Terça-feira, 10 de Maio de 2011
Artigo do Le Monde sobre o Vale do Ave

No norte do país, a crise económica eclipsa a contenda  presidencial

 

Em ruínas, a fábrica de têxteis “Sociedade de Fiação de Vizela” e os retratos dos fundadores.

Reportagem, Porto, Enviado especial (Jérôme Fenoglio)

 

Os últimos dias de campanha eleitoral nacional trazem, invariavelmente, de volta os candidatos à quadra norte de Portugal. Pensa-se que o calor do acolhimento pode dar origem às imagens que melhor poderão influenciar os últimos indecisos. Antes da primeira volta da eleição presidencial, domingo, 23 de Janeiro, Manuel Alegre, candidato do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda concluiu, assim, o seu percurso com um encontro, sexta feira ao final do dia, no Porto. Um dia antes, o cessante presidente da República e grande favorito do escrutínio, Aníbal Cavaco Silva (Partido Social Democrata, centro-direita), tinha tomado o mesmo caminho.

 

Estes banhos de multidão arriscam-se, contudo, a serem submergidos domingo por uma maré de abstenção. O [ilegível (…))] eleitorais e também a região que concentra todas as dificuldades de um Portugal entravado pela sua dívida e sem grande coisa para vender. Durante muito tempo, era nestas terras industriosas que repousava a saúde económica do país. Passados os anos, não alimentam mais que os prejuízos do fecho de empresas. “Durante décadas, o Porto foi a capital do trabalho”, diz João Torres, responsável local do sindicato CGTP, “hoje, é a capital do desemprego”. “Portugal afasta-se economicamente do resto da Europa e o Norte separa-se do resto do país”, constata, pelo seu lado, o sociólogo João Teixeira Lopes.

 

Este declínio mantém-se particularmente  num triângulo com cerca de quarenta quilómetros de lado, entre Porto, Braga e Guimarães. Uma microrregião de vales verdes e crises profundas. Aí, à margem do Rio Ave, desenvolveu-se uma indústria têxtil pouco depois da queda desta actividade em França e no Reino Unido. “ O sector descolou nos últimos tempos da ditadura, relembra M. Teixeira Lopes. O seu modelo baseia-se numa mão de obra abundante, pouco qualificada, mal paga e com recurso frequente ao trabalho infantil. Com esta especificidade: nesta região rural, os operários complementam muitas vezes o seu salário com uma pequena actividade agrícola”.

 

A paisagem é, aliás, marcada por esta “rurbanização” antes de tempo. Neste tecido densamente povoado as casas derramaram-se pelos campos, as fábricas implantaram-se nos recantos dos prados, nas covas dos vales, no coração das aldeias. No seu carro, Adelino Mota, antigo trabalhador do sector aponta as chaminés sem fumo com a amargura do guia que não tem mais a relatar além de perdas. À direita, uma fiação que dava trabalho a 500 trabalhadores fechou há dois anos. Uma parte da sua produção foi deslocalizada para o Paquistão, onde a concorrência, juntamente com a de outros países como da Ásia e do Magrebe, levou ao fracasso do sector. Mais à frente, outra unidade fechará em Março. Os seus 150 trabalhadores foram já convidados a deixar os seus postos. No parque de estacionamento, as raras viaturas são as dos técnicos que vieram desmontar as máquinas.

 

“O sector já conheceu grandes crises”, diz Adelino Mota, “mas nesse tempo, as pessoas conseguiam restabelecer-se. Despedido nos anos noventa, depois de vinte anos na indústria têxtil, reconverteu-se para a construção civil e depois, para os transportes. “A diferença, hoje, é que esta crise é geral. Não encontramos trabalho em mais lado nenhum”. A construção civil foi abaixo, a indústria química ou siderúrgica nos arredores do Porto foi também batendo as asas. A pesca foi desmantelada pela destruição subvencionada de mais de metade da sua frota. A agricultura não assegura mais, na maior parte dos casos, que alimentos de subsistência para os desempregados dos têxteis. A válvula da emigração já não funciona. Muitos dos que tinham partido para Espanha à procura da sua sorte na construção regressaram com a explosão da bolha imobiliária.

No vale do Ave, espalham-se novas formas de actividade, de modo a baixar o custo do trabalho. Como a deslocalização interna da mão-de-obra. “As fábricas sobreviventes recorrem a subcontratados que passam eles mesmos a comandar todo o género de pequenas estruturas”, explica António Peixoto, de 54 anos, despedido em 2009, depois de 36 anos de trabalho. “Aqui, chamamos-lhes ‘empresas de corredor’ porque são muitas vezes instaladas em casas de habitação. Recorrem aos desempregados, pagando-lhes à tarefa, sem nada declarar. O salário é inferior ao mínimo legal [485 euros mensais], mas os patrões deixam claro que é um suplemento aos subsídios”.

 

O procedimento revolta António como uma tentativa do patronato local para obter a redução dos subsídios de desemprego, de modo a dissuadir os trabalhadores a procurar emprego. Critica a imperícia dos dirigentes que nunca reinvestiram o suficiente de modo a sair do modelo baseado na mão-de-obra pobre. De facto, os empresários que sobreviveram, nomeadamente no sector do calçado, foram aqueles que apostaram na qualidade. São estes que estão na origem de um ligeiro aumento nas exportações, depois de vários anos em queda.

 

Mas isto está longe de ser suficiente num Vale do Ave que se afunda, segundo António, numa “apatia generalizada”, com recurso à solidariedade familiar sem qualquer tipo de movimento social. Nestas terras profundamente católicas, onde os sindicatos pesam pouco frente ao paternalismo patronal, a revolta nunca esteve na ordem do dia.

 

Tradução de um artigo do Le Monde onde falam alguns dos meus amigos do Bloco de Esquerda de Guimarães e Famalicão, já que ninguém se propôs, antes de mim, à tarefa. A tradução sofre provavelmente de várias falhas. Peço aos meus camaradas para me indicarem se fiz algum erro grosseiro.

publicado por Manuel Anastácio às 18:40
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