Segunda-feira, 28 de Março de 2011
Brunilde

Para o Paulo Almeida

 

Anéis de fogo no eloquente silêncio das rosas

Sobre cinzas onde dormem deusas.

Puras, materiais, ignaras ainda da ideia de poderem,

De espírito avaras, noutro desejo transubstanciar

A lã em neve, o haver em deve, o  longo em breve.

Em aros de luz há, decomposta, digo, disposta está,

Silente, quente e leve, a breve graça de acordar.

Ferve o metal de todos os desejos

No aloquete sem chave da voz humana.

E há a lança em sangue da impureza zoroastriana do fogo.

Imersa, disfarçada na maldição, há, digo, houve

A transubstanciação de amido cozido, não levedado,

Em coração. Em corpo, vida, vómito, frémito, oração

Que sobre quem a escuta cai e não se prostra em estrado raso de ilusão.

Chuva de rosas prometida em boudoir de menina feia,

Doida valquíria, Vénus perdida no corpo de Freia,

Tudo há aqui, no leitmotiv que se derrama do vento

No ébrio bafo de marinheiros

Entregues, inteiros, ao sortilégio

Do elo quente que une o Inferno ao céu

Em caminho desenhado por pés ausentes

De quem deixou o mundo há muito,

Entregue a nós - a nós, que desgraça, que desastre, - e

à lembrança vaga das filhas do Reno

sobre pedras eloquentes no seu desgaste.

No profundo hálito

Da respiração

De quem dorme, o mundo, trovejam

Todas as deusas. Semi-deusas e sementes

E os deuses, alheios, ausentes, desejam a morte do destino.

Mas sem nome, sem eu, sem religião

Ou mesmo, sem opinião ou desejo, surge

A lança ensanguentada no cálice do mais puro e pagão silêncio.

Os deuses não morreram. Não, faça-se um importuno e cristão silêncio.

No gélido túmulo das obras imperfeitas, deixaram, insatisfeitas

As suas inclinações direitas. Os deuses não morrem.

Recolhem em hibernação.

publicado por Manuel Anastácio às 23:44
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1 comentário:
De Paulo a 29 de Março de 2011 às 01:54
Cá está ela. Obrigado, Manuel.

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