Segunda-feira, 3 de Julho de 2006
Horizontalidades

Pavilhão Alemão de Barcelona, de Mies van der Rohe, foto em GFDL


A nostalgia horizontal e mediterrânica que se pressente nos poemas de Sophia de Mello Breyner Andressen é a versão feminina e poética da arquitectura misógina e à escala humana das casas-pátio de Mies van der Rohe. Os extremos tocam-se.

Como é estranha a minha liberdade
As coisas deixam-me passar
Abrem alas de vazio p'ra que eu passe

As alas de vazio de Sophia reflectem-se bem nos espaços de liberdade propostos por Mies. Liberdade espacial, conceptual e funcional - o lar não é local onde a vida se encerra, mas um espaço aberto, ao mesmo que tempo que guardando em si a possibilidade de fechar na sua vacuidade qualquer necessidade de espaço privativo.

Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.

Nas paredes projectadas por Mies, a luz espalha-se em uniformidade. Não existem focos direccionados, mas a suspensão do tempo. O espaço e o tempo, eternos companheiros, resumem a sua essencialidade na pobreza de elementos distractores. A liberdade nasce do desapego aos objectos com que se enriquecem as paisagens domésticas.

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.

O pé-direito das casas-pátio é igual a 3,20 metros - o dobro da altura a que se convenciona estar o olhar. Existe, pois, simetria sensorial. Não à escala humana, mas à escala da percepção humana.

A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos.

Nostalgia da eternidade. Num e noutro. Ler Sophia numa casa-pátio. Ler Mies na estrutura clara de um poema de Sophia.

Poemas de "O Tempo Dividido"
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 22:13
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
3 comentários:
De Artur a 4 de Julho de 2006 às 10:55
Curiosa comparação.
De Helena a 4 de Julho de 2006 às 19:23
Muito interessante: análise comparativa que parte de uma ideia original , fundamentada com argúcia e sensibilidade.
De Manuel Anastácio a 4 de Julho de 2006 às 23:01
Obrigado. Na verdade, o texto está muito desarranjado. São apenas reflexões a que não quis retirar a espontaneidade. Afinal, quem é que pensa em texto cuidado?

Dizer de sua justiça

.pesquisar