Sábado, 6 de Novembro de 2010
Sobre "José e Pilar" de Miguel Gonçalves Mendes, que não vi

Numa semana em que não publiquei nada, a minha caixa de comentários tem tido algum movimento. A Gerana pergunta se já vi o filme "José e Pilar" de Miguel Gonçaves Mendes. Não vi. Só se passar no Cineclube de Guimarães. E se passar, vai demorar. Aliás, creio que o filme só tem passado em Festivais que, quer se queira quer não, são apenas para os habitantes dos grandes centros urbanos, seja do país seja fora dele: Lisboa, São Paulo.... E nem sequer há a possibilidade de fazer pirataria do filme, que ninguém faz pirataria de filmes portugueses. Quem é o louco que vai compartilhar na rede um documentário português sobre um escritor?...

 

Tenho ainda a comentar que, confesso, como já tinha dito por aqui, Saramago tinha deixado, para mim e há muito, de ser referência ética e literária. Hoje em dia, se me perguntassem se o Nobel que lhe foi atribuído foi justo, eu diria que sim, na altura em que foi atribuído. E que isso foi bom para Saramago. Mas foi mau para nós, leitores, que tiveram que se contentar, depois, com obras infinitamente menores que aquelas em que aprendi a soletrar a palavra humanidade, nas suas complexas contradições. Saramago era uma contradição ambulante. O melhor e o pior da humanidade acentuado numa escrita torrencial, excessiva e emocionalmente justificadora. Até ao Nobel. Depois do Nobel, foi enchendo uns chouriços aceitáveis, mas pouco mais que comestíveis. E, depois, tenho razões pessoais para, como já disse, tê-lo retirado do meu Paraíso e não deixá-lo entrar no meu Inferno. Por isso, confesso que, por despeito, se não chegar a ver o filme, não morrerei com isso na consciência. É que eu, como Saramago, sei guardar rancor a certas pessoas com quem não compartilharia a última côdea de pão (que ele tivesse para compartilhar comigo, e não o contrário, como disse ele, um dia, sobre Santana Lopes). Há no Universo de Saramago esta obsessão da unilateralidade. Pilar diz, no trailer, que, quando se casou, sabia que seria para sempre, pelo menos, pelo lado dela. Como a relação ateia de Saramago com Deus, que se resume de forma magistral nas palavras da Ministra Canavilha: “Não tinha fé em Deus, mas certamente Deus teve fé nele.” Eu não sou Deus. E tenho para com Saramago o ressentimento unilateral de quem não tem provas de que Saramago alguma vez tenha existido. Parece-me, unilateralmente, que é mais provável que exista Deus do que tenha existido Saramago.

 

Ainda que, sem dúvida, aquele: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio" quase dê vontade de restabelecer a amizade perdida. Unilateramente.

 

Talvez um dia, noutro sítio, se reate a amizade unilateral que me uniu às palavras daquele que foi, sem dúvida, a pessoa que mais me influenciou na escrita e na leitura. Talvez num filme que não vi. E não sei se verei alguma vez.

publicado por Manuel Anastácio às 14:35
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
4 comentários:
De gláucia lemos a 6 de Novembro de 2010 às 16:47
Oi. sumiu do facebook ? Tá de mal com os amigos?
De Manuel Anastácio a 7 de Novembro de 2010 às 00:39
Ui, Gláucia.... eu raramente uso o Facebook... é só mesmo de vez em quando. Nunca usei o Facebook com frequência. Por vezes vou lá, mas não sigo ninguém, até porque não tenho tempo. Tempo é coisa que me falta. Muito. Não abandono ninguém por não ir ao Facebook. Ou abandono?
De Gerana Damulakis a 10 de Novembro de 2010 às 00:16
Vc tem um ritmo na escrita muito parecido com o de JS. Haverá tempo para reatar.
De Silvério a 11 de Novembro de 2010 às 14:09
Há tempos e tempos. O tempo que falta ao Manuel diariamente , o tempo que podia não sobrar a Saramago para criar e viver quando com 76 anos ganhou o Nobel, o tempo de Pilar (para sempre) e o tempo de reatar como diz Gerana .

Dizer de sua justiça

.pesquisar