Terça-feira, 19 de Outubro de 2010
Fábulas de Esopo: O Rato do Campo e o Rato da Cidade

Gravura de Václav Hollar (1607-1677), O Rato do Campo e o Rato da Cidade.

Está na hora de contar a história daquele rato que se viu a visitar outro da ninhada nato da sua tia da aldeia. Era humilde no trato, o primo da mesma veia, que só pôde oferecer algumas papas de aveia
que logrou enriquecer com pedaços de toucinho, mais o sal do bem-querer e alguns gestos de carinho.
Disse então o da cidade,
Estendendo o seu focinho
Cheio de urbana vaidade
Para o seu rústico primo:
"Vejo que a necessidade
Não permite qualquer mimo
Na hora de aqui jantar.
Mas enquanto a bucha ultimo -
Que bucha posso chamar
A tão pobrezinha ceia -
Posso-te adiantar
Que isto é coisa de aldeia.
A cidade é outra louça.
Assim que lá faças estreia,
Deixas por completo a bouça
E nem vais acreditar
Que esta sorte que balouça
Entre nada para jantar
E este pouco mais qu' isso
Um dia foi teu azar.
Saiu então do cortiço,
O aldeão esperançado
De abandonar tal enguiço.
E foi bem esfomeado
Que à metrópole chegou.
E foi, então, de bom grado,
Que o primo o presenteou,
Sem nada ter preparado,
Com um manjar que o espantou.
Levou-o a uma grande sala
Onde os restos eram pitéu:
Quase ficou sem fala
Com esta visão do céu.
E põe-se a comer à pala
E a fazer grande escarcéu
Em volta de sobremesas,
Entradas e aperitivos.
Tinham baixo as defesas,
Absortos nos atractivos
Doces restos sobre as mesas,
Quando, ante os agressivos
Sons que ouviram de outro lado,
Demoraram a fugir
Vendo o coiro ameaçado.
"O que é que estou a ouvir?"
Diz o rústico assustado.
"São só guardas a acudir
Ao que de nosso não era...
São cães, gatos ou o que é...
Mas são, decerto, uma fera.
O que interessa é dar ao pé
E não ficares à espera
Quando deles deres fé."
"É só isso, nada mais?
Estou muito mais descansado!
Eu cá, vou pr'ós abrunhais
Ou pra outro descampado.
Aqui não me apanhas mais.
Antes livre que amarrado."

(Versão de Manuel Anastácio)
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 20:47
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4 comentários:
De gláucia lemos a 20 de Outubro de 2010 às 19:56
Sem pretender doce. Ainda não conhecia esta fábula, gostei.
De GABRIEL a 24 de Junho de 2013 às 22:33
legal
De Gerana Damulakis a 21 de Outubro de 2010 às 02:23
Fazia tempo que vc não colocava suas versões das fábulas. Adoro.
De Silvério a 21 de Outubro de 2010 às 14:26
O rato de Vilar de Maçadas e o de Massamá estão a estender a toalha para discutirem a ementa à mesa do orçamento. Nesta fábula, o que me parece, é que cães, gatos ou aguarda não venham acudir e nenhum deles tem interesse em dar ao pé.

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