Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
AAN

Há coisa de uns dias atrás, a Rádio Santiago telefonou-me, em hora de expediente, para dar a minha opinião sobre os salários da Fundação Cidade Guimarães. Não pude falar, por razões profissionais, já que, como a maioria dos aderentes do Bloco de Esquerda, não sou político de profissão, pese embora a ideia de que somos todos uns calões que passam o dia de barriga para o ar a fumar charros na esplanada do café mais chunga do bairro, a viver do rendimento social de exclusão. Referia-se a questão a um assunto escandaloso sobre o "salário" (que dá muito mais que para o sal etimológico da palavra) dos três/quatro chefões de uma fundação cuja qualidade de intervenção tem sido manifestamente insatisfatória e excessivamente bem paga, tendo em conta o amadorismo escolar do que tem feito: desde uma campanha publicitária em que, supostamente, denegria a imagem de outros turísticos lusos destinos, até uma risível largada de balões no centro histórico. Eu sei que não se pode pôr toda a gente no mesmo saco (olhem só para mim, o defensor da ciganagem expulsa pelo Sarkozy). E há gente na Fundação Cidade Guimarães com muito valor humano, cívico, cultural e moral. Por conhecimento próprio, e insuspeito, já que jamais tive o prazer de lhe apertar a mão, sei que António Amaro das Neves é um desses casos. E tem-no provado pela capacidade crítica com que tem defendido a causa de uma Capital Europeia da Cultura fiel a toda uma identidade que é, em grande parte, vimaranense mas, mais que isso, se confunde com o próprio ideal que moveu uma corrente de grandes homens de cultura, conhecimento e humanismo imovisceralmente universal, começando por Martins Sarmento, passando por Joaquim Santos Simões e, esperemos, não terminando em Amaro das Neves.

 

Quando a Rádio me ligou, já tinha debatido com camaradas, colegas e outras pessoas não incluíveis em qualquer substantivo colectivo adjectivo a questão destes salários. E os debates deixavam de o ser a partir do momento em que se tornavam num coro unânime de reprovação. Não falei para a rádio, como disse, por razões que não interessam agora. Mas se tivesse falado, sei que teria deixado uma palavra de apoio (que, inevitavelmente, não iria para o ar) para alguém que tem dirigido com integridade a toda a prova a maior e mais prestigiada instituição cultural de Guimarães depois do grato, mas simbolicamente insustentável, peso do seu predecessor. António Amaro das Neves tem-no feito sem qualquer proveito económico pessoal e tem sido, daquilo que a minha estreita amplitude visual consegue alcançar, o mais preocupado e lúcido representante das preocupações dos vimaranenses que, ciosos da sua identidade cultural, não se limitam a usar cachecóis pretos e brancos. Falo eu que, puristicamente falando, não sou vimaranense. Como Joaquim Santos Simões também não era, aliás.

 

Entretanto, ao deixar-me arrastar na superfície das opiniões, vejo como é frágil a imagem da mais perfeita das realidades. Uma montanha, perfeitamente reflectida nas mansas águas de um lago, rapidamente é transformada num quadro de Francis Bacon (o dos papas deformados) graças à insidiosa queda de uma folha sobre o espelho líquido da opinião pública. E há muita folha cair. O Outono não é só agora. O ruído de fundo de todo um Universo jamais nos permitirá apreciar devidamente o brilho de uma estrela só.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:32
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