Terça-feira, 26 de Outubro de 2010
Viagens ao fundo da escada - Travassos, Póvoa de Lanhoso (1)

Não há metal mais mal gasto nem menos gasto que o ouro. No Brasil, a expressão "lavar a égua" significa ter grande proveito em qualquer actividade que se empreenda. Na zona de Minas Gerais, conta Joaquim Magalhães de Castro num livrinho de viagens que ganhei de graça num passatempo promovido pela sua editora, os mineiros eram obrigados a rapar o cabelo e a sairem nus das minas de ouro, não fossem eles levar alguns gramas de pepitas de ouro nas pilosidades naturais ou artificiais anexas ao templo da sua alma. Acontece que as éguas, coitadinhas, não precisavam de ser rapadas, pelo que havia sempre a possibilidade de, entre a pilosidade da pileca, passarem algumas poeiras áureas. Aquele que ficasse incumbido de lavar a égua tinha, por consequência, a possibilidade de recolher a água que dela escorresse e, dessa água e parca lama, extrair as microscópicas migalhas de ouro, também chamadas de pepitas e que não são mais que pequenas escamas de caspa do nosso planeta, que já deve ter amaldiçoado a hora ou o século em que tal matéria nele surdiu a imitação da cor do sol. As pepitas do tamanho de nozes, que os livros do Patinhas, da Editora Morumbi, nos impingiam não existem na realidade. Para fazer a magrinha aliança que tenho na mão direita, muita poeira teve de ser dissolvida no venenoso mercúrio, prenúncio do venenoso caminho que o ouro seguirá, daí para a frente. Seja na talha dourada que nos conforta a fé ou o simples deleite visual, seja no colar da Imortalidade com que a minha querida amiga Gláucia Lemos foi recentemente e merecidamente honrada, há um todo caminho de dor, de cobiça e de inevitável desgraça. Da mesma forma, quando me extasio perante uma pedra ricamente lavrada ao modo flamejante da arquitectura gótica, ou perante a obra de arte, tosca, do granito escavado de uma igreja românica, sei que me extasio perante a dor de quem a lavrou com os dedos em sangue. Há nas coisas belas, sempre, um abismo de dor. Não me conformo com isso. Beleza haverá sempre nos gestos, nos sons e nas palavras com que gravaremos sempre a dor de existir. Pior é, e será, se nos conformarmos com a dor daqueles que dão à luz a beleza que os seus próprios olhos jamais conseguirão distinguir da narcótica beleza da bebedeira com que se disfarça a insuportável obrigação de manter a vida para o gáudio de outros. Sei que jamais poderei viajar fazendo disso a minha vida. Mas ao ler o livro do Joaquim Magalhães de Castro "No Mundo das Maravilhas", em que este se limita a cumprir um roteiro quase turístico (ainda que com alguns percalços de aventureiro pelo meio) pelas Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, senti-me tão desencantado como a Gerana, acérrima detractora deste género de não-literatura. É que, de facto, os livros de viagens não são literatura. São relatos para aqueles que não poderão fazer o mesmo, criando uma sensação que substitui a experiência de uma viagem de facto, ao permitir ao viajante de sofá a inserção de pormenores contextuais no seu imaginário. É um tipo de ersatz, tal como a verdadeira literatura, mas com uma função diversa. Ambas as formas de escrita são subjectivas, não é aí que reside a diferença. A literatura serve-nos a realidade condensada em algo que, ao visar o transcendente ou o sublime (inalcançáveis, a não ser a um nível íntimo e intransmissível) nos liga à vida ou a possíveis sentidos para a vida, seja por via do absurdo, da alegoria ou da apologia, seja na forma de poesia ou ficção, seja ao nível de um romance proustiano seja à superfície da turva qualidade de um romance de Danielle Steel, seja na clara e imediata mensagem de uma quadra de António Aleixo, seja nos enigmas órficos de Herberto Hélder. Isso é literatura, tal como as viagens de Alice no País das Maravilhas ou as viagens de Gulliver (maus exemplos, já que ambos tratam de viagens imaginárias). A Gerana chama-lhe estilo. Eu chamo-lhe conteúdo. A literatura de viajens não é literatura porque se limita a contar coisas e a tapar buracos naquilo que poderemos saber a partir das enciclopédias e livros de História e Geografia. Tapar buracos? Claro. É que se no Google e na estante podemos passar de Ouro Preto para a Bahia de Todos os Santos sem grandes percalços, na realidade temos os transportes ou a falta deles e as pessoas que se cruzam connosco pelo caminho. Muito do que melhor se lê na literatura de viagens reside nestas conversas com aqueles que nos preenchem os buracos vazios do percurso. Só aí reside um relance de literatura. Na parte que existe apenas por arrasto. Na parte do caminho. A literatura de viagens acaba, assim, por nos reconciliar com o caminho e desvalorizar as metas. Não sendo literatura é, paradoxalmente, capaz do mesmo efeito que a literatura que se lê. Que se escava. A literatura que nos permite viajar por nós mesmos em vez de lavarmos a égua daquele que viajou por nós, na esperança de ficarmos com um grão de poeira da cor do milho. Hoje pensei em começar uma viagem imaginária por caminhos que pisei e por caminhos que não pisei, juntando pessoas que conheci com pessoas que inventarei. E não me perguntem quem existe e quem não. A Natacha do Guerra e Paz sempre existiu, tal como a Blimunda, que Deus as tenha connosco. Estou frente ao Museu do  Ouro em Travassos, Póvoa de Lanhoso, Braga, Portugal. Pronto para lavar a égua a partir do Aleph, logo abaixo das escadas que dão para a cave. Tinha de começar pelo ouro. Aquele que nos torna invisíveis, poderosos, imortais, belos, soberbos, magnânimos, cultos, bondosos, sábios, perfeitos. Lendários. Como num conto infantil que a Gláucia poderá um dia escrever, como sugeriu no seu discurso de posse da cadeira número catorze da Academia de Letras da Bahia, seguindo as pegadas de Tolkien e de Wagner (não na Academia, claro, mas no caminho dourado e mágico do metal onde dorme em pesadelos de grandeza grande parte da desgraçada humanidade).

