Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011
Pêndulo

Ela citava Foucault

"Escrevo para ser amado".

E dizia como quem diz

"Minto para ser adorado"

E forjava céus de cristal

Sobre mares de cobre isentos de sal.

Nuvens de marfim.

Eu minto porque só na mentira que me preside

Reside o receptáculo da gratidão.

Basta uma verdade fugir-me da boca, uma que seja,

E desfaz-se o céu em liquefeito alcatrão

Escorrendo, negro, dos lábios fétidos da multidão.

Porque a verdade é uma prostituta envergonhada.

Calo-me, então, para que seja desejada

A minha crisóstoma abertura,

Mas além da ranhura, nem um gato se acocora

Na vaga espera de uma mosca que o mantenha acordado.

Mentes mas não és, mesmo agora, adorado.

A tua carne não apodrece, não te traga a terra

E os devotos não te santificam em uso de preceitos

Que fazem residir a santidade na carne seca.

Nem carne, nem palavra.

Não escrevas para ser amado.

Escreve apenas porque amas.

Resigna-te também nisso.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:30
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1 comentário:
De Gerana a 23 de Outubro de 2011 às 23:04
Incrível: "Porque a verdade é uma prostituta envergonhada".

Dizer de sua justiça

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