Sábado, 27 de Novembro de 2010
Viagens ao fundo da escada - Travassos, Póvoa de Lanhoso (3): De como a morte me mostrou a filigrana com que tudo se desenha.

Há no trabalho de moldar o ouro a angústia de cada átomo que se perde só de tocar naquela matéria amarela com que se moldam os sonhos. Francisco de Carvalho e Sousa, de Travassos, sabe bem que varrer o chão não é a simples tarefa que a tradição do macho luso impõe às mulheres ou às carochinhas das histórias. Varrer o chão de uma oficina de ourivesaria é a repetição da dolorosa procura de migalhas imperceptíveis de sol com que as minúsculas pepitas iniciaram o seu percurso de objecto arrancado das trevas da Terra para as trevas da cobiça humana. Bela palavra: trevas. Li-a pela primeira vez numa Bíblia que fui lendo durante as Férias. Eu lia muito durante as Férias. Mas lia mais quando não estava de Férias porque, nas Férias, tinha de trabalhar. Entre a poeira que se intrometeu nas páginas, sacras ou não, que ia lendo, não havia pepitas de ouro. Só cimento, lascas de madeira e ferrugem de pregos das obras a que, tão bem apelidadas, se dá o nome de toscos. O trabalho de Francisco de Carvalho e Sousa nas Férias, pelo contrário, de tosco nada tinha. Por razões diferentes das minhas, ou talvez nem tanto, o Senhor que permitiu a abertura deste Museu foi espoliado, na infância, da Magia da palavra Férias, mas, ao contrário de mim, trocou uma Magia por outra. Enquanto eu procurava a Magia que me faltava nos baldes de argamassa nas páginas da Bíblia ou de algo tão diferente como "A Dama das Camélias" ou a "Guerra e Paz", sem contar com imensos volumes de Enid Blyton, Francisco, sem o saber, lia Tolkien e ouvia a Tetralogia do Poder à medida que esticava o fio de ouro com um impressionante tronco de tortura exposto na primeira sala, aberta para a luz, seguindo a mesma orientação espacial de todas as oficinas, novas ou antigas, de Travassos. Aqui desenvolveu a arte da filigrana de quatro fios. Como os quatro cantos do Mundo ou os quatro evangelistas. Número instável, ao contrário do três, daí as discordâncias no texto sagrado. Eram de prata e não de ouro as moedas que levaram Judas à morte. Por enforcamento, diz Mateus; de cabeça rachada e tripas à mostra, diz Lucas, noutro escrito pós-evangélico. Eram de prata, contudo,as moedas da traição. O ouro seria mal empregue para tão barata mercadoria. Não sei como se entrançam os quatro fios da concórdia solar de Francisco de Carvalho e Sousa. Mas o Museu, simpático, sem as ostentações que o seu nome poderá fazer imaginar a quem deseje a matéria quando, aqui, o que conta é o ofício, abre-se em janela para aquilo que um dia será um mundo sem crianças espoliadas da palavra férias. Porque o Museu, em vez de valorizar o ouro, valoriza o mestre, o artesão, o trabalhador, o artista, e quando estes são valorizados, as crianças passam a ter o direito a serem crianças. É sempre a vil cobiça dos donos do ouro que desvaloriza o trabalho humano, que, de parca valia, se socorre dos mais fracos braços e dos mais contrariados passos. Os pais de Francisco não o queriam por aí aos perdidos, pelos caminhos. Havia, talvez, uma intenção pedagógica que, diga-se de passagem, resultou em amor por tal trabalho. Com quatro fios se entraçaram corações nesta oficina e com quatro fios sempre haverá quem deseje entrançar mais. Ao valor da raridade do metal, nascia aqui o valor artístico coberto pela pátina escura da tradição. E, num mundo onde o valor das coisas decresce à medida que devia aumentar, perante o gasto absurdo e desregulado de recursos do planeta que caem directamente na fossa daqueles que compram sem, sequer usufruir para além do inefável prazer de apenas possuir, não temos outro caminho senão o de valorizar o estilo de um povo, de um lugar, tornando cada objecto transaccionável numa mensagem que precisa de ser decodificada, lida em profundidade, como que em busca de pepitas minúsculas de pureza no seio da sujidade. O maior problema ecológico advém da incapacidade do ser humano médio em usufrir das coisas para além de breves segundos. A abundância de bens consumíveis contrasta com a brevidade da vida e, por isso, corremos atrás de todos os livros, todos os filmes, todas as notícias, todos os jogos de computador, todas as canções, todas as piadas, todas as perversões, todos os crimes. Tudo. Queremos tudo quando nada nos é dado para sempre, a não ser que o sempre seja transmutado a partir de cada momento. Mas isso implicaria paciência, rotina, disciplina, coisas que, pouco humanas, poderá ser verdade, não conduzem a uma melhor humanidade, mas conduzem, com certeza, a uma humanidade mais perdurável e consciente. Mas ninguém quer coisas duráveis (a não ser ouro e diamantes) e, muito menos, consciência. A consciência dói. Já basta nascer para saber o que é doer. E, assim, sabendo-se que o narcótico da morte é inevitável, andamos a fingir que não e, na melhor das hipóteses, saboreamos sucedâneos prematuros. Na pior das hipóteses, convocamos a mais certa das companhias antes que venha de sua livre vontade. Seja como for, ao morrer arrependemo-nos sempre de qualquer coisa.

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publicado por Manuel Anastácio às 11:32
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2 comentários:
De gláucia lemos a 27 de Novembro de 2010 às 16:31
No seu artigo sempre caracterizado pela profundidade do autor, muito me emocionou a história de Francisco o menino q não teve férias, era preciso trabalhar null nas férias. Não sei por que me senti muito culpada, talvez alguma vez tenha pedido ou esperado alguma coisa de um menino como Francisco, q não poderia me atender porque estaria entrançando as filigranas do seu ofício para prazer de outrem. A sensação de culpa, null conscientizada, é acompanhada do desejo de penitência e pediria perdão se soubesse se Francisco ouviria, e lhe ofereceria um coração não de filigrana não o tenho, mas de muita sinceridade e pureza q são dons maiores q as mais valiosas pepitas possivelmente encontradas no varrer do chão da ourivesaria. (melhor esquecer a carochinha). Fiquei assustada com a sentença, mas acho q eu não tenho muito de q me arrepender à hora da morte, tenho cuidado com isso, com a consciência. Grande artigo, poeta, grandioso! Deus abençoe os meninos como Francisco sempre. Sempre.
De Maria Helena a 28 de Novembro de 2010 às 21:12
"Ao valor da raridade do metal, nascia aqui o valor artístico coberto pela pátina escura da tradição." É assim que se constrói património.
O museu de Travassos é espantoso e fazes muito bem em o divulgar, já que parece que só se deixa olhar pelos que sabem de pepitas.
Os teus posts são poeira cósmica transmutada em memórias.
E sim, o arrependimento é parte do futuro que a cada dia nos convoca o sorriso da mais certa das companhias.

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