Sexta-feira, 1 de Julho de 2011
Fome em Guimarães? Na... Aqui tem tudo a barriga cheia.

Quando se fala em privado com professores e funcionários de qualquer escola de Guimarães sobre a qualidade e quantidade da comida dispensada nas escolas desde que a sua confecção passou a ser adjudicada a empresas de catering, quase todos são unânimes em afirmar que a situação piorou (e muito dos que não entram na unanimidade deixaram, entretanto, de comer na cantina). Há professores que descrevem situações em que se nega mais comida a alunos que pedem mais porque não sabem se chegará para todos. Isto é um facto. Uma realidade. Pergunto aos alunos. Eles confirmam e acrescentam pormenores. Eles, que muitas vezes deixam comida no prato (que é verdade), que não comem sopa ou que compram as senhas (para enganar os pais) e depois vão comer piza à Lurdinhas, ou que já dão os primeiros passos na anorexia sabem bem que nem toda a gente pode usufruir destes luxos. E há quem não usufrui destes luxos. É desses que o Bloco de Esquerda de Guimarães fala quando diz, na Assembleia Municipal, que a exploração das refeições nas escolas por parte de empresas privadas é um erro que está a lesar a qualidade de vida das nossas crianças. Mas o senhor presidente da Câmara, que é uma pessoa cuja personalidade complexa nos surpreende sempre, seja para o bem seja para o mal, não aceita que se diga que as coisas não estão bem. Até podia dizer: está bem, se há crianças a passar fome, vamos ver onde é que elas estão. Podia até nem concordar com as soluções propostas pelo Bloco de Esquerda (que é voltar à gestão pública das cozinhas e cantinas das escolas, que agora são espaços concessionados e congelados no seu funcionamento, à boa maneira portuguesa: está fora de questão, por exemplo, usar as cozinhas para um curso de cozinha, por exemplo, porque as cozinhas, na prática, já não são das escolas apesar de terem sido construídas para serem usadas pelas escolas), mas podia mostrar que está preocupado com as pessoas. Mas não. Está preocupado com a sua própria imagem e com a imagem do seu executivo. Por isso, ai de quem disser que há crianças a passar fome em Guimarães. Foi o que aconteceu com uma presidente de uma Associação de Pais que, à conta de ter denunciado casos de fome (sem que tenha, sequer, imputado culpas à Câmara, note-se) e ter defendido a confecção da comida por funcionários na escola (pagos pela própria Associação de Pais) a um jornal, recebeu uma cartinha a exigir um pedido de desculpas à Câmara, publicamente e com a mesma repercussão nos meios de Comunicação Social (como se ela fosse chefe de redacção do Público, do DN, do JN e, já agora, do Diário do Minho). A maioria dos pais da Associação, que há uns meses atrás, em conversa privada, só teriam confirmado aquilo que toda a gente sabe, foram, então, em procissão, dizer que nada tinham a ver com aquela indivídua desgraçada, pobre e mal agradecida. E foi isso mesmo que o Presidente da Câmara utilizou como argumento para dizer que não fez pressões sobre ninguém e que é apenas o querido líder de um povo que merece toda a sua atenção. Depois, venham comparar o Bloco de Esquerda à Coreia do Norte. Era bom que o povo, em vez da bajulação, do seguidismo e do medo, passasse a ter a coragem de dizer em público, e perante os poderosos, aquilo que dizem aos seus filhos. Isto não me entristece. Não me revolta. Enoja-me, apenas.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:32
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2 comentários:
De artur a 1 de Julho de 2011 às 23:16
mesma coisa por estes lados, embora não chegue à fome. chega ao absurdo de senhas adquiridas e não usadas e um acréscimo de alunos cuja alimentação se deteriora por preferirem a comida das casas das redondezas - saudáveis pizzas, hamburguers e cachorros à comida de refeitório, que é nutricionalmente correcta mas intragável. o processo é o mesmo: confecção entregue a uma empresa à qual foram adjudicadas escolas de diversos concelhos, cozinhas muito bem equipadas (e falo com conhecimento de causa, tive familiares no ramo da restauração e conheço a qualidade e os preços dos equipamentos) que servem só para aquecer comida congelada. centenas de queixas, discussões surreais em conselho pedagógico com propostas de, por exemplo, enviar ofícios à drel solicitando que a comida se torne mais aprazível com adição de especiarias... e nestas coisas, como em muitas outras, quem dá a cara pelos erros e nepotismos de terceiros somos nós...
De shark a 4 de Agosto de 2011 às 22:09
Loud and clear, amigo...
:)

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