Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011
Em resposta a um poema de Fernando Pessoa

 

 

 

Sommarnöje, de Anders Zorn (1886)

 

 

Pedi a tua amizade quando, atrás das grades,
Reconheci os mesmos traços da minha solidão.
E não quis roubar-te o sossego que eu não tinha,
Antes, disse-te que te queria como amigo.
E não riste do meu pedido
Nem disseste que sim.
Foste apenas o gesto que faltava
À simples realização de ser pessoa.
Sem o interesse do desejo
Ou a desconfiança da necessidade.
Havia apenas entre tu e eu uma saudade desinteressada.
Havia um cheiro a nada
No tudo que nos unia, e era um nada como aquele nada
Em que Deus, alheio às causas, todos os dias nos recria.
Pedi a tua amizade
E deste-me apenas a tua presença
Sem qualquer sinal de possessão ou de pertença.
Já sabias então que ser amigo
É nem querer sê-lo.
E é tão difícil aprender a esquecer o que é suposto para o ser!
Suplico-te paciência,
E talvez encha o teu rosto de lembranças.
Dá-me tempo, para acertar no tempo certo, na medida certa,
O que nos uniu - foi esse tempo e o mesmo pedido
De remendar nossas distâncias.

publicado por Manuel Anastácio às 23:20
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3 comentários:
De gláucia lemos a 25 de Janeiro de 2011 às 03:13
´Manuel, este poema é tão emocionante, tão emocionante, que não sei comentá-lo com a frieza necessária. Por isso só posso lhe dizer que ele fere muito profundamente o coração de quem o lê. Tomara q isso leve o poeta a sentir o quanto ele chega perto dos que têm a graça de conhecer poemas como este. Deus o abençoe, Manuel, por ser quem é.
De Manuel Anastácio a 25 de Janeiro de 2011 às 07:23
Deus nos abençoe a todos, Gláucia... :)
De Maria Helena a 25 de Janeiro de 2011 às 09:02
Chuiffff.....chuifffffffffffffff.....snif, snif

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