Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
O Prelúdio, de Tomas Tranströmer ("17 Poemas", 1954)

Acordar é um salto de paraquedas a partir do sonho.

Livre da sufocante turbulência, o viajante

afunda-se na zona verde da manhã.

As coisas inflamam-se.  Na trémula posição da cotovia,

apercebe-se das baloiçantes lâmpadas subterrâneas

dos poderosos sistemas radiculares das árvores. Acima,

em profusão tropical, estende-se verdura

de braços erguidos, escutando

o compasso de um oculto sistema de bombagem. E

afunda-se verão adentro, carrancudo

na sua encandeante cratera, abaixo,

ao longo do gume de verdes eras alagadiças

tiritando debaixo da turbina do sol. Assim termina

este voo vertical pelo momento e as asas abrem-se

no abrigo da águia-pesqueira sobre águas correntes.

O timbre de desterro

das trombetas da Idade do Bronze

plana sobre as profundezas sem fundo.

 

Nas primeiras horas do dia, a consciência compreende o mundo

tal como a mão apreende uma pedra ao sol aquecida.

O viajante continua debaixo da árvore. Depois

do mergulho no vórtice da morte, será

que uma grande luz se desenredará sobre a sua cabeça?

 

Versão de Manuel Anastácio

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publicado por Manuel Anastácio às 00:07
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