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Terça-feira, 5 de Abril de 2011
Mails da treta: Duas semanas sem noite

É aquilo a que Júlio Verne chamaria um figo. Na altura deste autor, contudo, as concepções alternativas e boatos difundiam-se por outros meios e a outra velocidade. Hoje, o que é sensacionalista, ainda que não venda da mesma forma (ainda existe o jornal "O Incrível"?), espalha-se à velocidade, se não da luz, do som.

 

Desta vez chega-me a notícia de que um senhor chamado Brad Carter, Senior Lecturer de Física, na University of Southern Queensland, andou a sonhar com esta maravilha apocalíptica:

 

Até ao final de 2011, a Terra poderá ser iluminada por dois sóis, ou seja, duas estrelas, e não ter noite durante esse período.

O acontecimento, diz Brad Carter, professor na Universidade de Queensland, na Austrália, acontece ainda antes de 2012, por isso, ainda este ano vamos poder assistir a uma supernova, isto é, a uma explosão de uma estrela, que causa uma explosão de luminosidade.
A explosão da estrela Betelgeuse, a 640 anos-luz, não causará problemas aos seres humanos para além do facto de viver duas semanas sempre de dia, avança hoje a revista Sábado.

 

A primeira suspeita de que se trata de treta deve-se, tão simplesmente, ao facto de ser uma notícia de tal modo espantosa que, sendo verdade, não se compreende porque é que tem de ser enviada por mail em vez de dar, simplesmente, no Telejornal. OK. O telejornal também já disse muita treta. E há sempre algo em nós a puxar para a teoria da conspiração; os meios de comunicação não querem alarmar ninguém (não querem mesmo?). Quem nunca leu livros sobre ovnis e fenómenos paranormais que atire o primeiro punhado de ectoplasma.

 

Mas vamos por partes (peço desculpa se, depois, não for por partes, não é isto mais que defeito de linguagem): o mail tem um link para uma notícia da revista Sábado. Mas se carregarmos (e eu não aconselho isso a ninguém) vamos dar  a uma notícia do jornal Destak, que não é a revista Sábado, ainda que o jornal Destak, nessa coisa chamada notícia fale da Revista Sábado. Ora, não sei que raio de ligação haverá entre o jornal gratuito Destak e a Revista Sábado, conhecido panfleto direitista português (que, ao contrário do panfleto do Bloco de Esquerda que eu, por vezes, distribuo por Guimarães, não é gratuito), mas suponho que haverá pelo menos a ligação da ignorância profissional (não ponham a Wikipédia no mesmo saco, que o assunto é outro - não sejam ignorantes também). Não consta, porém, que a Revista Sábado tenha, contudo, defendido a tolice de um dia de duas semanas. Até porque se os capitalistas ganaciosos (que os há também na Esquerda, mas sem pais abastados) que dirigem a revista se dão bem com a ignorância dos leitores, não me parece que sejam parvos o suficiente para divulgarem má ficção científica desta maneira. Como disse, não sei se a revista deu a notícia ou não, mas tudo indica que não (e se deu, que ganhem vergonha na cara e, pelo meio, leiam "O Capital" de Carl Marx, só de castigo - podem continuar, depois, a defender a acumulação de capital através da exploração do valor do trabalho alheio, estou-me nas tintas até porque o povo português, que é quem manda, também está).

 

