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Terça-feira, 8 de Março de 2011
Radicalismo

A palavra radical refere-se à ideia de raiz. E, por botanicamente absurdo que seja, associa-se a ideia de raiz à ideia de inflexibilidade, de fundamentalismo, de intolerância. Ora, a raiz é o órgão que permite a um organismo vivo obter o mais vital dos seus elementos constituintes - a água, por antonomásia (ou por figura de estilo parecida), vida, mas que de nada serve sem o contributo das folhas, da clorofila, da luz do sol e do dióxido de carbono aspirado em sorvos sem esperança por estomas mais ou menos inchados conforme a pressão osmótica dos respectivos citoplasmas. A raiz é apenas um órgão que segura à terra e absorve um dos três ingredientes fundamentais da vida na Terra: como já disse, água, dióxido de carbono e luz do Sol. Quando se fala de radicalismo, fala-se, portanto, por paralelismo, de apego a alguma coisa essencial mas não, por si mesma, suficiente. É radical aquele que não aceita ser transportado para outro lugar, real ou imaginário, espacial ou conceptual. Eu não sou desses. Tenho descoberto, graças ao Facebook, gente da minha Terra que andou comigo na escola. Não é tal maravilha tão prodigiosa como a de encontrar um conterrâneo que nunca conheci em carne e osso, mas não deixa de provocar sorrisos da minha parte. E repito-lhes sempre o mesmo discurso: não tenho raízes na terra que me viu nascer. Logo, em termos espaciais, não sou radical. Mas poderei sê-lo em termos políticos? Tenho as minhas dúvidas. A corrente mais esquerdista onde me arrasto é, graças a Deus, uma corrente cheia de coisas diversas. É engraçado que alguém me classifique como um bloquista ferrenho ou lá o que é, que é coisa que não sou. O meu melhor amigo da minha idade contemporânea já foi líder da JSD e é actualmente grande defensor do Coelho das Passas... Na verdade, estou-me nas tintas para o pensamento político das pessoas que comigo se cruzam desde que (e isto tanto se aplica a bloquistas como a não bloquistas) jamais, mas jamais, ponham em causa o direito à vida e à dignidade dos outros seres humanos e das outras formas de vida (onde ponho animais e vegetais ao mesmo nível - por isso mesmo não tenho pruridos na consciência por não ser vegetariano, da mesma forma que um leão ou uma aranha também não têm). Nisso eu sou inflexível e radical. E não creio que tal radicalismo me estorve a razão. O substrato onde fundo as minhas raízes é um substrato utópico, sem dúvida. Tenho a raíz principal ancorada no eixo da Carta dos Direitos Humanos e as raízes secundárias a passear pelos Mestres, sejam eles o Sócrates Grego, Jesus de Nazaré, Karl Marx ou o Groucho do mesmo apelido. Vivo de uma Utopia onde busco esperança e sentido, se não para a minha vida, para a vida da espécie tonta a que pertenço. Sou radical nos valores mais fundamentais. Sou fundamentalista - e muito- apenas em meia dúzia de coisas. Não aceito que alguém discrimine alguém por causa de cor, nacionalidade ou caracteres físicos, e estendo o mesmo pensamento para a ideologia política e religião, desde que as mesmas não interfiram com as minhas mais firmes raízes. Rego com o supremo cálice da indiferença quem odeia os outros por outra razão que não seja o facto de serem maus. Muito maus. Que maus, no fundo, somos todos.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:39
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8 comentários:
De gláucia lemos a 9 de Março de 2011 às 15:08
Comungo de todo o pensamento que norteia este texto, no qual os conhecimentos científicos, o sentimento humano e a maturidade se exaltam sobremaneira, especialmente a partir da sentença que se inicia em "Não aceito que alguém discrimine alguém por causa de cor, nacionalidade ou caracteres físicos, etc." até o final. Tenho como lema e directriz de vida o respeito humano, que me conduz a ver no meu semelhante, o que esta palavra expressa: alguém semelhante a mim, com suas características pessoais que em nada o tornam melhor ou pior de que eu mesma, em princípio, enquanto não conhecidos os seus sentimentos e o seu carácter , os quais, só eles, poderiam mudar ou não o seu conceito diante de mim. Eu assinaria este texto, pela minha identificação com seu pensamento, guardadas as devidas proporções referentes à excelência da redacção do seu admirável autor. Mais uma grande página do escritor reconhecido que você é, sempre merecedor da minha admiração. Grande e sincero abraço.
De Maria Helena a 10 de Março de 2011 às 19:57
Já conheces isto?

http://hubmadrid.com/dondesucedenlascosas/
De Manuel Anastácio a 12 de Março de 2011 às 13:19
Não, não conhecia... Parece ser um projecto interessante mas ainda não percebi bem como é que funciona...
De Silvério salgueiro a 10 de Março de 2011 às 22:49
Eu ainda tenho as raízes lá na Terra onde vou ,de vez em quando, ajeitar o chão, podar os caules e por vezes colher alguns frutos. Mas a fotossíntese faço-a também aqui iluminado à luz tão clara e direta da tua prosa sem nuvens cinzentas nem penumbras.
De Maria Helena a 11 de Março de 2011 às 22:44
Este blog e respectivas(os) comentadores(as) embargam-me as teclas de comoção.
Hoje, disse a alguém que era a confiança que dava consistência moral às relações, fossem ela reais ou virtuais. Este blog dá-me a certeza do vivido no que afirmo.
Caramba, Srª Dona Gláucia e Don Silvério qualquer dia já não sei se venho aqui encontrar-me com os textos do Manuel, se com os vossos comentários!
Apre, que são imensamente bons!
Todos.
De Manuel Anastácio a 12 de Março de 2011 às 13:22
Pena que a Gerana tenha deixado o clube... :(
De Maria Helena a 14 de Março de 2011 às 21:37
Eu tenho uma esperança que me dá a certeza de que teremos, de novo, a Gerana connosco, um dia destes.
De Manuel Anastácio a 14 de Março de 2011 às 22:13
Sabes algo que eu não sei...

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