Sexta-feira, 1 de Abril de 2011
Grown Ocean, Fleet Foxes

 

Grown Ocean dos Fleet Foxes.

 

Diz Robin Pecknold, voz dos Fleet Foxes, que o mais recente álbum da banda trata d' "a luta entre aquilo que somos e aquilo que queremos ser ou o que acabamos por ser, e como por vezes o único obstáculo entre uma coisa e outra somos mesmo nós".

Mais um a fazer-se à equerdalha tolentinomendociana.

Há a ideia de que somos uma coisa e desejamos ser outra e que a felicidade está em sabermos lidar com o conflito entre ser e desejar.

Não sinto isso como verdadeiro.

Somos o que desejamos, sempre. As máscaras com que nos apresentamos aos outros são, aliás, inúteis, até porque os outros verão em nós outras máscaras que não as que queremos usar, ou, não usando máscara, os outros verão sempre outra cara que não a nossa. Por isso, o melhor é relaxar. Ser. E desejar.

Somos sempre o que desejamos.

Não o que temos ou somos. A contradição, evidente, só existiria se o ser fosse atómico, indivisível, imutável e irreferenciável. Dizer que somos o que não somos não é contradição. É uma evidência. Só somos o que somos em cada instante e, como todos sabemos, os instantes não são fotografias nem frases soltas numa canção enumeratória do Pedro Abrunhosa. Há, num instante, mais do que o céu que podemos conceber poderia comportar.

Mas desejar, ou usufruir da insatisfação, não é um tormento. Não tem de ser.

O desejo, não sendo firmamento estável, será sempre a mais firme das nossas referências. A religião, a ética, a ideologia, tudo é desejo porque é referência, orientação, norte. Se conseguirmos saltar destas faixas de desejo colectivo para um desejo individual, tanto melhor. Mas isso não significa sucumbir ao egoísmo. O desejo individual alimentado pela sua própria satisfação leva à sua anulação. O nirvana é apenas o desejo de quem está cansado de desejar. Na verdade, o universo é todo ele desejo. Heráclito e Camões chamaram-lhe fogo, guerra, amor.

E "o que acabamos por ser"? É, apenas, aquilo que filtramos do que nos dizem que somos. Nunca acabamos por ser coisa nenhuma, embora nos agarremos a certas imagens porque, triste ou felizmente, somos desejo, mas não Um Desejo. Somos politeístas de nascença. Acendemos uma vela a São Miguel e centenas a cada uma das serpentes que se enrodilham pelas nossas pernas acima ou que pousam suavemente nos nossos ombros. E São Miguel, pouco podendo contra tal bicharada, rapidamente recolhe aos versículos crípticos do Apocalipse e deixa-se ficar caladinho, de espada em riste, escudado na impenetrabilidade das profecias, mais à espera de não a usar que de ser obrigado a provar aquilo que os crentes pensam de que é capaz.

O único obstáculo entre "ser", "desejar" ou "acabar por ser" somos apenas nós? Disparate vazio de significado e mesmo de desejo de significado. O que vale é que gosto da música. Muito. E acaba por dizer o que eu tentei dizer, a contracorrente do que Pecknold acabou por dizer. Por outros secretos caminhos.

publicado por Manuel Anastácio às 21:21
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