Quinta-feira, 8 de Junho de 2006
Ono no Komachi - Olhos de ressaca?

Quadro: "À beira-mar" de Konstantin Bogaevsky

Amor
, nada sei
Sobre estas aldeias
onde moram pescadores.
Porque persistes, então,
Em expores-me à beira-mar?

(Versão de Manuel Anastácio de um poema de Ono no Komachi a partir de uma tradução de Helen Craig McCullough)

Muito do sentido poético que encontramos, por vezes, na poesia oriental deve-se à sua "má tradução". De um mau trabalho pode, portanto, resultar uma bela obra. O real autor de um texto será, pois, sempre o seu leitor. O autor da obra de arte é quem a consagra como tal.  Não concordo com as pessoas que consideram que não se deve traduzir poesia. Diria, antes, que a tradução é mais possível para a poesia que para a prosa, pouco importando a correcção literal. Nesta minha perspectiva, cada pessoa teria legitimidade para traduzir poemas da sua própria língua para a sua própria língua - seria apenas a transposição de um sentido íntimo para outro sentido íntimo - de uma fala para outra - de uma compreensão para outra. Com a maravilha de que o próximo leitor teria de retraduzir todos estes textos, prolongando o texto em caleidoscópio, deformando, ampliando, truncando, revertendo, invertendo, criando um texto tendendo para o infinito... O conteúdo literal deste  poema é especialmente intraduzível, já que faz referência a uma expressão idiomática japonesa em que a exposição do litoral significa estar zangado. Talvez por causa da ressaca? Caberiam nesta metáfora os olhos da Capitu, de Machado de Assis?

"Ler, para já, é uma actividade posterior à de escrever: mais resignada, mais cortês, mais intelectual."
Jorge Luís Borges, prólogo da 1.ª edição da "História Universal da Infâmia"


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publicado por Manuel Anastácio às 23:21
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4 comentários:
De Artur a 10 de Junho de 2006 às 15:27
de um mau trabalho resultar uma bela obra? Curioso este retrato do tradutor - como o maquilhador, que com cremes e pós cria beleza onde ela não existe, ou como o pintor-retratista, criatura conhecida pela sua capacidade em lisonjear a beleza inexistente nos seus modelos...
De Manuel Anastácio a 10 de Junho de 2006 às 23:34
Não é bem isso. Não se trata de tornar mais belo aquilo que não é belo de origem. Trata-se, sim, de criar uma nova beleza fortuitamente aparentada ao texto original (este terá sempre o estatuto de obra seminal e, provavelmente, na maior parte dos casos, é esteticamente superior, mas não necessariamente).
De sandra a 11 de Junho de 2006 às 14:33
como gosto mto de poesia prefiro q n seja traduzida, considero-a mais genuína. contudo, colocaste aqui um autor q desconhecia; gostei. das palavras em bom português. Bjs.
De Manuel Anastácio a 11 de Junho de 2006 às 15:07
Apenas consideras a original mais genuína por simples preconceito. A releitura de uma obra é sempre genuína. Pode não ser a que melhor te chega ao coração, mas será sempre genuína. Vejo que não entendeste a minha perspectiva de "tradução" (subversão). Além disso, creio que nunca chegarás a ler Ono no Komachi no original (aliás: duvido que os próprios japoneses o façam - com o tempo que já passou, já a língua não é a mesma)...

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