Quarta-feira, 6 de Abril de 2011
Fábulas de Esopo: A raposa e o corvo

Capitel da Igreja românica de San Martín de Fromista, Palencia (Espanha).

 

À raposa, certo dia,

Ao ver um corvo a pousar

Numa certa ramaria,

Deu-lhe para reparar

Num queijo que ele, c' o bico,

Acabara de roubar.

E ela, num saltarico,

Sob o ramo se meteu,

Cobiçando o pitéu rico

Daquele bico pr’o seu.

“Boa tarde, Mestre Corvo”

Assim ela se atreveu,

Sem receio como estorvo,

Pronto a tudo arrumar

Num rápido e curto sorvo.

"Não me canso de admirar

A elegância e beleza

Com que se quis enfeitar

A animal natureza,

Ao, no seu corpo, investir

Tamanha delicadeza.

É difícil decidir

O que mais belo parece:

Essas penas a luzir

Ou esse olhar que enternece

O mais duro coração.

Confesso que me apetece

Ouvir-vos numa canção.

Vossa voz está, certamente,

P'ra lá de comparação,

Mesmo para ouvido exigente,

Seja com o rouxinol

Ou outra canora gente.

Das aves serás o sol,

Como deus, idolatrado

Serás por certo, se ao rol

Do qu'ora me é mostrado,

Se juntar o belo canto

Que em vós tenho adivinhado.

Movido pelo encanto

Da raposa mentirosa,

O corvo, sem grande espanto,

Faz a asneira desastrosa

De abrir o bico e grasnar,

Pensando ser maviosa

A sua voz de assustar.

Claro que o queijo caiu

Mal começou a cantar.

E como a ladra previu,

Caindo directo ao chão,

Logo a boca se serviu.

“Não vos vou pedir perdão”,

Disse a desavergonhada,

“Pago-vos com uma lição,

A que estou mui obrigada

Em paga da refeição

Que terei daqui a nada.

Quem confia em elogios

Sem olhar a quem os faz

Devia acalmar os brios

Que na sua alma traz.”

 

(versão de Manuel Anastácio)

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publicado por Manuel Anastácio às 21:02
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1 comentário:
De glaucia lemos a 6 de Abril de 2011 às 22:37
Já li algumas outras traduções. desta fábula. Gostei muito desta de versos em redondilha,

Dizer de sua justiça

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