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Segunda-feira, 9 de Maio de 2011
Deixem passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins

Rui Cardoso Martins. Um dia, li um texto dele sobre a campanha de má memória do nefasto presidente que sobre nós paira com conselhos paternais de responsabilidade.

 

- Algo contra a responsabilidade?

- Nada, camarada, é responsabilidade mesmo que eu quero, mas não aquela de quem só a tem para proveito próprio.

 

Partilhando esse texto, que me fez vir as lágrimas aos olhos, a Maria Helena deixou-me o aviso de que algo me andava a escapar. Um livro deste autor, chamado "Deixem passar o Homem Invisível". Eu prometi procurar o livro. Mas a Maria Helena, mais célere na sua bondade sem limites, ofereceu-mo com o equinócio da Primavera e com as amêndoas pascais da doce amargura do cíclico renascimento do sol e da flora. No estado sonâmbulo em que me encontro, levei tempo a lê-lo. A responsabilidade de o comentar atrasou-me o gesto de o abrir. Este fim de semana, a caminho da VII Convenção do meu partido, onde tive a honra de ser um dos delegados, e como sou bom leitor de autocarro, escorreguei literalmente pelos canos deste sonho maior que a vida. Porque há sonhos maiores que a vida. Há filmes maiores que a vida. Há gestos maiores que a vida. Há livros maiores que a vida. E Rui Cardoso Martins é autor de um destes. Não é pela originalidade de um livro que, em muitas coisas, se assume como uma paródia à escrita de Saramago, seja o do Ensaio sobre a Cegueira seja o do Memorial do Convento. "Cegos são pessoas que não vêem, na minha opinião", abre ele num sorrido ácido e amargo disfarçado de tautologia. Disfarçado só. Porque La Palisse não mora aqui. E Saramago só mora como referência inevitável, mas dilacerada por um sentido de humor negro que faz chorar de desespero. Não me lembro de obra de arte alguma onde o humor (do melhor) me tenha feito chorar de tristeza. A alegoria está lá. Está lá o realismo mágico dos milagres que se escondem sob a forma de truques. Ou truques que se escondem sob a forma de milagres - se calhar, até é mais isto.

 

No final do dia, depois de uma longa pratada de discursos políticos, uns com mais oratória, outros com menos, mas todos carregados da angústia de quem traz o fardo do mundo nos sonhos que os outros não querem realizar, fui com alguns camaradas de Famalicão passear na baixa de Lisboa em direcção ao Tejo. Já tinha lido o livro. E não resisti a dizer, enquanto descíamos a Rua Augusta sob as ralas bátegas de uma chuva de miséria, que debaixo dos nossos pés seguia um cano de esgoto de três metros por três metros, o suficiente para passar por lá um elefante. No cais das colunas, fiquei frente ao cenário onde o livro encerra. Nada tinha sido programado. Não sabia que era ali que o livro acabava. Podia ter acabado o livro em Guimarães, à sombra do castelo, mas não. Li aquelas palavras torrenciais, sorridentes, maldosas, cínicas e maiores que a vida ali, a caminho de um Tejo que nos chama, que nos engole e nos vomita sem piedade. Como Rui Cardoso Martins nos faz nesta história sobre um cego advogado que, em estado sonâmbulo, aceita condenar os inocentes e verá cair-lhe nos braços o terno fruto do seu pecado.

 

Há neste livro o cínico olhar sobre a lusa maneira de ser enganado, a lusa maneira de acreditar, a lusa maneira de sermos totus tuus, Mãe de Deus, senhora celeste que pede orações e sonâmbulos sacrifícios que nos livrem da negra transparência dos demónios.

 

Volto a dizer que não sinto que haja aqui uma especial originalidade. Mas Rui Cardoso Martins vai para lá das pretensões. Afinal, não passamos de meros repetidores dos truccos feitos por ilusionistas dos tempos bíblicos. Nada há de novo a escorrer nos esgotos das nossas cidades. Há apenas a mera repetição das lágrimas, dos risos nascidos da resignação, da esperança infundada num milagre que por vezes acontece.

 

Um livro milagroso escrito, como disse alguém dos textos sagrados, por intermédio do Espírito Santo. Por inspiração divina. Creio sinceramente no que digo. Ao reler as últimas páginas compreendo perfeitamente que se acredite que o sacrifício do Filho se repita integralmente no acto da Eucaristia.

 

Tristeza não tem fim. Felicidade, sim.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 21:03
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1 comentário:
De Maria Helena a 12 de Maio de 2011 às 21:53
Há duas maneiras de estar na vida. Aquele que joga com as cartas voltadas para cima e aquele que esconde os trunfos. O primeiro sabe perder. O segundo não sabe ganhar.
A tua enorme generosidade devolve-me sempre um olhar um pouco mais límpido.

Dizer de sua justiça

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