Mas, deixando a parte da bibliografia em língua portuguesa, resta saber como é que uma revista portuguesa conseguiu a história antes das suas congéneres norte-americanas, anglo-saxónicas, etc etc... Na verdade não conseguiu: na verdade, o senhor Brad Carter terá dito algo muito poético ao Huffington Post e que não se resumia ao disparate das duas semanas sem noite. Entre afirmações que não são textuais e que, portanto, não sabemos se pertencem ao talvez-caquéctico-ou-talvez-mal-interpretado professor de Física se ao ingénuo e crédulo jornalista do Huffington Post, terá dito, entre outras coisas, belas e acertadas palavras que os jornalistas do Hufflepuff (ou coisa assim) não entenderam bem à primeira e muito menos entenderam à segunda, depois de alguns chatos como eu lhes terem chamado nomes feios (e "ignorante" era o nome menos feio). Carter disse que uma supernova, uma estrela que explode no seu fim de vida "leva à criação de coisas como o ouro, a prata - todos os elementos pesados - ou mesmo coisas como o urânio.... uma estrela como Betelgeuse forma instantaneamente todos os tipos de elementos pesados e átomos que a nossa própria Terra e o nossos próprios corpos têm, de antigas supernovas" (as reticências no meio da frase parecem indicar ou que a entrevista foi feita pelo telefone ou com uma bujeca pelo meio). Ora, é verdade que somos feitos de pó das estrelas, sim senhor. E que algum desse pó foi feito em supernovas como aquela que Betelgeuse será um dia destes (mas muito improvavelmente em 2012: de facto, até já foi, provavelmente, há mais tempo, mas como o que acontece lá demora 640 anos a ver-se por aqui, não creio que haja tantas certezas de que o espéctáculo seja já para o ano que vem, o que seria mau para Guimarães - com estrelas a explodir no céu quem é que quer saber de uma capital europeia da cultura num país em bancarrota?). Algum do pó de que somos feitos nasceu, de facto, numa supernova. Mas isso faz com que a explosão seja benéfica para a Terra, como é dito no artigo do Huffington Post?? Obviamente que não. Os elementos que lá forem produzidos poderão vir um dia a serem úteis para alguma forma de vida, mas não aqui para a malta do terceiro calhau. E a malta do Huffington Post, crente-até-ao-fim-deus-seja-louvado, ainda faz uma emenda pior que o soneto e mistura neutrinos com elementos pesados e não sei mais o quê. O certo é que de verdade científica, nem uma gota. E Carter será o menos culpado de todos.

 

Finalmente, o brilho desta supernova, quando lhe der para explodir, alheia ao calendário humano, poderá, de facto, andar perto do brilho médio da nossa lua. Por isso, quando muito, teríamos umas noites um pouco mais iluminadas e mais um corpo pálido a enfeitar o céu durante o dia. Nada que aumente a intensidade da fotossíntese das plantinhas. Nada a que se possa chamar um dia de duas semanas.

 

Mais vale ler o artigo da Wikipédia. Até o artigo em português, não muito desenvolvido, esclarece mais que o artigo que deu origem a esta corrente de conversa de quem não tem mais que fazer.

 

Se eu não tivesse o meu tempo contado, poderia discorrer aqui sobre outras coisas muito interessantes, como:

 

- será que é possível prever com tanta precisão quando é que acontecerá a explosão de uma supernova? Consta que houve um senhor que o fez com grande precisão... mas acho que foi num filme qualquer de Hollywood com a Jodie Foster, se não estou em erro. Na realidade, acho que génios desses, que sabem mais do que aquilo que jamais chegaram a publicar em revistas científicas (não, o Huffington Post não é uma revista científica, nem a Revista Sábado, e muito menos o Destak) só existem em filmes dessa área geográfica - os filmes indianos, com deuses com cabeças de elefante, são muito mais credíveis em termos científicos. Até um site adventista chama a atenção para o facto de que ninguém sabe quando esta estrela explodirá.

- qual a influência do "Star Wars" neste género de boato cibernético?

- quem é Brad Carter?

- onde é que fica a Universidade de Queensland na Austrália? À direita ou à esquerda dos cangurus?

- A explosão, diz o mail, vai acontecer este ano... ora, estando a estrela a 640 anos luz, parece-me que a veríamos daqui a 640 anos, mas mesmo descontando essa ninharia... era para este ano ou para 2012? O pessoal que escreveu o mail é pessoal inteligente que gosta de rir com a credulidade do Zé Toinhinho ou quê...?

 

Entretanto, agradeço que me enviem todos os mails deste género que recebam. Sempre me dá uma certa urgência nos dedos quando os leio.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 21:02
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2 comentários:
De Paulo a 6 de Abril de 2011 às 03:46
"Sempre me dá uma certa urgência nos dedos quando os leio."
Nem mais: dá assunto para um óptimo post.
De glaucia lemos a 6 de Abril de 2011 às 15:46
Coisas que tais tem o lado positivo: servem para termos, no texto da contestação, informações que nos acrescentam cientificamente, nas quais podemos fazer fé.

Dizer de sua justiça

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