Sábado, 26 de Fevereiro de 2011
XX

 

Uma sugestão da Ana Ramon: Camille Saint Saens e os braços de John Lennon da Silva. Porque não há nada mais belo que a criação e a diferença (até a diferença de ideias, imagine-se eu a dizer uma coisa destas).

 

 

Nunca apelei ao suicídio de ninguém. Muito menos num poema. A poesia é demasiado rica e desnivelada para se ler nela qualquer tipo de apelos. E dirigem-se (a não ser que tenham dedicatória) a quem sentir neles um barrete enfiável. Apesar de ser a favor da eutanásia, que é um sacrifício supremo para quem a realiza, mas é uma dádiva de amor para quem a recebe quando a deseja, o suicídio é apenas morte. E eu não gosto da morte. Ninguém deveria morrer: nem as crianças vítimas de aborto (e eu votei sim pela despenalização) nem as vítimas do Aborto chamado Humanidade. Mas há muito de Aborto na humanidade. Houve um antepassado meu, com quem partilharei alguns genes, há algum tempo, ainda eu não era nascido, que, cheio de dívidas até ao pescoço, veio ter com um avô meu, de maiores posses, para pedir-lhe ajuda financeira. Com a rudeza que também anda por vezes nos meus genes, o meu antepassado proferiu a frase seca: "olha, põe uma corda ao pescoço e enforca-te". Foi o que o meu antepassado fez. Enforcou-se. Muitas vezes, na minha adolescência, julgando-me a mais infeliz das criaturas, senti esse espírito de desistência perante horas de suplício que, se as tivesse de reviver, me tornariam a vida penosa para além do tolerável. Não tivesse acontecido uma ruptura na ordem das coisas e haveria, provavelmente, algures, uma corda assombrada pela minha morte. A cobardia perante a morte, não sendo inesgotável, é uma coisa boa. Mantém-nos vivos. Eu sobrevivi. Estou aqui. Rude, insensato, imponderado. E morro, como um cisne. Abençoado seja o povo brasileiro. Juro que hoje pensei várias vezes em pedir a nacionalidade à Embaixada do Brasil. Não porque os brasileiros sejam melhores que os portugueses. É infantil pensar que a nacionalidade seja uma coisa com valor por si mesmo. De todas as relações humanas, a que menos importância tem é aquela que se refere à família onde nascemos e entre esta e a nacionalidade vai um nada. Ninguém escolhe a família onde nasce nem o país. Mais importante é a família que escolhemos ter e que, entre palavras rudes e decepções, vai evoluindo ao sabor da dor e da luz. Um dia disseram a Jesus, olha a tua mãe e, ele, rude, disse: a minha mãe? a minha mãe são estes que me seguem. Choquei-me, na primeira vez em que li estas palavras. Hoje não. A minha família são aqueles que aceitei escolher, aqueles que me sabem ouvir, aqueles que me amam por aquilo que há de bom em mim e não por ter nascido aqui, ali ou na Conchichina, deste, daquele ou daqueloutro. E quem não me amar a mim mais do que à sua família (porque a família sou eu e todos os que, como eu, querem pertencer à grande família daqueles que conhecem o bem e o mal e preferem o primeiro), não é digno de mim.

 

Mas não estou à espera que certa gente... como é que é?... "Infestantes rastejantes" compreendam este texto. Aliás: nem este nem o outro. Já me arrependi de o ter escrito para, de seguida, o considerar, na minha opinião, um dos mais belos poemas que alguma vez escrevi - e um dos mais humanos, já agora. Agora, ainda vendo no texto um belo pedaço de literatura que não vou apagar (ainda que isso só tornasse o texto ainda mais mítico entre um círculo restrito de não leitores que nunca se interessou particularmente pelas merdas que aqui escrevo), só sinto pena por não escrever coisas tão bonitas para as pessoas que realmente merecem as minhas palavras. Saravá, minha gente. E que a poesia repouse no coração de quem ama o ser humano e vê nas fronteiras o que elas são: o persistente sinal de que somos bichos que marcam com merda e urina o seu território. Que fique com essa parte da nossa herança biológica quem quiser. Eu dispenso.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:08
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2 comentários:
De Maria Helena a 26 de Fevereiro de 2011 às 11:11
Profundamente humano, sim.
Associo à beleza o silêncio e o poema não me faz emudecer.
Este poema parece um quadro de Pollock ( e pronto...lá estou eu a contradizer-me )
De gláucia lemos a 26 de Fevereiro de 2011 às 14:10
Manuel: há um tempinho que não venho ler seu blogue, tenho tido tempo curto. Hoje um texto forte, muito forte, diz de coisas que a vida oferece, sem que as desejemos. Não devo escrever um longo comentário, nem saberia o que dizer com propriedade. Não posso, porém deixar passar o detalhe que se refere à Embaixada do Brasil, e dizer que sinto um comovido orgulho ao ler sua declaração, talvez um rompante... Acrescento que, o quanto você conquistou da nossa admiração, só um mar imenso e um sotaque diferente são o que faz de você diante dos que aqui lhe têm afecto , uma pessoa de outra nacionalidade Brasil se orgulharia de reconhecê-lo como filho desta terra. E, ainda como brasileira, e principalmente como baiana, não posso deixar de responder à saudação que, afinal, eu mesma lhe ensinei: Sarava Manuel! E que a bênção que mandou ao povo brasileiro retorne em dobro a este português tão brasileiro q tanto sabe fazer-se amar por nascidos no Brasil. Grande beijo.

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