fez sofrer".

Vem o javali malsão

com as presas a fremer

prontinhas para o castigo

fazendo o leão gemer.

De igual forma, sem perigo,

lhe lançou o touro os cornos.

Assim seguiu o fustigo

sem no trato serem mornos.

Sentindo os cascos do burro,

Tendo chagas como adornos,

Impotente a cada murro

que em fila se sucedia,

cego p'lo sangrento enxurro,

sem predizer acalmia

no ardor da multidão,

para si mesmo dizia

perante tal beija-mão:

"antes de uma outra morte

os meus vassalos me dão",

mas vero é que contra o forte

nunca os cobardes se viram

a não ser que venha a sorte

e as forças se transfiram.

 

Versão de Manuel Anastácio

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publicado por Manuel Anastácio às 22:26
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