Quarta-feira, 8 de Junho de 2011
Sobre a má poesia I

André Sardet é um cantor português, muito português, com nome afrancesado, o que o faz muito CDS PP, mas essa é a minha parte preconceituosa a falar. Além disso, é autor de uma das canções românticas que mais sucesso tiveram em Portugal nos últimos anos e que de romântica não tem nada, a não ser que se creia (e não haverá grande mentira nisso) que o romantismo nos torna estúpidos e incoerentes. Confesso que a música não é das piores, mas a letra é um ex-libris da irracionalidade. Vejamos:

 

Eu gostava de olhar para ti
E dizer-te que és uma luz
Que me acende a noite
me guia de dia e seduz.



-- Eu gostava... diz ele. Mas, a não ser que haja aqui um anacoluto intencional, o autor não diz o "mas" que falta em qualquer frase que comece com "eu gostava". Eu gostava de escrever como o Flaubert mas não tenho tempo de achar a palavra justa. Há sempre um mas depois de um "eu gostava". Mas o "mas", ainda que não seja dito, está subentendido. "Eu gostava de olhar para ti, e dizer-te que és uma luz que me acende a noite, me guia de dia e seduz...." mas não és nada disso. É o que o poeta não diz, mas parece querer dizer. Depois: "que me guia de dia"? E isso é algo de extraordinário? De dia já  há luz que chegue para nos guiar, a não ser que o poeta se refira à"luz do dia", a tal que, segundo António Botto, era a mais bela. Mas não. Ele diz "uma luz", não diz "a luz". Por isso, este poeta diz da amada que ela não é nada de especial. Se eu fosse gaja e um gajo me escrevesse um poema destes, dava-lhe com o salto do sapato num dos olhos - mas numa situação pouco íntima e sem acordo mútuo.  Avancemos.

 

"Eu gostava de ser como tu
Não ter asas e poder voar
ter o céu como fundo
ir ao fim do mundo e voltar"



Esta é a quadra que não diz nada. Diz coisas supostamente bonitas. Mas estúpidas. Gostava de ser como tu. Como um balão. Que é uma coisa sem asas e que voa. E sou tão estúpido que queria ser como tu. Como um balão. Uma coisa pouco densa, volumosa, sem substância, que vai ao de cima de forma passiva. Está bem, abelha: há desejos piores.


"Não! Eu não sei o que me aconteceu
Foi feitiço!
O que é que me deu?
Para gostar tanto assim de alguém
como tu..."

 

---Aqui, o poeta diz tudo. Eu devia estar drogado ou perdido de bêbedo para gostar de alguém como tu, feia como o diabo, pouco densa como um balão... Mas pronto: ele também diz que gosta dela, apesar de ela ser ela. Mas como elogio, pegar só nos defeitos, funciona mal. Quais defeitos? Ele não os diz. Mas estão lá. Se foi preciso um feitiço e ele mesmo não sabe porque é que gosta dela, é porque ele mesmo não consegue ver nada que valha a pena nela. Mas, pronto, ainda assim gosta dela. O pior é que se o diz, assim, a ela, arrisca-se a levar com um estalo na tromba. Qualquer pessoa quer ser amada por valer o quer que seja e não por causa de um feitiço.



"Eu gostava que olhasses para mim
E sentisses que sou o teu mar
Mergulhasses sem medo
Um olhar, um segredo
só para eu te abraçar"


Aqui vê-se que é apenas um amor adolescente. Ele queria... ele queria, o quê ao certo? Eu não sei. O poeta não explica. Ele, que não vê nela nada de especial, quer que ela veja nele o seu mar, para se entregar sem medo. No fundo, ele deseja-a apenas. Pronto. Não a ama. É egoísta e malvado. Quer que ela se atire de cabeça, para ele a abraçar. Ele, que gosta dela mas nem sequer sabe porquê (e não é por ela ser boazona, que isso sabe-se).


"O primeiro impulso é sempre justo
É mais verdadeiro"


Isto confirma a minha ideia de que André Sardet vota CDS PP. O primeiro impulso é que conta. Dizemos aquilo que cai no goto das pessoas mesmo que, depois de analisado, seja um insulto para as pessoas. Mas como a maior parte das pessoas cai na esparrela, só é espantoso como é que a Democracia levou tanto tempo a tornar-se num valor tão consensual.

 

"E o primeiro susto
Dá voltas e voltas
Na volta redonda de um beijo profundo"

 

Como bom poeta que é, Sardet termina com um terceto ainda mais difícil de compreender, mas que é o mais bonito. Eu interpreto estes versos como o susto, arrepio, pânico, coisa ruim e boa que nos dá quando damos o primeiro linguado a sério, com a língua às voltas, de forma que nos parece ridícula (e que medo, o de sermos ridículos em tal altura), ao mesmo tempo que sentimos que não pode ser de outra forma. Pronto. Rendo-me. André Sardet comoveu-me agora mesmo. Nunca mais vou ouvir o raio da canção da mesma forma. Maldita reflexão que nos faz amar aquilo que seria de bom tom desprezar...

 

Só gostava era de, agora, conseguir ver algo de humano na carantonha gélida da Assunção Cristas. Isso é que era feitiço. E não saberia, de fato, o que é que me tinha dado, para gostar de alguém... como aquilo.

 

 

--- Masoquismo, talvez. Pois.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:38
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4 comentários:
De Tiago Peixoto a 9 de Junho de 2011 às 09:55
Eu penso que neste post (devo dizer que também não gosto da palavra) o professor revela todo o seu génio.

Não é qualquer pessoa que consegue olhar uma música romântica tão bem sucedida como esta de uma forma diferente.

Está muito boa a análise que faz ao poema.
De Luís Bonifácio\ a 9 de Junho de 2011 às 19:19
Acho que este texto constitui o maior elogio que o André Sardet recebeu até hoje.

Chamar poesia a este alinhamento de rimas, ainda que seja "má poesia" é mesmo assim eleva-lo a um patamar muito distante daquilo que alguma vez sonhava atingir.

Isto consegue ser pior que aqule alinhamento de rimas do Carlos Tê:

Empenhei o meu anel de rubi
Para te levar ao concerto que havia no Rivoli

E da canção o melhor é não falar, pois deve ter entrado para o Guiness como a canção que mais vezes repete o refrão em todo o mundo.
De Manuel Anastácio a 10 de Junho de 2011 às 01:00
Não é bem um elogio nem o contrário. É um texto meramente e amareladamente humorístico. Não tem pretensões críticas. A canção é má? As outras do mesmo autor são piores, parece-me... Obrigado pelo comentário, caro Luís.
De Silvério Salgueiro a 10 de Junho de 2011 às 07:34
Bem esmiuçado.

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