Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011
Pássaros matinais, de Tomas Tranströmer

Desperto o automóvel
que tem o para-brisas coberto de pólen.
Ponho os óculos de sol.

A canção das aves escurece.


Entretanto, outro homem compra um jornal
na estação de caminhos de ferro
perto de uma grande carruagem de mercadorias
toda ela vermelha de ferrugem
parada, reluzindo ao sol.

 

Não há por aqui espaços em branco.

 

Através da calidez primaveril um frio corredor


onde irrompe alguém

que descreve o que no gabinete da Direção

lhe fizeram para o enxovalhar.

 

Através de uma porta traseira da paisagem
chega a pega
branca e negra, Ave infernal.
E o pássaro preto, põe-se de um lado para o outro
até que tudo se torne num desenho a carvão,
exceto as roupas brancas na corda a secar:
um coro de Palestrina.

 

Não há por aqui espaços em branco.

 

É extraordinário sentir como o meu poema cresce
enquanto eu mesmo encolho
Cresce, ocupa o meu lugar.

Empurra-me para o lado.
Deita-me fora do ninho.
O poema está pronto.

 

Versão de Manuel Anastácio, a partir da versão de Robin Fulton

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publicado por Manuel Anastácio às 21:04
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