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publicado por Manuel Anastácio às 21:14
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3 comentários:
De Gerana Damulakis a 27 de Outubro de 2010 às 02:30
Exatamente como sinto, faço minhas as suas palavras:
"A literatura serve-nos a realidade condensada em algo que, ao visar o transcendente ou o sublime (inalcançáveis, a não ser a um nível íntimo e intransmissível) nos liga à vida ou a possíveis sentidos para a vida, seja por via do absurdo, da alegoria ou da apologia, seja na forma de poesia ou ficção, seja ao nível de um romance proustiano seja à superfície da turva qualidade de um romance de Danielle Steel, seja na clara e imediata mensagem de uma quadra de António Aleixo, seja nos enigmas órficos de Herberto Hélder."
Mas, continuo com o que chamo de estilo e diferencio estilo de conteúdo. Já li o mesmo conteúdo com estilos diferentes, então passa a ser outro o mesmo conteúdo. E por que? Porque não importa o que se conta, mas COMO se conta. E o COMO é estilo.
Manuel: vc, por exemplo, tem um estilo poético singular, rico, envolvente. Posso encontrar um poema que trate do mesmo assunto (conteúdo) e não será a mesma peça poética, dado o estilo de cada um. Nossa, o tema forma, fundo, fundo, forma, dá panos para mangas (conhece essa expressão?).
De gláucia lemos a 27 de Outubro de 2010 às 05:28
Passo ligeiramente pelo seu texto muito brilhante (dispenso o doce.rsrs) para opinar sobre um detalhe. A mim parece que a questão de ser literário ou não um livro de viagens, não pode ser colocada tão simplesmente. Não é o conteudo de narrativa de viagens reais ou ficcionais, ou a criação de romance ou de contos, o que atribui qualidade literária a uma obra. O resultado do trabalho do escritor com a palavra, a arte com que as sentenças são trabalhadas, o ritmo da narrativa, e coisas assim, são o que torna um texto literário ou nao. Não importa se o autor está narrando viagens, ou criando uma pequena história. Li recentemente Viagens a Portugal, de Saramago, e não tenho a menor dúvida para afirmar que se trata de u m livro de literatura. Uma narrativa agradabilíssima, elaborada com graça e com o engenho de quem é capaz de contar visitas a locais interessantes e pitorescos, descrevendo-os com clareza, e com sutileza que não permitem que tais descrições se tornem enfadonhas como pode acontecer com os tais textos de viagens q levam os críticos como minha amiga Gerana a discriminá-los como não-literários.E sobre mineiros de ouro ou de carvao ou de que lá sejam, sempre me causou horror a existência de seres humanos submetidos a tais condições de trabalho. Recentemente comentamos muito isso, por ocasião dos mineiros do Chile q ficaram prisioneiros por tantos dias embaixo da terra. Estou pensando no meu colar. Causa um pouco de horror pensar em como vem de tal sofrimento a matéria objeto de desejo de tantos. O prazer é ler a arte do autor do texto. Talvez eu ainda escreva a Lenda do colar, se eu me convencer de q poderá ser uma boa história.
De Maria Helena a 27 de Outubro de 2010 às 12:33
"Há nas coisas belas, sempre, um abismo de dor. (...). Beleza haverá sempre nos gestos, nos sons e nas palavras com que gravaremos sempre a dor de existir. Pior é, e será, se nos conformarmos com a dor daqueles que dão à luz a beleza que os seus próprios olhos jamais conseguirão distinguir da narcótica beleza da bebedeira com que se disfarça a insuportável obrigação de manter a vida para o gáudio de outros."
Brilhante.

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