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Quarta-feira, 30 de Março de 2011
Tolentino de Mendonça

Há demasiadas frases vazias naquilo que quer dizer alguma coisa.

Repare-se: dizemos "quer dizer alguma coisa", não dizemos, apenas, "diz alguma coisa".

Querer dizer é o grau máximo de significado comportado por um discurso.

O desejo de ser mais que discurso é o único significado possível em qualquer forma de expressão.

E o que é que eu quero dizer com isto?

Provavelmente nada. "Tudo o que tenho, trago comigo", reza um título de Herta Müller citado por Tolentino de Mendonça numa entrevista que me foi recomendada pela Maria Helena.

Tolentino de Mendonça é um sacerdote que escreve poesia. E havendo quem goste, há quem diga que na poesia dele não há mais que o fruto de um sorteio aleatório de palavras. E diz-se que, ainda que sacerdote, foi beatificado pelo comadrio da esquerdalha que infesta as letras em Portugal. Sendo eu parte da esquerdalha (mas não do comadrio), creio que também sou cultor desta escrita vazia de significado. Apesar de ler com atenção as críticas, farpas e ferrões venenosos da direitalha que, movida de ódios e azedumes secretamente segregados sabe-se lá em que escusas alcovas, se parecem com a de uma alma morta que, se não pregasse o ódio, sempre poderia fazer de Judas de palha. Aqueles espantalhos que a tradição popular portuguesa gosta de queimar por alturas deste equinócio depois de, por artes de ventriloquismo,  servirem de cronistas do popularucho maldizer ou bodes expiatórios da mais lusa, primordial e rácica grunhice.

Agora vinha eu em defesa do padre poeta. Mas conheço mal. Usa imagens que, de facto, me parecem algo gratuitas e desconexas, ainda que cheias de intenção.

 

Em certos dias, nem sabemos porquê 
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa

 

Pode não dizer nada, mas quer dizer alguma coisa. A mim basta-me. Prefiro o desejo ao enjoo.

A escrita, quando é sagrada, não se confunde com encíclicas e catecismos.

publicado por Manuel Anastácio às 20:20
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2 comentários:
De Maria Helena a 30 de Março de 2011 às 21:51
A única coisa que me incomoda nesta tua apreciação é o (?) à frente do meu nome. Diria que me irrita, até.

De Manuel Anastácio a 30 de Março de 2011 às 23:44
É que eu recebi a recomendação mandada apenas por "Helena" - e fiquei na dúvida. mas já tiro.

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