Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
XVI

- Está, com quem estou a falar?

- Com o ratinho de Massamá.

- Ora bem, ligou e ligou bem aqui para o largo-do-rato-rádio, sabe qual é a frase?...

- Se der uma ajuda...

- É "temos..."

- Temos que...

- Não! "Temos de..."

- Não é a mesma coisa?

- Se fosse coisa e não obrigação, desejo ou dever, seria que... mas é de, porque é um desejo...

- Compartilhado...

- Chiu... estamos no ar....

- Ah, pois, eu agora fazia que não concordava contigo.

- Pois. A frase é, então...

- "Temos de..."

- Acalmar...

- "Temos de acalmar..."

- Os...

- Espera, não digas mais, eu sei, eu sei: os mercados! Temos de acalmar os mercados!

- Isso! (música estridente de fundo) E o que é que quer ouvir?

- A Lady Gaga, em Bad Romance...

- Ora muito bem escolhido, ratito, ou será coelho?...

- Tu és rato...

 

publicado por Manuel Anastácio às 23:58
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4 comentários:
De Silvério a 28 de Outubro de 2010 às 14:08
Vivia-se melhor quando os únicos mercados conhecidos eram o mercado semanal, o quinzenal, o mensal e municipal.
De Gerana a 29 de Outubro de 2010 às 22:57
Legal!
De Manuel Anastácio a 30 de Outubro de 2010 às 02:06
Devia ser ilegal...
De Paulo Araújo a 5 de Novembro de 2010 às 13:50
Aqui vai uma nota linguística meio a despropósito.

Essa coisa do "ter que" ou "ter de" é um daqueles casos controversos da língua portuguesa. Por dar ouvidos a quem dita estas leis, também eu comecei a substituir o "tenho que" pelo "tenho de". Mas depois reparei em várias coisas:

1) a menos que esteja a controlar o modo como me exprimo, eu digo "tenho que" e não "tenho de";

2) não custa nada reunir inúmeras citações de autores consagrados (Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, etc.) onde aparece o "que" em vez do "de";

3) fiz a tradução para português de um livro de matemática e, por insistência da revisora, mudei todos os "que" em "de"; agora que a mesma tradução vai sair no Brasil, a revisora brasileira exige que eu faça a operação inversa.

Conclusão: essa regra, ao contrariar aquilo que é prática comum de muitos falantes de português (tanto em Portugal como, pelos vistos, no Brasil) e até de vários autores do cânone literário nacional, revela-se de um purismo exagerado. Decidi por isso que não iria torcer mais a língua - e, num caso como esse, passaria a escrever exactamente como falo.

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