Segunda-feira, 6 de Junho de 2011
Nas mesas - reloaded

Tive por aqui um daqueles posts (não gosto da palavra) rapidinhos e que não interessam a ninguém - principalmente para quem gosta do meu lirismo mas nem por isso da rudeza da minha verdade - em que escrevia "Estão são as minhas armas". O post (não gosto da palavra) chamava-se "Palavras". Não era um post (não gosto da palavra) nem rude nem lírico. E, por isso, não passou na retina de ninguém, nem ninguém se deu ao trabalho de o criticar e de dizer: mas que m****é esta? Minto. Alguém disse isso, mas levou tempo. Não me estou a queixar. Agradeço todos os dias, a São Miguel e à Serpente, pela meia dúzia (pouco mais que isso) de pessoas que me leem como quem me ouve e, ainda por cima, ainda me dão a satisfação de me deixarem algumas frases, seja a sublinhar, seja a aplaudir, seja a criticar. Neste último caso é mais raro, mas quando acontece é quando mais vibro. Se me sinto ofendido, peço explicações, até porque não julgo que alguém que se dá ao trabalho de me ler as vá negar. Se me sinto certeiramente ofendido na rocha sólida e polida que são as minhas convicções, sinto algo diferente, sinto o formigar da antecipação de uma palavra que irá mudar a minha vida - e sinto-me grato por tais palavras, quantas vezes deixadas por pessoas que não amo, mas isso é ainda mais raro. Já me aconteceu - e aos poucos que me acompanham não passou isso despercebido, aconteceu alguém da minha família genética, e que eu amava, deixar-me aqui palavras que, ineditamente, apaguei. E que apaguei pela sua lisura de má fé e pelo pus amarelo ensanguentado que saía daquelas palavras envenenadas. Apaguei-as e respondi com outras semelhantes. Semelhantes, mas não iguais. Ouvi, então, alguém dizer das minhas palavras que tinha escrito algo de nojento e inauditamente perturbador. Que era incrível como alguém tinha a corajem de escrever algo de tão horrível. É claro  que tal crítica é hiperbólica. O bonito poema que escrevi na altura não é assim tão bom. Tomara eu ser capaz de escrever algo assim tão capaz de tocar o horror. O meu poema só pode parecer hardcore a quem não passou de Paulo Coelho e Miguel Sousa Tavares. E ao pé do que a pessoa geneticamente a mim aproximada me tinha aqui deixado - a mim e a quem me lê, e especialmente a estes, o que ainda mais me ofende - o meu poema era apenas uma composição da primeira classe (confesso que não li até ao fim as outras pérolas que aqui depois me foram deixadas onde a minha escrita era dissecada na sua vertente psicótica e em termos que não posso classificar, até porque os não li). Mas tinha essa pessoa deixado aqui a sua intenção de voto no partido dos grunhos racistas (e em quem deve ter votado, e que tenha bom proveito nisso). Ora, quando há umas semanas entrei no salão nobre da minha feguesia para dar o contributo do meu partido para a constituição das mesas, por acaso, e logo a seguir ao primeiro aperto de mão, dado à representante do PSD, calhou sentar-me ao lado do representante do partido que mais odeio. Que eu odeio partidos, mas não as pessoas que neles vagueiam como fantasmas sem rumo. A reunião decorreu de forma civilizada e até se conseguiu obter consenso, o que é raro por estas bandas. E ontem, comigo constipado como um porco, as operações eleitorais decorreram de tal forma que parecia que éramos todos filhos da mesma mãe. E de pai, caso deem importância a isso. Parecia sermos do mesmo sangue... por que razão? Talvez porque éramos de facto do mesmo sangue. E porque perdoamos a todos o facto de serem ou poderem ser porcos fascistas, da mesma forma que os senhores que passavam horas na cabine de voto a escrever "Parem de olhar para os vossos umbigos, porcos (gosto da palavra - não gosto de post) de m**** (não gosto dos asteriscos mas há quem goste ainda menos da palavra), ide trabalhar e passem a ser sérios, sua cambada de ladrões filhos da meretriz-rameira-marafona-prostituta-alternadeira-massagista (só para ver se o google manda para aqui mais gente)..."....da mesma forma que essa gente vinha, depois, sorridente, dar-nos o aperto de mão de quem a todos ama por igual - menos a si mesmos. Se se julgam assim tão sérios fundem outro partido, ora essa. Que se parta mais esta Pátria que os raios não partem. Ontem adormeci a sonhar com todas as sedes de partidos de esquerda com as suas bandeiras recolhidas e, no lugar destas, a bandeira nacional a meia haste enquanto o sonho maldito do carneiro paridor de coelhos se mantiver nesta terra de pessoas com letra minúscula e sem heterónimos. Ontem adormeci a sonhar que não era preciso nada disto. Que é possível darmo-nos todos bem. Mas não. Esse é o meu sonho. Não é o deles. Sou tão boa pessoa que meto nojo. Às vezes vomito-me a mim mesmo. Sou demasiado adocicado.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:06
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